Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

6 de Dezembro de 2014, 00:58

Por

O incidente das pesetas espanholas

 

Havia uma necessidade urgente de pesetas espanholas. Com dificuldade arranjou-se uma pequena soma. Keynes deu conhecimento disso ao Secretário do Tesouro e este, aliviado, disse que pelo menos agora tinham pesetas para algum tempo. Keynes disse: “Ou não!” – “O quê?” disse o seu chefe, horrorizado. “Eu vendi todas as pesetas novamente: Vou quebrar o mercado”, respondeu Keynes. E dito e feito.” [1]

Sir Otto Niemeyer e Sir Richard Hopkins, Obituário de Keynes, Proceedings da Academia Britânica (Pigou, 1946).

 

Um artigo científico recente que emprestou o título a este post analisa uma história (ou mito) muito interessante sobre a vida de Keynes enquanto especulador e funcionário público. Durante a Primeira Guerra Mundial (1915-1920), John Maynard Keynes prestou serviço no Tesouro Britânico (o equivalente ao nosso Ministério das Finanças).

Durante esse período a libra britânica desvalorizou-se face à peseta espanhola. A Grã-Bretanha registava um défice comercial com a Espanha e o Governo da Grã-Bretanha tinha dificuldade em obter pesetas para financiar importações.

Peseta-Libra

Fonte: (Zagorsky, 2014)

O Secretário do Tesouro Britânico solicitou a Keynes que procurasse adquirir uma pequena quantia de pesetas, objectivo esse que era considerado muito difícil.

Keynes assim o fez, mas quando o Secretário do Tesouro Britânico o questiona sobre onde estão as pesetas, Keynes responde que já as tinha gasto todas. Tinha-as utilizado para “quebrar o mercado” da peseta-libra. Quebrar o mercado significa, neste caso, que um grande investidor (especulador) tinha comprado as libras vendendo as pesetas em grandes quantidades, num curto espaço de tempo, para alterar o sentido (inverter a tendência) da evolução do câmbio peseta-libra. Os outros investidores (especuladores) que apostavam na valorização da peseta face à libra sofrem perdas e fecham as suas posições especulativas, contribuindo para inverter a tendência inicial. E ainda outros investidores (especuladores) detectam que há um grande investidor a vender pesetas e a comprar libras e fazem o mesmo, reforçando o movimento na nova tendência.

Zagorski argumenta que a data mais provável em que essa intervenção tutelada por Keynes possa ter ocorrido foi em Abril de 1918.

Ou seja, a ser verdadeira esta história, Keynes especulou com dinheiros públicos e manipulou o mercado cambial. Nos dias de hoje, tal feito daria, no mínimo, demissão.

Em cada mercado existem alguns investidores (sobretudo bancos) que detêm um elevado interesse financeiro num activo e, em certas ocasiões, procuram alterar (“manipular”) os preços desses activos no sentido que lhes convém. E existe um grande incentivo para que os gestores desses grandes investidores (“traders”) – com ou sem o conhecimento dos bancos para os quais trabalham – concertem as suas acções para influenciar, em conjunto, os preços desses activos.[2]

Recorro a este exemplo porque é provável que o tipo de intervenção então feita pelo Tesouro Britânico, possa ocorrer na actualidade, mas também pelo seu contraste com a inoperância do Banco Central da Federação Russa face à actual desvalorização do rublo.

 

 

 

[1] Do inglês:

There was urgent need for Spanish pesetas. With difficulty a smallish sum was raked up. Keynes duly reported this, and a relieved Secretary of the Treasury remarked that at any rate for a short time we had a supply of pesetas. “Oh no!” said Keynes. “What!” said his horrified chief. “I’ve sold them all again: I’m going to break the market.” And he did”,

[2] Não são meras teorias da conspiração. Existem processos documentados, conduzidos por agências regulatórias, de que resultaram elevadas multas para bancos internacionais, de concertação ou colusão, nomeadamente, através de chats, em vários mercados financeiros (Libor, Forex, Ouro, etc).

Comentários

  1. appois
    como se essa fosse a unica malfeitoria que “keynes” tenha feito ; poupem-se e vão mas é aprender o socialismo
    na china agora estão com um programa especial

  2. O que os russos precisavam éra que o banco central do euro lhe emprestasse às quantidades liquidity para fixarem a tx. de cambio que mais desejam . nao emprestando, os soros da sibéria , mais os jp morgan do alaska (que tao todos lá) porque a russia participa do mercado de capitais global , conseguem transacionar mais que o banco central e o preço é deles e não do putin ; depois o banco central não quer comprar rublos para nada, porque fazê-los é para infinito , mas dólares, euros e ienes têm q exportar muito oil , o que envolve “esforço” ; ao contrário da moeda que é papel …
    O mesmo aconntecce para o Brasil , que nao tem “fogem” de capitais mas tem mta transação da finança intenacional sobre eles. é por isso que tão a ir no sentido da recessão e a subir a tx. de juro , quando no mundo ocidental (Uk, EUA.. euro) se fazz ao contrário ; a tx. juro real no brasil-interior é 5 ou 6% e para a finança dw wall street cota nominal a 10 , 11% . se eu “pudesse” .. bulia com a Dilma .. como se faz com os berlindes ; é uma cena angular

    1. caso para dizer que o brasil tá sequestrado pelo mercado cambial ; é o padrão wallstreet

  3. claro,
    isto foi assim
    mas depois quando Soros decidiu quebrar o mercado da libra , isso já foi uma calamidade ; nunc a mais se ouviu falar de “keynesianismo” ; entrávamos na era dos “especuladores”
    mas espera lá ..

  4. Ora,
    aqui está uma questão
    aposto que esse mercado fx não funcionava 24h em continuação e com todo o tipo de digitalizadores , até era mais importante o preço da peseta em Londres.. que o preço da peseta.. em Madrid
    keynes era portanto um privilegiado.. que devia estar mto atento a esses movimento era.. Salazar.. esse tambem era expert no mercado cambial

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Tópicos

Pesquisa

Arquivo