Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

12 de Dezembro de 2014, 22:08

Por

Ataque especulativo ao rublo (Parte II)

Neste post regresso ao tema da desvalorização do rublo que continua hoje a sua tendência descendente quase vertical, caindo só hoje mais de 3% face ao dólar e ao euro.

Dolar-Rublo 2010-2014

Figura: Valor de um dólar em rublos, Dez.2009-Dez.2014 (Fonte: onvista.de)

 

Como se explica a desvalorização acelerada do rublo? “Os mercados” têm razão? Ou será que é um ataque especulativo sem fundamento?

Quando o Banco Central da Federação Russa (BCR) tomou as decisões de subir as taxas de juro (a de 25 de Julho e a de 31 de Outubro) e, sobretudo, a partir de 10 de Novembro quando abandonou a banda de flutuação da taxa de câmbio do rublo contra o dólar, é como se tivesse dado um sinal verde aos especuladores indiciando que a via, que antes era de duas direcções, se transformava numa via de direcção única.

As sucessivas medidas adoptadas pelo BCR falham, em consequência e repetidamente, porque mal desenhadas e mal dimensionadas.

Qualquer especulador nesse mercado, inclusive bancos russos e especuladores que antes apostavam na valorização do rublo, passaram a ter um incentivo para especular na desvalorização do rublo. E muitos especuladores, aparentemente, assim o fizeram. O dólar valorizou-se 67,6% face ao rublo desde o início de Julho de 2014 e 25% desde a data em que o BCR decidiu abandonar a banda de flutuação (10.Nov).

A evolução da taxa de câmbio do rublo é, em primeiro lugar, um sinal de prudência e de profundo receio dos mercados por parte do BCR. O “urso” russo, com todo o seu poderio financeiro, teve medo e revelou esse medo de lutar contra os especuladores. É surpreendente que um país com níveis tão elevados de reservas internacionais e excedente externo aja de forma tão temerosa como agiu. Nisso, tem alguma justificação porque, do outro lado do mercado, a apostar contra o rublo, estão grandes bancos internacionais, grandes bancos russos e grandes especuladores. Espero que, ao contrário do observado em 1914-1918, não estejam também “agências” de governos.

Mas, a queda abrupta da cotação do rublo, pode ser igualmente um sinal de inépcia e de desconhecimento profundo sobre o funcionamento dos mercados e do sistema bancário por parte dos mais altos responsáveis do BCR. Porque dispunham de instrumentos para evitar que a própria banca russa especulasse contra o rublo e porque não deveriam ter facilitado a vida aos especuladores com faux pas sucessivos.

Os responsáveis dos bancos centrais – e o BCR não aparenta ser excepção – tendem a viver em redomas de vidro, protegidos das agruras do dia-a-dia. A dimensão das suas Reservas tende a protegê-los desses ataques. Mas, esse distanciamento da realidade faz com que não estejam preparados para lidar com situações como a vivida nos últimos meses do BES, ou perante um ataque especulativo como o que a Rússia está a enfrentar. Keynes saberia como reagir, arrisco-me a dizer.

O Ocidente, não obstante o actual conflito diplomático com a Rússia, não deveria encarar o actual ataque especulativo com ligeireza porque este aparenta representar um salto quântico em relação a ataques especulativos anteriores pela sua dimensão. Em casos anteriores (Inglaterra, Brasil, Argentina, ou no caso das dívidas soberanas da zona euro) parecia existir fundamento real óbvio para a desvalorização da respectiva moeda ou do preço da dívida pública (e.g., desequilíbrios externos, falta de reservas, elevada dívida pública).

No caso da Rússia, é certo que: o preço das principais exportações está em queda; a Rússia acumula anos de taxas de inflação mais elevadas do que os EUA e a zona euro; as exportações de petróleo representam uma percentagem significativa das receitas do Orçamento da Federação Russa. Mas, não obstante, a Rússia continua a registar excedentes da balança corrente, possui reservas internacionais muito elevadas, dívida pública e défice orçamental muito baixos.

O principal fundamento para o ataque especulativo ao rublo parece ser o facto da Rússia – que dispunha e dispõe de muitas reservas internacionais – estaria disposta a usá-las para defender o rublo. Ora, o montante dos ganhos potenciais para os especuladores depende da quantidade de dinheiro que o outro lado (sobretudo o BCR) está disposto a gastar na defesa do rublo e da sua variação. Paradoxalmente, os ganhos dos especuladores aumentam se o BCR gastar mais dinheiro na defesa de uma determinada cotação do rublo, porque quando a defesa dessa taxa de câmbio é abandonada o volume das perdas para o BCR aumenta (e o volume dos ganhos dos especuladores aumenta também).

Os objectivos de especuladores e banco central são diferentes e isso condiciona os resultados. O BCR não procura especular. Procura apenas impedir quedas abruptas do valor do rublo. Os especuladores por seu lado sabem que é essa a estratégia do BCR e, portanto, acreditam que o seu potencial de perdas é limitado e o potencial para ganhos ilimitado. Por isso, apostam contra o rublo de forma crescente.

É surpreendente que alguém com cerca de 500 mil milhões de dólares de recursos financeiros para gastar não consiga impor a sua vontade no mercado cambial dólar-rublo. Significa que os especuladores financeiros, agindo de forma descentralizada (ou, provavelmente, parcialmente coordenada) conseguem mobilizar um montante de capital superior ao do BCR, que lhes permitirá quebrar a vontade do BCR, ou seja, quebrar qualquer paridade que este venha a procurar impor.

A Rússia e os seus parceiros do Ocidente e de outras regiões do mundo, deveriam pensar em estratégias alternativas para responder a este desafio. Que poderia eventualmente passar por combater a especulação com especulação, procurando quebrar o mercado ( como Keynes fez no passado). Ou ainda por linhas de crédito entre bancos centrais. Porque, se nada for feito, parece claro, após este fenomenal ataque especulativo, que o futuro passará por controlos crescentes aos movimentos de capitais.

Comentários

  1. Poderia sim o governo russo também specular e talvez ganhar muito com isto, quando a moeda voltar aos seus valores anteriores ou próximo disto.

  2. Putin vai piar é mais fininho
    Ou então esperar que tenham de fechar posições O que pode ainda demorar uns anos
    a libra tambem caiu 20% em 2009 e hoje anda nos 15% face ao pré crise. isto é tipo a queda na cotação que sócrates/passos coelho teriam gostado (a bem da nação) https://www.google.com/finance?q=GBPEUR
    e inflação nem vê-la

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