Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

13 de Outubro de 2014, 09:10

Por

Pobres demais para interessarem ao mercado?

eboaQuatro mil mortos, sobretudo na Guiné, Serra Leoa e Libéria. Poderão ser muitos mais no próximo mês. Dezenas de milhares de mortos, centenas de milhares de infectados? O presidente do Banco Mundial grita que “o mundo falhou miseravelmente”. A Organização Mundial de Saúde admite que “podíamos ter respondido mais depressa” e alerta que só conseguiu até agora um quarto dos fundos que lhe foram prometidos. O Ébola é uma doença de destruição massiva, uma epidemia.

Anuncia-se que uma vacina poderá estar disponível até dezembro e começará agora a ser testada, com a OMS a acelerar todos os passos para a experimentação clínica e eventual autorização do medicamento – mas não pode haver certeza do desfecho. Duas grandes instituições, um dos maiores laboratórios do mundo, o GSK (GlaxoSmithKline) e o Instituto Nacional de Saúde dos EUA, prometem começar já os testes. Mas não há ainda convicção científica suficiente, simplesmente porque se começou tarde demais.

Adrian Hill, o professor da Universidade de Oxford que é responsável pelo plano de investigação e tratamento na Grã-Bretanha e que dirige os primeiros testes clínicos, está por isso desesperado. Ontem, decidiu dizer o que todos sabem:

“O problema com isto é que, mesmo que houvesse uma forma de fazer a vacina, a não ser que haja um grande mercado, para uma mega-empresa não vale a pena… Não havia um negócio a fazer com uma vacina contra o Ébola, para as pessoas que mais precisavam dela: em primeiro lugar dada a natureza da epidemia, em segundo lugar porque se pensava, até agora, que o número de pessoas infectadas seria muito pequeno e, em terceiro lugar, porque essas pessoas vivem em alguns dos países mais pobres do mundo e não têm como pagar a nova vacina. Isto é um falhanço de mercado.”

O mercado falhou porque não havia mercado. Os africanos são pobres demais. Os pobres não existem, o mercado ignora essa gente. O ébola tem anos bastantes mas mereceu sempre o mesmo desinteresse: o vírus foi identificado em 1976 pela primeira vez, vai para 40 anos. O desenvolvimento de uma vacina pode demorar dez anos, neste tipo de casos. Há trinta anos que podíamos ter a vacina, mas o assunto não dizia respeito às grandes empresas farmacêuticas, as irmãs que dominam o mundo (GSK, Sanofi, Merck, Pfizer). Acordam agora, que o vírus começa a chegar à Europa e aos Estados Unidos e a pressão da opinião pública se faz sentir.

“O mundo falhou miseravelmente”, diz o presidente do Banco Mundial. O mundo, ou o mercado que não cuida de quem pode morrer somente por ser pobre e não merecer atenção?

Comentários

  1. Há doenças bem mais graves, que afectam muitas mais pessoas que o ébola. Porque as farmacêuticas não deveriam ter prioridade sobre essas doenças?

    Para além disso, esquece-se também que há um custo de regulação (cada medicamento tem que ser testado de acordo com as regulações que pode demorar até 10 anos: aumenta o custo para o consumidor final, ergue barreiras a competidores que não têm possibilidade financeira de esperar tanto tempo) (Patentes, um monopólio dado pelo estado, que impossibilita a criação de competição), para além de todos os restantes custos burocráticos, impostos, etc que só aumentam o custo de criação de um fármaco. Com todas estas barreiras é de admirar que ainda haja quem cria fármacos.

    1. Aqui está uma visão “anarca” muito complacente com a indústria farmacêutica. O facto é que a OMS está a promover a aceleração vertiginosa dos prazos, e faz bem neste caso. E é a OMS que está a acusar a indústria.

  2. O falhanço não é do mercado (as empresas, por definição, procuram o lucro), nem político (os políticos, por definição, procuram os votos), mas sim humano. O drama de outros humanos a milhares de quilómetros de distância, se nos ocupa um minuto, no minuto seguinte já foi esquecido, por causa de um cão abatido ou por uma polemicazinha do Bruno de Carvalho ou do Cristiano Ronaldo.
    O problema é ser possível haver tantos milhões de pessoas a viver miseravelmente no Mundo, enquanto outros têm riquezas fabulosas.
    E não é só na África. Ainda hoje, no DN, a actriz americana Viola Davis revela que roubou comida durante a infância.
    Os humanos às vezes são um bocado desumanos…

  3. A existência de interesse económico numa cura não é o determinante para a respectiva existência.
    Nos EUA, desde 1977 até 2007, morreram por ano em média 6309 pessoas com pneumonia causada pela gripe comum. O número mais baixo de mortes num ano foi 961; o mais alto 14.715.
    No mesmo período, nos EUA, morreram por ano em média 23.607 pessoas com problemas respiratórios causados pela gripe comum. (fonte CDC – centers for disease control and prevention).
    Não obstante já existir vacina para inúmeras estirpes da gripe, é sabido que, anualmente, no mundo inteiro, não apenas nos países mais pobres, morrem dezenas de milhar de pessoas com complicações de saúde desencadeadas pela gripe. Dezenas de milhão são internadas com complicações causadas pela gripe e muitos mais milhões, não sendo internadas, ficam com incapacidade temporária para o trabalho solicitando cuidados e despesas aos serviços de saúde. Ninguém consegue estimar com um mínimo de exactidão os prejuízos para a economia global causados pela gripe, mas é certo que são estratosféricos. Não obstante o evidente o interesse económico na descoberta de uma imunização total, ela ainda não existe.
    Identifico um falhanço. Respeita à exiguidade dos meios financeiros recolhidos para o combate à doença, mas esse falhanço é da responsabilidade dos políticos que faltaram à promessa de doação que haviam feito. Curiosamente, numa mera reunião, 50 países conseguiram reunir 5 000 milhões de dólares para a justa reconstrução de Gaza. À frente dos doadores está o Qatar. Pergunto-me quantos profissionais de saúde do Qatar ou da arábia saudita estarão em África a combater o Ébola? Quanto já terão doado para o combate ao Ébola?
    Se fosse uma qualquer questão com implicações ideológicas já haveria corrido rios de dinheiro, quer de um lado da barricada ideológica quer do outro, quer num sentido, quer no sentido oposto. O falhanço , a haver, não é do mercado, é político. Não se faz mais para evitar as mortes africanas pelas mesmas razões que não se fez nada para evitar as mores no Ruanda: desinteresse político na sorte daqueles miseráveis. São pobres demais para interessar à política.
    Acontece que a maleita ameaça alastrar e, finalmente, o “mundo” acorda, não por dever ético de consciência mas por egoísmo.
    Se a maleita se disseminar, em proporções idênticas à da gripe, fará as suas vítimas sem distinção de raça, sexo, credo religioso, orientação sexual ou condição económica. Talvez o ébola venha a ser para os africanos o que o que foi o Colt 45 para os americanos: the equalizer (o nivelador); pois diziam que havia tornado os homens todos iguais. Talvez então se concretize alguma justiça aos olhos dos miseráveis.

  4. Totalmente de acordo: com o texto e com o título, que espelha a triste realidade a que se assiste. São as multinacionais a “regularem” o mundo, segundo os seus próprios interesses (a alimentação é outra área).
    Embora não directamente ligada ao assunto, é interessante ler a notícia no Público de hoje (já tinha saído há pouco tempo na Time ou na Fortune), sobre Elizabeth Holmes, que revolucionou a forma de realizar as análises clínicas: fugindo da alçada das gigantescas empresas, esta área pode contribuir muito para as condições de vida de muitas pessoas.

  5. Não foi o mercado que falhou, porque ainda não há tratamento. Seria tão absurdo acreditar que se houvesse interesse económico, a indústria desenvolveria mais depressa um medicamento, como pensar que o combate à SIDA teria sido mais rápido se não tivesse começado por infectar apenas homossexuais. Porque a) muito rapidamente o VIH infectou outros tipos de pessoas, e b) o Mundo (civilizado) está a tremer com receio de uma epidemia. Só em Portugal (que apenas muito marginalmente faz parte do “mundo civilizado”) é que se mandam pessoas supostamente infectadas para as Urgências de Transporte Público (que ecológico…), ou se pensa que – tal como se pensou com os homossexuais e a SIDA – é uma doença dos africanos, coitadinhos. Medidas de protecção? Controle de passageiros? a) basta mandar um Cartaz para os Hospitais e Centros de Saúde e b) isso era Fascismo…

    Como é que você pode ser de uma sagacidade e capacidade analítica extraordinárias numas coisas e tão sectário noutras?

    1. A comparação com a SIDA é sua e não minha. O facto é este: há 40 anos que se conhece o Ébola e se sabe que é tão contagiosos, mas só agora há esforços para criar uma vacina. Depois deste post ter sido escrito, já Adrian Hill, uma das maiores autoridades mundiais na matéria, tinha dito o que disse, a directora-geral da OMS veio dizer exactamente o mesmo, apontando a responsabilidade da indústria farmacêutica neste caso. Não estou sozinho e não vejo nenhum sectarismo nisto, somente algum bom senso. A saúde pública pode ser melhor protegida.

  6. Então o que sugere? Que as empresas europeias e americanas (norte) começem a produzir bens e serviços sem olhar ao lucro? Não querendo defender o “diabo”, não se esqueça que as empresas, ao contrário dos estados (especialmente os de esquerda socialista como o nosso), não podem extorquir o dinheiro que bem entende sobre a forma de impostos. Se não têm lucro, vão à falência deixando todos os trabalhadores no desemprego, credores e acionistas sem o dinheiro. E África é um continente com imensa riqueza: se não têm capacidade para se organizar numa economia de mercado criando empresas (nomeadamente farmacêuticas) que possam responder aos seus problemas, porque é que a Pfizer, Novartis e Sanofi têm de o fazer? Para os oligarcas em África continuarem a desviar essa riqueza para as suas contas bancárias? Não percebo o que você pretende. E nem percebo como é que deixar de ter organizações que se baseiam no lucro (já temos os estados para dar prejuízo), vai ajudar quem quer que seja. Se assim fosse, a Coreia do Norte, Cuba, Vietname, Laos, seriam autênticos paraísos.

    1. Haverá sempre lucro. Mas ignorar uma prioridade de saúde pública porque o lucro é pequeno é um erro que pagaremos caro. Mais uma vez, veja o que hoje mesmo disse a directora geral da OMS, corroborando a afirmação de Adrian Hill, que é um dos melhores especialistas mundiais em epidemiologia. E, com muita franqueza, não me parece que os pobres de Africa devam ser deixados à sua sorte pelo facto de haver oligarcas que pilham as riquezas dos seus países. Quer o Pedro Oliveira queira quer não queira, isto não é um assunto africano, é mundial e chegará a todo o planeta. É por isso tempo de sensatez e não de desculpas.

  7. Vamos apressar uma vacina rápido porque isto já está perto demais dos E.U.A e da Europa, sendo que até nos convêm que a África fique despovoada, assim podemos começar a colonizar todas aquelas riquezas.
    É só mais uma para se juntar ao fraco investimento que se faz numa cura para a Malária.

  8. Será que também não se trata de uma questão política? Le Penn não afirmou, há uns meses, que a Europa não precisava de se preocupar com a vaga de emigrantes de África, que o Ébola resolveria a situação?

    1. Essas afirmações de Le Pen ou, mais recentemente, de um republicano dos EUA, são simples excrecências da xenofobia. O que é evidente é que, se as vítimas forem os mais pobres e os mais distantes, a indústria tem pouco interesse pelas soluções. Agora começa, e já é tão tarde.

  9. Exactamente. Se não lucram, não há interesse das companhias em investir. Acredtimo que agora iremos ao extremo oposto: influenciar a opinião pública que toda a gente deve tomar uma vacina (preferencialmente em 3 doses separadas) porque o ébola é uma ameaça à sociedade moderna. Só que infelizmente para as farmacêuticas, na realidade não há qualquer motivo para pânico. A probabilidade de ser infectado pelo ébola é bem menor do que por exemplo pelo HIV. Tomadas as devidas precauções, o contágio é praticamente impossível. Vamos ver como a propaganda irá decorrer, resultou bastante bem para a gripe.

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