O problema dos comentários na Web

O problema é (dentro da curta história da Web) antigo: abrir aos leitores de um site a participação e a possibilidade de comentário é uma faca de dois gumes. A solução não é óbvia: Seleccionar os comentários a priori ou remover os indesejados já após publicação? Obrigar os utilizadores a registarem-se ou permitir o anonimato? Criar sistemas de reputação para que os utilizadores se auto-regulem ou dar a alguém a função de moderador?

Ontem apaguei pela primeira vez um comentário aqui no Tecnopolis: era inútil, mal escrito e um ataque não fundamentado a outro leitor. O pequeno episódio serve de mote para republicar aqui um artigo sobre o tema, que que escrevi no Público há algum tempo.

Para o texto, contei com as ideias de José Pacheco Pereira (historiador e um dos mais conhecidos bloggers portugueses), Rui Bebiano (historiador, blogger e autor de um interessante artigo intitulado “Cibercultura e novas fronteiras da comunicação social”), José Luis Orihuela (blogger e estudioso dos novos media) e de Kevin Anderson, responsável pela gestão de blogues do britânico The Guardian.

Da conversa ao insulto, em pouco mais de um clique

A Internet forçou os jornalistas a exporem ainda mais o seu trabalho à crítica e à discussão. As chamadas “caixas de comentários”, que permitem a qualquer leitor comentar os artigos publicados, são uma ferramenta quase obrigatória num site moderno. São, diz quem as defende, uma ferramenta de interactividade, de participação democrática, de fomento da discussão. Atraem as audiências (e, assim, a publicidade) e são parte integrante da Web dos dias de hoje.

No entanto, estes espaços nem sempre servem o efeito desejado.

São frequentes os insultos, os textos mal escritos, as frases ocas e tudo isto pode ser disparado atrás da segurança do anonimato, recorrendo a pseudónimos ou com nomes que até podem ser verdadeiros, embora nunca haja forma de ter certeza.

Nas “caixas de comentários” vale quase tudo e o grande desafio dos órgãos de comunicação social é separar o bom comentário do comentário inútil, o raciocínio inteligente da ordinarice brejeira, a ironia do insulto.

“A MFL [Manuela Ferreira Leite] deve ir ao Pomtal [sic] e levar o Sarraceno do Cavaco Silva com ela”, escreve um leitor que se identifica como Tó Bull, num comentário no site do PÚBLICO à notícia “Santana Lopes defende que Ferreira Leite deveria ir à Festa do Pontal”. Outro, anónimo, acrescenta: “Se MFL vai a festa, vai estragar a festa Pedrocas. Olha bem para a cara dela Pedroquinhas.” Já em reacção à notícia de que o comité olímpico proibira a bandeira espanhola a meia haste na sequência do desastre de avião em Madrid, o leitor Badocha observa: “Mas que grande estupidez!!! Que grandes alarves!!! Os países civilizados deviam mas era fazer um manguito a esse tal de COE e mandá-los pastar para a Sibéria!!!”.

O artigo em que o PÚBLICO dava conta que Cavaco Silva tinha vetado o novo regime jurídico do divórcio também granjeou o tipo de comentários que dá dores de cabeça a quem tem de gerir estes espaços. “Os deputados que votaram a favor desta estúpida lei, era bem feito que fossem sistematicamente encornados pelo cônjuge e depois este lhe rapasse os rendimentos que ganham a coçar a micose na Assembleia da República”, escreveu um leitor que assina como Final Approach. E os exemplos deste género de reacções podiam continuar: são muito mais os comentários do que as notícias publicadas.

Um mundo ressabiado

A Internet prometia uma espécie de Ágora electrónica alargada. Mas as limitações do mundo online enquanto plataforma de discussão são bem visíveis, sublinha José Luís Orihuela, professor na Universidade de Navarra, em Espanha, autor do livro A Revolução dos Blogues e do blogue eCuaderno: “Os comentários e as novas formas de participação dos utilizadores nos meios online revelam os limites da utopia da conversação”.

Por seu lado, José Pacheco Pereira, historiador e autor do blogue Abrupto, é mais contundente: “O mundo anónimo das caixas de comentários só serve para os blogues e os sites aumentarem as audiências, não tem qualquer utilidade para a discussão e polui o conteúdo do que se publica. Permite todo o género de fraudes e só vale enquanto o retrato de um mundo ressentido e ressabiado, a quem a Internet deu possibilidade de expressão sem qualquer valor acrescentado.”

Também historiador, Rui Bebiano, professor na Universidade de Coimbra e autor do blogue A Terceira Noite, explica que os sistemas de comentários online podem facilmente resvalar para a discussão destrutiva. E nota que isso tem consequências para os sites que fomentam estes espaços e para a própria imagem que a Internet pode ter junto de alguns: “É fácil sobrepor-se a voz de quem dispõe de tempo para investir na agressividade e no menosprezo por um código ético. Quando alimentado, este ambiente torna-se mesmo insuportável, desviando leitores para outros interesses. Pode ser até um factor de descredibilização da Internet junto de alguns segmentos sociais”.

O facto de o anonimato ser característica intrínseca da Internet e de ser extremamente fácil de garantir não ajuda, nota Bebiano: “O recurso ao anonimato, associado à utilização parasitária das caixas de comentários, favorece a ofensa, a calúnia, a provocação, a instalação da dúvida em relação à fala do outro”.

Na mesma linha, Pacheco Pereira diz que só raramente o anonimato se justifica: “É um mecanismo de cobardia e um instrumento de invejas e vinganças, muitas vezes violando a lei. É a transposição para a Internet de um mundo que existe cá fora, mas que até agora ficava dentro da cabeça das pessoas e nas conversas de café”.

Muitos utilizadores, salienta ainda Orihuela, utilizam os sites onde deixam comentários para divulgar ideologias extremistas ou “simplesmente para fazer gala da sua falta de cultura e imaturidade.” Pacheco Pereira resume: “Não é bonito de se ver.”

Sem soluções perfeitas

Neste tipo de cenários, os responsáveis pelos sites frequentemente dividem-se quanto à melhor abordagem. Uma opção é ler tudo o que os visitantes escrevem antes de autorizar a publicação. No outro extremo, há quem opte por publicar praticamente tudo. E há soluções intermédias, como permitir que os próprios leitores votem nos comentários que querem ver excluídos.

“O debate saudável e produtivo acontece online todos os dias, mas exige esforço”, garante o especialista Kevin Anderson, actualmente responsável pelos blogues do britânico The Guardian.

“Há uma diferença entre criar um debate inteligente sobre os assuntos do dia ou gerar raiva [nos leitores] só para aumentar as audiências”. No site deste jornal, há pessoas cujo único trabalho é a gestão dos comentários e os jornalistas são encorajados a participar na moderação. “Mas, mesmo com as melhores intenções, há debates que caem na discussão, tal como acontece com as conversas cara-a-cara”.

“Não há soluções perfeitas”, admite Orihuela, “mas tudo parece indicar que uma política editorial clara sobre as regras de participação são soluções aplicáveis.” Pacheco Pereira, que mantém o Abrupto desde 2003 (onde, contrariamente ao que acontece na esmagadora maioria destes espaços, todos os comentários têm que ser enviados por e-mail e aprovados), observa ainda que o amadurecimento e a familiarização das pessoas com estes espaços de discussão não tem tido consequências positivas: “A tendência é para piorar. Quanto mais gente entra na Net, maior importância tem a edição dos comentários”.

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7 comentários a O problema dos comentários na Web

  1. Pingback: Blogue Rascunho.net » Blog Archive » Dos comentaristas anónimos, online

  2. No meu caso pessoal, reconheço que é difícil lidar com essa questão. Muito difícil mesmo.
    São incontáveis os comentários em que fui apelidado do pior que existe.
    A única solução é moderar.
    Cumprimentos.

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  3. Para mim, uma solução simples e eficaz para acabar com boa parte do trolling nos comentários moderar todos os comentários de utilizadores não registados e ter aprovação automática dos registados. Um troll dificilmente se vai registar para escrever porcaria – normalmente é cobarde, tem medo de ver a sua identidade revelada.

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  4. “moderar todos os comentários de utilizadores não registados”

    Caro Bruno Miguel, o problema é que para ser utilizador registado normalmente basta um e-mail.Mesmo nos sites que registam o IP é fácil contornar a coisa e manter o anonimato.

    O resultado é, como se lê no texto, que a maioria dos comentadores em sites como os do Público só querem “divulgar ideologias extremistas ou simplesmente para fazer gala da sua falta de cultura e imaturidade”.

    É uma contradição de termos dizê-lo neste espaço, mas por mim os comentários deviam ser simplesmente abolidos por sites que se pretendam sérios. Para o regabofe da estupidez que lá se encontra há os chats e os bulletin boards.

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  5. A solução é não ter uma política do entra tudo. Basta ter uma equipa que leia os comentários previamente e faça uma selecção com base em critérios de bom senso. Os trolls e os malucos, ficam de fora. Ao fim de algum tempo, aprendem que não vale a pena e deixam de escrever disparates…

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