Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

8 de Janeiro de 2015, 08:52

Por

Wolinski, sexo e política em traços claros

wolinski 2Muito se dirá do que aconteceu ontem, do sono da razão que acorda estes monstros, das consequências geoestratégicas e das ameaças, sempre as ameaças. E também se escreverá sobre o valor imenso da liberdade de imprensa. Palavras certas.

Nada tenho a acrescentar a esses editoriais de indignação nem à emoção de ver tanta gente nas ruas e tantos jornais com a marca negra de “Je Suis Charlie”. Só quero lembrar uma das vítimas, porque foi o único que cruzei num tempo de viagens por Paris e sobre o qual posso falar por conhecimento pessoal: Georges Wolinski, veterano de 80 anos, nascido na Tunísia e ontem assassinado na sede do Charlie Hebdo com outros colegas, era uma lenda da cultura francesa.

O Maio de 68 apanhou-o já com a sua marca de água, e o que ele inventou então: o Hara Kiri, o Enragé, tantas vezes com Siné, outro grande traço, sempre em revistas da invenção do sexo e da política, choque e liberdade, linhas claras e rápidas. Um erotómano, dir-se-á com elegância. Um político revolucionário, era o que era, porque queria que homens e mulheres aprendessem sem perder tempo. Passou depois pela redacção do Humanité, sem ser membro do PCF, pelo Libération, wolinskisempre pelo Charlie Hebdo e até pelo mais vetusto Paris Match. Desse passado, o desenho anexo mostra o sarcasmo sobre as mudanças de gerações. Do seu presente, os livros mostravam sempre os seus heróis e as suas heroínas: “Paulette” fez vários álbuns e era incansável.

A liberdade é mesmo isto. Traços claros, sem medo da insinuação, explorando limites, descobrindo aberturas, procurando prazer, viver com os outros. Wolinski era um herói dos tempos que nos trouxeram do Maio de 68 até hoje. Que ninguém se arrependa de o ter lido, de se ter rido com ele, de ter sonhado com Paulette, de ter descoberto com Wolinski que o sexo não é um catálogo.

Comentários

  1. Já ninguém lê livros, muito menos B.D. Os tempos são de blogues, tubes e redes. Redes inundadas de fotografias de comidas, de pés e bebés, gatos e cães, de gente estúpida a tentar partir todos os ossos do corpo em exercícios de masoquismo planeados ao centímetro. Parafraseando José Mário Branco “saem à rua de cartazes na mão, sem saber porque saem à rua de cartazes na mão”, e assim se vai vivendo este quotidiano de muita informação, lágrimas e manifestações pouco espontâneas, porque ninguém teve tempo para ler o mundo e perceber que as revoluções não se fazem sem gritos, mortos e dor.

  2. Concordo com todo isso, A .liberdade é generosa, mas os homes e mulheres anteontêm morreram cobardemente assesinados, sem defesa, desarmados, as canetas não defenderam nem as suas liberdades, muito menos as suas vidas. Um sacrificio pela tolerancia, pela libre expressão? Não creio, o sacrificio deve ser de livre vontade e pelos proprios motivos, Escandaliza-me o cinismo, a hipocresía que emerge nestes dias, eu não creio na sinceridade de gente que escreve je suis charlie, não para defender a liberdade dos outros, mas apenas a sua antena e depois defende as balas sileciosas contra os portugueses, não ha dois pesos e dois medidas, os direitos humanos são muito mais que a liberdade, mas sem liberdade nem ha o primeiro deles que o direto a vida, que todas as ditaduras desprezam, incluindo as ideológicas, espirituais, religiosas, Mataram de certo modo uma infância, porque todos nos aprendemos a disenhar espontaneamente quando somos muito libres, com um ou dois anos, espontâneos e sinceros….A liberdade é mesmo isto. Traços claros, sem medo da insinuação, explorando limites, descobrindo aberturas, procurando prazer, viver com os outros

  3. algo que não foi muito falado:estamos a falar,tambem de banda desenhada,cartoons satiricos,e esta arte foi sempre relegada para um patamar inferior,em relação a outras artes(pintura,poesia,cinema,o que seja) .mas a banda desenhada que tem sido feito,um pouco por todo o mundo,esta cada vez mais inventiva,original,corajosa,honesta e ate consegue antecipar em varios anos,os tempos que correm(estou-me a lembrar de enki bilal).pelo que leiam BD e sejam felizes.p.s.-procurem alan moore ou robert crumb,que muito fizeram por este mundo

  4. noutro registo
    não esquecer os 7/8 (sete oito avos) de combustível , de pagamento postecipado
    é cá uma risada ; não há nada como ter o depósito sob a medida certa

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