A Bíblia: impressões sobre a série (II)

755866Já se tinha perce­bido, pelo modo como haviam con­struído um per­curso den­tro das várias histórias do Antigo Tes­ta­mento, que a intenção dos pro­du­tores e argu­men­tis­tas da série A Bíblia, não era uma reflexão – teológ­ica ou, sim­ples­mente, de dra­matur­gia tele­vi­siva – sobre os mis­térios de inter­pre­tação que os livros sagra­dos con­têm. Aquilo a que a SIC inti­t­u­lou como “segunda parte” da série, numa inex­plicável – a não ser por aproveita­mento mediático – con­den­sação dos episó­dios em duas tardes, esclarece, se dúvi­das hou­vesse, que os objec­tivos prin­ci­pais de A Bíblia cor­re­spon­dem a uma evan­ge­liza­ção super­fi­cial, ao invés de uma inscrição dos val­ores inscritos nos livros que a compõem.

Dir-se-á que é uma leitura para os tem­pos mod­er­nos, mais inter­es­sada em garan­tir que, pela veloci­dade e pouca explic­i­tação, a curiosi­dade ficará saci­ada e, pelo menos, des­per­tará alguma con­sciên­cia. Mas é impor­tante reforçar que a série foi con­ce­bida para um público amer­i­cano, pro­fun­da­mente envolvido – e cada vez mais – numa leitura apoc­alíp­tica, em vez de inter­pre­tar as escrit­uras como um guia e não como um texto deter­min­ista.
Dir-se-á que é A Bíblia para os tem­pos de crise de val­ores. Mus­cu­lada no ataque às ofen­sas, gen­erosa no que puder cap­i­talizar a favor de um argu­men­tário salví­fico. Não viria daí mal ao mundo se, ao longo do argu­mento, os episó­dios não fos­sem mani­eta­dos de modo a se con­cen­trarem numa espé­cie de redenção pela chegada de Cristo e con­de­nação de todos os que con­tra ele se insurgiram.

É de lamen­tar que assim seja. A riqueza da Bíblia está, pre­cisa­mente, no modo como espelha as con­tradições do ser humano e per­mite que nos pos­samos rever, crentes e não crentes, em acções que pro­duzem con­se­quên­cias e em decisões que inter­ferem grande­mente com os val­ores que dize­mos defender.

De uma maneira geral, os argu­men­tis­tas optaram por uma car­ac­ter­i­za­ção plana das per­son­agens, por uma pince­lagem gros­seira dos con­tex­tos e uma desatenção con­sciente às difer­entes per­cepções que, então, exis­tiam em torno da fé e da luta pelo poder.

O aspecto mais evi­dente desta opção reside no modo como os romanos surgem na história, pre­tendo os argu­men­tis­tas mostrar que a pre­ocu­pação maior estava na fé dos que seguiam Cristo. Acon­tece que, his­tori­ca­mente, os romanos eram uma cul­tura pan­teísta e, por isso, menos pre­ocu­pa­dos com um culto ou uma fé monoteísta. A sua maior pre­ocu­pação estava con­cen­trada na ordem pública e não no culto. Por isso, as reacções que tiveram, por pressão dos judeus, concentraram-se no modo como a pre­sença de alguém que uns viam como Mes­sias impli­cava, por exem­plo, na colecta de impos­tos. Daí a  importân­cia vital de um episó­dio como a expul­são dos vende­dores do tem­plo, que dev­e­ria per­mi­tir mostrar um Cristo colérico e não, como sucedeu, sim­ples­mente perturbado.

A difi­cul­dade de com­preen­são do que terá lev­ado à con­de­nação de Cristo tem a ver com a impos­si­bil­i­dade de esclare­cer os motivos que levaram os judeus a pres­sionar e os romanos a actuar. O diál­ogo ente Pilatos e o líder dos judeus, que insis­tiu na inscrição “Aqui jaz Jesus, O Nazareno, rei dos Judeus”, vem daí, da com­preen­são de que não exis­tem cul­pa­dos claros nem cúm­plices descartáveis.

Por isso, e inevi­tavel­mente, a pressão é colo­cada em que inter­pre­tar Cristo, que, na difi­cul­dade de per­cepção das intenções do out­ros, deve ser sufi­cien­te­mente caris­mático para não causar dúvi­das sobre o equívoco – leia-se, os receios que causava – dos outros.

Diogo Mor­gado, o actor por­tuguês que foi escol­hido para inter­pre­tar Jesus Cristo está longe de desiludir mas ainda mais longe de impres­sionar. Nem todas as respon­s­abil­i­dades lhe podem ser assacadas. O modo como a real­iza­ção trata a figura de Jesus, filmando-a con­stan­te­mente em câmara lenta, ilu­mi­nada de modo a per­tir que um halo de luz lhe cubra a cabeça e não per­mitindo que o actor rep­re­sente senão através de “más­caras expres­si­vas”, impe­dem uma ver­dadeira car­ac­ter­i­za­ção. Tem razão Stephen Col­bert quando no seu pro­grama The Col­bert Report, diz que “Diogo Mor­gado é demasi­ado bom para poder ser crit­i­cado”. É mais do que isso: demasi­ado dis­tante, demasi­ado holo­grá­fico, demasi­ado puro. A empa­tia faz-se não pela dom da retórica mas pelo facto de estar a rep­re­sen­tar Jesus Cristo, como se a per­son­agem exis­tisse antes do actor, em vez de ser o actor a fazer-nos chegar até ela (nat­u­ral­mente existe, mas não é esse o ponto aqui — é de uma ilus­tração, de uma con­strução, no lim­ite de uma fic­cional­iza­ção, que se trata)

Ainda assim, é uma van­tagem quando com­parado com as out­ras fig­uras que nunca têm margem para qual­quer inter­pre­tação. Os exem­p­los mais chocantes serão mesmo Maria Madalena e Judas, pivôs da com­plex­i­dade da figura de Cristo e, aqui, ape­nas peões numa nar­ra­tiva superficial.

Dir-se-á, para con­cluir, que não se pode fazer teolo­gia pela tele­visão. Seria ver­dade se não fosse pela tele­visão, pre­cisa­mente, que se fizesse evan­ge­liza­ção e não fosse através da tele­visão que muitos dos gru­pos que foram con­sul­tores desta série procurassem os seus fiéis. O sucesso da série nos EUA começa a explicar-se por aí, sabendo-se dos vision­a­men­tos colec­tivos. Poderá ter fun­cionado nos Esta­dos Unidos. E, sobre­tudo, poderá ter fun­cionado por o tempo de res­pi­ração entre cada episó­dio ter sido à ordem de um por sem­ana – servindo os episó­dios como aula de cate­quese seguida de amplo debate. A opção da SIC  de con­den­sar em duas tardes a série com­pleta, per­tur­bou a relação que a mesma pode­ria criar com o público para a qual se diri­gia e até mesmo criar novos. Da série de de leitores da Bíblia.

 

Leia a parte I

A Bíblia: impressões sobre a série (I)

Screen Shot 2013-03-30 at 7.04.12 PMUma série sobre a Bíblia pro­duzida por um apoiante de Sarah Pallin, pro­du­tor de real­ity shows e tendo como con­sul­tores vários gru­pos reli­giosos que, no seu con­junto, não são senão expressões mar­gin­ais de uma mesma fé, mas poucos líderes reli­giosos con­gre­gadores, pode­ria ser má se não fosse pior ainda.

A exibição na SIC não aju­dou, é ver­dade, porque não respei­tando o tempo dos episó­dios, acelerou as cenas e editou-as, em inter­va­los (e sobre­tudo no fim), sem respeitar o tempo nar­ra­tivo de cada um dos guiões originais.

O prob­lema maior não estará, por isso, na expec­ta­tiva que uma série sobre a Bíblia possa criar. A recor­rên­cia aten­uou a expec­ta­tiva e a plu­ral­i­dade da oferta diminuiu o poten­cial mobi­lizador de uma série. A maior frag­ili­dade está no modo como tenta, ambi­ciosa­mente, con­den­sar sem um ponto de vista dra­matúr­gico, um con­junto de episó­dios que, ainda hoje, care­cem de uma leitura lin­ear. O resul­tado não é senão uma ver­são digest da Bíblia, prej­u­di­cando, em nome de uma espec­tac­u­lar­i­dade que já não é de fé mas de ime­di­atismo, uma inscrição dos val­ores nela inscritos e que servem para os crentes e não crentes como val­ores fun­dadores (entre out­ros nat­u­ral­mente) da sociedade da qual somos herdeiros.

O Antigo Tes­ta­mento coloca dúvi­das de inter­pre­tação nos mais diver­sos teól­o­gos, pre­cisa­mente pelo con­fronto entre a crença e a fé pedida aos homens num Deus que surge, por diver­sas vezes, exi­gente e vinga­tivo. Por isso, o cuidado na fic­cional­iza­ção de uma história, já de si exer­cí­cio de con­strução que serve um propósito claro, dev­erá obe­de­cer a uma clar­i­fi­cação con­tra­bal­ançada. Ou seja, sujeita os argu­men­tis­tas a um tra­balho de inter­pre­tação que é, em si mesmo, um exer­cí­cio de con­strução que não pode ser frag­ilizado por opções ide­ológ­i­cas – como acon­tece com os episó­dios do pro­feta Samuel, dos reis Saul e David, e da luta por Jerusalém por aque­les a quem a terra foi prometida – ou de econo­mia estri­ta­mente nar­ra­tiva, como acon­tece com os episó­dios de Abraão e Samsão.

A série que a SIC agora exibiu, e que está a ser anun­ci­ada como um sucesso de audiên­cias num canal de cabo, não faz traz nada de novo, é ver­dade. Mas tam­bém, ao não con­seguir fazer tra­bal­har a seu favor essa ausên­cia de novi­dade, não con­segue a res­pi­ração necessária que sus­tente as escol­has feitas. Pelo con­trário, inven­taria episó­dios, con­densa os acon­tec­i­men­tos e apressa a car­ac­ter­i­za­ção das per­son­agens partindo do princí­pio de que os espec­ta­dores com­ple­tarão o que falta. Acon­tece que o público-alvo para o qual a série se dirige, inscrito num processo de evan­ge­liza­ção mais vasto nos Esta­dos Unidos da América, não é con­hece­dor das sub­tilezas do Antigo Tes­ta­mento. Mais, com a pro­fusão de séries e filmes que trans­for­maram as histórias bíbli­cas em con­fron­tos de super-heróis – ou trans­for­maram super-heróis em descen­dentes de fig­uras inscritas na Bíblia – a dis­tân­cia entre a imagem e história tornou-se ainda maior. E a série é disso con­hece­dora. No iní­cio é Noé quem surge como nar­rador e, à per­gunta de um dos seus fil­hos – “Porquê?” – anun­ciando a dúvida que per­manecerá como irresolúvel per­ante as escol­has dos homens e a reacção de Deus, responde: “Más decisões, más decisões”.

A história que se seguirá será, por­tanto, a história dos que fiz­eram as escol­has cer­tas, seguindo as indi­cações de Deus – Abraão, Moisés, Sam­são, Saul, David, Daniel – e aque­les que dele duvi­daram, ou que, pos­sivel­mente por Deus, foram colo­ca­dos no cam­inho dos homens bons para testarem a sua fé.

Curiosa­mente, a série perde para os filmes bíbli­cos que, ao longo dos anos, con­struíram as ima­gens que lêem a Bíblia e que, por isso mesmo, se tornaram rep­re­sen­tações direc­tas – e dilec­tas – das fig­uras e dos fac­tos.  E até para as séries, mesmo as feitas para os canais por cabo, e por­tanto com menos meios, que têm, nos últi­mos anos ten­tando recriar tem­pos históri­cos aprox­i­ma­dos. Basta com­parar a trav­es­sia do mar ver­melho com o filme de Cecil B. DeMille, Os Dez Man­da­men­tos, feito em 1956 com muito menos meios tec­nológi­cos do que hoje se colo­cam à dis­posição dos pro­du­tores e real­izadores, e perce­ber que o prob­lema não são os efeitos visuais mas a sim­pli­ci­dade do argu­mento. E perde ainda para a reflexão teológ­ica ao não per­mi­tir que se instale a dúvida sobre as difer­enças entre os homens bons e os out­ros, apel­i­da­dos de infiéis quando a fé não tinha ainda encon­trado a sua forma monoteísta, quando, na acel­er­ação do argu­mento, sim­pli­fica e car­i­catura as relações entre eles. O episó­dio de Sam­são, numa espé­cie de car­ac­ter­i­za­ção sim­pli­fi­cada que o trans­forma num Hulk antes do tempo, é disso exemplo.

A ênfase colo­cada nos episó­dios que ante­ce­dem o surg­i­mento de Jesus Cristo jus­ti­fi­cariam o tempo que a série lhes ded­ica, nomeada­mente con­siderando que Jesus se definia como “filho de David”. Mas a sim­pli­fi­cação dos fac­tos sug­ere uma pressão do lobby pró-israelita, visível pela insistên­cia com que falam da “terra prometida”, que car­ac­ter­iza os sol­da­dos como guer­reiros escol­hi­dos e clas­si­fica todos os opo­nentes como fil­is­teus bár­baros. Ou seja, a preparação para a chegada de Jesus Cristo – e que, por­tanto, intro­duzirá a pre­sença de Diogo Mor­gado – é feita assu­mindo uma pre­missa que, de ime­di­ato, lança pis­tas para um debate que, nos Esta­dos Unidos da América, e em par­tic­u­lar para a dire­ita reli­giosa e con­ser­vadora, nunca foi pacífica.

A inter­rupção abrupta do 5º episó­dio, por força do iní­cio do Jor­nal da Noite, impede esclare­cer de que modo vai a série respon­der à pressão colo­cada sobre os judeus, impe­di­dos pelo rei da Babiló­nia de rezar por um mês. A questão é essen­cial porque o fim do Antigo Tes­ta­mento sig­nifica, tam­bém, a resposta que enquadra as acções de um deus vinga­tivo e prepara um novo mundo, onde o sofri­mento dos homens será per­son­ifi­cado pelo filho de Deus, sac­ri­fi­cado pelo próprio pai.

 

Con­tinua.

Dia Mundial do Teatro: duas sugestões

Screen Shot 2013-03-27 at 1.23.32 PMHoje é Dia Mundial do Teatro, são mais que muitas as ini­cia­ti­vas que querem levar as pes­soas às salas, com entrada livre, debates e encon­tros. Aqui ficam duas propostas:

 

1. Às 18h30 são entregues, no Jardim de Inverno do teatro São Luiz os Prémios da Crítica, atribuí­dos pela Asso­ci­ação Por­tuguesa de Críti­cos de Teatro. Este ano os dis­tin­gui­dos são o ence­nador Rogério de Car­valho, pelas ence­nações dos espec­tácu­los Deva­gar (As Boas Rapari­gas) e O Doente Imag­inário (Ensem­ble), ao Teatro dos Aloés, pelo espec­táculo Jura­men­tos Indis­cre­tos, e à Primeiros Sin­tomas, pelo espec­táculo Salomé, e ainda ao fotó­grafo João Tuna. A entrada é livre.

2. A Hemeroteca disponi­bi­li­zou, dos seus arquivos, um con­junto vasto de revis­tas e jor­nais pub­li­cadas entre 1839 e 1912, con­sultável online. Expli­cam: “Percebendo o lugar de destaque que o Teatro assumia nos gos­tos e hábitos da sociedade lis­boeta, os edi­tores iden­ti­ficaram um nicho de mer­cado a explo­rar. A selecção que apre­sen­ta­mos cobre o período de 1839 a 1912, e cor­re­sponde à iden­ti­fi­cação, na nossa coleção, de pub­li­cações per­iódi­cas espe­cial­izadas em Teatro. O con­junto foi com­ple­tado com a mono­grafia Os The­atros de Lis­boa, de 1875, da auto­ria de Júlio César Machado e com ilus­trações de Rafael Bor­dalo Pin­heiro, que com o seu traço “fotografa” e sat­i­riza cenas, tipos e usos dos três grandes teatros de Lis­boa: o São Car­los, o D. Maria e o Trindade. Com este valioso con­junto, ficamos com um retrato do meio teatral por­tuguês do século XIX e iní­cio do século XX: tex­tos teatrais, críti­cas a ence­nações, biografias de atores, e muito mais infor­mação que esper­amos vir a val­orizar os estu­dos sobre Teatro.”

Kunsten já tem programação

A próx­ima edição do Kun­sten­Fes­ti­valde­sArts já tem pro­gra­mação que pode ser con­sul­tada aqui. No pro­grama inclui-se Três dedos abaixo do joelho, de Tiago Rodrigues. No pro­grama avança-se ainda que Par­tita 2, de Anne Teresa de Keers­maeker e Boris Char­matz tem co-produção da Fun­dação Calouste Gul­benkian, o que admite que a peça possa vir a ser apre­sen­tada em Lis­boa, e que a nova peça de Antoine Defoort, Ger­mi­nal, co-assinada com Halory Goeger, é co-produzida pelo Alka­n­tara Fes­ti­val. O Kun­sten decorre em Brux­e­las de 3 a 25 de Maio.

Claude Schmitz

Claude Schmitz

Oito e meio: do filme ao teatro e de volta ao filme

Achteinhalb-La_Saraghina

Estreado em 1963 o filme  8 1/2, de Fed­erico Fellini, foi, como explica hoje Fran­cisco Valente no PÚBLICO, um choque cin­e­matográ­fico. Ainda ninguém tinha ques­tion­ado direc­ta­mente o cin­ema de autor desta forma. Os ecos do filme ainda hoje se sen­tem, diz o artigo, por exem­plo no modo como inte­gramos a visão de Quentin Taran­tino sobre o cin­ema. Mas em 1982 essa influên­cia foi lev­ada ainda mais longe. Est­reava, em Nova Iorque, um musi­cal, inti­t­u­lado Nine, que adap­tava o filme para palco, recriando algu­mas cenas e intro­duzindo uma par­ti­tura que explo­rava as dúvi­das e as lig­ações ape­nas intuí­das pelo guião de Fellini. Vence­dor de 5 Tony, o musi­cal foi um sucesso no iní­cio de uma época em que a própria sen­sação de perda de imag­i­nação estava a frag­ilizar a econo­mia da Broad­way. Anos mais tarde Rob Mar­shall, o mesmo que adap­tou Chicago para o cin­ema (outro exem­plo daquilo em que na acad­e­mia se chama genética teatral, por ter começado como uma notí­cia de jor­nal, pas­sado a peça de teatro, trans­for­mando em musi­cal e adap­tando para filme), levou Nine para o cin­ema, procu­rando fazer com que Daniel Day-Lewis fosse o Fellini que Marcelo Mas­troianni inter­pre­tara em 8 1/2. O filme foi um fra­casso de crítica e público.

Eis três excer­tos que mostram como uma mesma ideia pode ser adap­tada de difer­entes for­mas. A pros­ti­tuta Saraghina e as memórias de infân­cia de Guido.

 

No filme de Fellini (1963)

 

Na ence­nação do musi­cal Nine (1982)

 

No filme Nine (2009)

Avignon abre o apetite

 

(Foto Francis Braun)

(Foto Fran­cis Braun)

photoApre­sen­tada hoje em Avi­gnon, a 67ª edição do fes­ti­val traz nomes que fiz­eram a história das últi­mas 8 edições, dirigi­das por Hort­ense Archam­bault e Vin­cent Bau­driller, naquela que é a última edição que dirigem.

- Stanis­las Nordey encena Peter Handke na Cour d’Honneur com Jeanne Bal­ibar e Emmanuele Béart.
- Jérome Bel apre­senta o espec­táculo que há dois anos está a preparar com os espec­ta­dores de Avi­gno (o espec­táculo será trans­mi­tido em directo pela France2)
- Anne Teresa de Kers­maeker e Boris Char­matz apre­sen­tam Par­tita 2, encon­tro entre os dois coreó­grafos que se estreia, em Maio, em Bruxelas.
- War­likowsky inspira-se nos musi­cais de Bob Fosse e no filme Short­bus, prom­e­tendo regresso a um dos seus mais felizes espec­tácu­los, Angels in Amer­ica, onde provou que a América dos anos 80 podia ser a Poló­nia dos anos 2000.Warlikowsky instala-se para um ate­lier de por­tas aber­tas durante 15 dias na Fábrica, o espaço que será o legado de Hort­ense Archam­bault e Vin­cent Baudriller.
- Philippe Quesne regressa com Swamp Club, a peça a par­tir da obra de Bruegel que marca os 10 anos da Vivar­ium Studio.
- Monika Gin­ters­dor­fer e Knut Klassen (que já estiveram no Maria Matos e se estreiam final­mente em França).
- E ainda Jan Lauw­ers, Chris­t­ian Rizzo, Angel­ica Lidell, Falk Richter, Jean-Michel Bruyére, Faustin Linyekula, Rim­ini Pro­tokoll, Sophie Calle, os artis­tas asso­ci­a­dos Dieudonné Nian­gouna, o extra­ordinário Brett Bail­ley, artista sul-africano que responde à letra sobre a vio­lên­cia dos europeus em África.

- E os artis­tas que foram asso­ci­a­dos dos últi­mos 10 anos, e out­ros que fiz­eram a histórica mudança do fes­ti­val, mar­carão pre­sença, numa noite, no palco da Ópera-theâtre: Olivier Cadiot, Guy Cassiers, Romeo Castel­lucci, Jan Fabre, Boris Char­matz, Fredric Fis­bach, Christoph Marthaler, Arthur Nauzy­ciel, Thomas Oster­meir, Alain Pla­tel, Pas­cal Ram­bert, Valerie Dre­ville, Pippo Del­bono. Não deixará de ser visto como uma demon­stração da vital­i­dade de um fes­ti­val que, a par­tir de 2014 será dirigido por Oliver Py.

- Nicholas Stem­man atira-se à inte­gral de Fausto, de Goethe, depois de no ano pas­sado ter cri­ado com Le Con­tract du Com­merçant, uma ácida leitura sobre os sub­prime a par­tir do texto de Elfriede Jelinek.
- Ludovic Lagarce faz Rei Lear na Car­rère de Boulbon.
- Katie Mitchell regressa (e não há maneira de chegar a Portugal?).
- Angel­ica Lidell, que os france­ses têm numa conta que eu não percebo, ocupa duas salas para finalizar a trilo­gia qu a levou à China.
- Aquela qu foi a Nora, de Oster­meier (talvez uma das mel­hores inter­pre­tações que vi da peça de Ibsen) faz um Nora-Tutta
- E Michel Houelle­becq é lev­ado ao palco com uma adap­tação de Julien Gos­selin, arriscado ence­nador de 26 anos, vindo de Lille para o seu primeiro fes­ti­val. Maguy Marin vai até Beirute com Wagon Libres (e nunca mais volta a Portugal?)

 

O pro­grama com­pleto será con­hecido em Maio. As bil­heteiras abrem a 17 de Junho. O car­taz é assi­nado pelo con­golês Kiripi Katembo Siku

Teatro Praga: a diferença entre saber fazer e inventar

Fotografia de ensaio por Daniel Rocha/PÚBLICO

Fotografia de ensaio por Daniel Rocha/PÚBLICO

Chegá­mos ao fim, diz o Teatro Praga que, dias 15 e 16 de Março no CCB (e depois no resto da Europa), inven­taria várias for­mas de o con­tar. A Tem­pes­tade é o último degrau de uma história que começa agora.

Houve um tempo em que para se falar do Teatro Praga — que este ano faz 18 anos — era pre­ciso imag­i­nar um con­texto para poderem exi­s­tir. Eles e out­ros, nat­u­ral­mente, num país teatral em trans­for­mação, onde já não serviam de muito as fron­teiras entre as difer­entes dis­ci­plinas, onde os espaços de apre­sen­tação mar­gin­ais eram, afi­nal, aque­les que impor­tavam face aos out­ros con­tra os quais se gri­tava. E onde o público, for­mado por uma década de even­tos que haviam trans­for­mado Lis­boa na cap­i­tal cul­tural que há décadas dev­e­ria ter sabido ser, não sabia se estava a ser con­vo­cado para um rit­ual ou a ser expulso desse ritual.

Esse tempo que acabou é agora con­vo­cado em A Tem­pes­tade, que hoje e amanhã se apre­senta no CCB inau­gu­rando uma digressão europeia que levará o Teatro Praga a Paris, Lon­dres, Roma e Berlim. É a leitura, “o diál­ogo”, dizem, que a com­pan­hia faz com a memória do texto escrito por Shake­speare, sem se saber se foi real­mente escrito pelo dra­maturgo em 1611, ao mesmo tempo que o cruza com a leitura, ou a refor­mu­lação, que Henry Pur­cell com­pôs em 1695, tal como os Praga haviam feito com Sonho de uma noite de Verão, tam­bém no CCB.

Shake­speare é, aqui, “uma ben­gala”, “pode ser tudo”, diál­ogo ou afronta a um texto que está incom­pleto mas que não fala senão de ilusão. E, como con­vém, de ilusão teatral. Volta­mos para encon­trar, de novo, um dis­pos­i­tivo cénico que con­voca difer­entes tem­pos nar­ra­tivos, nomeada­mente através do uso do vídeo, que pro­jecta as per­son­agens em palco para uma bidi­men­sion­al­i­dade da qual elas gostariam de se ver res­gatadas. Mas tam­bém, através dosmemento mori, uma evo­cação da morte através de más­caras, assi­nadas pelos artis­tas plás­ti­cos Cata­rina Campino, Javier Nuñez Gasco, Vasco Araújo e a dupla João Pedro Vale e Nuno Alexan­dre Fer­reira. E sobre­tudo, um texto cheio de ideias que se escon­dem atrás de uma parafer­nália visual e ref­er­en­cial que cor­rem o risco de pas­sar despercebidas.

São ideias que denun­ciam o pro­grama da com­pan­hia, que o põem em causa e per­spec­ti­vam o que se seguirá. São frases que guardam a dimen­são pre­monitória de uma ence­nação que se desenha entre a ideia de que o fim é a viagem que se faz ou o momento que eter­na­mente se adia. “Temos que tirar min­u­tos às horas”, diz André e. Teodó­sio, que inter­preta o mago Próspero, sen­hor da ilha mág­ica, como se dissesse que o tempo é uma con­strução porque “não fica nada”. “O que importa é a viagem.” É um espec­táculo que procura pen­sar como pode equi­li­brar “um lado poético hiper­bólico rel­a­ti­va­mente às out­ras peças” a par­tir de “uma nar­ra­tiva esquemática”, diz Pedro Penim.

Mesmo a ideia de um novo sen­hor que há-de vir exis­tia já. Em Título (2004) diziam querer sub­sti­tuir os vel­hos deuses por novos deuses. Hoje, sem deuses nem chefes, mas com regras e aus­teri­dade, a ideia ima­te­r­ial e pagã de um deus, ou de deuses, é sub­sti­tu­ida pela acção directa e efec­tiva de um sen­hor. “Se querem um novo sen­hor hão de o ter”, dizem. Um sen­hor, da guerra, do cap­i­tal, das finanças. “Quem procura uma ilha é porque está inter­es­sado numa outra noção de vida e não na per­spec­tiva de lucro. O lucro é para os con­ti­nen­tais . Aqui não há lucro. Há cock­tails. Há jacuzzi. Há espreguiçadeiras. Há sol.” Há, no fundo, poder que não se coad­una, nem se limita, pela obtenção de dinheiro.

A Tem­pes­tade fun­ciona sob princí­pios nar­ra­tivos que emu­lam a ideia-base do teatro da restau­ração, “onde o acessório foi cri­ado para dar sen­tido ao que é real­mente impor­tante”, acres­centa Penim.

O mecan­ismo já havia estado pre­sente em Sonho de uma noite de Verão(2010), onde a com­pan­hia ocu­pava o palco do Grande Auditório do CCB recriando a flo­resta de Titâ­nia e Oberon num estú­dio de tele­visão, assim fixando o abaix­a­m­ento do nível de exigên­cia do sonho — agora, como o dizem no texto, à la Jer­sey Shore, o real­ity show amer­i­cano que mostra as vidas de comuns feitas heróis trash da tele­visão. O teatro é, como já antes emAvar­ento ou a última festa (2007), a par­tir de Molière, cada vez mais um artifí­cio nar­ra­tivo que se rar­efaz até poder começar de novo. Daí a ideia de fim. A par­tir de agora, depois de cor­ri­dos os prin­ci­pais pal­cos do país, enc­etada a viagem para o cir­cuito inter­na­cional, à beira de inau­gu­rarem um cen­tro cul­tural no coração de Lis­boa, o Teatro Praga reconstrói-se. E, nesse processo de exposição, “a gramática é recon­hecível”. Ao longo dos anos, e esta peça comprova-o, o teatro do Teatro Praga foi de exclusão, con­trar­iando uma tendên­cia, e até mesmo uma estética, inclu­siva. Que sug­e­ria um cam­inho de acesso fácil ao main­stream qual­i­fi­cado. Na peça, Próspero diz ao irmão: “Esta­mos no mesmo barco e eu não quero estar con­tigo no mesmo barco [porque] és um traidor e [achas] que todos pre­cisamos da cul­tura e da arte mesmo aque­les que acham que não”. Esta é a chave do texto: o hara-kiri que a com­pan­hia faz em frente aos que com eles cresce­ram. No livro Who needs real­ism when you can have fak­ism?, que entre­tanto lançaram, comis­sari­ado por Susana Pomba, recu­peram uma entrevista-diálogo feita para o jor­nal Expresso em 2006, onde André e. Teodó­sio diz, a propósito da afir­mação do ence­nador Luís Miguel Cin­tra sobre com­pan­hias com “uma imagem de marca, que por sua vez impede uma comu­ni­cação ver­dadeira”: “A questão é: todas essas com­pan­hias de difer­en­ci­ação vivem na eminên­cia de morrer”.

Mîse-en-abyme

Mais do que a falha, é um teatro da falên­cia, que vem sub­sti­tuir uma ideia de catástrofe e apoc­alipse, dis­farçado de festa, que car­ac­teri­zara as peças ante­ri­ores. Não será, por isso, impor­tante saber-se da história e do pas­sado do Teatro Praga para o mapa de refer­ên­cias no qual se desenha esta ilha. Mas ajuda saber que o Próspero de Teodó­sio traz, no corpo, a vio­lên­cia de Prom­e­teu Agril­hoado que o actor foi em Con­ser­vatório (2008), do mesmo modo que a groupie que Joana Bar­rios inter­pre­tará, tomando o nome de Miranda, filha de Próspero, teve, nessa mesma peça, o seu primeiro con­tacto com a com­pan­hia, sendo por isso um seu pro­duto. Do mesmo modo que na relação que Patrí­cia da Silva — a Ariel, visível ape­nas para Próspero, e sua cúm­plice -, esta­b­elece com Teodó­sio estão as memórias dos diál­o­gos filosó­fi­cos antagóni­cos que tin­ham em Agatha Christie (2005). E que a ideia de morte, mar­cada por Cláu­dia Jardim, que inter­preta a antag­o­nista Syco­rax, traz à memória a sua pre­sença, não ape­nas nesse Agatha Christie, onde morte se con­fun­dia com trágico e o modo como o teatro per­mi­tia uma con­fusão entre géneros e fron­teiras, mas tam­bém, e sobre­tudo em De repente eu (2003), espec­táculo a par­tir de A Noite e o Riso, de Nuno Bra­gança, como escreviam no pro­grama, de “recon­strução de uma ruína ou de um espaço vazio, recon­strução de uma vida ou de um momento decisório e deter­mi­nante, uma recon­strução descon­struída e desprovida de con­tinuidades”. Por fim, lem­brar tam­bém que António, o irmão de Próspero, é inter­pre­tado por Diogo Bento, que começou com o Teatro Praga através de uma audição feita durante um espec­táculo (Título) e se tornou numa espé­cie de dop­pel­ganger - som­bra pre­sente e ambígua — como se tornou evi­dente em Padam Padam (2009), a primeira peça onde os nomes dos actores eram, tam­bém, os nomes das personagens.

É “uma mîse-en-abyme per­ma­nente”, diz José Maria Vieira Mendes, um dos autores do texto jun­ta­mente com Pedro Penim e André e. Teodó­sio. “É um jogo que faz con­tas à obra”, diz, que ali­menta espec­u­lações sobre um duelo entre a real­i­dade e a ficção, do mesmo modo que se equi­li­bra, perigosa­mente, na fron­teira entre o que é nar­ra­tiva e o que é identidade. “Rich and strange”, ter­mina assim uma ária de Pur­cell can­tada por Ariel, usada por Alfred Hitch­cock para título de um dos seus mais mal-amados filmes, deter­mi­nando a ambição mas tam­bém a hipótese de son­har: “Full fathom five thy father lies,/ Of his bones are coral made,/ Those are pearls that were his eyes/ Noth­ing of him that doth fade,/ But doth suf­fer a sea-change/ Into some­thing rich and strange”. Afortunados e estran­hos, dir-se-ia do futuro do Teatro Praga que se avista por entre as bru­mas da tempestade.

 

Ver­são revista do texto Na ilha do Teatro Praga, pub­li­cado a 15 Março 2013 no Ípsilon

Não foi para isto que pagámos

Cartaz do filme Hiroshima, meu amor

Car­taz do filme Hiroshima, meu amor

 

Há algu­mas sem­anas o crítico de cin­ema do PÚBLICO Luís Miguel Oliveira defendia, nes­tas pági­nas, a neces­si­dade de pen­sar no modo como acedemos aos filmes. Vinha o comen­tário a propósito do regresso às salas, em cópia dig­i­tal, de Ver­tigo, de Alfred Hitch­cock, recor­dando uma frase do real­izador Quentin Taran­tino que afir­mara, acerca da invasão do dig­i­tal no cin­ema, que não tinha sido para isto que se havia inscrito.

O desejo de ver sujeita-se a regras e a princí­pios que não podem, nem devem, ser adul­ter­ados pelo sim­ples desejo de mostrar. Vem isto a propósito da con­fusão con­stante que a Leop­ardo Filmes, dis­tribuidora gerida pelo pro­du­tor Paulo Branco, faz entre o desejo de dar a ver e o de mostrar quando recu­pera, e bem, o apro­fun­dar da relação do espec­ta­dor com os filmes em car­taz exibindo para­le­la­mente out­ros que per­tencem a uma memória colec­tiva. É que erra no modo como o faz: insulta essa memória ao exibir filmes em for­mato DVD.O exem­plo recente, ainda em sala, de Hiroshima, meu amor, de Alain Resnais, cap­i­tal­izando o entu­si­asmo ger­ado pela inter­pre­tação de Emmanuele Riva em Amor, de Michael Haneke, é prova de como Paulo Branco, que durante anos con­struiu a imagem de defen­sor do cin­ema e da memória que, através dele, con­struí­mos sobre o mundo, ignora o que é a relação entre um espec­ta­dor e um filme. Ape­sar de a empresa ter rev­e­lado que com­prou dire­itos de exibição — e de a dis­tribuidora deten­tora dos dire­itos ter con­fir­mado ao PÚBLICO que foram adquiri­dos dire­itos de exibição em DVD -, joga-se aqui a aceitação tácita do abaix­a­m­ento do nível de exigên­cia. Hiroshima, meu amor pas­sou no Nimas, em Lis­boa, numa cópia em DVD, com fal­has ainda por cima, sem que os espec­ta­dores tivessem sido aler­ta­dos, pagando o preço de bil­hete nor­mal (6€) para ver um DVD em ecrã gigante.

Tratar-se-ia de um por­menor se não fosse inscrito numa lóg­ica mer­can­til e opor­tunista que tem como des­tino pre­visível a alien­ação dos espec­ta­dores das salas. A opção, que com­bina aproveita­mento mediático com entu­si­asmo ciné­filo, é jus­ti­fi­cada por um orça­mento reduzido face ao custo de uma cópia (em média 200 euros) e a uma procura que não jus­ti­fi­caria o investimento.

Não é a primeira vez que o DVD acon­tece nas salas de Branco. Acon­te­ceu, por exem­plo, nas salas do cin­ema King, em Lis­boa, com o ciclo ded­i­cado ao cineasta japonês Koji Waka­matsu. Não se espera que os dis­tribuidores façam aquilo que ao Estado cumpre — e que a custo a Cin­e­mateca, na sua escassez de meios, procura cumprir, como agora com o ciclo ded­i­cado a Hitch­cock, com cópias disponíveis dos seus arquivos. Mas espera-se que os dis­tribuidores, no con­trib­uto que dão para uma relação directa entre o desejo de mostrar e o de pro­jec­tar, sejam aten­tos aos modos como ali­men­tam a dis­tân­cia entre as salas e os espectadores.

Espera-se mais e mel­hor de quem ao longo dos anos elevou o nível de exigên­cia dos espec­ta­dores. Sob pena de que os que pagaram a sessão, por culpa de uma gestão irre­spon­sável, se afastem de modo inequívoco das salas de cin­ema. De Paulo Branco e não só.

 

Pub­li­cado no Ípsilon a 8 Março 2013