“Se não estás satisfeito, a porta de saída é ali”.

images-3Trabalhar num call center é viver num mundo de pobreza, instabilidade, pressões e humilhações.

Para Nuno, o pior de tudo era ter de enganar os clientes. Trabalhou no enorme call center da Portugal Telecom em Coimbra, antes de vir para a Teleperformance, em Lisboa. Em Coimbra trabalhou no sector “outbound” (quando é o operador que faz a chamada, geralmente para vender) da MEO. “Tínhamos de dar a entender às pessoas que, se não comprassem o serviço MEO, ficariam sem televisão, o que era mentira”, recorda Nuno, ao PÚBLICO. Era o período em que foi introduzida a Televisão Digital Terrestre (TDT). Quem não tinha qualquer serviço por cabo, teria de instalar um descodificador para continuar a ter sinal de televisão. Não era necessário aderir ao MEO, mas os operadores só explicavam isto se o cliente o perguntasse explicitamente. As instruções que tinham eram claras quanto a isto. Continuar a ler

Os call centers vão salvar a economia portuguesa?

olhoCompetências em línguas estrangeiras, boa infra-estrutura tecnológica, salários baixos, desempregados em desespero. Os Governos têm feito um bom trabalho, é melhor do que a Índia ou o Norte de África, consideram as grandes multinacionais dos call centers. E estão a vir para cá. A crise é “uma oportunidade extraordinária”, dizem os representantes do sector, e os call centers podem salvar a economia portuguesa

Parece uma imagem do futuro. O edifício é em betão e vidro, design leve e tons claros, com vista para o Tejo e o Oceanário, que fica mesmo em frente. Nos auscultadores, Maria ouve o bip de uma chamada interna. “Posso saber porque está de pé?” É a voz de uma das “team leaders”, que tem mais ou menos a idade da sua filha. “Eu já não disse que não quero ninguém de pé?”

Maria, segundo o relato que fez ao PÚBLICO, estava no seu posto, no call center da Teleperformance, há várias horas. Como o sistema informático tinha caído, e era preciso esperar uns minutos para que recomeçasse, tinha-se levantado para esticar as pernas.

“Não pode estar de pé. É do regulamento”.

“Eu conheço o regulamento, mas preciso de levantar-me por um minuto”, responde Maria.

“Cala a boca”.

“Não podes tratar-me assim, sou um ser humano”.

“Se não estás satisfeita, a porta da rua é ali”.

O edifício está divido em salas, cada uma dedicada a um “projecto”, com centenas de operadores sentados em mesas iguais, com um terminal de computador e auscultadores. No refeitório, todo branco e onde as refeições, subsidiadas, custam 2,5 euros, ouve-se falar várias línguas. Grande parte dos trabalhadores que circulam, dali para os seus locais de trabalho, ou para a porta de saída, para fumar, fazendo passar os seus cartões de acesso pelos torniquetes, são estrangeiros. Quase todos muito jovens. Continuar a ler

Deviam obrigá-los a ficar

Tal como há regras para impedir que os políticos se perpetuem no poder, também deveria haver leis que os obrigassem a cumprir os mandatos até ao fim. Dessa forma os oportunistas pensariam duas vezes antes de se candidatarem.

Os líderes portugueses das últimas décadas são aventureiros a experimentar projectos que são fruto de pouco estudo, pouco trabalho, pouca seriedade, pouca generosidade, pouca inteligência, pouca imaginação. Quando as coisas começam a correr mal, põem-se ao fresco, culpando tudo e todos. Sobra-lhes em ambição pessoal e vaidade o que lhes falta em visão e sentido de serviço.

Guterres demitiu-se para que, segundo ele, o país não caísse “num pântano”, mas deixou-o “de tanga”, como disse o sucessor, Durão, que a meio do mandato fugiu para Bruxelas. O seguinte, Santana, só durou meses. Despedido, cedeu o lugar a Sócrates, que se demitiu por Passos não o deixar aplicar um décimo da austeridade que ele próprio, quando o substituiu, viria a impor, pela mão de Gaspar, que quando viu os efeitos da obra, decidiu bazar, logo seguido por Portas, que saltou do barco quando viu a borrasca.

Raspem-se antes do tempo, se quiserem, mas, como obrigaria qualquer contrato de trabalho decente, paguem-nos a nós, os lesados, uma indemnização correspondente às expectativas que criaram.

Em Arouca, quem é que consegue andar triste?

Dizem que há aqui um micro-clima. A vila, com pouco mais de 3 mil habitantes, situada no extremo norte do distrito de Aveiro, está rodeada de montes, num  vale propício a fenómenos meteorológicos originais. “Na terça-feira a temperatura desceu bruscamente de 25 para 5 graus, em 10 minutos, nunca vi uma coisa assim”, diz um homem habituado a acreditar em prodígios. Está um frio de rachar, isso é incontestável. Os factos falam por si, e em Arouca tudo é possível. “Frio? Que frio?”, diz Carlos Pinho, o blusão Gant de Verão aberto no peito. “Isto é uma terra de gente rija, de gente com garra”, diz ele. “Eu sou um homem com garra”.

Essa característica é a explicação para o que acaba de acontecer, segundo o empresário e presidente do Futebol Clube de Arouca. Um dia, em 2006, quando assumiu a liderança do pequeno clube, declarou que ia levá-lo à Primeira Liga dos campeonatos profissionais de futebol. Ninguém acreditou. Nem o presidente da Câmara, que tinha acabado de inaugurar o estádio municipal, para albergar o Arouca.

Para o primeiro jogo no novo estádio convidaram o FC do Porto. Milhares de pessoas vieram assistir. O Arouca perdeu 11-0. Foi o início do caminho para o êxito. Seis anos depois, ultrapassava todas as etapas das divisões distritais e das nacionais, e estava na Primeira Liga. Continuar a ler

A febre das casas pequenas

Dan Grossman na sua casa

Dan Grossman na sua casa

A consciência ecológica, a filosofia do faça-você-mesmo, a crise financeira e do sector imobiliário foram as condições para que o movimento eclodisse. Nos EUA, e um pouco por todo o mundo, cada vez mais pessoas optam por construir a sua própria casa, minúscula, e viver nela. Só assim se sentem donas das suas vidas.

 

Já a morada, é estranha. “Quintal do nº 50 da rua W…” Quintal do número 50? Sage Rad vive num quintal? Não há dúvida, é aqui. O número 50 corresponde a uma casa enorme, de madeira, idêntica a todas as outras de Roslindale, um bairro quase chique não muito distante do centro de Boston. Mas o acesso à garagem está tapado por uma velha carrinha Dodge com um estranho atrelado de madeira. Ao lado há uma bicicleta também com um atrelado comprido onde pode dormir uma pessoa. E depois a cabana.

Esta é a morada de Sage, uma barraca de madeira que ele próprio construiu, há quatro anos, num quintal emprestado. Há ainda materiais a toda a volta, além de lixo, tábuas, troncos, quadros, espelhos, baldes, cadeiras e mesas, serviços de porcelana, plásticos, relógios, vasos, escadotes, candeeiros, guitarras, galinhas…

O seu mundo escapa a qualquer arrumação lógica. Ou assim parece. Inclui a cabana e o terreno à volta, e a garagem, transformada em oficina. Contíguo ao seu quintal, existe um enorme campo de golfe. Por vezes, as pequenas bolas brancas vêm aqui parar, como meteoritos provenientes de uma galáxia hostil. Nunca as devolve.

No interior da pequena casa reina o caos. É a primeira impressão. Mas há um fogão para cozinhar e uma salamandra para aquecer. A electricidade é fornecida por painéis solares instalados lá fora. Uma cama, num beliche, e nas paredes prateleiras com centenas de frascos, latas, recipientes, facas, utensílios de cozinha, fruta, nabos, cebolas, ovos, chávenas e bules de chá, quadros, papéis pendurados. Por baixo da cama é o lugar da roupa. É difícil não considerar que está amarrotada. Por cima do colchão, e atrás do saco-cama engelhado, dispõe-se os livros, alinhados como num escaparate. Em destaque, à cabeceira, A Origem das Espécies, de Darwin.

As galinhas passeiam-se sobre as prateleiras da comida, debicando aqui e ali, esvoaçando pela casa. Sage Rad (abreviatura de Radachowski, o seu apelino eslovaco) senta-se num banco e faz café. Barba, cabelo desgrenhado, 39 anos, uma t-shirt com manchas coloridas e a frase “Legalize Life”. Seria fácil dizer que tem um olhar de louco. Demasiado fácil.

Continuar a ler