Mais dez anos e a Google conhece os nossos genes

A 7 de Setembro de 1998, o motor de busca criado por Larry Page e Sergey Brin transformou-se numa empresa. Ontem, a assinalar a data, o Público traçou cenários de futuro para o gigante online.

Reproduzo aqui o longo artigo (para o qual pude contar com as ideias dos autores de Google – O Fenómeno que está a mudar o mundo), que fica a perder sem o bem conseguido arranjo gráfico da Marija Paunovic.

Mais dez anos e a Google conhece os nossos genes

Há exactamente dez anos, dois estudantes de doutoramento em Standord, EUA, decidiram fundar uma empresa a partir do motor de busca que tinham criado. Larry Page e Sergey Brin, 35 anos, começaram então a mudar a Internet. Agora que a Google completou uma década, o plano dos visionários (e multimilionários) fundadores parece ser mudar o mundo.

Desde o início que a Google reflecte o estilo de Page e Brin, dois entusiastas da matemática e dos computadores que muito raramente usam fato e gravata. “A Google é como um campus universitário gigante”, explica ao PÚBLICO David A. Vise, jornalista americano premiado com um Pulitzer e autor do livro Google – O Fenómeno que Está a Mudar o Mundo (Editorial Presença). Vise lembra que Page e Brin são ambos filhos de académicos e que têm uma paixão pela ciência e tecnologia.

Esta faceta tecno-entusiasta dos dois – já os negócios são geridos por Eric Schmidt, um muito mais experiente executivo, que usa gravata e não anda pelas instalações de patins – tem feito mais do que simplesmente dar à empresa o espírito jovial e inovador por que é (e faz questão de ser) conhecida: Page e Brin empurram a Google em direcções que não seriam as mais óbvias para uma companhia que nasceu como um motor de busca na Web. “Dentro de dez anos, a Google estará envolvida em avanços fascinantes no campo da genética e da exploração espacial”, acredita Vise.

Pesquisa genética

Se não houvesse outras razões, uma bastava para que Page e Brin estivessem interessados na investigação genética: parte do sucesso da Google parece dever-se aos genes dos próprios fundadores.

Sergey Brin, de origem russa, é filho de dois matemáticos e desde cedo mostrou propensão para as ciências exactas (a grande inovação do motor de busca da Google foi quantificar a popularidade de uma página, recorrendo a um algoritmo que tem vindo a ser progressivamente melhorado). Já Larry Page, americano, é filho de um cientista computacional e de uma programadora informática. E o irmão mais velho, Carl Page, foi um dos criadores do site eGroups, que o Yahoo comprou por 500 milhões de dólares um ano antes de a Google nascer.

“Brin é apaixonado pela intersecção da genética e da tecnologia”, garante David Vise. Em 2007, a Google investiu 2,7 milhões de euros na 23andMe, uma empresa de investigação genética, fundada pela cientista Anne Wojcicki – nada menos do que a mulher de Sergey Brin. Por 700 euros, a 23andMe elabora uma análise detalhada às características genéticas do cliente, o que inclui informação sobre a probabilidade de contrair determinadas doenças ou uma descrição dos talentos naturais.

Esta, contudo, não é a única incursão da Google no mundo da saúde pessoal. O Google Health é uma ferramenta que permite ao cibernauta guardar online – e pesquisar a qualquer momento – todo o historial clínico, incluindo informação sobre doenças, medicação e resultados de exames e diagnósticos.

A empresa quer ainda usar os dados inseridos pelos utilizadores para retirar conclusões estatísticas, que ajudem a descobertas na área da medicina: por exemplo, determinar o número de pessoas com problemas cardíacos numa determinada região, ou apurar que tipo de pessoas têm mais tendência para contrair determinadas doenças. “A Google está a trabalhar em vários projectos que permitirão às pessoas fazer pesquisas sobre os seus genes, aprender mais sobre a sua constituição genética e perceber o que isso significa em termos dos alimentos que consomem ou dos medicamentos que tomam”, explica David Vise.

O céu não é o limite

Mark Malseed, co-autor com Vise de Google – O Fenómeno que Está a Mudar o Mundo, não tem dúvidas: “A Google vai promover uma nova era de exploração espacial, ao espalhar a informação que recolhe em parceria com a NASA. O interesse das pessoas pelo espaço atingirá um nível recorde e a Google será o centro de tudo isso”.

A previsão não é demasiado futurista. Em 2005, a Google e a NASA assinaram um acordo de colaboração. Em 2006, assinaram outro. A parceria toca quase todas as áreas da exploração espacial, desde a gestão e armazenamento de quantidades gigantescas de dados, à criação de programas de computador. Mais uma vez, é Brin o grande entusiasta da ideia de ir para o espaço. Brin conta fazer uma viagem espacial dentro de alguns anos (e vai descolar da Rússia).

A capacidade de expansão da Google pode parecer ilimitada. Mas há obstáculos sérios nos próximos anos, diz David Vise. Um dos problemas é que conceito inicial parece estar a desvanecer-se. Um dos mais famosos slogans da empresa é “Organizar a informação do mundo e torná-la universalmente acessível e útil. O outro é “Não ser má” (Don’t be evil).

A Google, contudo, está a tornar-se “má”. Pelo menos, é o que dizem os activistas de direitos humanos e organizações como a Amnistia Internacional, que criticam a empresa por pactuar com os regimes de censura em países como a China.

“Há o risco inerente ao medo que a sociedade tem de haver demasiado poder nas mãos de uma entidade”, recorda o autor de Google – O Fenómeno que Está a Mudar o Mundo. “A Google tem que ter cuidado e evitar tornar-se arrogante, apesar do poder a nível global. Mas isto vai contra a natureza humana.”

Outro desafio será gerir o crescimento explosivo, “sem cometer nenhum erro significativo e sem perder aquilo que torna a empresa especial”. Uma tarefa tanto mais difícil, quanto mais gente a Google contrata, fazendo com que cada funcionário vá perdendo a ideia de que é realmente importante.

“Vamos descobrir o ‘ADN’ da empresa quando esta, por uma razão ou por outra, for encostada à parede”, observa David Vise. “A Google será testada quando, inevitavelmente, cometer um grande erro”.

O que está a Google a fazer?

A Rede é o computador

Tipicamente, cada computador tem instalados programas para todo o tipo de tarefas – escrever textos, ouvir música, alterar fotografias, editar vídeos – e armazena os ficheiros criados pelo utilizador. Mas, cada vez mais, as tarefas podem ser executadas online, em sites sofisticados que imitam as funcionalidades dos programas informáticos. E os ficheiros, em vez de estarem guardados em cada máquina, ficam armazenados nos computadores de grandes empresas (como a Google ou a Amazon), acessíveis a qualquer momento e a partir de qualquer dispositivo com ligação à Internet. Ao novo paradigma, chama-se cloud computing (computação na nuvem) e a Google é das empresas que mais interesse tem em impulsionar a mudança. A empresa já oferece várias aplicações online que permitem trabalhar em documentos de texto, folhas de cálculo ou apresentações, à semelhança do que acontece com o Word, Excell ou Powerpoint, da Microsoft. O browser da Google, lançado no início desta semana, foi talhado para facilitar o uso destas ferramentas e é mais um passo na direcção do cloud computing.

A maior biblioteca do mundo

A Google lançou em finais de 2005 um serviço de pesquisa em livros. O conceito é simples: os livros são digitalizados e o conteúdo é pesquisável numa página semelhante à da busca na Web. Se os direitos de autor do livro já tiverem expirado, ou se houver um acordo com o detentor dos direitos, a obra fica disponível na íntegra. Caso contrário, é possível aceder apenas a excertos. Várias universidades de renome já aderiram ao projecto, disponibilizando milhares de obras para digitalização e consulta online. Em Portugal, a Universidade de Coimbra foi a primeira, e até agora a única, a fazê-lo.

Tradutor automático

A Google oferece um serviço para tradução de textos ou páginas Web em mais de 100 línguas. A compreensão da linguagem humana é um dos grandes desafios dos cientistas computacionais – e os computadores estão ainda longe de serem bons tradutores. O serviço da Google tem muitas falhas, mas a empresa desenvolveu sistema que permite aos utilizadores corrigirem as traduções feitas pelo computador, que assim vai aprendendo e melhorando. “A Google fará com que qualquer falante de uma das principais línguas do mundo possa ler instantaneamente material escrito em qualquer outra língua”, prevê Mark Malseed, co-autor de A História do Google.

Controlar o telemóvel

Há muitos mais telemóveis do que computadores no mundo. E o próximo computador pessoal será o telemóvel. Quem defende esta ideia é o presidente executivo, Eric Schmidt, que não esconde o interesse em atacar este mercado. A empresa já tinha parcerias com vários fabricantes de telemóveis para que a pesquisa fosse integrada nos aparelhos. Mas, em Novembro do ano passado, anunciou o lançamento do Android, uma espécie de sistema operativo para telemóveis, a ser desenvolvido por um consórcio de mais de 30 empresas de tecnologia.

Império da publicidade

Os pequenos anúncios de texto, cujo conteúdo está relacionado com as páginas que os cibernautas visitam, são quase a única fonte de receita. Mas a Google está a avançar para experiências fora da Internet: já testou formatos publicitários em rádio e em televisão. E a entrada no mercado dos telemóveis dá à empresa mais um gigantesco canal para colocar anúncios. Há analistas que acreditam que dentro de dez anos esta será a empresa tecnológica mais importante do mundo (ultrapassando gigantes como a Microsoft) e aquela com maior valorização bolsista.

Pesquisa inteligente

O fundador Larry Page afirma que, numa escala de um a dez, a pesquisa da Google ainda não ultrapassou o nível três. Numa declaração que gerou preocupação, o presidente executivo Eric Schmidt traçou, em Maio de 2007, os objectivos: no futuro, um utilizador poderá perguntar ao motor de busca do Google que emprego deve escolher. O cenário ainda é longínquo. Mas o motor de busca vai agregando informações sobre os utilizadores, para que os resultados das pesquisas (bem como os anúncios publicitários) sejam cada vez mais personalizados.

Base de dados genética

A pesquisa no campo da saúde e da genética é um dos interesses dos fundadores da empresa. A Google investiu em vários projectos na área (incluindo uma empresa que faz testes genéticos) e já lançou o Google Health, que permite manter um historial clínico detalhado. Na próxima década, a Google poderá armazenar informação genética sobre alguns utilizadores, que poderão usar a Web para saber mais sobre eles próprios.

A caminho do espaço

Faz parte do estereótipo: os fãs dos computadores gostam têm um fascínio pela exploração espacial. Larry Page e Sergey Brin não são excepção. Ao abrigo de parcerias com a NASA, a empresa tem trabalhado em projectos de investigação na área, nomeadamente no tratamento de grandes quantidades de dados e no armazenamento de imagens de satélite (como as que estão disponíveis a qualquer pessoa no Google Earth).

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Um comentário a Mais dez anos e a Google conhece os nossos genes

  1. Nao quero ser alarmista!! Viram o Resident Evil (a ficção pode tornar-se realidade) LOLOl

    para descontrairem, um pouco 😀
    Gosto da Google e tem um grande espirito social. Estão a contribuir para o fim que se propuserem alcançar o clouding computing vai permitir que as pessoas comprer PC’s mais baratos, pois nao precisam de ser tão exigentes… quero voltar ao velhinho 486 e utilizar o Word 2015 😀

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