Entrevista com Chris Anderson: A nova geração tem o conceito de grátis no ADN

Oferecer produtos (em vez de cobrar por eles) pode ser uma boa forma de ganhar dinheiro. Na Internet, já ninguém está habituado a pagar por nada. O conceito de cobrar pela informação é algo que só durou 200 anos. Chama-se a economia do preço zero e é o tema do próximo livro do director da icónica revista Wired.

Chris Anderson tirou um curso de Física e chegou a fazer investigação científica antes de ser jornalista (provavelmente por isso usa a expressão “economia dos átomos” para falar da economia do mundo físico, por oposição à economia online). Foi editor das revistas Nature e Sciente, trabalhou sete anos na Economist e é o director da Wired. Depois do best-seller A Cauda Longa (também sobre economia) prepara-se para lançar um novo livro. Free (“grátis”) tem chegada às lojas prevista para o próximo ano.

Num artigo que precede o livro, Anderson nota que ninguém está habituado a pagar por nada no mundo online e argumenta que o conceito de obter dinheiro a partir de produtos gratuitos já está a ser aplicado a áreas de negócio fora da Internet. São as ideias de um jornalista que só paga por algumas (poucas) revistas e pelos livros. E que já conjuga os verbos no passado para falar da informação distribuída pelos jornais em papel.

Qual é o problema de ter um preço para as coisas? Os preços existem há séculos. As pessoas já não estão dispostas a pagar?
Algumas pessoas estão dispostas a pagar por algumas coisas. Não há nada de errado com um modelo de mercado em que haja preços. O modelo gratuito, aliás, é um híbrido entre o grátis e o pago. O problema do modelo de preços é que elimina a maior parte das pessoas. Se tiverem uma escolha, a maioria das pessoas não quer pagar. O problema de cobrar por produtos é que limitamos os clientes àqueles que estão dispostos a pagar.

Acha possível ter um modelo gratuito para todas as indústrias?
É muito difícil pensar numa indústria que não use produtos gratuitos. Os media, por exemplo, são uma indústria que usa modelos gratuitos. O seu jornal tem um site? Esse site é de acesso gratuito. Consegue pensar em alguma indústria que não use o modelo de produtos grátis?

A indústria dos automóveis?
Não é verdade. Os carros usam o modelo do grátis. Nos carros, pode haver extras gratuitos, por exemplo. E é inteiramente possível haver carros totalmente gratuitos. Tenho um amigo que lançou uma empresa que constrói carros eléctricos. O modelo de negócio é oferecer o carro e vender a electricidade. É como nos telemóveis: o aparelho muitas vezes é grátis, pagam-se as chamadas. Todas as indústrias podem usar este modelo.

O futuro dos media é serem completamente grátis?
Nunca digo que algo vai ser “completamente” de uma determinada maneira. Os media sempre foram, pelo menos parcialmente, pagos. Mas a televisão e a rádio são gratuitos. A ideia de pagar por informação só durou 200 anos! Antes disso, as pessoas falavam umas com as outras e não se pagava. Depois disso, passámos a trocar bits e não cobramos por isso. Houve um período breve em que distribuímos informação em suportes físicos.

Já há quem tenha notado que a publicidade online não vai compensar as perdas de vendas e publicidade nos suportes físicos. Se assim for, não teremos modelo de negócio para os jornais nos próximos anos.
Isso é provavelmente verdade. É completamente possível que o negócio dos media venha a ser muito mais pequeno. Não quer dizer que haja menos órgãos de informação, só que alguns não estarão a fazer negócio. Neste momento, nós, jornalistas, competimos com outras empresas de media, mas também com imensos amadores. Competimos com os blogues, as redes sociais, a Wikipédia. Até certo ponto, competimos também com o Google.

Toda a informação que consome é gratuita? Compra jornais ou revistas?
Não assino nenhum jornal. A minha mulher compra o New York Times ao domingo. Eu compro algumas revistas. Na verdade, os leitores não pagam a revista. A revista é paga pela publicidade. E adoro livros, pago por livros. E por música. Diria que os livros constituem a maioria da informação que compro.

O seu livro vai ser grátis?
Sim. A versão áudio do livro será gratuita, a versão electrónica também. E estamos a tentar arranjar patrocinadores para que haja uma edição impressa gratuita, paga por publicidade.

Concorda que a indústria dos livros tem uma grande resistência à transição para o digital e, portanto, para um modelo de gratuitidade?
Sim. A questão é que o livro em papel é o melhor suporte para aquele tipo de informação. O CD, por exemplo, não é o melhor suporte para música. Não podemos transportar todos os CD que temos, os CD riscam-se, são caros… É um suporte inferior. E há toda uma geração que acredita que os jornais impressos são um suporte inferior face ao jornal online, porque chegam com horas de atraso, sujam as mãos… Nem toda a gente concorda com isto, claro.

O Chris concorda?
Adoro jornais, mas só os leio online. Porque hei-de esperar 18 horas para receber as notícias? Adoro fazer jornalismo. Gosto do trabalho de reportagem e edição. Mas não gosto de esperar até ao dia seguinte.

Se as coisas forem gratuitas, as pessoas não vão pensar que têm menos valor?
O Google teria menos valor se fosse pago? Depende das expectativas de cada um. Se alguém está habituado a pagar por água e se eu lhe der água gratuitamente, essa pessoa vai pensar que a água que lhe dou é pior. Mas e se essa pessoa nunca tiver pago pela água?

Voltamos à primeira questão. Há séculos que as pessoas estão habituadas a pagar por produtos.
Não no mundo digital. Quem tem menos de 25 anos nunca pagou para aceder a um site. E nunca pagará. Tudo o que é digital é obviamente grátis. E não pensamos que a versão gratuita é inferior. Achamos que a versão gratuita é a única versão possível.

Um dos modelos de negócio que apresenta para produtos gratuitos implica uma versão paga e melhor, que cubra os custos da versão grátis e ainda dê lucro. Chama-lhe o modelo freemium [junção de free e premium].
Correcto. Mas se estivermos a usar a versão gratuita, não achamos que ela não presta. Sabemos simplesmente que há uma versão ainda melhor. Perceber que há uma versão paga que é superior não significa que a versão gratuita é má. Se estamos habituados a que algo seja grátis, não achamos que seja um mau produto só porque é grátis. E a geração que está hoje a crescer online tem este conceito inscrito no ADN. Eles acham que os produtos digitais devem ser gratuitos. E têm razão.

Parte do conceito assenta no facto de, na economia digital, haver custos que estão perto do zero. Mas como cobrir os outros custos?
Eu falo dos custos marginais, que são aqueles que a empresa tem quando distribui os seus custos pelos utilizadores dos seus produtos. O Google paga milhões pelos seus servidores. Mas dividindo isso por centenas de milhões de utilizadores, os custos são reduzidos. Na economia digital, estes custos marginais estão muito perto do zero.

Mas o seu modelo de gratuitidade não se aplica apenas ao mundo digital.
É verdade que isto se torna mais complicado quando estamos na “economia dos átomos”. Há o exemplo das companhias low cost. O voo é quase gratuito. Estamos à espera que caia? Não. Mas também não esperamos que tenha assentos de luxo. Normalmente, é uma questão de equilíbrio. No mundo físico, quando há custos reais associados, acabamos por ter que pagar de uma forma ou outra. No caso das companhias low cost, pagamos as sanduíches de fiambre que nos servem.

As pessoas não vão desconfiar de produtos grátis ou demasiado baratos?
Na economia tradicional, faz sentido ser desconfiado. Às vezes os produtos grátis são um truque. Às vezes não. Já na economia digital, ninguém desconfia de algo que seja gratuito. É esse o estado natural das coisas.

No artigo da Wired em que apresenta o tema do livro, fala de cenários futuristas do modelo gratuito…
Leu esse artigo na revista impressa ou no site? É que esses cenários são improváveis. Não digo que não aconteçam, mas são piadas, exercícios mentais. Na revista isso percebe-se melhor.

Porquê?
Porque a edição impressa é a versão superior. Neste caso, é uma questão de arranjo gráfico do texto.

Porque não oferecem a revista?
Oferecemos. Os conteúdos estão online. Você não pagou para aceder ao meu artigo.

Mas só tive acesso à versão inferior.
Certo. Usamos o modelo freemium. Funciona muito bem. Fazemos o leitor pagar uma pequena quantia (são os anunciantes que pagam a maior parte) para termos a certeza de que esse leitor quer mesmo ler-nos em papel.

Quando é que vamos ter um mercado inteiramente gratuito?
Nunca. Na economia tradicional alguém tem sempre de pagar. Pode ser o anunciante. Na maior parte das vezes será você.

Entrevista publicada a 23 de Outubro. Chris Anderson esteve em Portugal para a Digital Business Conference, organizada pela Associação do Comércio Electrónico em Portugal.

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4 comentários a Entrevista com Chris Anderson: A nova geração tem o conceito de grátis no ADN

  1. Também concordo, até porque o entrevistador conseguiu fazer com que as fragilidades da argumentação do entrevistado viessem ao de cima. Chris Anderson às vezes parece ser um autêntico vendedor de banha da cobra que está sempre repetir a mesma cassete…

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