Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

11 de Novembro de 2014, 15:00

Por

A heresia do bem comum: o exemplo da PT

Sempre fui convictamente defensor da economia de mercado. Mas nunca alinhei no seu endeusamento acrítico. Por várias razões, das quais destaco duas: 1) qualquer bem, privado ou público, tem subjacente ou nele é reconhecida como característica intrínseca uma função social que ultrapassa os legítimos interesses dos seus detentores; 2) o mercado deve ser estar sujeito à tutela e escrutínio do princípio do bem comum, sendo que este é a razão de ser da autoridade política.

Cito, neste contexto, os últimos dois Papas que, ao que julgo saber, não fazem parte de qualquer dessas “brigadas” bafientas com que, agora, os mais acérrimos prosélitos do mercado puro e duro apelidam os que ousam contrariar este fundamentalismo mercantil.

Na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, o Papa Francisco contesta os que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especulação financeira e que, por isso, negam o direito de controlo dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Diz ainda que se instaura uma nova tirania invisível, às vezes virtual, que impõe, de forma unilateral e implacável, as suas leis e as suas regras. Neste sistema […] qualquer realidade que seja frágil, […] fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.

Por sua vez, Bento XVI na Encíclica Caritas in Veritate refere que o mercado, em estado puro, não existe; e alerta que deste modo é possível conseguir transformar instrumentos de per si bons em instrumentos danosos e que é preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo, cedendo à tentação de procurar apenas o lucro a breve prazo sem cuidar igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu serviço concreto à economia real.

O famigerado caso da PT – na anterior versão pública ou na actual versão privada – vem evidenciando a subalternização ou mesmo hostilização de alguns dos pontos atrás focados, seja por excesso ou defeito, incompetência ou prepotência, conúbio ou rentismo, “mão invisível” ou “dedos visíveis”, miopia social ou astigmatismo estratégico.

Mesmo assim, há quem prefira ou defenda que se deve ser apenas espectador de um jogo viciado. No camarote, na bancada ou no “peão”. O mercado pode condicionar a política democrática. Esta é que jamais pode beliscar ou intrometer-se na pureza do mercado. Seja o dos anéis ou o dos próprios dedos. Em versão soberana ou suserana…

Comentários

  1. Economia de mercado ou comunismo são utopias que por definição nunca resultaram ou resultarão, pelo simples facto de serem incompatíveis com a natureza humana. Parece-me que estamos a assistir a uma época em que modelos económicos rivalizam com religião. Vivemos numa guerra santa em que temos de aceitar ideias de outros contra o interesse colectivo de Portugal em nome de uma moral que é aos olhos de todos é uma farsa que apenas beneficia o “clero” económico cada vez mais dominante. Apesar da sua constatação, é urgente fazer algo mais. O poder económico instalado está a perder discernimento e, como um cancro, está acrescer sem noção do meio em que vive tornando-se num parasita que acabará por deixar marcas no hospedeiro que somos nós sociedade, comunidades, famílias, amizades.

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