O entusiasmo da blogosfera com as compras do Estado

A história conta-se rapidamente: o Governo cria um site para informar sobre as compras das entidades públicas, a ferramenta é mal concebida e pouco funcional, uma associação de software livre resolve usar os dados, cria um motor de pesquisa que funciona e a blogosfera (ou, melhor, uma parte da blogosfera) incendeia-se – essencialmente pela razão errada.

Os valores que constam da base de dados governamental não significam que haja contratações milionárias de professores de educação física ou outros absurdos quejandos; significam apenas que os números estão errados e são mais uma das falhas do site.

O presidente insubstituível vai estar fora cinco meses

A notícia não chegou como uma surpresa: o presidente da Apple, Steve Jobs, 53 anos, vai estar afastado da empresa durante cinco meses, por motivos de saúde.

“Infelizmente, a curiosidade sobre a minha saúde continua a ser uma distracção, não apenas para mim e para a minha família, mas para toda a gente na Apple”, explicou Jobs num comunicado enviado na semana passada aos trabalhadores. Jobs conta voltar ao trabalho em Julho, mas já se começa a trilhar o complexo caminho da sucessão.

Quando a notícia se tornou pública, espalharam-se rapidamente pela Web os desejos de melhoras, escritos pelos fãs da marca em sites e blogues ou em ferramentas como o Twitter. Seria uma reacção esperada se se tratasse de uma estrela da música ou do cinema – mas é um cenário improvável quando se trata de um presidente de uma multinacional na área da tecnologia.

Jobs, contudo, é uma espécie de vedeta. É considerado por muitos um visionário e um ícone no mundo da tecnologia. As suas aparições em público (falhou este ano a habitual Macworld, acabando por admitir que foi por motivos de saúde) são recebidas com aplausos de uma multidão entusiasta.

A saúde de Jobs tem sido tema de especulação nos últimos meses: desde o Verão que o presidente da Apple tem visivelmente vindo a perder peso – e a cada quilo a menos notado numa aparição pública as acções da companhia ressentiam-se.

Negando os rumores de que se trataria de uma reincidência do cancro pancreático, que o obrigou em 2004 a uma cirurgia, Jobs veio recentemente anunciar que o emagrecimento se devia a um desequilíbrio hormonal. No comunicado enviado aos funcionários diz que o problema de saúde é, afinal, “mais complexo” do que inicialmente se julgava.

Parece consensual entre os analistas que Jobs está perto de ser insubstituível. “Steve Jobs é único. Não pode ser substituído. Ninguém tem o seu carisma e visão”, explicava em Outubro, ao PÚBLICO, o jornalista e escritor americano Dan Lyons, especialista na Apple (e autor do famoso blogue The Secret Diary of Steve Job). Já nessa altura Jobs mostrava sinais de pouca saúde.

O afastamento por cinco meses deixa a empresa nas mãos do número dois Tim Cook. Também em 2004, foi Cook a assumir a liderança durante a ausência do CEO e, embora seja praticamente desconhecido para a maioria dos consumidores, é tido como uma das pessoas mais bem posicionadas para assumir o cargo de presidente quando Jobs se afastar.

Cook também partilhou várias vezes o palco com Jobs, durante o anúncio de novos produtos e, recentemente, o seu papel nestes eventos tem sido mais relevante. No entanto, em Janeiro, na Macworld, foi o vice-presidente Philip Schiller a dar a cara.

A sucessão pode, na Apple, ser uma questão complexa. Mas o certo é que Jobs, que fundou a empresa na década de 70 e foi fulcral para a salvar da falência em finais da década de 90, já não é imprescindível ao negócio: a venda de computadores tem vindo a aumentar a um ritmo sustentado e o negócio da música, assente na enorme popularidade do iPod e do iTunes, está em velocidade de cruzeiro.

O génio que muitos atribuem a Jobs pode bem já não ser necessário.

É tarde para cobrar pelo jornalismo

Este artigo, de um veterano colunista de media do NY Times, é um bom resumo da encruzilhada que o negócio das notícias enfrenta na era digital:

For a long time, newspapers assumed that as their print advertising declined, it would be intersected by a surging line of online advertising revenue. But that revenue is no longer growing at many newspaper sites, so if the lines cross, it will be because the print revenue is saying hello on its way to the basement.

Associe-se a este problema com a publicidade o facto de os consumidores estarem habituados a notícias gratuitas e ficam comprometidos os dois modelos de negócio óbvios: a venda de anúncios e a venda de conteúdos.

Nicholas Carr tem a este propósito uma visão crua :

“How do we create high quality content in a world where advertisers want to pay by the click, and consumers don’t want to pay at all?” [perguntava em 2006 o director de operações da Web do NY Times]. The answer may turn out to be equally simple: We don’t.

Contudo, ao pensamento da maioria dos gurus dos media subjaz a ideia de que, de alguma forma, a proliferação de conteúdos não substitui o bom jornalismo e de que o bom jornalismo tem valor o suficiente para ser vendido ao público.

Há um fundo de verdade nisto. Um blogger amador não substitui um jornalista treinado e experiente e também não substitui o trabalho de planeamento e edição feito por uma equipa de profissionais. É este processo que credibiliza uma marca e as marcas de informação têm na credibilidade o mais importante factor distintivo na era da informação online.

Escrevi em 2006 e continua a parecer-me uma tendência clara:

Os sites noticiosos vão evoluir para “nós principais” da Rede – sítios de credibilidade, de selecção de informação, de organização do provável caos informativo das próximas gerações da Web.

Um dos problemas é que, por muito bom que seja aquilo que essas marcas produzam, já é demasiado tarde para se sonhar com um modelo de cobrança de informação.

A esmagadora maioria dos grandes sites abriram-se ao público e ajudaram assim a cultivar um hábito de consumo gratuito de informação (e, mesmo que os os sites tivessem tentado outra via, a instituição deste hábito seria incontornável).

Uma parte significativa das notícias é redundante – são as chamadas commodity news, pelas quais não faz qualquer sentido cobrar (e onde, de resto, muitos órgãos empregam demasiados recursos para não acrescentarem qualquer valor).

Mesmo nos casos do jornalismo que traz valor acrescentado, o peso dos conteúdos grátis impõe-se:

– uma história exclusiva será quase instantaneamente repetida e analisada em sítios de acesso gratuito (faz parte do funcionamento dos jornalistas seguirem as histórias uns dos outros);

– uma grande reportagem não é o suficiente para encontrar uma audiência pagante que lhe cubra os custos;

– para cada bom colunista ou opinion maker há dezenas de outros de acesso gratuito, que (se mais não for, pela força do número) acabam por superar o primeiro em capacidade de análise e escrita.

Continua a haver mercado para o jornalismo: há anunciantes e há audiência a procurar o “produto jornalístico”. Mas o mercado vai estreitar-se em torno do jornalismo de nicho (que, de resto, e em raros casos, é o que ainda consegue cobrar) e das marcas de referência. Do resto do espectro da produção de informação, boa parte tende a desaparecer.

A pegada ecológica do Google

O impacto ecológico das tecnologias de informação tem sido alvo de alguma atenção nos tempos recentes. A redução da energia gasta pelos servidores empresariais é uma meta de muitas companhias (até porque é uma estratégia de poupança de dinheiro).

Desta feita, um estudo vem indicar que uma pesquisa no Google produz sete gramas de dióxido de carbono, tendo em conta tanto a energia necessária para alimentar o computador do utilizador, como os servidores da empresa.

Segundo o responsável pela investigação, duas buscas já produzem o mesmo dióxido de carbono que ferver água numa chaleira eléctrica.

O valor apontado pelo estudo é significativamente superior aos 0,2 gramas que a Google diz serem resultantes, em média, de cada pesquisa.

Já antes houve quem apontasse o grande consumo de energia provocado pelos avatares do Second Life.

Diário Económico com homepage personalizável

O Diário Económico redesenhou o site.

O grafismo é mais limpo (e mais Web 2.0). Mas a novidade digna de nota é permitir uma grande personalização da homepage – algo que alguns portais em Portugal já permitiam, mas que é uma estreia ao nível dos jornais nacionais.

Os diversos conteúdos podem ser colocados pelo utilizador em qualquer local da página e, logo no topo, o botão “personalize a homepage” permite escolher que tipo de conteúdos são apresentados.

Roteiro da Internet grátis está online

Já há algum tempo, pedimos aos leitores que nos informassem sobre pontos de acesso gratuito à Internet sem fios.

O resultado está aqui – mas não é um produto final. Trata-se de um processo em curso e contamos com mais contributos dos leitores para enriquecer a informação do mapa (que está ainda em fase beta).

A ferramenta foi construída com recurso aos Google Maps. As sugestões podem ser enviadas por e-mail ou editando directamente o mapa original.

Instruções mais detalhadas podem ser encontradas na página do site do PÚBLICO.

A vida curta do Twitter

O Twitter – uma ferramenta de micro-blogging em mensagens de 140 caracteres, no máximo – nunca me entusiasmou. Mas segui o projecto com atenção, particularmente na altura em que muitos o descreviam como o próximo grande serviço da Web 2.0.

Neste momento, contudo, parece-me claro que o Twitter muito dificilmente será um sucesso. Ficar-se-à, nos tempos próximos, pelas mãos dos entusiastas e numa luta para conseguir receitas. A médio prazo, há fortes possibilidades de desaparecer.

Antes de mais, o Twitter não tem argumentos para chegar ao mainstream.

Há vários indicadores da popularidade de um serviço. Os indicadores numéricos (como o número de utilizadores, por exemplo) são essenciais. Mas há outros aspectos (poder-se-iam chamar “indicadores empíricos”) aos quais é importante estar atento para se ir percebendo o impacto de uma novidade tecnológica. Entre estes, está, por exemplo, a frequência com que o tema surge em conversas informais.

Nesta segunda categoria, um indicador interessante da popularidade de um serviço na Web é a forma como é referido na comunicação social.

Quando, em 2006, escrevi pela primeira vez no PÚBLICO sobre o YouTube, usei algumas linhas de texto para explicar o que era o site. Hoje, qualquer pivô num telejornal em horário nobre (tendencialmente, aquele que é visto por uma audiência mais diversa) fala do YouTube sem se sentir obrigado a acrescentar qualquer explicação.

É certo que, pela própria natureza do projecto, o Twitter nunca poderia chegar ao patamar de popularidade do YouTube. Mas também é possível argumentar que não é preciso ganhar a dimensão do YouTube para se ser bem sucedido (e o sucesso do YouTube depende do ângulo com que o assunto é abordado: financeiramente, só uma companhia do calibre da Google se poderia dar ao luxo de manter o site).

A equipa do Twitter soube aproveitar uma das grandes facetas da Web 2.0: a socialização mediada pela Web, a necessidade de ligação constante, a medição exacta do número de “amigos” ou “contactos” – em suma, o novo mundo da intimidade digital. Mas não veio propriamente colmatar nenhuma necessidade existente (alguém sentia necessidade de comunicar com o mundo em 140 caracteres antes de o Twitter aparecer?).

A este esquema de rede social juntou-se a possibilidade de ser usado em várias plataformas (numa página Web, em programas de messenger e, com limitações e dependendo da localização geográfica, em telemóveis). Consequência: o serviço conseguiu o entusiasmo de quem está na linha da frente da adopção das novas tecnologias. Mas, e apesar de muitos media de renome e de até alguns governos e políticos terem adoptado a ferramenta, é essencialmente na bolha de tecno-entusiasmo que o Twitter permanece.

Outro fenómeno interessante na evolução do Twitter é muitos utilizadores terem abandonado o mote lançado pelos fundadores do serviço – “What are you doing?” – para, frequentemente, usarem a ferramenta como plataforma de conversação. Mais do que uma vez li e ouvi chamarem ao Twitter uma nova versão do IRC.

Soma-se a isto os factos de o serviço ter pesados encargos, de não ter ainda um modelo para gerar receitas e de a bolha da Web 2.0 (vale a pena este vídeo) estar em fase de esvaziamento. E, assim, reúnem-se as condições para que o Twitter tenha vida curta – o que, apesar de relativamente comum em fenómenos da Web, não deixa de ser irónico no caso de um serviço cujo nome significa “chilreio” e que foi construído precisamente em torno da efemeridade.

Actualização
1) Para além dos outros problemas, o Twitter teve falhas de segurança.

2) Neste texto, defende-se que 2009 será o ano do Twitter. É precisamente a este tipo de entusiasmo de nicho que o Twitter está confinado:

Feedback sections of blogs will start to include ‘Tweetbacks’, which could show the number of times the links had been forwarded via Twitter (that would be complicated by URL shorteners though, like TinyURL) or mixing Tweet comments with regular comments. Twitter will become a staple part of the ‘share this link’ tab, and stats like ‘most Tweeted’ will become part of the sidebar.

A guerra chegou ao YouTube

As forças israelitas têm há uma semana um canal próprio no YouTube, onde colocam vários vídeos, incluindo imagens dos ataques.

Lê-se na página:

The IDF Spokesperson’s Unit is the Israel Defense Forces’ professional body responsible for media and public relations in Israel and around the world. This is our new site that will help us do so.

We thank you for visiting us and will continue to update this site with documentation of the IDF’s humane action and operational success in operation “Cast Lead.”

A comunicação da Apple

A propósito de Steve Jobs não participar na próxima Macworld, o Guardian publica um texto interessante (via Reflexões de um cão com pulgas), escrito por um ex-funcionário que trabalhou 17 anos na empresa.

Há várias passagens no artigo que são dignas de nota, como a que explica porque é que a Macworld já estava a ser prejudicial para a Apple ou a que dá conta de algum do funcionamento interno da empresa.

Longe do tema central do texto, surge outra ideia que me parece ser relevante (até porque tenho tentado perceber com algum detalhe o papel do fundador e CEO Steve Jobs):

Don’t expect Steve ever to blog, though. But maybe his successor will.
(…)
That kind of informal communication just isn’t in Apple’s DNA, and won’t be as long as Steve is in charge.

É curioso que uma marca que prima pela imagem de inovação e arrojo, e cujos produtos são em boa parte destinados a um público jovem e conhecedor da tecnologia, tarde em ultrapassar os esquemas mais tradicionais de comunicação. E isto ganha contornos quase caricatos se for, de facto, o “visionário” (o epíteto é-lhe frequentemente atribuído) Steve Jobs o responsável por essa estratégia.

Software open source nas câmaras municipais

Foram publicado por estes dias dados sobre a utilização das tecnologias de informação na administração pública.

É um relatório muito extenso (formato XLS), construído (o que é relevante na análise dos dados) a partir de inquéritos feitos às entidades da administração pública central, regional e local.

Um dos dados que me chamou a atenção foi a utilização de software de código aberto nas câmaras:

Câmaras Municipais que possuem software de código aberto para os sistemas operativos: 50%
Câmaras Municipais que possuem software de código aberto para os servidores da Internet: 39%
Câmaras Municipais que possuem software de código aberto para outro tipo de aplicações: 53%