Ministério da Cultura: A cultura como epifenómeno

Rui Maria Pêgo é o Ministro da Cultura no programa satírico que passa, todas as sextas, no Canal Q. Na foto, com a actriz Sara Norte,

Rui Maria Pêgo é o Ministro da Cultura no programa satírico que passa, todas as sextas, no Canal Q. Na foto, com a actriz Sara Norte,

Às sextas-feiras à noite o canal Q (22h30, com repetições várias), no meio da sua incrível irregularidade, tem um espaço de sagacidade e inteligência dedicado à cultura e ao modo como, balofamente, esta acredita que a repetição de qualquer coisa, ideia, projecto, intenção se torna, por si mesma, numa verdade.

Chama-se Ministério da Cultura, é conduzido por Rui Maria Pêgo e dedica-se, paulatinamente, a inventariar modos de abordagem a epifenómenos culturais, sendo ou não de grande consumo. A evidência de falta de meios e a brevidade do programa (que raramente chega aos 5 minutos) não são impedimento de um modo de olhar para o que é a fronteira invisível entre a divulgação e o jornalismo televisivo. Precisamente usando a seu favor essas duas condicionantes o programa tem-se dedicado a olhar para as estreias de espectáculos e filmes, os lançamentos de livros e discos, as exposições e as modas e epifenómenos culturais, sem esquecer questões de política cultural. Mas o modo como faz, ao mesmo tempo com uma candura e distância crítica, nunca abandona uma marginalidade apenas possível para quem quer pensar o modo como tudo o que faz a agenda cultural da capital cumpre uma rigorosa agenda retórica.

Assim, vindo das margens do jornalismo cultural, e fazendo por elevar o nível de comentário ácido e irónico que o programa Inferno, onde está inserido, se esforça por fazer, Ministério da Cultura é uma fascinante viagem aos bastidores de um meio e de um discurso que se sustenta em imediatez e acredita na fachada como garante de uma seriedade.

Sob a forma de “despachos”, o “ministro” Rui Maria Pêgo tanto procura saber o que aconteceu à escultura de Joana Vasconcelos que ocupava a entrada principal do Museu Berardo, como vai à Feira da Ladra perguntar quem deveria ocupar o Panteão Nacional. E se vai ao Teatro Nacional Dona Maria II para acompanhar uma estreia, também dá espaço a uma exposição de fotografias caseiras ou se diverte a percorrer as ruas de Torres Vedras para descobrir os segredos da longevidade do carnaval ou ainda o que de fascinante possa existir em subir ao Aqueduto das Àguas Livres para tirar fotografias a uma paisagem desoladora.

Provocador como o programa pretende ser – e usando a seu favor o facto de nem Ministério da Cultura existir – há no piscar de olhos que faz a uma cultura de entretenimento um desejo de construir sobre ela (por cima dela, eventualmente) um discurso que, mais do que a antagonizar, a leve a perguntar em que espelho deseja ser reflectida. No episódio dedicado ao “caso Miró”, o “ministro” entrevistou a ex-ministra Gabriela Canavilhas, dando-lhe margem para não apresentar outra solução verdadeiramente eficaz para a resolução do caso. Facto tanto mais extraordinário quanto a coincidência desse discurso oficioso ser, em larga medida, o da vox populi, interpelada pelo mesmo “ministro” para encontrar uma solução.

A chave de Ministério da Cultura está precisamente aqui: no modo como, ao invés de nivelar o discurso sobre a cultura de modo a torná-la acessível – palavrão demagógico que tanto percorre os corredores das instituições como o das redacções – usa a aparente dificuldade em matéria construtiva. E, assim, capitalizar sobre um estado das coisas, sobre uma espécie de ar-do-tempo, que, ao pretender distinguir-se, normaliza e banaliza.

Da feira do livro a exposições de pintura, das red carpets à Moda Lisboa, “os despachos” do “ministro” mostram uma realidade complexa e rizomática mas que acredita que a função da televisão é a de divulgar. Ora, precisamente como provava o episódio desta semana, observar o que possam ser modos de expressão cultural não significa, necessariamente, contemporizar com uma ideia de distância que a televisão possa oferecer. Como se, por ser televisão, não pudesse haver uma reflexão. E, havendo uma reflexão, que esta não possa ser feita através de um gestos que não denunciam, não acusam nem se colocam à margem do problema.

Por uma vez invertendo o destinatário, o Ministério da Cultura criou a Serviço de Protecção de Artistas, uma espécie de agência que acompanha os seus associados, assegurando que têm o que precisam para criar. Uma espécie de serviço imaginário que combinaria as intenções das comissões de acompanhamento da Direcção-geral das Artes com o zelo com que a Sociedade Portuguesa de Autores gosta de garantir que os seus associados pagam as quotas que, mais tarde, poderão, ou não, reverter em pensões de reforma.

Num gesto arriscado, convidaram Sara Norte, um dia actriz, hoje mais conhecida por um passado recente de drogas e prisão, a mostrar como se estava a comportar e, no fundo, como poderia continuar a merecer a confiança daqueles que gostam de ver a vida dos outros pelo filtro narrativo da televisão. De uma assentada a crítica é feita aos reality-shows, ao jornalismo de investigação e à relação entre artista e espectador. Há modelos comportamentais que são mais aceites que outros? E a quem pertece uma imagem quando a vida parece pública?

A força do episódio está na entrega da actriz. A frase “aceitei isto para ver se pingava mais trabalho” é de uma acidez irresistível e de uma cativante comoção, que nos deixa surpresos com a consciência do jogo dúplice que se aceita jogar quando se expõe a vida em público (o pretexto cultural está lá, há um livro que foi lançado). Mas, ao criar um dos mais extraordinários momentos de humor – seja ele cínico, corrosivo, irónico ou simplesmente, adulto e inteligente – e ao se atirar de frente, e corajosamente, ao mundo das estrelas e das expectativas que estas causam num público que se acredita culto, o Ministério da Cultura provou estar a caminhar para um lugar que abana a sisudez do jornalismo cultural.

Claro que é o programa é amplamente irónico e não pretende ver-se confundido com o jornalismo cultural corrente. Mas basta ver como, em episódios anteriores, os mesmos que respondem à imprensa, esperam de Ministério da Cultura o mesmo tratamento, para percebermos que o que Rui Maria Pêgo e a sua equipa fazem é usar esse erro de cálculo a seu favor. São, afinal, apenas veículo de um desejo de afirmação.

O espaço merecia mais do que os cinco minutos que lhe dão num falso noticiário. Vejam e depois digam lá se não estamos perante um modo de fazer e inventar não só um espaço para pensar o que é, como nos chega, e como vimos o que denominamos como cultura, mas também a possibilidade de construir um discurso sobre o modo como a televisão constrói a realidade.

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>