Avignon em 4 linhas ou menos III

ATEM LE SOUFFLE , de Josef Nadj (Photo : Christophe RAYNAUD DE LAGE)

 

O que mais incomoda na encenação de Stephane Braunschweig é a ausência de um ponto de vista na leitura que faz de Seis personagens em busca de um autor, de Pirandello. O encenador confunde o tempo de hoje com os anos 20, quando a peça foi feita, ensaiando uma relação conflitual entre o teatro e a realidade a partir da distância sugerida pelas relações virtuais das redes sociais e do vídeo. Mas o modo como faz, numa encenação linear e com interpretações mal defendidas, quando não mesmo caricaturais, revela um chocante exercício de demissão de reflexão, como se quisesse apenas cumprir uma lista de afazeres dramatúrgicos.

 

Josef Nadj tem em Attem (Le Soufle), na fotografia, um dos mais perturbadores momentos do Festival. A peça, inspirada em gravuras de Durer, é vista à luz de velas, no interior de uma caixa preta cheia de truques manipulados pelo coreógrafo e uma bailarina. É uma peça de câmara, feita de gestos mínimos, muitas vezes imperceptíveis, e que mete medo, porque nos força a uma atenção que não se esperava. E, apanhando-nos em falso, desvia-se completamente do que poderíamos prever, criando um ambiente de tensão, no corpo e no olhar, que perturba. Em Novembro apresenta-se no TNSJ, no Porto.

 

Christophe Honoré deveria deixar de escrever peças sobre adolescentes quando os próprios adolescentes não as sabem representar. La Faculté, texto de Honoré para uma encenação inexistente de Èric Vigner, é um texto de pacotilha, que mistura crime racial com homofobia numa cidade anónima. A peça, interpretada por sete actores que confundem tensão com gritos, é um falhanço em toda a linha: na sua previsibilidade, na ausência de conflito, na exposição dos problemas que sugere, na capacidade de sair de uma ideia de well made play, o modelo dramatúrgico inglês que Honoré tanto gosta de citar.

 

Em Le Trait, a coreógrafa Nacera Belaza mostra que o seu trabalho chegou a uma espécie de beco. O mesmo dispositivo frontal, o mesmo movimento feito a meio caminho entre o transe e a desconstrução, um trabalho sonoro que deveria ampliar as leituras mas asfixia os movimentos, e um desejo de evasão que não tem direcção. A coreógrafa diz que esta peça vem explicar muito do que fez até agora. Mas o que identifica é a dificuldade em sair de uma imagem de marca. Uma decepção.

 

Avignon em 4 linhas ou menos II: Sidi Larbi Cherkaoui, Jérôme Bel, Guillaume Vincent

Avignon em 4 linhas ou menos I: William Kentridge, Simon McBurney, Katie Mitchell, Lina Saneh e Rabih Mhroué, Christoph Marthaler

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