Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

20 de Outubro de 2014, 12:16

Por

A loja do chinês atrai os ricos para o nosso bairro?

loja chinesDiz Raquel Varela, historiadora, dos seus amores e desamores por Lisboa:

Pensar Lisboa -O que menos gosta em Lisboa?

Raquel Varela – Da invasão de turistas, hostels, fast food, mercearias asiáticas, lojas de chineses, do iva e da lei das rendas. Não é racismo, qualquer dia Lisboa tem tudo menos Lisboetas, que são expulsos para os subúrbios.”

Explica ela depois aos amigos que estranharam as mercearias asiáticas e as lojas dos chineses misturadas com o fast food:

“Queridos amigos, não creio que seja relevante policiarmos as palavras uns dos outros a propósito de uma entrevista que dei onde disse que não gosto das mercearias asiáticas em Lisboa, não gosto mesmo, podiam ser asiáticas, do magrebe, brasileiras, há um racismo social gravissimo que está a expulsar os lisboetas de Lisboa, gentrificar a cidade.”

A teoria é inovadora e merece estudo atento, pois alerta para um perigo tremendo, o “racismo social gravíssimo que está a expulsar os lisboetas de Lisboa”. Evidentemente, identificar o problema, isso é que “não é racismo, qualquer dia Lisboa tem tudo menos Lisboetas, que são expulsos para os subúrbios”. É que as “mercearias asiáticas e lojas dos chineses” farão “gentrificar a cidade”, segundo a teoria da historiadora. Ai de nós, elas expulsam os lisboetas (pobres) para os subúrbios.

Gentrificar é afastar os pobres dos bairros de uma determinada área, por via do aumento dos preços dos consumos e da habitação ou de outro meio de pressão social, e substitui-los pelos mais afortunados. A pergunta é então pertinente: as lojas dos chineses e as mercearias asiáticas (“podiam ser asiáticas, do magrebe, brasileiras”), estão mesmo a fazer expulsar os pobres e atrair os afortunados, a trocar os muitos e remediados pelos poucos e ricos, impondo este “racismo social gravissimo que está a expulsar os lisboetas de Lisboa”?

Ou seja, se assim for, os ricos são uma surpresa, e que surpresa agradável: são mais abertos à diversidade cultural do que as nossas preconceituosas suspeitas jamais poderiam conceber. Mas deve ser mesmo assim: é voz corrente que a Quinta da Marinha e a Quinta do Lago estão cheias de lojas de chineses e mercearias asiáticas (ou brasileiras, ou magrebinas), tudo gentrificado como não podia deixar de ser. Não há fortunas tão cosmopolitas como as portuguesas e ainda bem que há uma intelectual atenta para nos ensinar os suaves factos da vida.

Claro que há também quem goste do seu bairro, que tem todas as cores. Mas isso é outra gente.

Comentários

  1. Os comentários do Dr. Louçã às afirmações de RV não são nada irrelevantes. Sublinho, nada. O processo de gentrificação deve ser discutido, é certo. Mas nada se diz sobre ele nas afirmações de RV em análise, até porque as mesmas, tanto quanto a historiadora dá a entender, partem de um desconhecimento dos processos sociais que o conceito de gentrificação tenta descrever/compreender (se o fenómeno ocorre ou não em Lisboa, isso é outra discussão, e terá, decerto, pouco a dever à instalação de pequenos comerciantes de proveniência asiática na cidade). Mas, mais ainda, uma referência às afirmações de RV deverá aludir para o perigo das mesmas, dado o explícito sentimento racista que nelas se lê… “qualquer dia, lisboa tem tudo menos lisboetas…”, não é racismo? Então é o quê? “Territorialismo étnico-cultural”? Pior ainda, é a sua reafirmação numa justificação que repete o preconceito racista, reiterando a ideia de que constituem as atividades empresariais de imigrantes fatores explicativos para a “expulsão” de lisboetas (ou população portuguesa mais desfavorecida) do centro para os subúrbios da cidade… Afirmações como estas são, no mínimo, irreflectidas e política e ideologicamente irresponsáveis.

  2. Sr. Dr. Francisco Louçã, a multiculturalidade é apreciável quando contida. Veja-se a rua dos Correeiros com os seus restaurantes de árabes ou indianos ou paquistaneses quem nem falam português que foram substituindo o cenário com as suas lojas de bugigangas turísticas como o galo de barcelos que prevê o tempo, quiosqes, restaurantes de comida italiana e portuguesa, a mercearia ao fundo que era um vifraceiro etc. É que assim não dura nenhum português, e se se sugerir algum protecionismo , esse será certamente apelidado de racista. Veja-se a Lua de Mel que agora é uma loja de chineses. Note-se a perda da tipicidade alfacinha.
    E ocorre-me perguntar, como é que em tempos houve uma loja chinesa em pleno Chiado onde os preços do arrendamento são altíssimos? Aí está. Aparentemente as lojas dos chineses (e outros ) são pagos pelo governo chinês como forma de escoar a produção. O que sucede é que assim , numa rua onde apareça um estabelecimento chinês , existirá sempre concorrência desleal. O caso de uma loja de roupa portuguesa onde ao lado surge um bazar chinês é um bom exemplo. O português paga impostos e renda e funcionários e vende produtos que podem não ser feitos pelo recurso a mão de obra explorada. O chinês não paga renda nem impostos, vende produtos quase/ou mesmo em dumping, e os funcionários podem até estar a trabalhar em regime “familiar”. O que acontece? Ao fim de algum tempo a loja portuguesa fecha. E adivinhe quem vai para lá? Mais um chinês amigo ou familiar do dono do estabelecimento chinês original. Conclusão para este exemlo: há agora ruas onde autênticamente deixa de haver concorrência portuguesa. Zonas inclusivamente históricas que para o futuro serão bastiões comerciais do sistema chinês. É isto que descaracteriza algumas zonas em Portugal. São exemplos destes que mostram que o politicamente correcto disfarçado de multiculturamismo impera em prejuízo dos portugueses.
    Comércio tradicional na Baixa Lisboeta? Muito pouco e a prazo… O que se vê são Zaras, Mangos, Starbucks, Tuk tuk´s, quisques e lojas de tralha pelos àrabes/paquistaneses/indianos com o seu português deficiente e cortesia comercial que muito deixa a desejar às vezes.
    Cumprimentos.

  3. passou.se a historiadora
    sucessivas é gentrificações na cabeça da propria
    só mostra como este pais até a produzir intelectualite se tornou um vão de escada

  4. Na minha opinião, trocar bairros de habitação por zonas de comércio (nomeadamente estas “mercearias” a qua a Raquel Varela se referia) para servir as hordes de turistas, estrangeiros ou nacionais, não deixa de ser um processo de gentrificação. As pessoas mais pobres são efectivamente expulsas, mesmo que para serem substituídas por outro tipo de pobreza – já que, por exemplo, muitos dos trabalhadores destas ditas mercearias vivem, muitas vezes, nas próprias lojas. E também nisso a autora em questão teve a oportunidade de esclarecer melhor a sua opinião, que por sinal faz mais para denunciar as condições em que muitos dos emigrantes das ditas lojas vivem, do que algumas pessoas que acham que o assunto em causa é a multiculturalidade de Lisboa.

    Não me interprete mal, eu também acho que é vital para Lisboa ter a presença de todas as culturas. E a Raquel Varela também, como já disse. O que não é aceitável é a descaracterização da cidade sem critério, que era a denuncia em causa.

    Aqui fica o que lhe faltou ler:
    http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2014/10/08/negocios-lisboetas-asiaticos-e-portugueses/

    http://raquelcardeiravarela.wordpress.com/2014/10/11/raca-empreendedora/

    1. > eu também acho que é vital para Lisboa ter a presença de todas as culturas

      Porquê?

      “É vital”, mesmo a sério?

      Morre alguém se nos faltar coleccionar os selos todos?

    2. Mariana, agradeço o cuidado, a sua resposta é argumentada, mas ainda assim não me convence. As lojas do chinês para turistas? Onde é que viu isso? E esses turistas ficam, compram as casas dos pobres e expulsam-nos para a periferia… Este romance não corresponde à realidade, pois não?

    3. Francisco, o meu argumento não é o de sugerir que as “mercearias asiáticas” são um problema em si mesmo, ou que são as causadores dos males da cidade de Lisboa! O próprio texto que retirou da entrevista da Raquel Varela, para a citar, fala de inúmeros problemas que, em conjunto com a questão de haver demasiados pontos de comércio estrangeiro com benesses fiscais incompreensíveis e com produtos em dumping, ameaçam descaracterizar e gentrificar a cidade.

      Será mesmo romance pensar que zonas como a Mouraria, o Martim Moniz, ou as que circundam o Mercado da Ribeira estão a sofrer algumas alterações que pouco abonam para quem sempre lá esteve e morou?

      Talvez… É uma questão de vermos de quem será a cidade daqui a uns anos, continuando com as actuais políticas urbanísticas.

    4. Vamo-nos a entender. Pode levar isto para uma discussão sobre políticas urbanistas ou o que for. Muito interessante. Mas o meu comentário era somente a uma entrevista em que alguém com responsabilidades dizia que não gostava do Iva nem das lojas chinesas. Ponto final. A que depois acrescentou que essas lojas, mais as brasileiras e magrebinas, contribuiam para a gentrificação de Lisboa e a expulsão dos lisboetas para fora da cidade (o que a Mariana repete: como é que foi cair nisso?). É isto e não é mais do que isto. Ou isto está certo ou está errado. Ou é uma perspectiva inteligente ou é simplesmente preconceito. Não estamos a discutir contratos laborais, ou benesses fiscais das lojas dos chineses (onde inventou isso? no Correio da Manhã?). Pode-se lançar depois na discussão um arranha-céus de argumentos sobre a terra e a lua mas não muda nada. Um disparate é um disparate, mesmo quando as políticas urbanistas são outro disparate.
      Mais ainda: há duas formas de tratar um disparate. Uma é corrigi-lo. Outra é defendê-lo com mais disparates (ou passando para outro tema). Vai ver que só o primeiro caminho serve para alguma coisa.

  5. Gostava de deixar ao Dr. Louça, um curto video de Eric Kaufman sobre o “Gentrifiquismo”, e pedir o seu comentário acerca do dados aqui referidos.

    Desde já grato pelas sabias palavras

    Abraço

    1. O video é sobre “white flight” e não sobre gentrificação. Kaufman argumenta e apresenta um debate interessante, mas não vejo muitos pontos de contacto com o que se está a passar em Lisboa.

  6. De facto a historiadora em questão, apesar de lhe reconhecer alguns méritos demonstrou, com aquela afirmação, que não é suficientemente estruturada em termos ideológicos. Para quem se diz de esquerda, claro. Ser coerente com os princípios e tê-los sempre presentes também exige reflexão (permanente) sobre as bases do pensamento político.
    Ou então, todos temos as nossas idiossincrasias ou assumimos a pós-modernidade.

  7. Dr.louçã,expulsar está na “moda”.Os bancos “expulsam” as pessoas das suas próprias casas, este governo “expulsa” os portugueses do seu proprio país , as “grandes empresas” expulsam os empregados ( é comum dizer nas empresas:”se não gostas,há mais cem à espera”) e o actual governo tem a intenção de “expulsar” mais 12.000 do estado.quem cá fica? os “generais angolanos”, os “salgados” , e os “observadores” de extrema direita.e metade de um povo “estupidificado” pelas TVs comercias.pois,isto já parece uma crónica do pulido valente…

    1. Pois parece, mas os “indígenas” não se podem deixar levar pela política da expulsão, certo, João Lopes?

  8. Já percebemos que não gosta de Raquel Varela… Ideologias!
    No actual caos sócio-económico em que nos encontramos, este tema é irrelevante.
    Esperamos mais de si Francisco. Textos valiosos como os seus dois anteriores.
    Guarde estes comentários sobre comentários para o esquerda.net.
    Sincero abraço

    1. Não é um tema irrelevante. Ainda hoje Barroso e Cameron se travam de razões sobre a imigração, e quando o tema aparece tratado entre nós e com superficialidade por alguém com peso intelectual, então o assunto deve ser tomado como um aviso. Gostar ou não da “loja do chinês” é uma forma de apresentar um conceito de cidade que merece discussão.

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