Passaporte para o Céu

Introdução

 

Esta não é uma história do passado. Por isso foi tão difícil terminar o livro, escrever o último ponto final. O texto tinha de ficar pronto, para a paginação, mas a história não acabava. Eu enviava para a editora a versão final dos capítulos e logo a seguir telefonavam-me as personagens, a acrescentar enredos, a alterar tudo, a mudar de sítio, de país, de actividade, de opinião… As personagens a serem deportadas para o deserto, a tornarem-se membros da máfia, a serem presas, roubadas, a terem filhos, a ficarem doentes, a morrerem.

E eu com um livro para acabar. Párem!, gritava eu em pensamento enquanto elas falavam ao telefone. Tenho um ponto final para aplicar. Mostrem alguma consideração por este ponto final. Mas eles não queriam saber. Como se não fossem personagens de uma história, mas de um labirinto. Não paravam. Nem eu. Este não é um livro de ficção e portanto cada novo elemento tinha de ser levado em conta, confirmado, completado e incluído no texto.

Vou desligar o telefone, pensava. Eles só existem enquanto eu continuar a ouvi-los. Ilusão. Eles não estavam só no meu livro. Estavam na minha vida.

Eles: Benjamim, Lazarus, Livingstone, Isaías, Emmanuel, Juliete, Aimee, Elly, Magdalene, Charity, Mohamed, o Mestre, o Americano…

E também os bebés, Sucess, Destiny, Lucky, Biggy, Blessing, Emmanuel, Josef.

Quando cheguei a Algeciras com o Nacho Doce, para cobrir, para o PÚBLICO, a “Operação Estreito”, em que as autoridades espanholas organizam a travessia dos milhares de imigrantes magrebinos que vão passar férias à sua terra, não sabia nada sobre os sub-saarianos que tentam atravessar de Marrocos para Espanha, para além das notícias e estatísticas que tinha organizado num dossier. E nunca pensei que eles, os “camarades”, iam entrar na minha vida.

Entraram pela via mais sinuosa,  clandestinamente. Através dos olhos derrotados dos vencedores.

Foi lá, no olhar opaco dos heróis, dos que já vivem na Europa, que entrevi pela primeira vez os caminhos secretos dos imigrantes. Os caminhos que não levam a lado nenhum.

Porque não estavam eles realizados e felizes? Porque não foram capazes de encontrar o ponto final da sua própria saga?

Depois reparei nos outros, nos que ainda não tinham conseguido entrar na Europa e faziam a sua tentativa ali mesmo, no porto. Escondidos na garagem do ferry, agarrados aos camiões…

Tal como os guardas fronteiriços, eu não podia deixar de lhes seguir a sombra pelos muros, de os ver saltar sobre os veículos, entranhar-se-lhes nos eixos. Também eu não os podia deixar partir e os trouxe algemados ao pensamento.

Depois conheci o Padre Pateras, o franciscano que dava albergue às africanas que chegavam grávidas. Acabei por atravessar o Estreito, para ir ver, nos arredores de Tânger, a floresta onde os africanos esperavam anos pela oportunidade de chegar à Europa.

Regressei a Lisboa mas fui mais cinco vezes a Marrocos. Ficava uma semana, dez dias. Até aos limites da tolerância da Policia e das máfias.

Passei dias com os imigrantes nas furtivas pensões de Tânger, dormi na aldeia de Rah Rah, na floresta de Missnana, visitei o bosque de Ben Yunes, na fronteira de Ceuta.

Assisti à missa de domingo, numa clareira de Missnana, ouvi os que ficaram doentes ou feridos, os que foram assaltados ou deportados dez vezes e voltaram a pé.

Entrevistei os pastores evangélicos, os lideres africanos e os mafiosos marroquinos.

Segui até à estrada de Marbella, na Andaluzia, até à praça do Intendente em Lisboa, as nigerianas condenadas à prostituição pelos seus contratos com a máfia.

O dossier de notícias e estatísticas transformou-se, para mim, na história dos “camarades”. A história que não consigo acabar.

Às costas espanholas da Andaluzia e das Canárias chegam regularmente barcos clandestinos vindos de Marrocos, com imigrantes africanos. Centenas de cadáveres de imigrantes africanos costumam também dar às costas espanholas. Milhares de imigrantes ilegais africanos tentam todos os meses passar a fronteira de Ceuta. Estas são as notícias.

Imigrantes sem documentos interceptados na fronteira de Ceuta entre 2000 e 2004: 159094, segundo a Guarda Civil de Ceuta.

Número de estrangeiros que chegaram em pequenos barcos às ilhas Canárias entre 2001 e 2004: 31 801, segundo o Ministério espanhol do Interior

Número de deportados das ilhas Canárias, entre 2002 e 2004: 12 705, segundo Departamento espanhol de Imigração.

Imigrantes detidos em pequenos barcos na costa espanhola da Andaluzia, entre 2002 e 2004: 22 292, segundo o Ministério espanhol do Trabalho e Assuntos Sociais.

De acordo com a Cruz Vermelha de Tarifa, mais de dois terços dos imigrantes que chegam àquela costa são sub-saarianos e metade destes são do sexo feminino. Mais de 20 por cento das mulheres vêm grávidas ou com bebés.

Estas são as notícias e as estatísticas.

Também se sabe que a maioria dos ilegais que chegam a Espanha acabam por ser libertados, após alguns meses num centro de detenção, e vão trabalhar em condições miseráveis nas estufas de Almeria, ou na agricultura sazonal ou na construção civil em vários países da União Europeia. Muitos estão em Portugal.

É também vagamente sabido que grande parte das mulheres é obrigada a prostituir-se, mal põe um pé na Europa. E também que a essas mulheres, vítimas de perseguição e abuso sexual, não é reconhecido o direito de asilo em nenhum pais europeu. Talvez se saiba que há bebés que foram concebidos com o exclusivo propósito de serem passaportes para que as mães possam estabelecer-se na Europa. E que depois são abandonados.

Talvez se saiba tudo isto mas a história dos “camarades”, essa, permanece desconhecida. É-nos inatingível, porque não lhe vislumbramos o sentido.

Estamos demasiado perto e demasiado longe.

O seu sentido somos nós. O sonho europeu, que à própria Europa já escapou.

E a verdade é que não podemos fazer nada, porque não estamos à altura do sonho deles.

A história dos “camarades” é desconhecida porque não acaba. Não é uma história. Falta-lhe o ponto final. Eles vieram à procura do Céu e encontraram uma história interminável. Encontraram o Inferno.

 

 1 Gibraltar

 

[“Eu ouço vozes dentro da minha cabeça”, dizia Benjamim a Livingstone. Eram crianças, brincavam na sua aldeia dos arredores da Cidade de Benim, na Nigéria. “Uma voz diz-me que há um mundo maravilhoso à minha espera, num sítio qualquer”, continuava Benjamim. “Acho que é na Europa. Tenho a certeza de que é na Europa. Um dia eu vou fugir para a Europa”. Livingstone dizia que sim, que também ouvia vozes. Não ouvia, mas adorava ter aquelas conversas com o amigo. Eram diálogos intermináveis, que manteriam na adolescência e juventude. Diálogos como só em África é possível ter. “Sinto que me está reservada alguma coisa de especial. Uma missão na vida, um destino fantástico. É uma espécie de visão, não sentes o mesmo?” Às vezes Livingstone pensava que o amigo não regulava muito bem. Mas dava-lhe trela, porque gostava dele. “Então tens visões?”, brincava. “Que vês?”

“É uma coisa maravilhosa. Uma coisa que me está prometida, que eu mereço. Como uma música tão linda que até faz sofrer. Eu sei que a minha vida não vai ser isto aqui. Já não suporto estas ruas, estas pessoas. É esse o problema das vozes na cabeça. É que vivemos aqui e já não vivemos. De certa maneira, já estamos a caminho”.]

 

Daqui, da janela do meu quarto de hotel, vejo o gigantesco porto e os milhares de automóveis que esperam a sua vez de atravessar o Estreito de Gibraltar num dos ferries que partem para Tânger, e penso que Algeciras daria um romance.

Não é uma cidade bonita, nem sequer típica ou pitoresca. O que há então nela que me desafia assim a imaginação? A agressividade? O desenraizamento? O cheiro de maresia e de lixo e ao mesmo tempo o cheiro de África? O que faz de Algeciras um cenário de ficção? As personagens indefinidas, que se atravessam nas ruas como fantasmas sem substância? A sobreposição das etnias, das línguas, dos trajes, em planos que não chegam a tocar-se, na falha entre as placas tectónicas das civilizações? A suspensão do tempo?

A cidade é feia. Nas suas vielas, os transeuntes andam em círculos e não têm rosto. Parecem mutantes e tudo o que fazem é incompreensível. Não são quem são mas o que podemos imaginar. Ou o que não podemos imaginar. Vivem nos limites do hipotético, trocaram o incerto pelo impossível.

A cidade é uma colónia de párias. Um porto para vidas perdidas, um daqueles locais onde se chega quando se pensa ter perdido tudo, e não quando se pensa ter tudo a ganhar.

Tento imaginar o que sente um recém-chegado imigrante magrebino ou sub-saariano. Eis a Europa, pensará ele. E que verá de sublime,  de celestial?

Eis o Céu, clamará, procurando avidamente entre o lixo da rua os restos da sua ilusão.

Caminhará sobre as ruínas do seu próprio sonho e a cidade à frente dos seus olhos não será esta. Mas outra. Pura ficção. É essa a realidade de Algeciras.

Escreverei sobre a realidade, decido, à janela do meu hotel com vista para o porto.

A realidade deste encontro dos que vão e dos que voltam, dos imigrantes que chegam ilegalmente e os que legalmente regressam para férias. A realidade deste encontro entre vida e utopia.

Da janela vejo um mar de automóveis. São 15 mil veículos à espera. É o exército dos vitoriosos, os heróis da grande saga da emigração. Os “mouros” vão passar ferias à sua terra. Carregados com toda a Europa que é possível empilhar em cima de um tejadilho – cobertores, pneus, latas, fraldas, detergentes, caixotes, garrafas, sofás, electrodomésticos, carrinhos de bebé, colchões, bicicletas, panelas, mesas, tudo preso com plásticos e fita-cola, em caramujos de equilíbrio.

Nota-se, nos olhares contidos, persuadidos, nos rostos escuros e marcados, nas posições com que se instalam nos carros, recostados nos bancos, requebrados, dengosos, os pés descalços fora das janelas, que a sua vida tem sido uma longa espera.

Alguns, vê-se que prepararam a ocasião com cuidado, conscientes de que a passagem do estreito é um ritual recorrente e incontornável nas suas existências. Trouxeram mantas para estender no chão, cadeiras e mesas, comida, jogos, até uma capa para proteger do sol a pintura do carro. Outros preferem como que interromper o tempo. Esperam, desconfortáveis e hirtos dentro do veículo, preparados para arrancar a qualquer momento, independentemente de saberem que têm pela frente dez ou vinte horas de espera.

Há quem traga toda a família, há quem venha sozinho para poder atafulhar o automóvel ainda com mais bagagem. Tralhas aparentemente inúteis mas que compõem o padrão de vida de muitas famílias das montanhas do Rif ou das margens do Sara. Muitos destes imigrantes enriqueceram não com os seus empregos na Europa, mas com o tráfico de produtos europeus que vendem nas suas aldeias.

Vejo carros com o espaço tão bem aproveitado que é completamente impossível a certas avós saírem do seu lugar sem que tudo se desmorone, tão engenhosamente foram encaixadas no meio da bagagem. Ficam ali, imóveis e inexpressivas a ouvir música árabe aos berros, enquanto os altifalantes avisam que não se deve deixar ninguém dentro dos carros, onde as temperaturas, a certas horas da tarde, podem atingir os 100 graus.

Alguns homens estendem no chão um tapete ou um casaco e começam a rezar entre as filas de carros. Há carros cobertos com toalhas, com plásticos, com cortinas às flores, com tapetes orientais. Uns estão de portas abertas, outros fechados em ar condicionado.

Muitas pessoas estão deitadas sobre toalhas ou jornais, ou mesmo directamente em cima do alcatrão escaldante. Famílias estão sentadas à sombra numa grande manta, homens passeiam-se por todo o recinto, os calcanhares calejados embutidos nas alvas babujas, crianças brincam entre os carrinhos que distribuem água, ou observam o movimento de entrada e saída nos barcos atracados.

Outras famílias ficam no carro, a dormir, a conversar, ou simplesmente em silêncio, em posições impossíveis, com um calor insuportável. Como se o BMW, o Mercedes, a carrinha com atrelado fosse a sua fortaleza, o seu lugar de identidade e de afirmação, com o seu som estereofónico, o seu sistema de navegação por GPS.

Há quem adormeça, acorde e volte a adormecer sem mudar de posição, como estátuas, talvez por não haver mais nenhuma posição possível na complicada arrumação do habitáculo. Há também quem alterne entre uma postura de vigília, com todos direitos nos seus lugares, e uma de sono, durante a noite, em que caem uns por cima dos outros como folhas secas. Muitos descansam assim, em amálgama humana, com a cabeça no volante, embrulhados nas tralhas ou enterrados nos bancos e nos vãos. Certas famílias parece estarem a esconder-se de alguma coisa. Outras, tombadas de forma tão destrambelhada, dir-se-ia terem sido atingidas por uma rajada de metralhadora.

Num grande carro azul em que todos dormem como sardinhas numa lata, uma menina fica acordada a noite inteira, os olhos perscrutando tudo em redor.

Hoje pôs-se uma névoa rente à água, o que, segundo os entendidos, significa que vai finalmente virar o Levante que soprou nas últimas semanas. “Amanhã ou depois vão chegar as pateras”, prevê o coordenador da Imigração da Cruz Vermelha de Tarifa, Juan António Fernández. O vento torna demasiado arriscada a aventura, pelo que, na costa de Tânger, várias pateras aguardam impacientes o momento de se fazerem ao Estreito. “Devem estar aí a aparecer dezenas delas”, diz Juan António. “Dantes, vinham de qualquer maneira, mesmo com o Levante. Todas as semanas morria gente no Estreito. Agora são mais cuidadosos”.

O telemóvel de Juan António está obrigatoriamente disponível 24 horas por dia. Quando a polícia detecta uma patera, num ponto qualquer dos 60 quilómetros de costa da região de Tarifa, telefona-lhe. Uma equipa da Cruz Vermelha chega ao local dentro de minutos. “Há sempre muitos feridos numa patera. Principalmente devido à hipodermia ou à mistura de combustível e água salgada, que provoca queimaduras graves”.

Segundo as estatísticas da Cruz Vermelha, chegaram às praias de Tarifa, no ano de 2002, 3763 ilegais em pateras. Destes, 2709 receberam tratamento médico e 20 já vinham mortos. Do total, 2005 eram sub-saarianos, 850 dos quais eram mulheres. Destas, 152 vinham grávidas. Das outras, 37 traziam bebés.

“O número de grávidas e de bebés tem aumentado todos os anos. Este ano, já temos mais nove grávidas e oito bebés do que em igual período do ano passado”. A explicação é óbvia. Até há pouco tempo, os imigrantes sub-saarianos eram levados para um campo de refugiados, e depois libertados, por a Espanha não ter, como tem com Marrocos, acordos de extradição com os países de origem dos clandestinos. Hoje em dia estão a ser todos deportados. À excepção das grávidas. “A lei espanhola não permite deportar mulheres com mais de seis meses de gravidez ou mães de recém-nascidos. Por isso estamos a ter centenas de casos destes por ano. E os números vão seguramente aumentar. Dantes, quando chegava uma patera, o cenário era sempre igual: os marroquinos corriam pela praia fora, sabendo que não escapariam à deportação, se fossem apanhados. Os sub-saarianos esperavam sentados que chegasse a polícia. Agora todos correm, excepto as grávidas”.

 

Porto de Algeciras. Um barco atraca. Saem primeiro os camiões, da enorme e escura garagem, como o vómito de uma baleia. Os guardas começam a inspecção e, de baixo de um dos veículos, arrancam um imigrante ilegal. “Todos os dias apanhamos 50 ou 60”, diz-me um dos guardas fronteiriços. “Vêm debaixo dos camiões, escondidos em carros, em fundos falsos das bagageiras, estão sempre a inventar métodos novos. A imaginação não tem limites. Por vezes ficam no barco e tentam sair à noite. Não se lançam à água porque são quase sempre marroquinos camponeses, ou africanos de zonas longe do mar, e não sabem nadar. Outras vezes montam numa moto e tentam avançar pelo porto a toda a velocidade. Uns dias vêm mais, outros menos. Depende do nível de corrupção dos guardas marroquinos em Tânger, em cada dia. Varia muito”.

Os carros começam a entrar no barco. Um a um, segundo as indicações de dois “sinaleiros”. Na ré, é inevitável a sensação de vertigem ao ver a margem descolar-se do chão que pisamos.

Porto de Tânger. Caiu a noite, a confusão é total. Ninguém sabe para onde deve dirigir-se, os barcos partem com várias horas de atraso. Uma fila de camiões espera a sua vez de entrar. De um deles salta um holandês gordo, de barba ruiva, com um martelo na mão. A gritar, furioso, dirige-se à parte de baixo do atrelado, a desferir violentos golpes de martelo nalguma espécie de parasita que ali se tinha instalado. Era um homem magro, de bigode e calças muito sujas, que se tinha introduzido entre o eixo das rodas e o chassis do veículo. “No! No! No!”, gritou o marroquino, que acabou por ser arrancado à martelada do seu sonho de aço, algemado e levado, a chorar, pela polícia.

Está escuro, os camiões não são mais do que vultos de fuligem negra, mas só quem não quer não vê os corpos que rastejam sobre o muro que limita o recinto do porto. Parecem aranhas a colocar-se em posição. Prontos a saltar sobre os atrelados, a entranhar-se-lhes silenciosamente nas rodas, nos eixos, nos motores. Os camiões mal se vêem na penumbra mas é tudo o que eles vêem. O último ferry da noite parte em direcção a Algeciras.

 

Antes de tudo vê-se o rochedo. De todos os ângulos, maciço e baço, um megalito de sombra e sonho. Vê-se o rochedo de Gibraltar. Mais intenso do que o céu e o sol implacável, mais intenso do que as gruas, os contentores, os navios, o colossal frenesim do maior porto da Europa.

Mais do que as ruas sujas e tenebrosas de Algeciras, as prostitutas negras, de mini-saia, nas esquinas, os traficantes magrebinos nas esplanadas, os barbudos e as mulheres de véu, as personagens ambíguas em silêncio nos parques, a dormir nos bancos, de nacionalidade indefinível, os mochileiros alemães ou neo-zelandeses em busca do exotismo da África, as multidões acidentais e indiferentes a chegar e a partir, nas paragens de autocarro, nas duvidosas agências de viagens, os carros desportivos a exibirem a sua provocação de tunning e áudio, os lúgubres cafés, as recônditas pensões, Hostal Marraquexe, Hostal Fez, as fachadas castanhas de podridão, as ruas escaldantes e húmidas, perigosas, opacas, secretas, estrangeiras, bastardas de Algeciras. Muito mais intenso do que tudo isso, e muito maior do que si próprio – a ponta do iceberg dourado da Europa. Mais intenso do que os 15 mil veículos parados no cais, alinhados em frente ao mar, como a grelha de partida de uma corrida de gigantones, uma parada militar, com os seus cromados, as suas cores vitoriosas, as suas altas cilindradas, as suas jantes especiais, os seus faróis de nevoeiro, os seus volantes em pele, os seus tabliers de nogueira, os seus penachos de bagagem erguidos até ao céu como cristas de fanfarronice, numa irreprimível e patética demonstração de poder e triunfo. Uma batalha numa guerra contra quem?

Nunca é fácil medir o sucesso. Avaliar os objectivos e o seu preço, o investimento e o prémio. Décadas de trabalho, sacrifícios e humilhações em Espanha, França, Holanda, Itália, Inglaterra ou Alemanha terão valido a pena? Voltar-se-ia a fazer o mesmo? A vida que se tem é melhor do que a que se teria em Marrocos? É impossível saber. Não há local nem momento propícios ao juízo imparcial. Excepto aqui, no porto de Algeciras, nos primeiros dias de Agosto. Aqui é fácil comparar. Entre o magrebino desesperado e aventureiro que entrou sem nada, clandestino ou com um visto turístico, e o imigrante legal que agora vai passar férias à sua terra. Estamos no “ground zero”, o ponto de impacto. Ou se demonstra aqui a diferença, ou não se demonstra em mais lugar nenhum. É o momento da verdade. Uma guerra contra si próprios. O que são contra o que foram, a ilusão contra a decepção, o logro.

Estamos no cenário caricatural do grande drama humano da nossa época. O mundo rico e o mundo pobre frente a frente, separados pelo espelho deformador do Estreito de Gibraltar. Frente a frente no mesmo engarrafamento, nos mesmos indivíduos, confusos e desafiadores. Mas o rochedo, desfocado e irreal no meio do mar, feito de matéria volátil e utópica, é mais intenso.

 

2 Sucess

 

“Sucess”!

“Desculpe? Eu perguntei o nome do bebé”. A funcionária do Registo Civil olha impaciente para Glória, que está sentada à sua frente, olhos muito abertos, no pânico de dizer alguma coisa errada.

“Sucess”, confirma o padre, que está ali para ajudar. “É um nome nigeriano. Significa ‘êxito'”

Relutante, a funcionária vai preenchendo o impresso de registo. “Sexo da criança?”

“Feminino”.

“Nome e idade da mãe da criança?”

“Glória Inflenca Ighbinosa, 25 anos”.

“Do pai?”

“Jamie Inflenca Ighbinosa…”

“É igual?”

“Sim, somos casados, temos o mesmo nome”.

“Avós maternos?”

Glória soletra os nomes do pai e da mãe, ambos falecidos.

“E agora diga-me como se chamam os avós paternos da criança”.

Silêncio. Glória volta a cabeça para o padre, a pedir ajuda. “Ela não se lembra. Isso não interessa, deixe em branco”, diz ele.

 

[Ter entrado naquele zodiac foi para Glória como chegar ao cume de uma montanha. Mais uma última etapa, depois de mil, todas inultrapassáveis. Durante um mês viajara pelo deserto. Da Nigéria até Marrocos, em vários camiões, a pé, de fronteira em fronteira, que era preciso atravessar clandestinamente, de noite, arriscando a vida ou a ser deportado para a fronteira anterior, iludindo os guardas, pagando, em cada uma, mais um incomportável tributo em dinheiro e em candura. Um grupo de pouco mais de vinte fugitivos, da Costa do Marfim, Libéria, mas quase todos da Nigéria, homens e mulheres, lançados na imensidão africana com o destino suspenso e o retorno embargado. Os “camarades”, como lhes chamam os marroquinos, numa tentativa de aproximação nem sempre desinteressada. Vinte nómadas da sorte num deserto de razão.

Tânger era a primeira grande miragem: o porto marroquino de onde se poderia alcançar a Europa, numa patera, ou num zodiac, as pequenas lanchas clandestinas que atravessam perigosamente o Estreito de Gibraltar.

Mas Tânger não seria mais do que um longo Purgatório em desavença tácita com o Céu. E em concorrência desleal com o Inferno.]

 

“Dia e hora do nascimento da criança?”

“Dia 23 de Julho, às 4 horas da tarde”, responde Glória, traduzida pelo padre. “Foi há dez dias. Nasceu aqui, em Algeciras”.

A funcionária preenche toda a folha do registo, e depois o Livro de Família, o equivalente espanhol da Cédula Pessoal. É este documento que irá conferir o estatuto de residente em Espanha a Sucess, bem como à sua mãe, única familiar e tutora da menor.

“Pronto, objectivo cumprido”, diz o padre. “Agora vamos ao médico”. Glória levanta-se, um pouco cambaleante, como quem finalmente desembarca após uma interminável estadia no mar. “Já está?”, quer confirmar, o rosto ainda crispado de desconfiança.

 

[Em Tânger, foram dois anos de espera, primeiro em pensões clandestinas miseráveis, depois numa casa partilhada com dezenas de outros nigerianos, onde cada um pagava dois euros por dia, por fim na floresta. Quando, há uns dois anos, o Governo marroquino, pressionado por Madrid e Bruxelas, começou a mandar a polícia intensificar a perseguição aos imigrantes ilegais sub-saarianos, foi preciso fugir da cidade. Procurar um local secreto e inóspito onde fosse possível, se não viver em segurança, pelo menos sobreviver. Um local inacessível onde se pudesse viver sem documentos, sem dinheiro, sem nada que identifique uma criatura como membro da comunidade humana.

Um local tão selvagem como eles, que o tornariam ainda mais selvagem e onde se fariam ainda mais selvagens. Um local que passou a ser uma lenda de maldição em Tânger: Missnana. Mais exactamente, o bosque de Rah Rah, na encosta de um monte de pinheiros e arbustos, nos confins da região de Missnana.

Ninguém pode avaliar o que é passar meses em Missnana, anos em Missnana. A devastação que Missnana pode trazer a uma consciência. Foi ali, na floresta onde milhares de negros vivem como bichos, que Glória traçou e executou minuciosamente o seu plano. Conheceu Jamie, engravidou e, seis meses depois, tratou de arranjar os dois mil euros para pagar a travessia do Estreito numa patera. Foi uma corrida contra o tempo. Era necessário chegar a Espanha com pelo menos seis meses de gravidez e antes de o bebé nascer. Nem todas conseguem, mas Glória sim. Foi tudo no limite, mas foi um sucesso. Embarcou, pelas suas contas, precisamente nove meses depois de ter engravidado.]

 

Não é a primeira vez que o médico do Centro de Saúde de Algeciras recebe uma criança africana trazida pelo padre. Olha com enfado para Sucess, que é minúscula e tem os olhos enormes e tristes da mãe. Glória só terá amanhã a cédula da Conservatória, pelo que ainda não poderia trazer a filha para ser vacinada. Mas o padre alega que se esqueceu do papel, e o médico acede a dar a injecção no pé da criança, com evidente brutalidade. Sucess contorce-se de dor, aperta muito as mãozinhas negras e chora. Glória desvia o olhar. Mas o bebé volta à sua letargia habitual quando entramos no consultório de Pediatria.

“Há quatro dias que não faz cocó”, explica o padre.

A médica ausculta, observa, testa, despe Sucess e estimula-lhe o ânus com uma cotonete. Nada. Há um problema qualquer com o sistema digestivo da criança.

“O ideal será amamentar até aos seis meses”, explica a médica. “Pelo menos até aos três. E em circunstância alguma deverá dar outro tipo de alimentos à criança nas primeiras semanas de vida”.

“E comida de bebé? Porque não posso dar-lhe?”, pergunta Glória, quase com desespero na voz. Mas jura à médica que nunca alimentou Sucess com nada excepto o seu próprio leite.

“É mentira”, sussurra-me a médica, sem perceber o comportamento da nigeriana. “O bebé tem pouco mais de uma semana e ela já anda a dar-lhe porcarias. Porquê? Não é uma questão cultural. No país dela as mulheres amamentam os filhos até não terem mais leite. Por que faz ela isto?”

O padre tenta explicar: “Quer proceder como as amigas. Lá na casa todas dão comidas artificiais aos bebés…”

“Mas qual é a razão?” A médica receita uns supositórios e fita o padre por momentos, sem dizer nada. Glória pega em Sucess e dirige-se para a porta.

 

[“Éramos uns 70. Levaram-nos, de camião, para uma praia, e entrámos no barco. Era meia-noite”. Glória não mostra qualquer emoção, quando me conta a sua história.

“Havia negros e marroquinos. E várias grávidas. E mulheres com crianças. Estava uma noite quente e calma quando partimos, mas, uma hora depois, levantou-se uma ventania terrível… não sabia o que pensar. Devíamos estar no meio do rio, quer dizer, do Estreito. Uma escuridão absoluta… As ondas começaram a ser gigantescas… assim… por cima de nós. O guia deixou de conseguir controlar o barco, desatámos às voltas… Era cada vez pior. Falávamos com ele, mas não respondia. Eu não sabia o que pensar.

As mulheres choravam. Só se ouviam berros… alguns homens queriam bater no guia… a água entrava no barco, o motor esguichava combustível a arder… muitas pessoas ficaram feridas. O frio era insuportável. Depois o motor deixou de funcionar. Ficámos ali à deriva no meio da tempestade. Alguns tinham telemóvel, queríamos pedir ajuda, mas o guia não deixou. Não queria ser preso. Além de imigrantes ilegais, levava droga, disseram-me uns marroquinos. Pensámos que íamos morrer. O barco estava cheio de água, quase a afundar. O vento não parava. Todos aos gritos. Eu estava quase a ter o bebé. Sabia que ia acontecer. E ao mesmo tempo ia morrer… não sabia o que pensar. Eu tentava rezar, mas nem conseguia. Andámos ali, horas e horas. Toda a noite. Amanheceu e a tempestade não parava. Só muito mais tarde o guia conseguiu arranjar o motor. O vento abrandou… chegámos a Espanha à uma da tarde. Andámos 13 horas no mar. O guia começou a atirar pessoas fora do barco antes de chegar à praia. Mulheres grávidas, pessoas doentes. Mas a polícia chegou. Os marroquinos desataram a fugir, pela praia. Os negros, não. Mas a polícia apanhou todos. Tudo preso. Os senhores da Cruz Vermelha estavam na praia, trataram de nós. Levaram-me para a esquadra, perguntaram se eu conhecia alguém. Eu ia mostrar o papel que dizia ‘Padre Pateras’, mas nem foi preciso. Levaram-me logo ao papá. Eu estava aflita, disse-lhe que tinha de ir ao hospital, ele percebeu tudo. Fomos na carrinha dele. Cheguei já em trabalhos de parto. Sucess nasceu nessa tarde”.]

 

3 Padre Pateras

 

O padre Isidoro Macías, 57 anos, frade franciscano da Cruz Branca, é conhecido em toda a África. No seu gabinete, uma sala frugal junto à capela, na Casa Familiar Virgem da Palma, mostra-me várias cartas que recebeu e onde, no lugar reservado ao destinatário está apenas escrito “Padre Pateras – Algeciras”.

“Só posso fazer o que faço porque sou um fora da lei. Mas se alguém tinha de o fazer, é melhor que seja eu”, explica-me Isidoro, cujo estatuto de religioso lhe permite movimentar-se incólume nas entrelinhas da lei. Enquanto se discute se o que ele faz é legal ou não, já foi, nos últimos meses, entrevistado várias vezes pela televisão, recebido pelo rei de Espanha e considerado “Herói Europeu do Ano” pela revista “Time”.

Até 1972, Isidoro Macías viveu em Tânger, onde dava apoio aos espanhóis exilados pelo franquismo. De regresso a Espanha, interessou-se pelos problemas dos imigrantes africanos que chegam de Tânger.

O seu “crime” é simples: dos milhares de imigrantes que desembarcam todos os anos, em pateras ilegais, às praias da costa de Tarifa, ele dá ajuda aos casos que considera serem os mais prementes — as mulheres, principalmente as que chegam grávidas ou com bebés. Dá-lhes abrigo e comida, em dois apartamentos propriedade da Igreja, afectos à instituição de caridade Casa Familiar Virgem da Palma.

Tudo começou a 24 de Junho do ano 2000, quando a polícia de Algeciras, em desespero, lhe veio pedir ajuda. Tinham chegado, nessa noite, centenas de imigrantes clandestinos. As pateras tinham começado a chegar em 1989, mas nunca tinha acontecido uma avalanche assim. Ninguém sabia o que fazer. A Cruz Vermelha não estava preparada e a polícia também não. O campo para ilegais de Gibraltar não comportava tanta gente. Telefonaram ao padre Isidoro, a meio da noite, pedindo roupas para as pessoas. Depois, apareceram com sete mulheres, duas das quais grávidas e uma terceira com um bebé. Isidoro deu-lhes guarida. Desde então, não teve descanso. O número de mulheres grávidas ou com crianças nas pateras não parou de aumentar e a polícia, à falta de alternativas, habituou-se a trazê-las a Isidoro, o Padre Pateras.

Nos seus dois apartamentos, já viveram, nos últimos três anos, mais de 130 mulheres, grávidas ou com os seus recém-nascidos. Neste momento, são quinze as jovens nigerianas que habitam as casas da rua da Praia da Vitória, em Algeciras. Além destas habitações, a Igreja Católica da Andaluzia tem um outro apartamento em Tarifa e mais cinco na zona de Cádiz, com mulheres grávidas e crianças provindas da África sub-saariana.

“Eu ajudo quem precisa de ajuda”, explica o padre. “Não pergunto se é cristão ou muçulmano ou ateu. Também não quero saber se a história que as pessoas me contam é verdadeira ou não. Nem o que vão fazer das suas vidas, depois de as ter ajudado”.

Na sua maioria, as mulheres que aqui chegam dizem que são casadas, que o marido ficou na Nigéria e que não sabiam que estavam grávidas quando decidiram emigrar. Mas Isidoro não tem ilusões. “Elas vêm grávidas porque descobriram que é a única forma de chegarem a Espanha e não serem deportadas. A criança, como nasce em território espanhol, tem automaticamente direito de residência. Ao ser registada aqui, é-lhe emitido um Livro de Família, onde consta o nome da mãe e do pai. Com esse Livro de Família, a mãe, como é a única familiar do menor, adquire também, na prática, direito de residência, durante seis meses. Nesse período, com este documento e com um passaporte que alguém lhe envia entretanto da Nigéria, pode pedir um visto de permanência no país. O passo seguinte é mandar vir o suposto marido, que nessa altura terá mais facilidade em regularizar a sua situação”.

O padre Isidoro sabe tudo isto, mas sabe ainda mais. Não só a gravidez é um expediente para ficar na Europa, como o próprio “casamento” das mulheres que recebe é, na maioria dos casos, um embuste. “Elas não são casadas. Andaram, em Tânger, a fornicar, com alguém que conheceram lá, para engravidarem. Faz parte do processo, organizado pelas mafias”.

O que Isidoro não verbaliza, mas decerto não ignora, é que ele próprio faz parte desse processo. As grávidas das pateras não trazem nada consigo excepto os números de telefone de contactos da mafia na Europa e um papelinho com um nome — Padre Pateras.

“Elas nunca dizem a verdade. É impossível saber, por exemplo, quanto pagaram às mafias. Mas foi muito dinheiro. É por isso que eu digo que estes, que chegam aqui, não são os pobres de África. Esses, nunca saem de lá. Mas a mim não me interessam essas questões. A quem me procura a pedir ajuda, eu dou ajuda”.

Para as mulheres das casas da Rua da Vitória, Isidoro é um verdadeiro pai. Visita-as várias vezes por dia, vai com elas ao hospital e às repartições públicas, garante os cuidados de saúde para os bebés. Em alguns casos, depois de lhes ter dado guarida durante meses e conseguido os documentos de residência, ajuda-as a arranjar emprego. Na sua maioria, porém, as mulheres, mal têm a sua situação regularizada, desenvencilham-se sozinhas.

“É triste, mas, nuns 80 por cento os casos, elas, depois de saírem daqui, acabam por entregar-se à prostituição”, reconhece Isidoro.

E as crianças? Onde ficam? “Muitas delas, em estabelecimentos da Igreja, que organizam os processos de adopção. Outras desaparecem, com as mães, e perdemos-lhes o rasto”.

Nos últimos três anos, sabe-se que as nigerianas tinham o hábito de deixar os bebés à guarda de famílias de Algeciras, que, muitas vezes, os educavam e até batizavam como se fossem filhos. Outras vezes, foi lavantada a suspeita, maltratavam-nos, ou, como as mães faltassem à promessa de os recuperar, entregavam-nos a instituições. Outras vezes ainda, eram as mães que os vinham “roubar” intempestivamente, levando-os consigo não se sabe para onde nem em que condições, nem com que objectivo. Quando isso acontecia, era impossível apresentar queixa na polícia, ou deter as nigerianas, uma vez que toda a “adopção” decorrera de forma ilegal.

Os acordos entre as nigerianas e as famílias de “adopção” eram feitos de forma privada, sem qualquer intervenção ou controlo das autoridades, sem dúvida nos próprios apartamentos do padre Isidoro.

Após as investigações de alguns assistentes sociais, associações humanitárias e jornalistas espanhóis, começou a desconfiar-se de que alguns bebés terão sido entregues a troco de dinheiro, de que terá mesmo sido organizada uma rede de tráfico de crianças. Desde então, Isidoro passou a proibir as “adopções” particulares.

“O que eu digo às pessoas é que estas crianças não são bonecos de brincar. Se querem ajudar os imigrantes, ajudem também as mães, façam donativos, ofereçam empregos”, sugere o padre, que entretanto abriu um “site” na internet para facilitar a solidariedade (www.padrepatera.org).

 

“Papá, Papá”. Quando Isidoro entra numa das casas da rua da Praia da Vitória, as raparigas juntam-se à sua volta. “Papá, dê-me dinheiro”. “Papá, o bebé tem diarreia”. “Posso ir ao café, papá?”

O padre inspecciona os vários quartos, distribui raspanetes sobre a arrumação e a higiene, toma nota dos problemas, dá instruções. Por vezes acompanha as mulheres ao supermercado ou à farmácia. Como não têm qualquer documento de identificação, não é aconselhável que circulem sozinhas pela cidade. “Não quero que vão mais longe do que esta rua, entenderam? É muito perigoso”, admoesta o padre, dirigindo-se a Elly, uma nigeriana de 19 anos, magra e escultural, de mais de um metro e oitenta e roupas provocadoramente justas. “Se tiveres de levar Destiny ao hospital, eu vou contigo. Disseram-me que tentaste ir sozinha. Não voltes a fazer isso”.

“Sim, papá”.

Uma vez, quando regressávamos do centro de Saúde, com Glória e Sucess, um mendigo acercou-se de Isidoro, com um papel na mão. Pediu-lhe dinheiro, obviamente para droga. O padre resmungou entre dentes uma das suas máximas politicamente incorrectas — “os drogados deviam ser todos mortos”. E estugou o passo.

“É uma vergonha!”, desatou a gritar o sem-abrigo. “Toda a gente sabe o que se passa nessas casas! É uma vergonha!” O padre nem olhou para trás, cada vez mais ligeirinho pela rua abaixo, dir-se-ia que a fugir. Mas o indigente gritava cada vez mais alto, esfarrapado e lívido como um louco de Deus, um Savonarola desenterrado. “É uma vergonha!”

E o Padre Pateras só se sentiu seguro quando chegou à casa da rua da Praia da Vitória.

“O Bem é cego, surdo e mudo. Não conhece raças nem religiões, e não faz perguntas”, costuma ele dizer.

Pergunto a Elly se realmente tentou ir ao hospital sozinha, com Destiny. Responde, com um sorriso beatífico, que nunca saiu da casa. E que casou na Nigéria, que o marido vive em Itália, que o seu sonho é trabalhar numa loja e dar uma boa educação a Destiny… A sua expressão só muda quando lhe falo de Missnana.

“Sabes o que é Missnana?”, surpreende-se ela, baixando de súbito a voz. A sua voz rouca e grave, em cuja acrimónia assustada aquele nome adquire uma nova dimensão de horror. “Missnana”, pronuncia ela, pensativa, e é como se a palavra estiolasse, de um só golpe, toda a inocência do mundo.

“Missnana”, repete Elly, esotérica, esguia e negra como uma sacerdotisa de Osíris. E é como se tudo gelasse em redor. “Chiuuu”. Faz sinal de que devemos mudar de assunto, porque o papá anda perto. E ele não tem de saber nada disto. É preciso poupá-lo, para que continue a praticar o Bem. O Bem é uma flor de estufa, não sobrevive fora do Paraíso.

 

É hora do jantar na casa da Praia da Vitória. As mulheres dão biberão ou papas aos bebés. Raramente a mama. Querem estar libertas, poder deixar as crianças com as outras. Glória, Elly, Carol, Cindy, Julet andam descalças, semi-nuas pela casa. Falam alto, raramente riem. O clima é de ansiedade. Há uma enorme desarrumação pela casa. As crianças estão deitadas nas camas, brincam, sujas, pelo chão. Sucess, Destiny, Lucky, Biggy, Blessing…

 

[Ao cair da noite, Elly e outras duas nigerianas estarão à porta de casa, vestidas e maquilhadas como para uma festa. “Vamos ao centro da cidade, fazer compras”, explicará Elly.

“Entrem no carro, que vos dou boleia”. Levá-las-ei até ao centro, relutantes e nervosas. “Ficamos aqui, na paragem do autocarro”. Darão duas voltas na rua e entrarão na camioneta para Málaga. Correrei para lá. “Onde vão?”

Elly tentará justificar-se, “Às compras em Málaga… mas eu fico… vou jantar contigo…” O autocarro partirá com as outras duas, Elly tentará fazer telefonemas, quererá vir para o meu hotel, estará febril, desesperada. “Quero ir ter com as minhas amigas… vou embora…”

“Mas não podes andar por aí, não tens documentos…”

“Tenho um bebé, não me podem fazer nada”. Manterá fechado na mão um bilhete para São Pedro de Alcântara, uma estância turística na estrada para Málaga, perto de Marbella e de Fuengirola. “Está bem, eu levo-te lá”.]

 

Na casa, as mulheres cirandam em redor do padre. “Papá, papá, quando nos dás dinheiro? Eu portei-me bem…”

“Quando limpares este chão! E quando mudares a fralda a Blessing. Cheira muito mal…”

“Papá, papá…”

 

[Elly irá amuada no assento do carro, as luzes dos restaurantes e clubes da estrada de Marbella a varrerem-lhe o rosto magnífico e amedrontado de criança. “Queremos comprar, em Málaga, comida africana, que não há em Algeciras”, irá explicando.

“Comprar comida à noite?”

“É em casa de uma amiga nossa, que vende…”

“Dormem lá?”

“Sim, regressamos no autocarro das sete da manhã…”

Com uma expressão de menina perdida, apesar das tatuagens rituais nas maçãs do rosto, Elly admitirá que não é casada, que a convenceram a engravidar, que tem amigos na Itália e Alemanha, mas não pode contar…]

 

O padre dá mais uma entrevista, a uma televisão local, pedindo a uma das raparigas que diga bem dele, frente à câmara. “A publicidade é importante, para que cheguem mais donativos…” Depois acompanha um grupo de raparigas ao hospital, para visitar uma outra que acaba de dar à luz.

 

[Elly encontrará as amigas em San Pedro, na estrada de Marbella. “Sim, esta é uma zona de prostituição, já há muito tempo, principalmente de negras. Os carros param, elas entram…”, contar-me-á o empregado de um café à beira da estrada. “Estão a ver o que lhes dizia? Estas, por exemplo!”, dirá ele, quando Elly e as amigas entram no café, para comprar cartões de telefone para Itália, Marrocos, Nigéria.

Horas depois, eu passaria pela estrada, de carro, abrandando no local onde as três nigerianas estão sentadas, junto a um contentor de lixo. Antes de repararem em quem está no interior, aproximar-se-ão, com sorrisos arrepiantes.]

 

Elly pega em Destiny ao colo, para o beijar. É um beijo não de hipocrisia e traição, mas um beijo puro e mais humano do que a própria vida. Como se Elly não fosse mãe, mas filha, pedindo a Destiny que a deixasse partir.

 

4 Juliete

 

Hoje, Juliete já pôs gel cinco vezes na cabeleira postiça. Já retocou a maquilhagem azul, perfumou-se, despiu e vestiu a blusa decotada, os jeans justos com lantejoulas e as estapafúrdias sandálias com plateaus cinco vezes. Sai da pensão e está na balbúrdia da praça pejada de prostitutas e traficantes de droga. Dá alguns passos desequilibrados nas sandálias, como sonâmbula. Está a chover. Não sabe porque a trouxeram para esta cidade.

O telemóvel toca constantemente. “Fuck fuck fuck”, imita ela o toque do pequeno nokia colorido e ensebado. Gosta de falar ao telefone. Fá-la sentir-se com o ar de mulher de negócios que irreprimivelmente inveja na “madame”. A sua “mãe”, como lhe chama. “Fuck fuck… Alo! Oh, it’s you my love…” Requebra-se em denguices ansiosas. “I miss you so much…”. Faz um esforço, convoca as capacidades dramáticas. Quem se dá ao trabalho de telefonar merece um investimento.

São clientes com quem tenta estabelecer relações mais duradouras e a quem possa vir a extorquir algo mais do que os 15 euros que cobra agora por cada ida à infecta pensão da esquina. Preço que tem vindo a descer. Chegou a pedir 40 euros. Mas são cada vez em menor número os apáticos cabo-verdianos ou ucranianos que vagueiam pela praça do Intendente. A oferta multiplicou-se. Outras zonas de Lisboa tornaram-se mais aprazíveis nos roteiros da prostituição. “Já ninguém vem aqui, por causa da droga e dos assaltos”. Mas Juliete sabe que não há outra zona para uma nigeriana ilegal que não fala português. De resto não lhe compete a si escolher, mas à “madame”, que representa a “organização”, que a enviou para aqui, mal chegou a Algeciras. Tem de obedecer.

Meia hora, 15 euros. Ou 60 por uma noite inteira, na casa de alguém, o que é um luxo raro. E perigoso. Sharon, alta e altiva, é disso a prova viva e aniquilada. Está ali, na sua ombreira, a retribuir com lágrimas de raiva os sorrisos solidários das amigas. Juliete, Amee, Rita, também elas sem papéis, sem identidade, cada uma no seu nicho, abrigadas da chuva e da ágora impura, como ídolos embutidos e blasfemos, no alvéolo de onde não saem senão para provocar os transeuntes, dando o braço, roçando as pernas, comprimindo os seios. “”Want to fuck? It´s soooo good! Hummm!” Amee e Rita lançam gargalhadas que ecoam contra as paredes da praça aveludada de gelo e de fósforo, como numa gruta.

A praça cheia de gritos e de silêncio. Sharon quis acreditar que tinha encontrado um amigo especial. Mais do que a razão permitia, mas os tempos não são propícios à prudência. Ter um “amigo especial” é a única autêntica via de salvação e por isso Sharon aceitou dormir em casa dele. A meio da noite foi espancada, roubada e expulsa. Mas não era tudo. No dia seguinte o homem voltou ao Intendente. Aproximou-se, a tremer de raiva, e só quando estava muito próximo Sharou viu que trazia na mão uma garrafa partida. O golpe foi brusco e baixo, e o sangue jorrou, abundante, do pulso de Saron, que caiu inanimada. Levaria dez pontos, na urgência do hospital.

Não imagina o que terá passado pela cabeça do agressor. Rita também está a discutir com um cliente. Ele faz uma cena de ciúmes. Com quem falava ela ao telefone, no outro dia, indaga ele. “Quem era? Vais dizer-me ou não?” E dá-lhe encontrões cada vez mais violentos enquanto grunhe palavrões em português, as primeiras palavras que as nigerianas aprendem no Intendente.

Rita é minúscula e decidiu usar tranças para apostar no ar de boneca, no fetiche.

Agora dão-lhe apenas um ar indefeso, a balbuciar desculpas, olhando em redor como que a pedir ajuda. Aimee aproxima-se mas não é boa ideia. O homem já está a apontar para ela, aos berros — “Não gosto dessa preta! Nem a quero ver. É tudo por causa dela!”. Aimee recua. A regra é não os provocar. Há clientes loucos. Mete-se-lhes na cabeça que elas lhes devem fidelidade e vassalagem, tentam controlá-las, castigá-las.

É um mundo de paixão e ódio, de sedução, compromisso e posse absolutamente fictício, mas talvez por isso extremado até à demência. Aqui vale tudo, porque tudo é um jogo, estúpido e perigoso. Elas não são verdadeiras mulheres nem eles verdadeiros homens. Brincam. Agridem. Sofrem. Sem limites, em patética auto-complacência.

Eles, os falsos homens, investem compulsivamente nestes enredos, elas, as falsas mulheres, não podem fugir, lutam para sobreviver, lutam por eles, lutam entre elas, forjam rivalidades e estigmas. Odeiam-se de morte e depois abraçam-se, e choram.  E riem, juntas. Não têm mais ninguém.

Sharon, 17 anos, está ferida, Rita, 18 anos, está desesperada, Aimee, 19 anos, está doente, mas riem como miúdas na puberdade. Mesmo quando são apanhadas pela Polícia, e passam uma tarde na esquadra, por não terem papéis. Riem-se dos policias que as assediam e acabam por libertar. Que mal lhes poderiam fazer? Que vida seria pior do que esta?

São as três da mesma região da Nigéria, os arredores da cidade de Benim, no estado de Edo, mas não é por isso que são irmãs. São-no porque se conheceram aqui. Mal se viram souberam que tinham a mesma história. A das suas vidas e a dos mil anos da sua cidade, fundada no século X e visitada 500 anos mais tarde pelos navegadores portugueses. Sharon, Rita e Aimee nunca estudaram esta história.

A “Costa dos Escravos” foi como se chamou àquela zona densamente povoada da África Ocidental. O monarca (Oba) do Reino de Benim enviou então um embaixador a Portugal, cujo rei enviou missionários cristãos para o Benim. E começou o tráfico dos escravos. A Maafa, como lhe chamam os negros dos EUA, e que significa, em língua kiswahili, “holocausto”.

Foram os barcos portugueses os primeiros a fazer este tráfico. Depois juntaram-se-lhe os de outras nações europeias, numa actividade que viria a culminar, no século XVIII, no chamado “comércio triangular”. Os navios europeus aportavam nas costas africanas, onde trocavam rum por escravos. Levavam-nos para as Caraíbas e América, recebendo em troca cana de açúcar, que na Europa era usada para fabricar rum, com o qual eram comprados mais escravos em África. Estes escravos na América trabalhavam nas plantações de algodão, que foi a matéria-prima da revolução industrial na Grã-Bretanha…

“Uns senhores apareceram lá na aldeia e propuseram um negócio ao meu pai”. Aimee recorda como a família hipotecou o único bem que possuía, uma casa, para lhe pagar a viagem. Ou melhor: como os tais “senhores” a trouxeram para a Europa, com passaporte e visto falsos, ficando com a casa dos pais como caução. “Se eu não entregar todo o dinheiro, o meu pai fica sem a casa”.

Aimee tem mais cinco irmãos mas foi a escolhida. O futuro de toda a família, que vive amontoada num casebre alugado, depende dela.

É isso que lhe dá forças. Isso e o privilégio de só ter de pagar 35 mil dólares aos “senhores”, por intermédio de uma “tia” que viaja permanentemente entre Lisboa e a cidade de Benim, supostamente para fazer contrabando de roupa. Como havia a casa, o risco foi considerado menor. As outras raparigas têm de pagar, pelo menos, 40 mil dólares.

Mas Aimee não tem muito tempo: o pai está doente e precisa de uma operação que não tem dinheiro para pagar. Só depois de saldada a dívida poderá ser internado. Que idade tem ele? “Não sei. Nós não ligamos a essas coisas. Que importância tem isso?”

Um dos irmãos de Aimee tem-lhe telefonado a pedir dinheiro. O pai está pior, é preciso comprar medicamentos. Ela tenta ocultar da tia alguns clientes, sonegando alguns euros que enviaria para casa, mas é impossível. A nigeriana quarentona e anafada espera-a num dos pequenos bares perto da pensão e é preciso ir prestar contas após cada serviço. E quando ela viaja não lhe faltam nigerianos como Moses, aos solavancos entre a construção civil e o tráfico de droga, para lhe vigiar as meninas. É impossível escapar. A solução é fazer mais clientes, estar atraente e atenta. Não deixar escapar nenhuma presa, como este homem que surge na esquina da Avenida Almirante Reis, cruza a praça em diagonal, sem voltar a cabeça, lesto e inseguro, como se tivesse sido atirado para ali, como um pato bravo lançado ao ar num concurso de caça.

Aimee corre para ele, dá-lhe o braço. Quase não é preciso falar. Dirigem-se para a pensão. O homem parece estar hipnotizado. Atravessam a avenida, seguem por uma rampa íngreme, depois por um beco estreito, sem saída. É aqui. “Residencial Escondidinha”, diz na porta. Entram. É difícil não tropeçar na passadeira rota e solta das escadas de madeira. Uma mulher atrás de um balcão entrega a chave do quarto 102. “Quero o 104. Não está livre?” Com um sorriso, a mulher estende a nova chave a Aimee, aceita os cinco euros do aluguer de meia hora e volta para o sofá onde estava, encaixado entre a televisão, que emite o concurso “Um Contra Todos” com José Carlos Malato, e um altar com uma estátua de Cristo e outra da Virgem de Fátima, rodeadas por centenas de santinhos de papel e fotografias do papa.

O quarto, exíguo, tem uma cama, um lavatório e um bidé. Na parede, duas reproduções de fotografias da Índia. Aimee recebe do homem os 15 euros. Despe-lhe as calças, depois despe as suas. Mantém a blusa. Retira da bolsa um preservativo, que coloca no homem. Pergunta: “Chupa?” O homem acena que sim e deita-se na cama. Aimee faz felatio ao homem durante dez minutos. Depois deita-se e abre as pernas. Lubrifica-se com a sua própria saliva. E fecha os olhos.

“É só o meu corpo. Não ofereço a alma”, explica ela. “Não tenho qualquer excitação, nunca. Só quando estou sozinha, no meu quarto. Tenho um urso de pelúcia, agarro-me a ele assim, e tenho prazer. Depois adormeço”.

Aimee sai, acompanhada pelo homem, que não diz uma palavra. Desce com ele a rua íngreme, de braço dado, despede-se à porta do bar onde a “tia” a espera, à porta. “Acabo de receber um telefonema…” diz a nigeriana, ainda com o telemóvel na mão. “Aimee, o teu pai morreu”.

 

Juliete lembra-se do irmão, o pastor Isaías, na missa de domingo, na floresta de Missnana. “Agarrem as vossas vidas”, gritava ele, as mãos levantadas como garras, imitado por centenas de pessoas a cantar.

Juliete, a irmã do pastor, lembra-se das manhãs de segunda, terça e quarta-feira passadas num buraco, na floresta de Tânger. “Eu levava uma bíblia, e ficava ali horas, a ler, cheia de medo”. Lembra-se da primeira tentativa de passar o estreito e de como foi apanhada pela polícia marroquina, no meio do mar. Estranhamente, lembra-se de Oujda e do regresso a Missnana com alguma nostalgia. Nesse tempo, sentia-se privilegiada, porque, ao contrário de algumas mulheres e de todos os homens, ela tinha um “contrato”. Nunca esperou muito tempo em nenhuma das “estações” (apesar dos oito meses em Missnana), o dinheiro necessário para ultrapassar todas as etapas acabou sempre por lhe chegar às mãos. Enquanto outros morriam ou ficavam esquecidos em Oujda ou alguma “estação” no meio do Mali, a ela a “organização” vinha sempre salvar no último momento. Sentia-se protegida.

Está há seis meses na Europa, e essa sensação de pertencer de corpo e alma a uma entidade tutelar ainda não se dissipou, apesar do violento embate com a nova realidade.

Foi um estranho pacto, ainda que inequívoco, que a ligou a essa entidade. Com a mãe e uma tia, Juliete deslocou-se ao escritório de um advogado, na cidade de Benim. Estava nervosa, mas ao mesmo tempo excitada com a perspectiva de um novo mundo que lhe abria as portas. O advogado já tinha pronto o “contrato”, um documento impresso, de várias páginas, num papel timbrado com o nome da organização — a Taskforce. Não foi preciso ler. Já todos conheciam o conteúdo do sinistro acordo: a Taskforce compromete-se a levar Juliete até um país europeu, onde lhe providenciará trabalho. Em contrapartida, ela ficará obrigada a pagar à organização, a um ritmo semanal, a totalidade das receitas do seu trabalho, após deduzido o essencial à sua sobrevivência, até perfazer uma dívida de 40 mil dólares. Até lá, Juliete não terá qualquer liberdade. Será propriedade da Taskforce, que disporá em absoluto da sua vida, por intermédio de uma “madame”, a quem entregará o dinheiro e que fiscalizará toda a sua actividade. O “contrato” só não precisa qual é a actividade. A Juliete disseram que teria de acompanhar homens, e todos, excepto ela, sabiam o que isso queria dizer.

Usando uma linguagem hipocritamente pseudo-legalista, o contrato estipula ainda que a Taskforce providencia total protecção à rapariga e respectiva família, protecção essa que será imediatamente retirada em caso de incumprimento do articulado. Tradução: se a escrava falhar com os pagamento haverá represálias sanguinárias e imediatas sobre a sua família, na Cidade de Benim.

Firmado desta forma, por vezes selado com rituais vudu, o “contrato” torna-se um vínculo que nenhuma rapariga terá coragem de romper.

Grace, por exemplo, que tinha um contrato e esperava em Missnana pelo dia do embarque num “zodiac”, ficou ferida numa perna durante uma das rusgas policiais na floresta. Quando, semanas depois, a conseguiram levar ao hospital, soube que, para sobreviver, teria de amputar um pé. Entrou em pânico, não por si, mas pelo que pensariam os “patrões”. O homem da Taskforce foi contactado e a resposta foi peremptória: não autorizava a amputação. Que Grace morresse, pouco importava — uma mulher sem um pé não teria qualquer valor.

Graças à intervenção de uma agente de uma ONG, a “organização” acabou por aceder a anular o contrato. Grace pôde ser tratada mas não se mostrou agradecida. Deprimida por não ter podido honrar o “contrato”, vive hoje enclausurada com as freiras de Calcutá, em Tânger. “Nunca saio desta sala. Nem sei o que se passa nas outras partes do convento”, confessar-me-ia Grace, em Tânger. No mesmo aposento, outras sete nigerianas, uma de cadeira de rodas, entregam-se a uma vida vegetativa.

A Taskforce, uma das duas grandes organizações mafiosas que controlam o tráfico de prostitutas na Nigéria, tem agentes distribuídos por toda a Europa, a quem as raparigas devem telefonar, mal cheguem a Algeciras. São eles que as distribuem pelos vários países e que as apresentam às “madames”, elas próprias antigas prostitutas que ficaram a trabalhar para a organização. Vêem-se como sofisticadas mulheres de negócios e viajam permanentemente, para garantir o perfeito funcionamento da  “máquina”.

“A minha ‘mãe’ está cá agora”, diz Juliete. E a sua expressão evolui num trejeito de vaidade e insolente afecto. “A minha ‘mãe’ está cá”. Como se houvesse sempre dignidade em estarmos à altura do destino que nos foi reservado.

À chuva, no meio da Praça do Intendente, Juliete é uma criança perdida. Já pagou oito mil dólares. Só faltam 32 mil. A uma média de três clientes por dia, prevê poder liquidar a dívida em dois anos. Depois, será livre.

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