Avignon em 4 linhas ou menos

Refuse the hour (enc. William Kentridge; foot John Hodgkiss)

 

Christoph Marthaler pode fazer-nos rir com a sua adaptação inocolasta dos princípios de poder e subjugação que estão presentes em Pigmalião, de Georges Bernard Shaw, usando inclusivamente parte da banda-sonora do filme My Fair Lady. Mas depois de algumas gargalhadas, de um humor slapstick, fica o quê de Meine Fare Dame? Uma espectadora diz que o mais perigoso dos teatros é aquele que parece que não nos dá nada. Espectáculo ao qual regressar para desenvolver ideias.

 

Juliette Binoche é vítima do seu voluntarismo e do olhar cândido que sobre ela é lançado constantemente, como se fosse a última das divas de trazer por casa que a França tem. Ontem, na Cour d’Honneur, e em directo na France Culture, tratou de estragar tudo o que Simon McBurney havia deixado por desinteresse, na leitura de From A to X, de John Berger. Gritou o que os seus pulmões não deixavam, comeu as palavras que deveriam ser densas e, no fim, fomos todos para casa sem podermos aplaudir o único homem que merecia ser aplaudido: John Berger.

 

Lina Saneh e Rabih Mhroué fazem do teatro um documento ou de um documento o teatro, por vezes com uma inteligência esmagadora. Desta vez, em  33 Tours et quelques secondes, uma ficcionalização do suicídio de um encenador activista, deixam os espectadores em frente a uma parafernália de máquinas, vendo as entradas na conta de facebook do rapaz. Uma hora para digerir e regurgitar a mediatização da morte, num exercício que parece inacabado sobre o lugar da tecnologia na revolução.

 

Smon McBurney leu demasiadas vezes o romance The Master and Marguerita para saber que em momento algum o que ali se diz só tem um modo para poder ser interpretado. E, no entanto, enche o texto de uma encenação visual asfixiante, que nunca permite que o próprio texto respire. As animações em 3D podem impressionar, mas o moralismo com que McBurney constrói a sua narrativa no interior do romance mata qualquer compaixão que se possa ter por aquelas personagens.

 

Katie Michell pode fazer o que quiser que parece que o faz com uma facilidade que incomoda. O modo como estrutura uma encenação a partir do livro de W. G. Sebald Os Anéis de Saturno, recriando os tempos narrativos através da manipulação do som, como num trabalho de sonoplastia ao vivo, como cruza diferentes filmes e mais aquele que está a ser feito em palco, e retira aos actores qualquer intenção de expressividade para, depois, os conduzir para o interior da própria narrativa, transforma a sua encenação num magnífico mistério.

 

William Kentridge, em Refuse the hour (na imagem), parte da sua história para uma história universal, ao usar as reflexões que produz sobre a fixação da imagem – no caso dele, em vídeo, animação ou desenho – para falar de arquétipos sociais, colonização e globalização. Acompanhado de um elenco de versáteis músicos e bailarinos, Kentridge constrói uma ópera visualmente intrigante e dramaturgicamente complexa. Mas fá-lo como se estivesse a falar de temas que temos como comuns. E, por isso, deixa que entremos na peça como se fosse nossa.

 

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