Poetas como nós

David, Golgona e Diogo

David, Golgona e Diogo

Portugal, século XXI. Diogo sai do emprego e vai para casa ler durante toda a noite.  Ler várias vezes os mesmos poetas espanhóis. Fala-lhe mais alto quem lhe sussurra ao ouvido do que quem grita e discursa. É isso, para ele, a literatura.

David senta-se no seu gabinete da faculdade de Direito de Lisboa a reescrever pela centésima vez um poema a que deu o título de um livro de Filosofia Política.

Inês é professora e tem outra actividade. Esta, porém, é segredo para os alunos. Como olhariam eles para aquela a quem os críticos chamam “poeta do sinistro”?

Manuel folheia um livro raro, na livraria Paralelo W. Raro porque ele próprio não o edita mais, ou porque o autor decidiu renegar toda a sua obra passada. Raro porque é um livro de poesia e, como tal, não tem procura.

Na roleta russa da literatura jogou Salomé. Escreveu um livro e enviou-o para uma editora,  com a decisão: se não o aceitarem, nunca mais escrevo. A editora respondeu que publicava, por 2 mil euros. Salomé pagou e continuou a escrever.

Numa loja em Bruxelas havia uma caixa com muitos carimbos. Miguel escolheu nove. No momento em que os pagou, os carimbos tornaram-se donos da vida dele.

Golgona, que saiu à noite pela primeira vez aos 24 anos, na companhia do pai, está, como sempre, há 15 horas fechada na biblioteca da Faculdade de Letras. Escreve, como sempre, um poema a começar pelo fim: “Somos todas putas, rapaz, com ou sem vodka”. Seria integrado no livro “Vim Porque me Pagavam”.

Cai a noite. Nuno inicia a rota das tascas. Portugal, século XXI.

 

Diz-se que há um renascimento, uma geração de ouro, um novo Orpheu. Novas formas de vida e de liberdade, inspiradas pela poesia, que por sua vez as inspira. Uma nova cumplicidade entre a arte e a vida.

Começou com o século. Nos anos de 1990 há indícios fortes, algumas vozes fundadoras. Depois, a explosão. Em 2002, com Manuel de Freitas, os Poetas sem Qualidades e a Averno. Houve um efeito de fecundação e os poetas multiplicaram-se. Ou saíram das tocas. Há quem encontre a explicação no desencanto ou da angústia. Talvez tenha sido apenas a internet.

O facto, é que de repente há muitos poetas. É fácil nomear algumas dezenas. Editam livros, criam blogues, publicam em revistas, frequentam sessões de leitura, bares e livrarias de poetas. Não há crise na poesia. Ninguém a lê, mas isso pouco conta. Escrevem-na.

Há circuitos de grande caudal, por todo o país, com os seus pontos de encontro nas cidades e na net. O círculo de Lisboa é o mais concorrido, mas o Porto é inultrapassável no hábito de ler poesia nos bares. Coimbra organiza festivais, o Algarve tem um núcleo aguerrido. Há recitais, performances e até concursos de recitação, os Slam de poesia – uma espécie de festival da Eurovisão, desdenham os puristas.

São muitos poetas, conhecem-se, frequentam-se e lêem-se uns aos outros. Emulam-se. Nem sempre de forma pacífica, que o que está em jogo é muito sério. Não, não se trata de dinheiro nem fama, mas da arte, da tradição, da literatura portuguesa. Ninguém anda a brincar. Podem ter menos de 30 anos, mas já estão lançados num desígnio histórico: renovar as letras nacionais. E com elas o próprio país, pois que há de mais genuíno e valioso em Portugal do que a poesia? Quando tudo arder teremos os poetas.

Hipótese irresistível: a poesia é a arte portuguesa por excelência. Sempre foi melhor do que a prosa, e voltou agora a sê-lo. Melhor, ou pelo menos mais autêntica do que qualquer outra expressão artística. “A poesia é a única arte verdadeiramente autónoma em Portugal”, diz Manuel Margarido, escritor, editor e divulgador, através do blogue As Folhas Ardem, da nova poesia portuguesa. E não é o único a pensar isto. “Todas as outras artes sempre foram, cá, uma imitação ou um reflexo do que se fazia lá fora”, diz ele. “A poesia em Portugal sempre foi espontânea e original, livre de factores externos. Não precisa de influências para ter voz própria”.

Surge, em força, sempre que a sociedade se agita, estagna ou se estrangula, sempre que se ganha ou perde a liberdade, ou quando menos se espera. Uma segregação lenta e perene, resistente como uma doença endémica.

Ainda de acordo com a hipótese, conjugaram-se agora factores auspiciosos para que se formasse uma vaga provavelmente sem precedentes. “A partir de 2004 há uma multiplicidade de vozes”, diz Manuel Margarido. “Uma grande produção poética. Alguns autores são muito bons. Esta primeira metade do século será o berço de poetas que vão ficar na História da literatura portuguesa”, diz Margarido, que tem 51 anos e assistiu ao que achou ser a morte de um mundo e a eclosão de outro.

 

Quando Miguel Manso, 33 anos, escolheu os seus nove carimbos antigos, numa loja da cidade belga de Gent, ainda não sabia que estava a comprar uma estranha forma de liberdade. Mais ou menos por essa altura, e as datas confundem-se um pouco nesta história mítica, namorou com uma rapariga chamada Patrícia, por quem se apaixonou no preciso momento em que terminaram a relação. Era demasiado tarde, não havia nada a fazer excepto escrever dois livros de enfiada – Contra a Manhã Burra e Quando Escreve Descalça-se. “Escrevi-os para conquistar a Patrícia”, diz ele, à noite, sentado num café de Campo de Ourique. Foram duas edições de autor, com distribuição própria. E na capa de cada uma das obras apôs um dos carimbos belgas.

A segunda obra foi reeditada pela Mariposa Azual, e as seguintes foram motivo de interesse das várias editoras de poesia. Mas Miguel tomou uma decisão: editará os seus próprios livros até não ter mais carimbos. Já publicou cinco e teria tudo a ganhar em trabalhar com uma editora. Mas vai obedecer à lógica dos carimbos. Faltam quatro. Depois fará o que quiser.

Esta escravidão é a sua liberdade. “É uma intuição. Não quero tomar conta da coisa…”, explica ele sem explicar. Rejeitou outras submissões para se entregar àquela, irracional, arbitrária, sua. “Eu não quero trabalhar. Qiuero dedicar-me á arte a tempo inteiro. Quero ter a liberdade de apenas fazer isto”, diz ele referindo-se à poesia e outras práticas artísticas, como o filme que acaba de realizar. “A vida em geral é sempre uma luta contra o medo. Na poesia não tenho medo”.

Miguel Manso, natural de Santarém, só agora começa a convencer os pais de que não é um inútil. “Eles vão entrar agora na reforma, e eu já cá estou á espera deles”. Ultrapassou-os, para poderem andar a par. Geralmente é preciso fazer um percurso de escravidão, para, no fim da vida, se alcançar a liberdade, na reforma. Miguel quer começar precisamente por aí.

 

Sentada numa esplanada da Avenida Duque d’Ávila, em Lisboa, em frente a uma placa metálica com a inscrição “Marta Chaves – Psicóloga Clínica”, a poeta diz: “Não escrevo nas horas mortas”. Lá porque separa as duas vidas, não quer dizer que a poesia seja um hobby. Para Marta, 35 anos, o trabalho como psicóloga representa a subsistência, mas também a realização profissional. Trabalha muito, e gosta disso. No resto do tempo há a vida, o amor, os amigos. A poesia, essa, não ocupa espaço. “Não deixo de fazer nada por causa da poesia”. Embora a escreva todos os dias, pelo menos desde os 17 anos.

Funciona como uma espécie de legendagem da vida. “É como ver um filme e ler as legendas”. Sem elas, tudo ficaria incompreensível. “Escrevo para me tornar reconhecível para mim própria”. Não é um trabalho nem uma opção. “É como calçar 38. É assim”. Por isso não procura temas. Interpreta, mastiga, legenda o que vai sucedendo. Invariavelmente escreve sobre o amor, as relações. Não necessariamente enquanto acontecem, mas no tempo mental em que se prolongam e revelam.

Deixar de escrever seria perigoso.  “Só uma vez deixei de escrever durante três meses, e fiquei com medo de já não sentir. Escrevo para não perder a sensibilidade. Não me quero tornar espectadora”. A muitos acontece isso. “As pessoas desligam-se, para se defenderem. Mas as defesas não permitem o crescimento” (a psicóloga a falar). “Escrevo sobre a insegurança, sobre as hipóteses de perdermos a imaginação”. Foi por isso que no último sábado saiu de repente daquele bar. Esteve tanto tempo à espera que uma certa pessoa aparecesse… Depois, o importante foi não perder o que tinha imaginado durante a espera, nem a capacidade de imaginar. Correu para casa e escreveu quatro poemas. “Aprendo imenso com o que escrevo”, diz Marta. Já publicou três livros: “Onde não Estou Tu não Existes”, “Pensa que Deixou de Pensar Nela” e “Dar-te Amor e Tirar-te a Vida”.

 

É isto, então? É sobre os seus casos amorosos que escrevem os novos poetas? Voltemos atrás, ao momento fundador que foi a publicação, por Manuel de Freitas, da colectânea  “Os Poetas sem Qualidades”. O impulso já vinha formado, havia pelo menos uma década. Manuel Margarido toma por primeiro grande marco a publicação, em 1992, de um livro de ensaios de Joaquim Manuel Magalhães – “Um Pouco de Morte”. É ali que se separam as águas e se define o que será a nova poesia, por oposição à antiga. Nos anos 70, antes e depois da revolução, o que havia era a corrente do lirismo, os canónicos como Sofia e Eugénio, os poetas, orientados pela ideologia, “que querem salvar o mundo”, a corrente vanguardista da Poesia 61, no seu primado da palavra depurada, salvífica e redentora, a “palavra que transforma”. Isto segundo Margarido.

O livro “Um Pouco de Morte” representa um “corte epistemológico”. A partir daí, “a poesia é um valor em si. Não tem de estar ligada a ideologias ou idealizações. A poesia é puxada para a realidade, para o quotidiano”.

Não tem de limar as arestas da realidade, mas exibi-las sem receio. É esta a ideia que Manuel de Freitas retoma. Em 2002 cria a editora Averno e publica os “Poetas sem Qualidades”, com que pretende apresentar uma nova geração. Mas mais do que os poetas propriamente ditos, foi o prefácio da obra que se tornou influente e emblemático.

Nesse pequeno texto, Freitas explica a ironia da expressão “sem qualidades”, para opor os novos poetas à geração antiga que, segundo ele, há muito que não tem nada para dizer.

Começa assim o texto a que, desde logo, se passou a chamar o “manifesto”: “A um tempo sem qualidades, como aquele em que vivemos, seria no mínimo legítimo exigir poetas sem qualidades”. E segue caracterizando a sociedade contemporânea com recurso a Walter Benjamin, Eliot e Guy Debord, no seu primado da “quantidade” e da “mercadoria”. Neste “tempo sem qualidades”, o poeta tem de perder a sua “auréola”. É uma “responsabilidade estética”.

Para concluir: “A questão que hoje se coloca – em Portugal, que é onde estamos – prende-se sobretudo com o apreço ‘qualitativo’ por anacronismos e ourivesarias e com o ‘resto’. Esta antologia, que não foi subsidiada nem gastou solas no Parnaso, pretende contemplar isso mesmo: o(s) resto(s)”.

Entre os poetas “com qualidades”, e portanto a abater, Freitas nomeou Manuel Alegre e sobretudo Nuno Júdice. “Poeta promissor, em tempos mui recuados, Júdice tornou-se o emplastro vivo (quase isso, enfim) do culturalismo auto-suficiente. É um desses poetas que, quando quer parecer ‘contemporâneo’ de alguma coisa, quase torna palpável o esforço com que o faz, pensando certamente num público alargável ao seu génio. Trata-se, em suma, de um poeta cheio de qualidades”.

Como exemplo de poeta que fala da “cicatriz pungente de um tempo que é o nosso e das cidades e perfídias que nos matam” e apresentado Joaquim Manuel Magalhães. “Não como um bálsamo ou enquanto filosofia de salão; antes como uma ferida que sentimos próxima”.

Magalhães é referido como pertencente à “novíssima” poesia portuguesa, pelo que os seus discípulos, Manuel de Freitas à cabeça, se poderiam designar por pós-novíssimos. E já vão na segunda geração.

“O que de alguma maneira aproxima estes nomes (…) são, precisamente, as várias ‘qualidades’ que notoriamente não possuem. Estes poetas não são muita coisa. Não são, por exemplo, ourives de bairro, artesãos tardo-mallarmianos, culturizadores do poema digestivo, parafraseadores de luxo, limadores das arestas que a vida deveras tem”.

O “manifesto” provocou reacções. Júdice indignou-se. Eduardo Prado Coelho, que também é referido no texto, acusou Freitas de anatemizar todos os poetas do velho cânone, para impor o seu próprio. O escritor e crítico Eduardo Pitta passou a referir-se à revista Telhados de Vidro, dirigida por Freitas e Inês Dias, como o “órgão teórico do grupo dito dos ‘poetas sem qualidades’”.

“Criou-se um rótulo”, lamenta agora Manuel de Freitas, 40 anos, enquanto mostra os livros que vende na livraria Paralelo W. Admite que havia algo em comum naqueles poetas “sem qualidades”: a atenção “à realidade, ao quotidiano, às coisas banais. Não procuram temas nobres”. E admite também que a editora Averno serviu para “aproximar as pessoas”.

Na verdade, o que a Averno criou foi um culto. Publicou muitos poetas pela primeira vez, deu voz a alguns esquecidos, escolheu os melhores, segundo a nova visão, de que Freitas se tornava um símbolo. A poesia dele, aliás, era o paradigma, não só dessas novas temáticas que assumem a vida “com arestas”, mas também da qualidade literária que se procurava. Manuel de Freitas, todos o reconhecem, é um poeta excelente, que, desde os primeiros livros, não deixou de fascinar e atrair toda uma geração de poetas que se queria exprimir e afirmar. E a geração seguinte, que tem hoje entre 20 e 30 anos.

 

“Quando eu tinha 18 anos, o Manuel de Freitas era uma pop star”, diz, no café A Brasileira, do Chiado, Ana Salomé, hoje com 30 anos. Foi a minha influência. Ele e os poetas da Averno e da Telhados de Vidro, escreviam sobre a vida, de uma forma que parecia simples. No fundo, tinham uma forma de depurar a linguagem, que é difícil de conseguir. Mas parecia fácil. Tornava-os mais próximos de nós, não como os velhos poetas, que parecem viver noutro mundo. Estes eram pessoas desde mundo, que escrevem. Faziam-nos sentir, às pessoas da minha idade, que também nós podíamos escrever”.

Diogo Vaz Pinto tem hoje 27 anos. Na adolescência, idolatrava Manuel de Freitas. Com o amigo David Teles Pereira, de quem se tornaria parceiro em vários projectos literários, foram um dia ao funeral do designer Olípio Ferreira, um dos fundadores da Averno, só para verem Manuel. Não para lhe falarem, que a coragem não chegava para tanto. Para o verem.

“Eu lia o Manel como uma religião”, diz Diogo na livraria Ler Devagar, em Lisboa, depois da apresentação de um livro da sua própria editora. “A sua poesia é excelente, muda a vida de uma pessoa. Depois ele era muito agressivo nos ensaios que escrevia. E categórico”. Essas características angariavam-lhe seguidores. “As pessoas seguiam o Manel, obedeciam-lhe. Naquela altura, se o Manel me mandasse ler qualquer coisa, eu ia a correr fazer o que ele mandava. Ele era um verdadeiro líder. Hoje, há falta deles”.

A influência da Averno e Manuel de Freitas era tão intensa, que a certa altura foi preciso romper com eles. Os poetas multiplicavam-se, e a Averno não tinha lugar para todos. Os próprios critérios da Averno tendiam a anquilosar, queixam-se os poetas mais novos. Ou a confundir-se com os gostos pessoais de Freitas, ou mesmo as suas amizades, critica Diogo.

Há, a par com uma irrevogável deferência, também algum ressentimento e desilusão contra Manuel de Freitas da parte de alguns dos poetas mais jovens. De certa forma, é a rebelião necessária para a mudança de geração. Exactamente o mesmo que Freitas fez em relação a Júdice e Alegre. Diogo pensa aliás que essa revolução teve muito de artificial. Ana Salomé concorda. Todos aqueles males contra quem se insurgiam eram moinhos de vento. Os poetas mais antigos também falavam da realidade.

Diogo Vaz Pinto, com o colega da faculdade de Direito de Lisboa David Teles Pereira, fundaram a revista Criatura, e a editora Língua Morta. Tornaram-se, de certa maneira, os sucessores de Freitas. Os seus equivalentes para uma nova geração que tinha dificuldades em publicar na Averno.

Ana Salomé criou a revista Golpe d’Asa, com poesia e crítica. Não sem confronto com os “poderes instituídos” da pós-novíssima poesia. Manuel de Freitas apressou-se a escrever um artigo criticando as opções do primeiro número da Golpe d’Asa. Verberou acima de tudo o prefácio, escrito não propriamente por um poeta da vanguarda, mas pelo director da CLEPUL, o centro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa que financia a revista.

Há uma tensão permanente entre as revistas da primeira e segunda gerações, embora os mesmos poetas sejam regularmente publicados por todas. Há um certo “purismo” (termo que Freitas rejeitará) na atitude do grupo da Averno que suscita as críticas dos mais novos, e também a sua admiração.

Que responderia Manuel de Freitas, por exemplo, se fosse convidado para ler poemas num lugar como o Quintas de Leitura, no Porto, que dá visibilidade a muitos poetas. “Não ia!” é a resposta imediata. Só porque, por vezes, combina poesia com música ou outras artes performativas na mesma noite, o palco do Teatro do Campo Alegre não merece a solene presença de Freitas.

A mesma atitude incorruptível preside a todas as decisões da Averno, como por exemplo a de nunca fazer segundas edições (a Língua Morta, de Diogo e David, tem a mesma política). É sempre preferível editar um livro novo. A consequência é que muitas obras (as tiragens oscilam entre os 150 e os 300 exemplares) desaparecem para sempre. O próprio título “Poetas sem Qualidades” está há muito esgotado.

É por não ter quaisquer ambições lucrativas que a poesia é livre, diz Marta Chaves. Se fizéssemos algum esforço para que a poesia vendesse, isso afectaria a própria qualidade da poesia, explica Inês Dias. E Diogo acrescenta que, com a extinção da classe média, acaba o público da poesia. “Há 150 a 200 pessoas em Portugal interessadas em poesia”. Mais ou menos tantas quanto as que a escrevem. Provavelmente são as mesmas. O resto da população não quer saber, não precisa. Há demasiados divertimentos. “O tédio já não é uma fera”, diz Diogo. “O tédio hoje é um miau-miau. E o tédio é o grande motor da literatura”.

David Teles Pereira, 27 anos, costuma dizer, citando um poeta argentino: “A poesia não vende porque não se vende”. Com Diogo e Ana M. P. Antunes, fundou a revista Criatura, a partir da revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Direito. Tanto com essa iniciativa como com a editora Língua Morta, perde dinheiro. Ele e Diogo pagam, dos seus salários (David é assistente de Direito, Diogo jornalista no I) para que os livros dos seus poetas preferidos sejam publicados. Já editou 39 títulos. “Há autores que eu quero ler, e para isso tenho de lhe editar os livros”.

Isto acontece, explica David, porque as grandes editoras se demitiram da poesia. Houve um visionário, Hermínio Monteiro, da Assírio e Alvim. Depois da sua morte, a poesia foi quase abandonada. A seguir, outro grande mentor da poesia foi, segundo Diogo, foi Mário Guerra, conhecido como Changuito, que manteve a livraria Poesia Incompleta, na zona do Príncipe Real. Mas Changuito mudou-se para o Rio de Janeiro e a poesia ficou de novo órfã.

“A poesia está a morrer, e as pequenas editoras com a nossa não fazem mais do que fornecer-lhe alguns cuidados paliativos”, diz David. “O seu papel é apenas esse”.

 

Beatriz Hierro Lopes, 27 anos, está prestes a publicar um livro na Averno. Vive no Porto e veio à Paralelo W, em Lisboa (Rua dos Correeiros, 60, 1º esq) discutir o título, a capa e a selecção de textos com Manuel e Inês. É um livro não de poemas, mas de “fragmentos”, como ela diz. A primeira parte trata da família, a segunda da cidade. Beatriz trabalha no Porto Vivo, na Ribeira, e gosta de observar casa e quem nelas habita. “Encontrei um velho a chorar na rua, que me disse: ‘Sabe porque choram os velhos? Choram pelas suas mães’. Tinha de escrever sobre aquela realidade simples, de que nunca me tinha lembrado: os velhos tiveram mães, que já morreram. Foram crianças e tiveram mães”.

O principal tema de Beatriz é a perda. Na família sempre lhe falaram disso. E da beleza que persiste naquilo que se perdeu. Escreve todos os dias. Terminado um fragmento, envia-o por email ao amigo Manuel Margarido, às 21h30 em ponto. Às 22, Manuel telefona-lhe para ler o texto, tantas vezes quantas necessário para Beatriz perceber as alterações que terá de fazer. Manuel faz depois a revisão.

Quase todos os poetas fazem isto: enviam os textos uns aos outros, para correcção. Manuel não. “É um poeta subreptício”, diz Inês, que é casada com ele.

Golgona Anghel é romena. Veio para Portugal para seguir o pai, que é cônsul. Aprendeu português e ficou para fazer um doutoramento em Literatura portuguesa. “Durante dois anos em Lisboa, nunca fui à Baixa”, diz ela, na esplanada da Graça. Fechava-se na biblioteca da faculdade de Letras os dias inteiros. Começou pela Cidade e as Serras, depois o resto. “Por ordem alfabética”, explica. Também não está preocupada com o facto de ser pouco lida. “Penso nos leitores como algo que se cria. Nós escrevemos e só depois eles aparecem”.

 

Na Roménia, Golgona não conseguia escrever. “Por causa dos classicos, essas figuras horríveis da literatura romena”. Em português, não sente esse peso. Vê o facto de ser estrangeira como uma vantagem. “O poeta é sempre um ser fora do sítio. Eu já estou fora do sítio”. Há mais uma vantagem: “Se as coisas correrem mal, posso ir embora”. Não para a Roménia, porque o caminho é sempre em frente e não se pode voltar atrás. “Quando alguém vai embora, não deve regressar”.

Golgona não se sente integrada em Portugal, mas lê os poetas todos. “Eles são muito bons, e eu quero que o sejam, para me estimularem. Quando gosto de alguns, não só os leio: persigo-os”.

Não frequenta a Paralelo W nem locais afins: continua a passar 14 horas por dia na biblioteca. Escreveu uma biografia de Al Berto, editou os seus diários. Escreve poemas sobre a vida, sem olhar para trás. Nunca corrige. “Estou demasiado ávida de escrevre mais, como um cão que devora os ossos juntamente com a carne”. Começa os poemas pelo fim. O resto, é a criação de um cenário para depois destruir. “É preciso primeiro convocar o inimigo. Preciso de uma inversão de sentido. O poema cria uma interrupção. É como dar uma chapada em alguém. O poema partilha as armas com a política”.

Diogo diz que Golgona, que está há quatro anos com uma bolsa de pós-doutoramento, “é uma pistoleira na universidade. Ela chega, desata aos tiros, dá voltas à pistola como um cowboy”. “Escrevo com luvas”, diz ela. “Quando as tiro, as pessoas vêem que não tenho os dedos todos”.

Portugal, seculo XXI.  Nuno Moura inicia a rota das tascas. Todas as noites, começa no castelo, segue pela Mouraria… “Converso com as pessoas, ouço aqueles homens cheios de amargura e desespero. É com eles que aprendo e me inspiro. Vivo para os meus filhos e para os bêbados das tascas”.

Nuno escreve para recitar. A poesia para ele é sempre oral, não é para ler em silêncio. Gosta de participar em eventos colectivos, em performances, com teatro e música. Gosta de ler os seus poemas e os dos clássicos. Editou um livro com um cd, de poemas e música. A editora chama-se Mia Soave. Pediu dinheiro emprestado, para a edição. Recuperou o dinheiro mas já o gastou na sua própria sobrevivência. Vive assim. Não aceita subsídios de ninguém, apenas empréstimos de amigos, para os seus projectos literários. Ja trabalhou em publicidade, mas não aguentou. “Fazia anúncios para a Cofidis, que destrói as vidas das pessoas”.

O seu próximo livro intitula-se Drunk Walker e será lançado este mês. São os poemas da rota das tascas. Da Mouraria ao Intendente, Almirante Reis, Cais do Sodré. É a rota do bagaço, a 80 cêntimos o copo. Não escreve quase nada sem estar sob influência do álcool. Que lhe cria problemas com a família e os amigos. Miguel Manso é um dos seus melhores amigos. Uma noite, bêbado, Nuno provocou uma discussão com ele que acabou em pancadaria. A poesia da realidade tem destas coisas, o que alimenta a arte destroi a vida. Nuno sofre ao lembrar-se da briga com Miguel, e este, só de falar do assunto, começa a chorar.

São assim os poetas portugueses do século XXI. Vivem excessivamente, não estão interessados em ganhar dinheiro, lêem os clássicos, são generosos e, em muitos casos, brilhantes.

Sabem o que têm a fazer, nenhum está no desemprego. Nem em crise. “Os poetas estão sempre em crise” diz Golgona.

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