Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Ricardo Cabral

1 de Outubro de 2014, 06:00

Por

Quanto vale a TAP?

O Governo de Portugal pretende, de novo, tentar privatizar a TAP, tendo solicitado aos seus assessores financeiros (Barclays Capital, Banco Espírito Santo de Investimento, Citi Bank e Crédit Suisse) nova avaliação da empresa. O Secretário de Estado dos Transportes afirmou que o valor da empresa subiu em relação ao valor pelo qual o Governo chegou a considerar vender a TAP, no final de 2012 (20 milhões de euros), mas essa nova avaliação não foi divulgada publicamente.

Mas qual é o valor da TAP?

Depende da perspectiva.

Cada um dos assessores financeiros do Governo chegará à sua estimativa do valor accionista da empresa. O Governo terá assim vários valores indicativos do valor da TAP para os potenciais compradores que, por sua vez, terão as suas próprias estimativas e farão as suas ofertas. Já vimos que essas estimativas podem variar muito (i.e., estarão “exactamente erradas”).

Mas a perspectiva do Governo não deveria ser a de um mero accionista!

Isto porque o Governo deve assumir a perspectiva do País, no seu todo. Assim sendo, deveria sobretudo ter em conta o valor macroeconómico da TAP para o País.

De facto, o Grupo TAP é o maior exportador nacional, com “vendas externas” de 2374 milhões de euros em 2013 (89% das vendas totais do Grupo TAP). Estimo[1] que as exportações líquidas da TAP (i.e., exportações menos importações) tenham sido de cerca de 1100 milhões de euros em 2013. Ou seja, a TAP deve fazer entrar no país, em termos líquidos, por ano, cerca de 1100 milhões de euros de divisas.

O valor presente dessa entrada anual de divisas, considerando uma taxa de desconto de 4%, é de 27,5 mil milhões de euros[2] – 2,7 vezes o valor das reservas de ouro de Portugal no final de 2013 e, por conseguinte, um valor muito superior ao valor accionista dessa empresa.

Esse é o valor directo da TAP para o País. Mas, além disso, a TAP transporta passageiros para a indústria turística nacional. Se a TAP não existisse, os preços dos transportes aéreos de e para Portugal seriam mais caros e com isso as exportações de serviços de turismo seriam reduzidas. Da mesma forma seriam afectadas as exportações de empresas portuguesas para os destinos para onde a TAP voa (e.g., Angola). Ou seja, as exportações líquidas directas e indirectas da TAP serão superiores ao valor acima referido e, portanto, o valor da TAP para o País é superior à estimativa, surpreendente, acima referida.

Ora se o país tivesse uma balança comercial excedentária, mais divisa menos divisa não faria diferença. Mas o país tem uma balança comercial historicamente deficitária e uma elevada dívida externa. Em consequência, essas divisas que a TAP gera são preciosas para o funcionamento da economia nacional. São essas e outras divisas que permitem que alguns dos maiores grupos empresariais privados nacionais (e.g., Sonae, Jerónimo Martins, etc), cujo modelo de negócio se baseia, numa parte significativa, em importações, possam ter sucesso no mercado nacional.

É caso, portanto, para dizer que o País precisa mais da TAP do que a TAP precisa do País.

 

 

 

 

[1] O autor contactou sem sucesso a direcção da TAP para procurar obter dados detalhados. Por conseguinte, as estimativas aqui apresentadas foram preparadas apenas com base nos dados disponíveis no Relatório e Contas de 2013 da TAP.

[2] Evidentemente, não há garantias de que a TAP seja capaz de manter este nível de exportações no futuro. Mas também é possível que a empresa seja capaz de aumentar as exportações, como fez ao longo da última década. A estimativa do valor presente da TAP é menor se se assumir um mais reduzido número de anos com esse nível de exportações. Por exemplo, se se assumir que a TAP venha a ser capaz de gerar exportações líquidas de 1100 milhões de euro por ano durante 15 anos, o valor presente dessas exportações líquidas seria de cerca de 13 mil milhões de euros.

Comentários

  1. O comentarista “Opiniões”
    de 3 Outubro, 2014 às 22:04
    Diz que …”Infelizmente é muito mais confortável sustentar que está mesma empresa de que nos fala acima é um sorvedouro do dinheiro dos contribuintes …”, e eu digo-lhe com “conhecimento de causa” , por ter vivido nesta Empresa este facto, digo-lhe que em 1996, foi o Último ano em que o Estado Português autorizado pela “CEE”, como aliás outros estados Europeus às suas companhias Aéreas, dizia autorizado o Governo Português a Injectar 180 milhões de Contos (ainda Contos), para equilibrar as Finanças da TAP, e a partir daí tem vivido de Empréstimos Bancários de “Sindicatos Bancários Internacionais e um ou outro Nacional” que lhe dão o suporte para renovação das Frotas e de Material que seja necessário, ESTA É QUE É A VERDADE.LOL.Luciano Duarte

  2. Caro Ricardo

    Um artigo de uma clareza absolutamente espantosa.
    A TAP é daqueles temas em que todo o português tem uma opinião e faz questão de a emitir.
    Infelizmente é muito mais confortável sustentar que está mesma empresa de que nos fala acima é um sorvedouro do dinheiro dos contribuintes, do que perceber que a realidade de uma empresa desta dimensão está intimamente ligada ao tecido macro e micro-económico do nosso país. Aliás um pouco à semelhança da qualidade da oposição política a que assistimos diariamente, qualquer que seja o interveniente e independentemente da sua ideologia política.
    A TAP é provavelmente o caso mais irónico do nosso país, e que à largos anos foge de um destino que parece traçado. Senão vejamos somente a título de exemplo:
    Ao mesmo tempo que é traçada a linha da sua alienação:
    – é afirmada a necessidade de aumento de exportações como forma de equilibrar a balança comercial;
    – é ignorada a dependência do sector do turismo não só a nível nacional, mas também relativamente ao turismo dito de negócios que nas duas maiores cidades nacionais de afigura cada vez mais importante.
    – são esquecidas todas as pequenas e micro empresas que negoceiam no sector dos serviços que beneficiam do fluxo de clientes que só uma transportadora de bandeira tem vocação para gerar.
    – e é completamente ignorada a contribuição desta empresa ao sistema de segurança social numa altura em que tanto se debate sobre a falência do mesmo.

    Todavia, e em tempos extremamente adversos, temos assistido ano após ano a aumentos de passageiros e carga transportados pela TAP. O que é o mesmo que dizer mais maior volume de vendas, ou seja mais exportação.

    Com isto se vê com relativa facilidade que as ligações entre a transportadora aérea nacional são muitas e complexas. E, na verdade, a mim comum cidadão só me cumpre encontrar resposta para pergunta:
    Será que é do interesse nacional, e consequentemente meu enquanto cidadão, alienar algo que tão fortemente e com tanta abrangência contribuí para débil economia nacional?
    Talvez um dia tenhamos essa resposta. Mas, provavelmente será após a decisão ser tomada.

  3. A esquerda e a extrema direita num fraternal abraço reacionário. O mesmo se passou com a EDP… Ou CTT…

    Quanto custa manter a TAP? Nunca um comprador – não faço distinção entre português ou estrangeiro – se atreveria a retirar a sede social de Lisboa, porque isso determina o direito às rotas de e para Lisboa.

    Pelo que não só se manteriam as exportações como e demais impostos, como uma grossa maquia de IRS seria assegurada a troco de uns mais que incertos lucros à mercê de uma administração ineficiente e empregados mimados.

    1. Sr. Fernandes, não será antes que a extrema-direita está apoiando este governo PSD+CDS? Pelo menos nas redes sociais é o que se vê, vc nunca vê um neo-nazi ou salazarista atacar o PSD. é sempre o PS e outros à esquerda.
      Mas vamos ao que importa: TAP.
      As suas garantias (e desse governo) de manter o que quer que seja em Lisboa a pós uma eventual privatização, são tão credíveis como o foram para a Cimpor (imediatamente desmembrada), a Somague (fechada) ou a PT (em vias de ser liquidada como empresa portuguesa). Poderia lhe dar mais 10 ou 20 exemplos, mas chega.

  4. É muito importante que todos os portugueses saibam o valor (e não só o valor financeiro) da TAP. Na realidade a TAP é muito mais que uma empresa é muito mais que uma companhia de aviação. Tendo em conta o seu tamanho face ao tamanho do país e tendo em conta que, se directamente, gere os valores referidos, indirectamente gera tanto ou mais, é incompreensível que se tente desbaratar um activo tão importante é tão saudável, mesmo que agora interesse a alguns dizer que está a morrer. Para servir que interesses é que se tenta privatizar a TAP!

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