Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

9 de Novembro de 2014, 12:42

Por

A segunda língua do metro de Londres

metro londonQual é o melhor mapa de uma cidade? É que nos mostra por onde se vai e, mais ainda, o que é o território que pisamos. O mapa deve mostrar portanto as pessoas e não só o edificado.

Foi esse o princípio que seguiu Olliver O’Brien, investigador do departamento de geografia do University College London, a mais antiga das universidades de Londres. O’Brien cruzou os dados do Censo de 2011 com a sua investigação sobre o espaço organizado pelo transporte pelo metro de Londres, e apresentou os seus resultados num mapa iterativo.

O mapa mostra-nos a prevalência das segundas línguas, depois do inglês, em cada uma das saídas do metro. De notar que a língua falada não tem uma correspondência única nem com etnia nem com nacionalidade (o português é falado por portugueses, brasileiros e alguns africanos, etc.). Mas este mapa demonstra tanto a diversidade como a agregação espacial das comunidades em Londres.

Demonstra ainda mais, porque inclui dados sobre a profissão: mostra como a cidade se diferencia socialmente. Em algumas regiões e linhas predominam os artistas, noutras as trabalhadoras da limpeza, noutras o pessoal de empresas financeiras. E mostra ainda como estes movimentos se alteram consoante os dias e as horas, a semana de trabalho e o fim de semana. Esta cidade respira e move-se.

É isto uma grande cidade dos dias de hoje: um arquipélago de grupos sociais e um cruzamento intenso de línguas e culturas. Todos os problemas modernos da vida urbana – que é onde está a maioria da humanidade – decorrem desta riqueza e diversidade, destas identidades e desidentidades.

Comentários

  1. Em “Bifes Mal Passados”, João Magueijo, a viver há mais de 20 anos em Inglaterra, diz coisas como: “a Inglaterra é uma sociedade de classes de uma rigidez e brutalidade sem paralelo(…) É uma das sociedades mais tensas e podres da Europa” ; “havia ali uma estratificação social sem par no resto do mundo” (pp. 42, 43). Mesmo os ingleses “de gema” não se entendem entre si, visto as variações linguísticas estarem “moduladas pela classe social” (idem). O mapa a que Louçã se refere mostra bem o que Londres é (aliás, como Paris, Nova Iorque, mesmo Lisboa) – um espaço geográfico espelho da divisão em classes sociais, onde só os mais pobres se movimentam, em ida e volta para e dos locais onde servem os patrões. A Suíça, com o seu povo muito educadinho, é, igualmente, de uma hipocrisia sem par. Numa das zonas de maior concentração de emigrantes portugueses, nos arredores de Lausanne, a cadeia de supermercados “Migros” abriu, um dia, um curso de formação para os clientes portugueses, com o objectivo de lhes ensinar a comportarem-se dentro dos estabelecimentos. Durante os 5 anos anteriores em que lá fiz compras, nunca vi nenhum comportamento reprovável dos clientes portugueses. Nas escolas suíças, os miúdos filhos de emigrantes, aos 11-12 anos (fim do 6º ano) são encaminhados para cursos que dificilmente dão acesso a estudos superiores. Isto é, há muitas maneiras de fazer a segregação social, de que o turista não se apercebe.

  2. Riqueza? Regresso à Idade Média, isso sim! Antes do aparecimento do Estado Moderno no Renascimento – talvez precisamente para lidar com estas situações – é que as cidades eram formadas por bairros “dos italianos”, “dos judeus”, etc. Todas as antigas cidades portuguesas a Sul do Mondego tinham “judiarias”, havia zonas reservadas a etnias – “Rua do Poço dos Negros” – e em nuitos textos são referidas as várias “nações”, ou seja, as comunidades que viviam juntas em ghettos. E o mesmo se passava por essa Europa fora. Só a partir do séc. XVIII-XIX, é que surge o “multiculturalismo”: as elites aprendem francês, e as populações das várias etnias são escolarizadas em português, graças aos missionários. Hoje, assistimos de novo à decomposição da sociedade. Nada disto tem a ver com raças. Cabo-verdianos ou angolanos que falam a nossa língua mantém a sua cultura mas partilham da nossa. Porém, os chineses vivem à parte, os paquistaneses também (embora não todos). Mas temos cá imensa gente que não fala português – até portugueses…! Tudo isto só pode gerar tensões e problemas (os Jhiadistas, por ex.). A sociedade não deve ser uniforme, mas deve tender para a inclusão e o nivelamento, não para a desagregação nem a formação de ghettos!

  3. nunca mais abate o centro
    é o que que é ,, o centro nunca mais abate no país à beira mar plantado

    a legionella e a angola são os unicos a atacar ,

  4. Parecido com a Genève da Suíça, “arquipélago de grupos sociais”, diria guetos étnicos, a comparar Londres com uma ilha seria a Tortuga da pirataria actual, barril de pólvora sempre em risco de explodir quando os escravos se revoltarem…
    Aqui nos supermercados as caixeiras tiveram há uns anos no uniforme uma etiqueta a dizer “eu falo português” etc. passado pouco tempo desapareceu e foi proibido no hospital do Estado de Genève de se falar português (entre empregados), como fazem agora no Luxemburgo às crianças nos infantários.

    Associarem nos mapas das cidades os bairros a uma determinada língua é rapidamente ligado onde proliferem percevejos etc.

    Melhores cumprimentos de Genève.

    1. As crianças portuguesas são PROIBIDAS de falar português nos infantários no Luxemburgo? Isso é facto? Essa proibição foi decretada?

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