Reconheço a voz deste grito

AP / Anja Niedringhaus
Omar e Ahmed deram-me boleia na sua furgoneta. Sentei-me entre os dois rapazes, no banco de trás. À frente seguia o condutor e amigo dos irmãos, e o meu colega João Pina. O veículo tinha caixa aberta e lá atrás estava um caixote velho onde Omar e Ahmed transportaram uma carga que os enchia de orgulho: Ayman, o seu outro irmão, morto na véspera pelas forças de Khadafi.
Ayman tinha 18 anos, era o mais novo dos três. Queria ser médico. Tinha conseguido uma Kalashnikov e juntara-se a um grupo de combatentes rebeldes. Não chegou propriamente a lutar. Na estrada entre o grande centro petrolífero de Ras Lanuf e a aldeia de Benjawad, foi atingido por uma bomba.
Isto passou-se numa altura em que o vai-vem da guerra civil estava favorável a Khadafi – como sucedia a maior parte do tempo. As forças leais ao Governo avançavam, conquistando uma a uma as cidades que os rebeldes, num ímpeto de irracionalidade e inconsistência militar, tinham tomado, mas nunca verdadeiramente controlado.
O estado de espírito era de uma certa euforia delirante, uma mistura de desespero com o sentimento de liberdade próprio de quem já perdeu tudo. Havia uma embriaguez da violência, embora não no sentido que geralmente se atribui à expressão. Porque os rebeldes, salvo num ou noutro caso pontual, não eram os autores dessa violência que, diz-se, provoca excitação e volúpia. Eram antes as vítimas, ainda que não deixassem por isso de retirar da agressão o respectivo inebriamento.
Aos solavancos na velha furgoneta, na estrada que liga o centro de Bengazi ao cemitério de Matbara Awari, eu ia conversando com os dois irmãos. Eles contavam a sua história extraordinária, mas já não era fácil impressionar-me. Eu estava há três semanas na Líbia, depois de outras três no Egipto. Histórias de homens que deixaram tudo e estavam dispostos a morrer para derrubar o ditador já quase se tornavam monótonas para mim. Eu falava com os rapazes, mas sobretudo tentava perceber o que sentiam. A verdade é que não havia vestígios de tristeza no seu relato. Tinham perdido o irmão mais novo, mas isso parecia ter-lhes trazido uma grande satisfação. Referiam-se a Ayman como quem fala de um familiar que venceu na vida. Alguém que teve êxito e agora não se ia esquecer de onde veio, dos irmãos e da mãe, que tanto precisam de ajuda.
Eu olhava para eles, transbordantes de alegria, e em segundo plano entrevia, pelo postigo traseiro da furgoneta, o caixote com o cobertor ainda ou pouco sujo de terra, e lembrava-me das imagens terríveis de pedaços de carne que era obrigado a ver em pormenor, no hospital de Ras Lanuf e noutros locais onde chegavam feridos dos combates.
Por ser jornalista e poder contar ao mundo como os rebeldes eram vítimas indefesas dos crimes de Khadafi, queriam que eu visse os feridos. Que os visse bem. Quando chegava um corpo mais estropiado, faziam questão de que eu o observasse de perto.  Mas o que por alguma razão era considerado mais eficaz sob o ponto de vista da estratégia mediática era a exibição de pedaços. Apareciam-me com dedos, braços, retalhos de carne e órgãos. Uma vez quiseram que eu pegasse num bocado de cérebro.
E a vaidade com que faziam isso era a mesma que brilhava nos olhos dos irmãos Omar e Ahmed quando entraram no cemitério com o cadáver de Ayman. E igual à que impelia os jovens egípcios a afixarem na Praça Tahrir os retratos dos mártires dos combates contra os polícias de Mubarak.
Todas estas histórias de sofrimento e morte, que começaram com a de Mohamed Bouazizi que se imolou pelo fogo em Sidi Bouzid, na Tunísia, e de Khaled Said, espancado até à morte em frente a um cibercafé de Alexandria, são como gritos. Não gritos anónimos e secretos, ignorados, mas gritos dos quais se possa dizer: eu reconheço esta voz.
É o que têm em comum as revoluções no Egipto, na Líbia e em todos os países árabes onde eclodiram. Não foi a pobreza, a injustiça. Foi a angústia de não ter voz. A impotência perante a brutalidade e corrupção da polícia e das cliques governamentais, o sentimento de não poder queixar-se, não poder reagir, não ser ouvido.
Aos cínicos que criticaram o “embandeiramento em arco” dos jornalistas sempre direi que este sentimento não é necessariamente altruísta. Talvez não vise mais do que o interesse próprio.
Em todo o percurso da furgoneta, Omar e Ahmen não referiram uma única vez um ideal por que valesse a pena morrer. Com os dedos negros, por terem estado, descalços em cima da campa, a cobrir de terra, com as mãos, o corpo do irmão, falaram todo o tempo e apenas do seu morto.
(PÚBLICO)

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