Otelo – o Revolucionário

 

UM HOMEM ORGANIZADO

Otelo demora, todos os dias, cerca de duas horas na casa de banho, a tratar da higiene pessoal. É uma longa e aprimorada série de cuidados que dificilmente se poderá atribuir à vaidade, já que não produz resultados exteriores visíveis. Assemelha-se mais ao conjunto de ritos e abluções de um culto individual e iniciático.

Primeiro mergulha no duche, demorado e meticuloso. Depois limpa-se, com igual minúcia, e dá início ao tratamento capilar integral. Com um curto ancinho de plástico, uma pequena carda adequada, remove as pilosidades corporais que vão caindo. A seguir escova os abundantes pêlos do peito, costas, pernas, etc. Usa uma vassourinha própria, arredondada, semelhante a uma escova de cabelo de mulher, mas sem cabo. Após esta operação, certas zonas da pele podem estar a precisar de uma limpeza adicional. Otelo procede então à lavagem localizada, servindo-se de várias águas.

Depois, nu, em frente ao espelho, com a porta aberta, faz a barba. Como é espessa, exige várias passagens da lâmina, o que torna frequentes os ferimentos. Quando isso acontece, entra em acção o kit de cura, que inclui pequenos algodões embebidos em álcool.

O pentear também leva o seu tempo, com os respectivos truques e rigores geométricos. Completa-se com uma aplicação de gel, leve, mas uniforme. Tal como a pulverização com perfume, que geralmente fica para o fim. Tudo isto ao som do rádio transístor.

Concluídos os trabalhos, é preciso arrumar. Instrumentos, recipientes e produtos são guardados nos seus sítios, no armário. Tudo fica impecável.

Otelo é apaixonado pela simetria, o rigor e a rectidão. Não suporta ver um quadro torto na parede. Corre logo a endireitá-lo. À mesa, gosta de ter os talheres alinhados, na posição correcta. O mesmo com os copos e os guardanapos.

É um homem caseiro. Capaz de passar dias inteiros sem sair, desde que tudo esteja a seu gosto. Aprecia a limpeza e a arrumação, não tolera um objecto fora do lugar. Nisto, a filha, Ana Margarida, que não é sua filha, sai a ele.

Dá valor à disciplina, mas, em todos os regimes em que viveu, foi o mais perigoso dos rebeldes.

Otelo é um homem pacífico. Não faz mal a uma mosca, andou na guerra sempre com a arma descarregada. Não obstante, derrotou a totalidade das forças do país, fazendo cair o Governo e todas as estruturas do poder. Nunca disparou contra ninguém, nunca agrediu ninguém, nunca insultou ninguém. Mas foi condenado por terrorismo e assassínio. Mais tarde amnistiado e absolvido.

É um tipo bem disposto. Raramente se lhe ouviu uma palavra amarga, mesmo quando foi preso, ou traído pelos amigos todos. Tem muitos amigos e não tem nenhum. Aqueles que mais o admiram viraram armas contra ele, mandaram-no prender. Os que o odeiam só ouvem de Otelo palavras de respeito e afecto.

Não cultiva os amigos. Não lhes telefona, não sai com eles, não os convida para jantar. Esquece-se deles durante anos. Mas se algum lhe pede ajuda, nunca se esquiva. Também não tem problemas em pedir favores a quem quer que seja. Graças a isso fez um golpe de Estado. Pediu auxílio a alguns inimigos, e eles não tiveram coragem de recusar.

Otelo é um ser social. Tem perfil de líder. Numa reunião ou numa festa, é o centro das atenções. Fala muito, conta histórias, faz palhaçadas. As pessoas sentem que tudo o que existe no seu coração é autêntico, generoso, elevado e nobre, e apaixonam-se por ele. Seguem-no, se for caso disso.

Mas ninguém o conhece verdadeiramente. Otelo não se abre, não faz confidências. É um homem solitário.

No entanto, sente-se bem em família. Tanto, que tem duas. Casou cedo, com uma colega de liceu. Mais tarde, na prisão, teve outro amor. Não foi capaz de abandonar a primeira mulher, nem a segunda.

Um dos seus melhores amigos, Mouta Liz, que foi companheiro no Projecto Global (que o tribunal de Monsanto considerou sinónimo de FP-25) e nos negócios em Angola, considera a bigamia de Otelo como um dos seus maiores actos de coragem. Enquanto muitos homens tem uma ou várias amantes clandestinas, Otelo assume as suas duas mulheres. Aparece em público com elas, não mente a nenhuma, trata-as por igual.

Também nisso é organizado. De segunda a sexta vive numa casa, sexta, sábado e domingo passa-os na outra.

É o género de homem que não vira a cara às dificuldades, que age naqueles momentos em que todos ficam paralisados. Ele é o que fica de pé quando todos se dobram. O que se chega à frente quando os outros se encolhem. Está sempre pronto para o sacrifício. No sentido clássico, é um herói.

Quando o país morria numa guerra injusta e perdida, e definhava esmagado por uma ditadura de meio século, ele planeou e executou uma revolução. Muitos clamaram pelo fim do regime, muitos lutaram. Mas no momento de agir, foi ele, homem organizado, que fez o que tinha de ser feito.

Foi graduado várias vezes em general, convidado para Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, para primeiro ministro, para Presidente da República. Nunca aceitou nenhum desses cargos. Teve o povo todo consigo, mas quando se candidatou às eleições, perdeu.

Sente-se bem no palco, mas não ama o poder. Ainda que o tenha tido, absoluto. Eis a história de um homem a quem não deixaram ser actor, e se tornou militar.

(…)

BILHETES PARA A ÓPERA

No dia 23 de Abril, antes de sair de casa, Otelo disse a Dina: “A hora H é só depois de amanhã, pelas 3 da madrugada, mas eu vou agora, e já não volto”. Tinha decidido não dormir em casa nessa noite.  O plano podia ter sido descoberto, através de uma denúncia, e  não podia correr o risco de ser preso.

“Às quatro horas deve ir para o ar, através do Rádio Clube, o nosso primeiro comunicado”, disse à mulher. “Sintoniza o transístor. Se ele for lido, é bom sinal. Significa que temos o emissor na mão e que tudo está a andar bem”.

“E se não for?”, perguntou Dina. Ela não ignorava que um golpe para derrubar o regime estava a ser preparado, mas não sabia quando, nem o protagonismo que o marido nele assumiria. Otelo contou-lhe tudo, naquele momento.

“Vais aguardando os noticiários seguintes”, explicou. “Se em vez dos nossos comunicados, passares a ouvir outro tipo de notícias, a favor do Regime, e falando de novo golpe abortado, isso significará que perdemos o combate”.

“E então?” Dina fazia um esforço por se mostrar calma.

“Então, não sei ainda o que me poderá acontecer. Presumo que serei demitido, entregue à PIDE, passado a civil, e vá aboborar por uns anos largos em Caxias, ou, quem sabe, faça uma viagem só com um bilhete de ida para o Tarrafal. Mas não te apoquentes com nada disso. Porque eu tenho a certeza de que, em poucas horas, ganharemos esta guerra. Dominamos quase todas as unidades do país, a malta está com uma gana formidável, temos a nosso favor o efeito surpresa”.

Era uma conversa normal. Tão desmesurada, que só podia ser uma conversa normal.

Dina disse: “Então já não vamos amanhã à ópera”. Tinham comprado bilhetes para La Traviata, de Verdi, no Coliseu dos Recreios, na noite de 24. Não queriam perder a interpretação de Joan Sutherland, a soprano australiana conhecida como La stupenda.

Otelo ainda respondeu que levaria os bilhetes, para os trocar.  Mas achou que isso poderia levantar suspeitas, depois do que se tinham esforçado para conseguir aqueles ingressos com desconto, na Secção de Actividades Culturais e Recreativas da Academia Militar. Não os devolveu. Dina escreveria no envelope, que nunca deitou fora: “Faltámos por motivo imprevisto”.

Otelo meteu num saco o uniforme número 2, com o respectivo blusão de couro verde. Foi dar um beijo a Sérgio, que dormia, e despediu-se de Dina: “Sexta-feira estarei cá para almoçar contigo. Até lá meu amor”. Saiu, mas ao fundo das escadas notou que se esquecera da pistola FN. Voltou a casa e encontrou a mulher, sentada na cama, a chorar.

(…)

Quarta-feira de manhã, nos Correios da rua D. Estefânia, depois de ter dormido no Regimento de Engenharia 1, Otelo enviou a Melo Antunes, nos Açores, um telegrama que dizia “A tia Aurora partiu para os Estados Unidos”, a senha combinada para informar que a operação se tinha iniciado. Fez os últimos contactos, regressou ao RE1 às 10 da noite. Fardou-se, vestiu o blusão de cabedal e desceu. Na escada encontrou Sanches Osório, que lhe entregou os quatro comunicados do MFA redigidos por Vitor Alves.

Dirigiu-se para o Posto de Comando, na Pontinha. Era um barracão pré-fabricado com uns 50 metros quadrados e as janelas tapadas com cobertores. Havia poucas cadeiras, mas várias mesas, onde Garcia dos Santos, que já tinha chegado, instalara telefones e rádios. Lopes Pires também já lá estava, fumando o seu cachimbo. Outros militares faziam ronda ao recinto. Otelo entrou, abriu a pasta e tirou a Carta Operacional, que não era mais do que um exemplar do Mapa de Estradas do ACP, de 1973, todo rabiscado com os itinerários das várias colunas em movimento.

O rádio Philips de Lopes Pires foi sintonizado nos Emissores Associados de Lisboa. Às 22h55, ouviu-se a voz de João Paulo Dinis: “Faltam cinco minutos para as 23 horas. Convosco, Paulo de Carvalho, com o Eurofestival 74, E Depois do Adeus”. A música começou. “Quis saber quem sou, o que faço aqui…”

Nesse momento, na Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, o tenente Sales Grade sai do seu quarto, acompanhado pelos tenentes Andrade da Silva e António Pedro, e dirige-se, de pistola em punho, ao gabinete do Comandante, Coronel Mário Belo de Carvalho. Como combinado, outros quatro jovens oficiais já ali se encontravam, a pretexto de uma reunião com o coronel. Por uns segundos, ficam todos em silêncio. Apercebendo-se de que alguma coisa não corre bem, Belo de Carvalho tenta aproximar-se da sua secretária. É Andrade da Silva quem grita, por fim: “Porra! Haja alguém que diga ao nosso Comandante que ele está preso!”

(…)

A AMIZADE E A GUERRA CIVIL

A tensão entre os dois amigos [Otelo e o capitão Vasco Lourenço] vinha aumentando, à medida que se apercebiam de que estavam em lados opostos da barricada. Sempre houve também, entre si, alguma rivalidade quanto ao protagonismo em todo o processo revolucionário. Vasco Lourenço achava que, se não tivesse sido desterrado para os Açores, seria ele o líder da revolução. Mas ao mesmo tempo não ignorava que o carisma de Otelo era de outro calibre. Se ele, Vasco, era sem dúvida admirado e respeitado no seio do MFA, Otelo tinha o poder de encantar as massas. Era o homem das grandes ocasiões, das grandes causas e ideais. Mas a essa propensão para a grandeza não era alheia, por outro lado, a sua faceta de actor. E isso Vasco deplorava.

Muitos dos actos do chefe do Copcon só eram explicáveis pela sua necessidade de agradar às plateias, pensava Vasco Lourenço. Isso levava-o, muitas vezes, a não compreender o que estava em causa, e a cometer erros estúpidos.

(…)

Vasco Lourenço via-se por vezes como o ponto do teatro, lembrando as falas ao actor principal. Geralmente sem êxito, o que o exasperava.

Em vários momentos-chave do processo revolucionário, os dois amigos estiveram no centro das decisões. Em vários momentos, parecia que ninguém mais existia, para além deles. Personificavam a revolução, nas suas duas faces opostas e complementares – onde Otelo era radical, Vasco era moderado. Onde Otelo se mostrava volúvel e influenciável, Vasco provava ser lúcido e teimoso, sólido como um rochedo. Mas também inábil e supérfluo, desajeitado e rabujento, enquanto que a Otelo bastava uma palavra para virar o país do avesso.

Se, na vida política, Spínola foi para Otelo uma figura paternal, Vasco Lourenço era sem dúvida o irmão. Um irmão mais velho, apesar de ser mais jovem.

Eram ambos personagens quixotescas. Pareciam estar no centro de tudo, mas, observados numa perspectiva história de longa duração, é óbvio que a realidade sempre lhes escapou.

Nenhum foi Presidente nem primeiro-ministro, e todos os que pareciam personagens secundárias os vieram a ultrapassar, quando o pó assentava. Esgrimiam no vento, e as suas vitórias e conquistas nunca se materializaram em nada.

Da sua iniciativa, coragem e abnegação não retiraram nenhum benefício pessoal, e a História não os registou como protagonistas, excepto numa dimensão paralela, subliminar e invisível. Foram figuras à medida do período histórico que os produziu, também ele onírico e irreal.

E talvez por isso seja difícil perceber até que ponto dominaram os acontecimentos. E através de que meios, que misteriosos instrumentos. Na cabeça deles, tudo se passou como se não houvesse mais ninguém. Como se o país lhes estivesse entregue, totalmente vulnerável. Viam a realidade contingente e as possibilidades infinitas. O seu mundo era fantasmagórico, um sonho tornado verdade.

A influência histórica que tiveram talvez venha a ser incompreensível para os futuros historiadores. São factores indefiníveis, absurdamente simples, como por exemplo a amizade. A camaradagem militar forjada na guerra, que não era uma guerra qualquer: era injusta e estava perdida. E como nenhum homem sobrevive sozinho numa guerra injusta e perdida, a dívida que contrai com os seus companheiros é maior do que a própria vida.

Garcia dos Santos, que fez o Plano de Comunicações do 25 de Abril, diria mais tarde: “Tenho a certeza de que em nenhuma circunstância o Vasco Lourenço e o Otelo chegariam a um ponto em que, frente a frente, um disparasse um tiro nos cornos do outro”.

Durante todo o PREC, os Capitães de Abril insultaram-se, prenderam-se uns aos outros, conspiraram, fizeram golpes e contra-golpes, levaram o país ao caos. Mas nenhum foi capaz de dar um tiro nos cornos de um amigo.

Naquele período, entre Abril de 1974 e Novembro de 1975, em que todas as ideologias disponíveis no planeta se digladiaram aqui, nas suas formas mais radicais, em que os líderes das várias facções antagónicas eram militares armados até aos dentes, e não existia nenhum poder superior para os controlar, em que, entre milhões de pessoas, o ressentimento de décadas de opressão se misturava, como nitroglicerina, com o despojamento selvagem dos que nada têm a perder, não houve violência.

Mas agora chegara o momento da ruptura. O ódio crescera até aos limites. O país estava dividido e a reconciliação já não era possível. A brincadeira chegara ao fim. Agora, seria a sério. Os factos falavam por si, a História seguiria o seu curso inapelável, e até esse símbolo que era a amizade entre Otelo e Vasco Lourenço tinha de se lhe submeter, dissolvendo-se no ar.

Um dia de Novembro, na sede do Copcon, os dois homens tiveram uma discussão violenta, pela noite dentro. O tom de voz aumentava, à medida que percebiam, com desespero, que as suas posições eram irreconciliáveis e os colocariam em lados opostos da guerra que se aproximava. No auge da raiva, quando os companheiros temeram ver um deles sacar da pistola e dar um tiro nos cornos do outro, os dois duros calaram-se subitamente e desataram a chorar.

Paulo Moura

Otelo – O revolucionário

4 comentários a Otelo – o Revolucionário

  1. Pingback: Deste Paulo Moura eu gosto | O dia inicial inteiro e limpo

  2. Se o quisessem julgar pelas recentes declarações de que era necessário fazer outro golpe militar, creio que milhares de Sanchos Pança se oporiam, Otelo quer gostem ou não dele, é o santo e a senha do 25 de Abril e o herói o Salgueiro Maia.

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