Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

António Bagão Félix

28 de Setembro de 2014, 09:00

Por

Outono

OutonoChegou, no calendário, o que se convencionou chamar Outono, ainda que a meteorologia o tenha antecipado!

O Outono é a minha estação preferida. Os tempos mais pausados, a luz solar mais serena, o ciciar das suaves aragens, o calor e o frio sem extremos e irmanados em abraço suave, a sinfonia inigualável das cores da natureza, tudo se equilibrando num equinócio que nos indica a igualidade do dia e da noite.

É também a estação dos choupos, ulmeiros, carvalhos, lódãos, bétulas, tílias e plátanos, lenta e dignamente convertidos ao essencial da sua prodigiosa natureza por ocasião do seu descanso anual. Como escreveu Albert Camus, “Outono é outra Primavera, cada folha uma flor”.

Outono: Se fosse cor, exprimia essa mistura harmoniosa e infinita de amarelo, laranja, ocre, carmim e vermelho, que tem o grau superlativo na ruska das florestas escandinavas Se fosse cheiro, uma mistura de terra molhada, de folhas secas e de açucenas Bella Donna emergindo da terra após as primeiras chuvas. Se fosse um só fruto, seria a romã no ágape das suas pequenas sementes. Se fosse música, era, claro está,  o clássico Vivaldi, mas também o contemporâneo Arvo Pärt. Se fosse arte, absolutamente impressionista. Se fosse um número, religiosamente sete. Se fosse um verbo, serenamente adormecer. Se fosse um sentimento, juntava quietude com discernimento. Se, enfim, se trajasse de um adjectivo, seria manso.

Não me canso de reler este soberbo poema de Miguel Torga (Diário X):

Outono
Tarde pintada
Por não sei que pintor.
Nunca vi tanta cor
Tão colorida!
Se é de morte ou de vida,
Não é comigo.
Eu, simplesmente, digo
que há tanta fantasia
Neste dia,
Que o mundo me parece
Vestido por ciganas adivinhas,
E que gosto de o ver, e me apetece
Ter folhas, como as vinhas.

Certo que o Outono já não é o que era. Fica-nos a memória dos seus contornos infantis com a selecção minuciosa do que ainda não se perdeu. Sobretudo na Natureza. Que futuro lhe estará destinado na era do aquecimento global e da diluição acelerada da expressão da diferença?

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