Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

17 de Setembro de 2014, 08:11

Por

E tivemos mais um século de praxes

Eu sei. Tivemos que esperar por este início de Setembro para voltarmos à saga das praxes e recomeçou a festa. Fará quase um ano das mortes do Meco e voltarão às ruas os cortejos de gente com penico na cabeça e mansas pinturas de guerra na cara, berrando ao compasso de duques e rastejando pelo chão, porque é assim que se chega às universidades. Bastou esperar mais uns meses e temos de volta a boa tradição, e tradição, como o carnaval, ninguém leva a mal.

Um ano dobra outro ano, a tradição é o que sempre foi e será sempre melhor.

Há cem anos, conta Ricardo Marques no seu livro sobre 1914 (“1914, Portugal na Grande Guerra”, ed. Oficina do Livro, 2014), a Universidade de Coimbra estava a discutir acabar com as praxes. De vez. Completamente. Acabar mesmo.

Cem anos depois, elas estão cada vez mais assanhadas. Já Nuno Crato imita as praxes, humilhando os professores contratados em exames com perguntas de algibeira e orelhas de burro. E os duques riem-se. E as massas de estudantes voltam à rua, atados por cordas e a cantarolar marchas pimbas ou estrofes militares. E os duques festejam.

Comentários

    1. Parece que no Meco estava um grupo de praxistas uniformizados e em estágio. Ou não foi assim? Se tiver outras informações, o ministério público deve gostar de saber.

    2. Não sei se foi como diz que parece ter sido, pois não estava lá. Mas do que li do despacho de arquivamento, o MP terá concluído que as mortes não foram causadas por praxe. Talvez o Sr. Louçã esteja em melhores condições para informar sobre algo que não conste do processo, daí a minha pergunta sobre qual o sentido que queria atribuir à relação que estabeleceu. Apenas para que conste, eu nunca praxei, nunca me deixei praxar, e entendo que é uma prática detestável a diversos níveis, mas cada um sujeita-se ao que bem lhe aprouver.

    3. Estavam seis pessoas vestidas de preto. Avisaram os amigos que iam para um fim de semana da praxe. O chefe tinha na mão uma colher de pau. Devia ser para mexer a sopa. Por favor não nos tomem por parvos. O que o MP concluiu foi que a morte não decorreu de uma acção premeditada e que terá sido um acidente.

    4. Caro Sr. Louçã:
      Nas cerimónias de benção das fitas também é utilizado o Traje Académico. Quer daqui concluir que são Praxes? Nas procissões religiosas que se fazem por esse país fora, também é tradição utilizar o Traje Académico. Vai daqui deduzir que são Praxes?
      Eu também não fui praxado, mas sobre o caso do Meco tenho visto as maiores barbaridades ditas em todo o lado. E devo dizer que não acho que isse ajude em nada os familiares das vítimas.
      Para sua informação: A colher de pau não foi até à praia. Caso contrária teria sido avistada pelo dono do restaurante que foi a última testemunha a ver os 7 estudantes com vida. Mas isto da colher, é só um pequeno pormenor onde o Sr, está enganado, porque ela não estava na praia. Obviamente, a colher não indica por si só Praxe nem a ausência da mesma indica ausência de Praxe. É apenas curioso que o Sr. faça essa associação errada. Mas a lógica não parece ser a sua disciplina favorita no que me é dado ver.
      Em resumo: No Meco estava um grupo de praxistas. Isso é absolutamente certo. Que eles lá estavam com o intuito de planear novas praxes, também foi assumido desde o início pelos colegas. Agora em que é que isso determinou ou não os actos que levaram às suas mortes, essa parte, só uma pessoa pode responder. E visto que essa pessoa já escolheu a sua versão, certa ou errada, ele tem o seu direito à sua versão da história. E quem quer que queira insinuar que ele mente, terá de o provar, como é de bom tom num estado de direito que penso ainda é o nosso.
      O resto, há muita coisa que as pessoas falam, esquecendo-se que falam de outras pessoas. Esquecendo-se que também violam os direitos dessas outras pessoas. E infelizmente permite-se que se fale muita coisa sem substância, a bem das audiências.

  1. Este artigo e os comentários já publicados, que li com muito interesse, deixaram-me com vontade de partilhar um pouco da minha experiência pessoal, dirigida sobretudo a quem “era contra, mas depois até gostei”…

    Eu fui anti-praxe, fui praxado, adorei a praxe, praxei (muito moderadamente, era mais um observador tímido) e voltei a ser anti-praxe. Para mim, ter gostado da praxe, foi justamente o aspecto mais tenebroso da mesma. Em 33 anos de vida, estimo que uns 10 a desconhecer o fenómeno, uns 20 a abominá-lo, e uns 3 a adorá-lo e a participar activamente nele. Nunca presenciei bullying físico, e quanto a “humilhação” pode-se dizer que era razoavelmente “soft” e os momentos de genuína simpatia e prazer certamente ofuscavam os de algum desconforto. Com tanta gente envolvida, de um lado e outro, até foi um processo bem cuidado, organizado, e (não tenho dúvidas) bem intencionado. Alguma “sorte” portanto, ali no ICBAS, na UP, até é jeitosa a praxe. No entanto… Continua errada a ideia base: Hierarquias onde não têm que existir, arrogância moral, ordens (e desordem), e demasiados gritos agressivos (ainda que “na brincadeira”) que, continuo a achar, só podem reflectir alguma espécie de fetiche. E eu gostei deste fenómeno durante 3 anos, com base em argumentos falaciosos… Integrei-me? Sim. E não me teria integrado sem praxe, como em tudo na vida? Se calhar até de forma mais natural e com menos tropeções… Diverti-me? Sim, e estou certo que me teria divertido ainda mais sem aquela palhaçada assessória a intrometer-se nos bons momentos de genuíno convívio com novos colegas, caloiros e “doutores”…

    O maior ponto positivo da praxe para mim? Ter-me recordado o quão facilmente podemos ser vítimas de indoctrinação, deitar por terra convicções racionais construídas em anos de reflexão, se rodeados de bons vendedores de ideias, e se tivermos medo de sermos os únicos a não as comprar. 3 anos a aprender isto, mas como em tudo na vida, agora estou mais protegido de uma segunda tentativa. Ao menos que a “vacina” tenha sido com um agente relativamente inócuo…
    Bendito dia em que atirei o traje para o lado, e retomei os meus estudos com normalidade. Algo acalmou dentro de mim…

  2. “Já Nuno Crato imita as praxes, humilhando…” está escrito neste artigo de opinião.´
    Logo por aí se compreende que este artigo de opinião é formado com base em argumentos de quem comete o erro de indução mais básico que existe. Praxe não envolve necessariamente humilhação, da mesma forma que política não envolve necessariamente corrupção (ou assim quero eu acreditar). Que existem casos para ambos? Imensos, não tenho dúvida. Que há muita coisa denominada “Praxe” por quem a pratica que devia ser analisada por autoridades competentes por ser um atentado ao diretos humanos? Há certamente. Mas e os outros casos?
    É preciso que haja diferenciação entre quem realmente tem em atenção a integração dos alunos através de certas actividades, que em nada comprometem a sua integridade física e psicológica, dessas pessoas que são projectadas pela comunicação social como a ideia associada à definição de Praxe e que não a representam de forma alguma.

    Compreendo a ideia de quem pensa assim, porque se baseia na informação fornecida pela generalidade da comunicação social, mas discordo plenamente da forma como “metem tudo no mesmo saco”. É preciso manter uma mente aberta e conhecer melhor os casos antes de se formar uma boa opinião. Opiniões toda a gente consegue ter, mas o valor que estas acrescentam depende sempre da forma como são elaboradas. Neste caso, peço-lhe que procure falar com alguém que teve uma experiência positiva e o possa ajudar a criar uma opinião mais informada.

    Cumprimentos,
    Pedro Rocha

    1. Também compreendo porque é que os defensores da praxe sentem a necessidade de escrever que não se pode “meter tudo no mesmo saco”. O que se passou recentemente foi mau demais. Mas a mim preocupam-me as praxes “normais”: não acho aceitável ver jovens atados por uma guita e com um penico na cabeça a berrarem o que lhes mandam.

    2. Eu também não acho aceitável a endoutrinação de crianças em crenças religiosas, prática que traz consequências mais permanentes e severas nos indivíduos e na sociedade. No entanto, cairia o carmo e a trindade se sequer ousasse trazer o tópico para discussão. Há pessoas que fazem parvoíces, umas até gostam, isso é com cada um. Se são adultos e consentiram, não há nada a fazer senão aceitar. O melhor a fazer é promover a informação dos estudantes à saída das escolas secundárias sobre os seus direitos e opções.

    3. O que se passou recentemente não teve nada a ver com praxe e isso que acabou de referir não são praxes “normais”, nem tão pouco são praxes. Lamento a sua visão enviesada do assunto com base na desinformação dos media, porque é inconcebível que tenha estabelecido qualquer contacto directo com alunos que promovem a praxe como integração e ainda ter essa ideia.

  3. Alunos que se embebedam até ficarem em coma, que saltam em delírio ao som do Quim Barreiros e que se humilham a si próprios em nome de uma suposta “integração”, comandados por madraços com trinta e quarenta anos que mais não fazem do que chular os pais e a quem, vá-se lá saber porquê, os media dão mais importância do que a quem efectivamente anda na Universidade a estudar…
    São sinais dos tempos.
    Decididamente, a nossa civilização está mesmo em decadência.
    Só me saem é duques.
    E cenas tristes.

    1. Se o que fala fosse indício da decadência da nossa civilização, já estaríamos desaparecidos há muito tempo. Tudo o que refere acontece noutros países – mesmo aqueles cuja lei proibiu as praxes – e já vem dos tempos da fundação das próprias universidades.

  4. A liberdade de ação e pensamento em democracia inclui o direito à indignação e à denúncia social de injustiças e, mais do que o direito, inclui a obrigação de não sermos compactuantes por nos remetermos à indiferença.
    Não concordo com a proibição das praxes porque o proibicionismo nestes casos não acrescenta nada, pouco ou nada transforma, podendo até transformar para pior. Mas continuarei a denunciar e apoiar todas as ações destinadas a acabar com uma prática de origem retrógrada, machista, destinada a banalizar a humilhação e fazer aceitar a obediência a hierarquias, tão ocas até como se espera que qualquer dux seja. Sabemos o que têm originado, não podemos olhar para o lado. Continuarei a esperar que novas gerações ponham fim a estes rituais de humilhação e passadismo que só por humor muito perverso se podem fazer equivaler à celebração e acolhimento pela entrada no ensino superior. Um «dux», num recente debate público no Porto, não se coibiu de declarar o que habitualmente se silencia, mas se sabe: que as praxes eram boas porque preparavam os estudantes para o que iriam encontrar no mundo do trabalho, também lá iriam ser humilhados! E esse é um dos lados mais perversos desta suposta tradição que, note-se bem, tanta tradição de oposição tem já em Portugal: sobre esta oposição à praxe temos também de falar. É às e aos estudantes portugueses que compete a iniciativa de por termo a estas práticas que aviltam, diminuem, discriminam (como alguns já fizeram) e que cabe encontrar formas salutares, amistosas, solidárias de fazer a celebração
    Ver por exº Praxe académica e culturas universitárias em Coimbra, de Miguel Cardina, http://academia.edu/1531604/2008_-_Memorias_incomodas_e_rasura_do_tempo_movimentos_estudantis_e_praxe_academica_no_declinio_do_Estado_Novo_Revista_Critica_de_Ciencias_Sociais_1_81_111-131

  5. Caro Anacleto Louçã.

    Tem consciência da verdadeira praxe que ocorre em muitas instituições de Norte a Sul do país?

    Espero, realmente, que não fundamente todo o seu raciocínio (está no seu direito de pensar assim – vivemos em Democracia por isso há liberdade de opinião) em apenas uma mão cheia de maus exemplos que aconteceram.

    Daí também lhe relembrar que as conclusões do Tribunal onde foi julgado o sucedido no Meco, não definissem o mesmo como praxe.

    O espaço da praxe, como o denomina, é amplamente aberto no que toca à sua representatividade, sendo que cada aluno tem direito a voto. Não existe maior forma de representatividade do que essa mesma, a de eu votar em A, B ou C para integrar um projecto, equipe, etc, etc.

    Sim, meu caro, falo por experiência própria. Fui praxado por minha livre e espontânea vontade, sabendo que era minha opção nem sequer colocar lá os pés e ciente dos riscos que corria – riscos esses positivos e negativos (afinal não há perfeição – ou conhece algum exemplo?).

    Elegi e também fui eleito em sufrágio directo e universal pelos meus pares e semelhantes académicos.

    Cumpri e fiz cumpri todo um regulamento, que na sua quase totalidade é construido em torno da defesa do “caloiro” e dos seus direitos enquanto membro de academia.

    Não julgue pelas aparências.

    E muito menos tente impôr a vontade de uma muito e pequena minoria.

    Cumprimentos democráticos

    1. É com gosto que vejo aqui publicado um testemunho de um praxista. Apreciei muito as suas intervenções no filme “Praxis”.

  6. Parte de viver em Democracia é a liberdade para acção e pensamento, mesmo que seja por uma parvoíce sem sentido. Proibir a praxe não seria uma atitude diferente de algumas políticas fascistas, que no fundo também só tentam fazer a diferença entre certo e errado (na sua perspectiva). Se algum comportamento criminoso acontecer, deve ser punido, mas de resto a grande maioria das praxes são perfeitamente inócuas. Informe-se os estudantes que as praxes são opcionais e deixe-se cada um fazer como quer: um bom exercício de liberdade e tolerância.

    1. Duvido que isso baste. Creio que seria preciso que os estudantes disputassem abertamente o espaço de representação das praxes, que são sempre actos de submissão, e propusessem alternativas de festa e de integração. Se não, ficamos sempre na mesma.

    2. Caro Sr. Louçã.
      Quanto às alternativas, pergunto-me honestamente se o Sr. andou na universidade, ou se as coisas seriam diferentes no seu tempo. Posso contar qual foi a minha experiência para ajudar. Quando eu entrei em 98, existia uma coisa chamada MATA, movimento anti praxe. Estes colegas faziam uma “espera” aos caloiros tanto ou mais agressiva que os colegas da Praxe. Curiosamente, falei com uns e outros na altura. Os que me deram mais liberdade, pasmo, foram os da Praxe. Utilizei essa liberdade para não participar na Praxe, e mesmo assim tive uma “madrinha” e fiz amizade com vários colegas ligados à tal Praxe. Os do MATA, muito curiosamente, desapareceram do mapa quando as aulas começaram, nem quase sabia quem eles ou elas eram depois de começarem as aulas. Nunca percebi muito bem se organizavam alguns eventos alternativos de integração. Fui portanto de certa forma induzido a participar em eventos com os tais colegas da Praxe, que me receberam a mim Anti-Praxe. E olhe….até fui convidado em anos posteriores a integrar a Praxe, num espírito de controlo e vigilância de situações abusivas. Penso que esta experiência é muito curiosa. Para mim, de certa forma, os tais movimentos anti-praxe pareceram-me demasiado radicais e elitistas. Os outros, os da Praxe, eram muito mais simpáticos. Claro que por serem mais, também acabavam por ter algumas ovelhas negras. E é por essas ovelhas negras que por vezes a Praxe descamba. E foi a dificuldade de controlo dessas ovelhas negras que me tornou originalmente Anti-Praxe. Mas devo dizer que encontrei muita compreensão nos meus colegas. Ainda hoje sou amigo de um Honoris Dux. A mesma pessoa que reconheceu como ser humano, como amigo, como par académico. E entre muitas memórias guardo o esforço que este rapaz fez para me convencer a vestir o Traje e ir à cerimónia de benção das fitas. Também não fui e não deixámos de ser amigos. Como tudo isto quero dizer que há boas e más pessoas, dentro e fora da Praxe. A Praxe em si não me parece que seja um problema. Ela é aliás muito recorrente em outros momentos da vida que não a entrada na universidade. Talvez seja mais relevante pensar em questões mais de fundo na nossa educação. Pensar porque é que hoje em dia surgem mais “Ovelhas Negras” dentro da Praxe. Porque é que parece existir mais sobranceria, mais abuso do outro. Se calhar devíamos pensar porque é que este tipo de sentimentos alastra pela Praxe, pelo trânsito, pelas manifestações das várias classes sociais. A Praxe para mim sofre a mesma deterioração social que se vislumbra em outras áreas.

    3. Não tenho dúvidas de que o princípio da praxe é a deterioração social: a submissão à autoridade e a aprendizagem pelos jovens de que a humilhação é conveniente.

    4. Só que o Sr. Louçã comenta e não diz muita coisa. Ignora por exemplo as brincadeiras que se fazem com os “novatos” em tantas e tantas atividades. Também há “praxes” nas forças militares, nos bombeiros, nos clubes desportivos, até nas empresas. A mim, quando comecei a trabalhar, deram-me uma tarefa de colar “bolinhas coloridas” em catálogos….deixaram-me dias a fazer isso, pelo meio das outras tarefas. Sabe o que se pretendia? Brincar com a pessoa, avaliar a sua capacidade de encaixe e tolerância ao stress. E sabe uma coisa? A forma como encarei esse desafio ainda hoje é falada entre antigos superiores. Se calhar, há é demasiadas pessoas para quem tudo foi fácil desde o berço. Pessoas a quem não se pode dizer uma palavra, pessoas a quem não se pode pedir que façam uma tarefa mais estranha. Mas sabe o que lhe digo? Talvez esse até seja mais um problema do que uma solução neste país. Passando isto, volto a dizer que este tipo de brincadeiras podem perfeitamente resultar mal. Há pessoas boas e más em todo o lado. Há chefias que forçam os estagiários a ficar noites a trabalhar por exemplo. Esse tipo de “Praxe” existe. E não é por isso que vamos abolir as hierarquias. Faz parte da sociedade. Mais uma vez repito, o princípio das brincadeiras ou partidas, não é um mau princípio. Pode e resulta muitas vezes bem. Agora claro, tudo o que for posto nas mãos erradas, terá um resultado errado. Talvez o que se deva questionar é porque é que os jovens parecem escolher para seus representantes as pessoas erradas……mas isso vê-se até na política. E é um fenômeno mais complexo.

  7. Massas é favor,
    a estadia na universidade mede-se é antes em litros (q não é de águaa)

    A Uni é chunga;
    territorialmente está tudo cheio de bosta

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