O Terraço

(Foto de Nacho Doce)

Há clientes do pôr-do-sol. Vêm à hora certa, assistem ao espectáculo bebendo uma morangoska e partem. Nunca é igual. O Sol gira em torno da cidade, sem nunca o perdermos de vista, e muda de cor com os dias e os meses, consoante pousa nos telhados ou no rio.

Outros chegam ao fim da manhã, para um “brunch”. Trazem as crianças, um jornal, um livro. Há quem venha trabalhar. Laptot pousado na “chaise longue” ou no “puff”, telemóvel na orelha e olhos no horizonte. Chegam a marcar reuniões aqui, com colegas ou clientes. Discutem, tomam decisões, fazem “brainstormings”.

Actores e actrizes vêm para cá decorar os papéis. Artistas plásticos, arquitectos, designers, trazem cadernos e lápis e desatam a ter ideias, a inventar e projectar.

Certas pessoas vêm à noite, para conversar, ou namorar. Ou dançar, quando há DJs convidados. Se está frio, há mantas para os joelhos. Cada vez mais, desde que isto existe, há clientes que passam aqui a vida. Trabalho, lazer, fazem tudo aqui. Pois se não há sítio melhor para estar! Uns têm aqui toda a sua vida social, outros saboreiam a solidão. O espaço é grande, dá para tudo. Até há quem venha dormir.

O serviço de bar é bom, a música é excelente, a vista é a melhor de Lisboa. E não se paga para entrar, pode-se ficar o tempo que se quiser, fazendo o que nos apetecer.

As pessoas estão como se estivessem na praia. Aliás, a ideia dos quatro proprietários era cobrir o chão de areia, conta-me Camille, uma arquitecta francesa de 32 anos que veio a Portugal de férias e ficou “para oferecer isto aos lisboetas”. Mas não foi necessária a areia: isto é uma praia. É a minha praia.

Seja quem for que ganhe as autárquicas e até as legislativas, os lisboetas acreditam que tudo ficará mais ou menos na mesma. Com o resto dos portugueses, claro, passa-se o mesmo. Haja ou não maioria absoluta, crise política, ou surpreendentes coligações. Quer a recessão seja ultrapassada ou se agrave, a situação internacional nos favoreça ou nos castigue, haja ou não TGV, aeroporto ou terceira ponte, os lisboetas acreditam que o trânsito continuará infernal, as ruas da baixa cheias de buracos, os prédios devolutos e a cair de podres.

Mas ninguém acredita que o Terraço do Chão do Loureiro continue como está. Por uma razão simples: é demasiado bom. E nem essa força omnipotente constituída pela sinistra amálgama de inércia, preguiça, interesses inconfessáveis e incompetência tem aqui alguma hipótese de vencer.

Os quatro entusiastas do Terraço sempre souberam que a concessão era temporária. Três anos depois, disseram-lhes agora que tinham de sair. O prédio, que pertence a uma empresa camarária, vai ser transformado num parque de estacionamento e o terraço num restaurante de luxo. Está por semanas. Não importa que seja um dos melhores lugares do mundo, aberto a toda a gente. Que seja um património, um santuário, que seja já, até, um luxo. Porque isto só pode ter sido um engano, uma negligência. Alguém se esqueceu deste paraíso. Ninguém acredita que o salvem.

(PÚBLICO)

Um comentário a O Terraço

  1. Esta foi a notícia mais triste do meu dia. Na última visita a Lisboa estive neste terraço a almoçar. O Chapitô estava fechado e por isso comemos lá uma sandes a olhar para o rio. Estava vento e a meu lado tinha uma pessoal especial. Esta foi a notícia mais triste do meu dia porque, para além de ter perdido essa pessoa especial, agora sei que nunca mais a vou poder recordar sentada no puff onde tivemos um dos nossos últimos momentos. Vou ter saudades desta vista magnífica. Que injustiça…!

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