Tudo Menos Economia

Por

Bagão Félix, Francisco Louçã e Ricardo Cabral

Francisco Louçã

24 de Julho de 2014, 11:30

Por

Espírito Santo: a casta que tem governado Portugal

BES governo

O carinhosamente chamado “Dono Disto Tudo”, Ricardo Espírito Santo Salgado, foi hoje detido no âmbito de um processo velho de três anos, Monte Branco. A justiça, lenta como ela só, decidiu a detenção e interrogatório quando Salgado deixou de ser presidente do BES.

Da justiça dirá a justiça, se alguma vez disser alguma coisa. O processo Furacão começou em 2005 – há nove anos – e foi terminando como se sabe. O BES foi questionado e tudo ficou na mesma. O processo Monte Branco começou em 2012, investigando eventuais crimes desde 2006 – há oito anos – e deu logo origem a uma retificação do IRS de Salgado, que se teria esquecido de registar uma prenda de 8 milhões (um livro recente alega que teriam sido 14 milhões). O Banco de Portugal achou a notícia trivial e irrelevante.

Mas da rede de influência do “Dono Disto Tudo” podemos dizer nós, porque factos não esperam pela justiça. Na infografia aqui ao lado, que foi publicado pelo Expresso (clique na imagem para ampliar) a partir do livro que escrevi com Teixeira Lopes e Jorge Costa (“Os Burgueses”, Bertrand, 2014, e respectiva base de dados, com investigação de Adriano Campos e Nuno Moniz), registam-se os governantes que foram para o BES ou que vieram do BES, ocupando posições de relevo no banco ou nas suas principais empresas. Não são todos: depois de o livro ser publicado, Jaime Gama tornou-se o presidente do BES Açores, e escapam a este critério distintos (ex)consultores do banco, como Durão Barroso.

Mas o retrato é claro: isto é o regime político português, com figuras destacadíssimas do PS e PSD, com ministros do atual governo (por exemplo, Machete foi ministro, foi para o BES, voltou a ser ministro) e com ex-governantes e empresários de brilhantes carreiras. Considerando só os casos mais relevantes, temos cinco administradores do BES que foram para o governo (e depois não voltaram ao BES), treze que foram do governo para funções de direção no BES e cinco que foram do governo para o BES e voltaram ao governo (Silveira Godinho, Martins Adegas, Rui Machete, Miguel Frasquilho e Manuel Pinho). É preciso voltar ao tempo de Lourdes Pintasilgo para encontrar um governo sem BES.

Este é o retrato da casta que governa e ele era mesmo o Dono Disto Tudo.

Comentários

    1. O problema é que a crítica de José Augusto não tem fundamento. Onde é que me ouviu dizer ou viu escrever que o sistema está óptimo e que o único problema é de uns malandrins que serão tratados pela justiça?

  1. Mas quem deu cabo da governação de Lurdes Pintassilgo ?? que eu me recordo não foi ela mesmo – e porque teria morrido tão cedo – não aguentou a guerra que lhe foi feita a esta senhora do Graal ?? O Graal não tem e força das outras “seitas” ?’

  2. Se houvesse vontade política à sério de mudar este fenómeno que descreve tão bem, há muito que se teria simplesmente feito uma lei (nada mais simples do que fazer uma lei quando se é governo com maioria) que proibisse a qualquer político (deputado, secretário de estado ou ministro ou qualquer alto dignitário, juiz ou coisa do género) entrar como director, conselheiro ou gestor de qualquer estabelecimento bancário…de longe ou de perto relacionado com a Finança. Não era preciso mais do que isso ! Agora diga-me quando é que esta gente vai nessa ????

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