É tarde para cobrar pelo jornalismo

Este artigo, de um veterano colunista de media do NY Times, é um bom resumo da encruzilhada que o negócio das notícias enfrenta na era digital:

For a long time, newspapers assumed that as their print advertising declined, it would be intersected by a surging line of online advertising revenue. But that revenue is no longer growing at many newspaper sites, so if the lines cross, it will be because the print revenue is saying hello on its way to the basement.

Associe-se a este problema com a publicidade o facto de os consumidores estarem habituados a notícias gratuitas e ficam comprometidos os dois modelos de negócio óbvios: a venda de anúncios e a venda de conteúdos.

Nicholas Carr tem a este propósito uma visão crua :

“How do we create high quality content in a world where advertisers want to pay by the click, and consumers don’t want to pay at all?” [perguntava em 2006 o director de operações da Web do NY Times]. The answer may turn out to be equally simple: We don’t.

Contudo, ao pensamento da maioria dos gurus dos media subjaz a ideia de que, de alguma forma, a proliferação de conteúdos não substitui o bom jornalismo e de que o bom jornalismo tem valor o suficiente para ser vendido ao público.

Há um fundo de verdade nisto. Um blogger amador não substitui um jornalista treinado e experiente e também não substitui o trabalho de planeamento e edição feito por uma equipa de profissionais. É este processo que credibiliza uma marca e as marcas de informação têm na credibilidade o mais importante factor distintivo na era da informação online.

Escrevi em 2006 e continua a parecer-me uma tendência clara:

Os sites noticiosos vão evoluir para “nós principais” da Rede – sítios de credibilidade, de selecção de informação, de organização do provável caos informativo das próximas gerações da Web.

Um dos problemas é que, por muito bom que seja aquilo que essas marcas produzam, já é demasiado tarde para se sonhar com um modelo de cobrança de informação.

A esmagadora maioria dos grandes sites abriram-se ao público e ajudaram assim a cultivar um hábito de consumo gratuito de informação (e, mesmo que os os sites tivessem tentado outra via, a instituição deste hábito seria incontornável).

Uma parte significativa das notícias é redundante – são as chamadas commodity news, pelas quais não faz qualquer sentido cobrar (e onde, de resto, muitos órgãos empregam demasiados recursos para não acrescentarem qualquer valor).

Mesmo nos casos do jornalismo que traz valor acrescentado, o peso dos conteúdos grátis impõe-se:

– uma história exclusiva será quase instantaneamente repetida e analisada em sítios de acesso gratuito (faz parte do funcionamento dos jornalistas seguirem as histórias uns dos outros);

– uma grande reportagem não é o suficiente para encontrar uma audiência pagante que lhe cubra os custos;

– para cada bom colunista ou opinion maker há dezenas de outros de acesso gratuito, que (se mais não for, pela força do número) acabam por superar o primeiro em capacidade de análise e escrita.

Continua a haver mercado para o jornalismo: há anunciantes e há audiência a procurar o “produto jornalístico”. Mas o mercado vai estreitar-se em torno do jornalismo de nicho (que, de resto, e em raros casos, é o que ainda consegue cobrar) e das marcas de referência. Do resto do espectro da produção de informação, boa parte tende a desaparecer.

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Um comentário a É tarde para cobrar pelo jornalismo

  1. Continua a haver mercado para o jornalismo: há anunciantes e há audiência a procurar o “produto jornalístico”. Mas o mercado vai estreitar-se em torno do jornalismo de nicho (que, de resto, e em raros casos, é o que ainda consegue cobrar) e das marcas de referência. Do resto do espectro da produção de informação, boa parte tende a desaparecer.

    O modelo do jornalismo baseado na publicidade não será salvação para nada. Creio que uma alternativa poderá passar por cobrar pela recolha, agregação e contextualização de informação que se encontrea livremente disponível a quem não tem tempo a perder. Há muitos executivos e organizações que pura e simplesmente não estão interessados em gastar dias à procura da informação que lhe interessam mas que necessitam desses dados para tomarr decisões. Essa função poderá ser bastante melhor desempenhada por alguém especializada num sector específico.
    Quanto ao resto, partilho da opinião de Seth Godin:

    Punchline: if we really care about the investigation and the analysis, we’ll pay for it one way or another. Maybe it’s a public good, a non profit function. Maybe a philanthropist puts up money for prizes. Maybe the Woodward and Bernstein of 2017 make so much money from breaking a story that it leads to a whole new generation of journalists.
    The reality is that this sort of journalism is relatively cheap (compared to everything else the newspaper had to do in order to bring it to us.) Newspapers took two cents of journalism and wrapped in ninety-eight cents of overhead and distraction.

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