Esperança

A Ballet Story, de Victor Hugo Pontes (fotografia José Peixoto)

Das duas, três: ou o teatro e a dança nos ajudam a perceber melhor como olhar para a frente sem tropeçar, ou, na décalage entre o palco e a realidade, o que vamos ver vai acabar por se mostrar inútil. Considerando os avanços dos últimos anos, nunca se desmantelou tão depressa o que tão arduamente se conquistou. Todos, dos espectadores aos programadores, dos artistas à imprensa, a dizerem que a cultura é fundamental, o teatro uma benção e a dança uma alegria e, contas feitas, não há palha para o elefante, nem gargalhadas para o palhaço.

Ver o quê, se da ficção não podemos esperar nada a não ser uma clausura que faz acreditar que tudo é possível? Essa clausura dir-nos-á como sobreviver quando as luzes se acenderem? Veremos o que houver para ver, o que tiver sobrado depois de tantos cortes, nos poucos espaços que ainda programam a longo prazo, mesmo sem saberem qual é o prazo, e que vivem num dilema: continuar a programar companhias estrangeiras com dinheiro que seria útil para as portuguesas, ou dar o bodo aos pobres e, com isso, cavar ainda mais fundo o fosso que nos separa do que se faz lá fora? A dúvida faz ainda mais sentido agora, a quatro meses de não se saber se vai poder haver 2013. Por isso, o que até lá se for apresentando, é o que nos vai alimentar nos meses que faltam até ao prometido regresso aos mercados.

Se é verdade que não há guerras nem mortos nas ruas, nem há prisões ou censura, também não há refugiados, assistência médica ou reunioes de conselhos superiors de anónimas instâncias internacionais que nos acudam. Mas há um clima de instabilidade, de insegurança, tão pouco metafórico e tão pouco ficcional que não há ficcção que ajude a pensar para lá do medo que muitos dizem existir, mesmo havendo quem diga que não é bem assim. Mas ninguém sabe. E ninguém diz, não vá dar-se o caso de…

Dois mamutes, contudo, parecem simular que está tudo bem neste circo de lona de papel: Guimarães 2012 e o Ano de Portugal no Brasil e do Brasil em Portugal, acontecimentos faraónicos num país que continua a gostar mais do efeito, do embrulho e da celebração. Ainda assim apetece esperar por Novembro, altura em que João Pedro Vaz irá até ao berço da nação dizer, em Capital & Cultura, que a arte, a servir para alguma coisa, serve precisamente para se pôr em causa. Teatro de reacção, estocada quase final no minotauro iludido no seu labirinto.

Até lá, A Cidade,de Olga Roriz,  The Select (The Sun Also Rises), pelos Elevator Repair Service, a partir de Hemingway, e Casas Pardas, encenação de Nuno Carinhas a partir de Maria Velho da Costa, far-nos-ão regressar à palavra, afinal o único território ainda por desbravar. O único lugar onde, na solidão do que nos assusta e nos fez sair e escolher ir perder horas na ilusão, ainda é possível caminhar de olhos fechados.

Mais coisas que ainda valem a pena: Anne Teresa de Keersmaeker e Jérôme Bel em 3Abschied, mostrando que nem tudo está definido. Solveig Nordlund de volta aos dramas de Bergman (Cenas da Vida Conjugal), indagando se o terror de lá de fora não vive já cá dentro, na nossa cama, Rui Horta questionando se o estado em que vivemos não pede já corpos disponíveis para a luta (Estado de Excepção), desejando que os corpos poéticos que desenha sejam corpos, afinal, guerreiros, dos que lutam por causas sem esperar resultados.

Vale a pena perguntar o que ainda vale a pena porque não sabemos o que fica das poucas apresentações de cada espectáculo – num jogo retórico entre orçamento, lei da oferta e da procura e simples desistência. Da impossibilidade de saber se vamos querer viver num país de recolectores, o que fica?

Nunca se atirou tanto para todo o lado sem se saber se é o nome do autor que vende e o que faz de um texto o texto certo – a falsa pós-modernidade, como a crise, permite tudo a todos (quantos Strindbergs, quantos Shakespeares, quantos Becketts continuaremos a ver usados como um reles embrulho roubado à pressa numa loja de conveniência?

Mas basta apenas um espectáculo para que uma rentrée valha a pena, e esse espectáculo pode ser A Ballet Story, de Victor Hugo Pontes, que chega agora a Lisboa depois da estreia em Guimarães sem orquestra, porque a Capital Europeia da Cultura se esqueceu, não quis ou não soube pensar a tempo. A Ballet Story é, sem mais palavras, a melhor hipótese de redenção proporcionada pela e à criação nacional desde há muito tempo. Continuar a sair para ir ver o que ainda se apresenta é acreditar que todos os espectáculos podem ser como este. Ou, melhor, que em todos eles devíamos poder projectar o que este nos fez sentir: esperança.

 

Versão integral do texto publicado no ÍPSILON a 14 de Setembro 2012

Um comentário a Esperança

  1. Muito projetos seriam e alguns foram de alta qualidade se além da falta de verbas as tidas pessoas não monopolizassem o poder local de quem é que deve ocupar o posto de coreografo, bailarino, profissional da dança e teatro. Não podemos esquecer muitos padeceram deste mal e só os tidos escolhidos tiveram o apoio e apareceram na cena teatral. Ser português não é só quem nasce no país. Perdidos na mesquinhez e no bairrismo tornaram estes profissionais invisíveis pois assim é mais conveniente, com a desculpa que devemos é valorizar o que é 100% português. Ser português é aquele que abraça o país como se fosse o dele e por vezes ama até o mais. O mais o mais importante é ser humano, é ser 1º pessoa, é ser cidadão de um país de adoção. Agora a Pergunta? O que é mais América? O que mais Inglaterra? O que é mais Canadá? O que é mais Brasil?
    Com falsas falas e de um cinismo enorme deixaram morrer um potencial de pessoas que cá vieram e cá ficaram.
    E alto lá: se for da comunidade europeia até arregaçar as calças pode mesmo que seja para ser comido.

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