O Segredo da Cartuxa

1

“Como era no princípio, agora e sempre”.

Meia-noite e um quarto. Um a um, vão chegando, em silêncio.

“Christum Regem adoremus, dominatem gentibus qui se manducantibus dat”.

Uma lâmpada em cada lugar, onde o monge chega, se senta, e abre o livro. Página 107.

“In solemnitate Corporis Christi”.

O Prior bate uma vez com os nós dos dedos na madeira e apagam-se as luzes. Uns minutos de silêncio e escuro. Só uma pequena vela, no altar, ilumina a capela. O Prior bate duas vezes com os nós dos dedos. Acendem-se os candeeiros. Cantam.

“Como era no princípio, agora e sempre. Amén”.

Em latim e monofonia gregoriana.

“Spiritus pinguedinem. Venite. Fructum salutiferum gustandum dedit Dominus mortis suae tempore”.

Numa prateleira, estão os vários livros, que os monges vão abrindo, fechando, trocando, num complicado ritual.

“Corpo de Deus. Primeiro nocturno. Salmo 1. Feliz o homem que não segue o conselho dos ímpios”.

Sentam-se. Suspiros. O ranger dos bancos, de madeira velha.

“Compadecei-vos de mim, e ouvi a minha súplica. Até quando, ó homens, sereis duros de coração? Porque amais a vaidade e procurais a mentira? Sabei que o Senhor faz maravilhas pelos seus amigos. O Senhor me atende quando O invoco. Tremei e não pequeis, no silêncio dos vossos leitos falai ao vosso coração. Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor”.

Diria que um dos monges está a dormir. Está mesmo a dormir.

“Senhor, porção da minha herança e do meu cálice, está nas vossas mãos o meu destino”.

Parecem uma seita esotérica esquisita.

“Do Santuário Ele te socorra e de Sião te defenda”

Estamos noutro mundo, noutra época. Noutra lógica. Noutra vida.

“O Senhor é o meu pastor, nada me falta. Leva-me a descansar em verdes prados. Conduz-me às águas refrescantes e reconforta a minha alma. Ele me guia por sendas direitas, por amor do seu nome. Ainda que tenha de andar por vales tenebrosos, não temerei nenhum mal, porque Vós estais comigo, o vosso cajado e o vosso báculo me enchem de confiança”

Uma traça zumbe em volta das lâmpadas.

“Para mim preparais a mesa à vista dos meus adversários. Com óleo me perfumais a cabeça, e o meu cálice transborda. A bondade e a graça hão-de acompanhar-me todos os dias da minha vida, e habitarei na casa do Senhor para todo o sempre”.

Todas as noites fazem isto, durante uma vida inteira.

“Eu amo, Senhor, a casa em que habitais e o lugar onde reside a vossa glória”.

As luzes apagam-se. Um dos monges avança para o leitório. O Prior vai ligar-lhe o microfone. O monge começa a recitar um excerto da Bíblia, em português.

Todos em silêncio, num recolhimento cheio de dramatismo. Partem para outro mundo. Toca o sino.

Escuridão.

Luzes.

As vozes.

“Como suspira o veado pelas correntes das águas, assim minha alma suspira por Vós, Senhor. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo. Quando irei contemplar a face de Deus?”

É 1h15. Toca o sino. Cantam agora com júbilo, como se entrassem na eternidade.

“Com os vossos prodígios, atemorizais os povos distantes, e, do Oriente ao Ocidente, fazeis brotar a alegria. Visitastes a Terra e a regastes”.

De repente, um monge ajoelha-se e beija o livro, no que parece um ímpeto de paixão. Mas é apenas em reparação de um erro cometido. Quando se enganam, os monges beijam o livro (ou a estante, “para não estragarem os livros com beijos”). Os outros continuam a cantar. Abrem mais um livro, volumoso e cinzento.

“Isaías, 25 e 26. Sobre este monte o Senhor tirará o véu a todos os povos, a cortina que cobre as nações. Ele destruirá a morte para sempre. O Senhor Deus enxugará as lágrimas de todas as faces. Ele tirará da Terra o opróbio que pesa sobre o Seu povo. Porque o Senhor falou”.

Escuro. Um padre sobe ao leitório, para ler a escritura. Silêncio. O Prior bate duas vezes com os nós dos dedos. Será que estes pequenos gestos lhes dão prazer? Os pequenos prazeres humanos. Ficam 15 minutos em silêncio, no escuro, voltados para o altar.

Um monge toca o sino. São quase três da manhã.

Saem em fila, metade para cada lado do claustro, em silêncio, tal como entraram.

Sigo atrás do Prior, que se desvia do seu caminho, para me guiar até aos meus aposentos. Continua a andar, sem abrir a boca. Pára à porta da minha “cela”. Como despedida, diz apenas, com um sorriso pueril: “Não sentiste arrepios?”

 

2

 

São cinco e um quarto da tarde, hora de Vésperas. Deslizam rente aos muros. Mais uma vez, como sempre, vêm em fila, das suas celas para a capela. Surgem seis de um lado, seis de outro do grande claustro, um após outro, em silêncio, cabeça baixa, capuz a cobrir a cabeça, todos na segunda metade da vida. Entram na capela, seis monges para cada lado nos bancos altos de madeira escura. Da prateleira à sua frente retiram os enormes e arcaicos livros de música, que colocam abertos na estante, antes de começar a cantar.

Um deles entoa uma frase, em português, o grupo de um dos lados responde em coro, seguido pelo grupo do outro lado, e assim continuam, alternadamente, em soturno canto gregoriano, contando histórias dos evangelhos para ninguém. Ajoelham-se, levantam-se, sentam-se, tiram o capuz, voltam a colocá-lo.

Um dos monges tem uma voz fanhosa, outro um sotaque anglo-saxónico, outro emite um som para dentro, outro marca apenas o final de cada frase, outro arrasta uma ladainha sonolenta, outro um sopro abafadiço (o imperativo da solidão impede os eremitas de se reunirem para ensaiar). O efeito final é de uma beleza inexplicável e hipnótica.

“Oramos com a voz, com a mente e com o corpo”, explica-me o padre Prior. Exactamente meia hora depois, voltam às celas, de novo em fila e em silêncio, como condenados. Os seus corpos rastejam junto ao muro mas as suas almas voam.

Sobre o jardim,  o imenso claustro, o claustrinho, com um aljube de onde tiram água fresca, da chuva, com um balde e bebem por um corcho alentejano, de cortiça, a biblioteca, para onde o padre-procurador compra “todos os livros que os monges pedem”, a igreja recém-restaurada com o faustoso altar barroco em talha dourada observado apenas por raros visitantes, as capelas onde cada padre diz missa sozinho, o terraço de onde se vê Évora, as celas espaçosas, com jardins privados, o cemitério, onde jazem, enterrados sem caixão, como nos primórdios do cristianismo, os seis monges que morreram desde a reabertura do convento, há 40 anos, e os mais de 100 dos séculos antigos e cujos nomes se conservam, os corredores de silêncio e luz, o quadro de madeira, chamado “a tábua”, autêntica pérola de artesanato onde, através de um sistema manual de pinos e “bandeiras” laterais móveis, são fixadas diariamente as tarefas de cada monge e do colectivo. As ordens “Passeio irmãos”, “Recreio comum”, “Corte cabelo”, “Lavagem lã”, “Lavagem algodão”, “Ofício defuntos”, “Sermão” surgem escritas nas tabuletas salientes, para que os monges saibam o que têm a fazer, sem precisar de falar.

Porque cumprem a regra do silêncio. Não abrem a boca, a não ser para cantar as orações, excepto domingo à tarde e durante o passeio pelo campo, de segunda-feira. Aí, caminham, dois a dois, e conversam. Sentam-se num banco de pedra, à sombra de um eucalipto, a que chamam “o casino”.

Nos outros dias, não falam entre si, e muito menos com estranhos, como um repórter e um fotógrafo “infiltrados” no convento. “Os monges não gostam e não querem falar. A sua vida é só eles e Deus, e eu tenho de proteger a sua solidão”, explica o padre Prior. “Conta-se que quando dois cartuxos se cruzam no claustro dizem sempre a mesma coisa: ‘Um dia, morreremos’. E o outro responde: ‘Já o sabemos’. Mas é mentira. Quando dois cartuxos se cruzam no claustro não dizem nada”. Também se conta que os cartuxos cavam todos os dias um pouco da sua própria sepultura. Mas é um mito que o padre Prior, lógico implacável, desmonta num ápice: “Imagine que cavamos um centímetro por dia. Ao fim de um ano, já são três metros e meio. Em 50 anos até pode encontrar petróleo”.

Fala pelos cotovelos, o padre Prior, Isidoro Alonso, 72 anos, natural de Burgos. Com os outros, que passam por nós como sombras brancas, não podemos conversar. Só mais tarde, em condições muito especiais. Monges idosos, com histórias fabulosas, condenadas para sempre a um sigilo sepulcral. O padre Bruno, americano de Baltimore, estudioso de ícones russos e da liturgia ortodoxa, o padre Gabriel, italiano com quase 90 anos, que foi responsável por um grandioso périplo da imagem da Virgem de Fátima por Itália, e chegou a ser enviado, por Roma, como embaixador informal para os países da Europa de Leste, antes da queda do muro de Berlim, numa espécie de missão de espionagem ao serviço da Santa Sé (durante a revolta húngara, en 1956, esteve em Viena de Áustria a coordenar o envio de ajuda aos insurrectos). O irmão António Maria, que veio de Moçambique há 35 anos para ingressar na Cartuxa.  “Chegou, veio para aqui e nunca saiu”, conta o padre Prior. “Não conhece nada. E não tem necessidade de conhecer nada”.

António Maria sorri com humildade. Mas aproxima-se disfarçadamente e consegue sussurrar, entre dentes, sem tirar o sorriso: “Tenho de falar consigo, a sós. Sem que o padre Prior ouça. Se voltarem amanhã…”

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