O que realmente aconteceu em Abu Salim?

O que terá acontecido aqui? O hospital está cheio de pessoas, mas todas mortas. À porta da Urgência estão cinco, podres. Em cima de macas nojentas, em poses indignas, de quem foi atirado para ali. Só o cheiro, mata. O silêncio e a quietude são absolutos, se não contarmos com o zumbido das moscas.

É um hospital relativamente grande, de arquitectura idêntica à dos outros, em Trípoli. Um hospital normal. Mas está mal situado. No bairro de Abu Salim aconteceram coisas que, dois dias depois, já ninguém quer recordar, e parece que a culpa ficou toda aqui.

Não é fácil entrar no hospital de Abu Salim. E não é só por a porta estar obstruída por aqueles cinco corpos, cobertos de pústulas, de crostas, de bolhas, de fluidos putrefactos e secos, como lava saindo de dentro deles. Não é só pelo escuro que se vislumbra através da porta, pelas manchas de sangue no chão, as postas de matéria pútrida, os instrumentos médicos espalhados no alcatrão, as roupas, sapatos, colchões imundos, macas vazias empapadas de líquidos humanos. Ou os outros vinte cadáveres lançados na ala direita do pátio, no meio do lixo. Não é só pelo fedor, pelo medo do que se pode encontrar nos corredores e enfermarias do edifício abandonado aos vermes e ao segredo.

É também pela sensação, irracional e indefinível, de que, uma vez lá dentro, não conseguiremos sair. O labirinto de morte afectar-nos-á a consciência e será fácil perdermo-nos. Estaremos demasiado próximos.

Um homem chega de carro. Vem procurar um irmão que desapareceu há semanas, mas não encontra a quem perguntar. Não há ninguém vivo no hospital. Como se médicos e enfermeiros, na incapacidade de lidarem com a desmesura dos problemas, tivessem simplesmente fugido. “Queria entrar lá, para tentar reconhecer o meu irmão, mas não consigo, com o cheiro”, diz o homem. Uma mulher chega à procura de um filho. Também não entra.

Um rapaz com uma mangueira aproxima-se das traseiras do edifício. Vive em frente, e no bairro não há água há quatro dias. No hospital sim, e por isso ele vai entrar, para fazer uma ligação. Chama-se Hussein, tem 24 anos e é engenheiro civil. O pai segue atrás, de túnica até aos pés. A casa deles é contígua, as janelas dão para o hospital. “Não aguentamos mais, este cheiro está a matar-nos”, diz o pai.

Ali Abdusasalam vive no mesmo quarteirão e é enfermeiro do hospital. Diz que saiu de lá há cinco dias, juntamente com o resto do pessoal, por medo do que estava a acontecer. Não queria morrer, explica apenas.

Chega um grupo incumbido de levar os corpos. Limita-se a cobri-los com lençóis. Outros carros aproximam-se da entrada, jornalistas, habitantes do bairro. “Este é o que foi executado lá em cima”, diz alguém, apontando para um dos mortos, que tem no peito uma credencial das Forças Especiais de Khadafi.

Um jornalista da Sky News diz ter encontrado provas de que houve execuções em massa, neste hospital e num edifício ocupado pelos rebeldes, junto à auto-estrada. Os corpos que viu apresentavam buracos de bala na testa, e alguns estavam algemados. Quando entraram no bairro, após quatro dias de combates violentos, os rebeldes terão feito centenas de prisioneiros entre os resistentes pró-Khadafi, que a seguir executaram à queima-roupa. Depois terão entrado no hospital e executado todos os inimigos feridos.

Abu Salim era o mais forte bastião de apoio a Khadafi. Uma das explicações é ser um bairro pobre, a quem o presidente protegia directamente. “Na Líbia não há bairros pobres”, corrige Hussein, o jovem engenheiro. “As pessoas aqui não são a favor nem contra. Apenas queriam proteger as suas vidas e as suas casas”. E pegaram em armas para se protegerem, dos “invasores”, dos “rebeldes”, dos “ratos”.

Desde os anos 70 que Abu Salim é um dos focos de apoio a Khadafi. Os comités do bairro estavam ligados aos comités revolucionários, mas, com o tempo, esses líderes comunitários foram-se transformando em chefes de gang.

“Os apoiantes de Khadafi aqui em Abu Salim são os traficantes de droga”, disse outro habitante do bairro, que pediu o anonimato. “A gente do Khadafi sempre lhes deu apoio, porque lhe interessava que eles mantivessem o controlo sobre os jovens, através da droga. Se dermos heroína a viciados, temo-los na mão”.

Quando rebentou a revolução na Tunísia, Khadafi percebeu que tinha de fazer alguma coisa para manter a fidelidade das suas hostes. “Começou a dar dinheiro e armas a estes traficantes”, que constituíram milícias. Com o avanço dos rebeldes, desde Fevereiro, Abu Salim tornou-se no último reduto de confiança das forças leais a Khadafi. “Todos os que foram derrotados em Misrata, e no complexo de Bab al-Aziziya, vieram para aqui”. Acabou por juntar-se um exército de alguns milhares de homens, que ofereceu a última barreira de resistência aos guerrilheiros anti-regime, até sexta-feira.

Farid Daquila, 39 anos, engenheiro petrolífero, vive aqui desde que nasceu, em frente à auto-estrada que liga Serage a Tajoura. “Logo na sexta-feira, vi chegar os tanques de Khadafi aqui ao bairro. E muita gente que não conhecia. Eu e a minha família fugimos, para casa de amigos, noutra zona da cidade”. A irmã e o cunhado, Jamal Abukassem, que é médico no hospital, vivem também em frente à auto-estrada, e abandonaram a casa.

“Durante cinco dias, não estivemos cá”, diz Jamal, 50 anos. Não foi mais trabalhar no hospital do bairro, e a sua casa esteve ocupada por estranhos. “Ocuparam esta casa e outras, desde sexta-feira. [Os rebeldes entraram em Trípoli no sábado]. Arrombaram a porta, ficaram aqui durante cinco dias”, diz ele, mostrando os vidros partidos de duas janelas. Foi dali que os snipers passaram todo aquele tempo a disparar contra os carros da auto-estrada, indriscriminadamente.

Em frente, na estrada, ainda está um carro destruído, e ao lado da casa está, desfeita, uma pick-up pintada com a bandeira dos rebeldes e com uma metralhadora anti-aérea na caixa aberta. “Eles disparavam contra todos os carros que passavam ali, nesta que eu chamo a ‘auto-estrada da morte’”, conta o médico. “Matavam toda a gente, e depois roubavam os carros, deixando os corpos na estrada. A maior parte dos cadáveres que estão no hospital vieram daqui”.

Durante toda a semana, diz ainda Jamal, as forças de Khadafi ocuparam o hospital. “Ninguém podia entrar nem sair. Os dois médicos que estavam no local ficaram retidos. E os que quiseram ir para lá trabalhar não puderam”. Por isso, conclui Jamal, é impossível que os rebeldes tenham executado pessoas no hospital. As forças de Khadafi estiveram ali todo o tempo, e fugiram antes de os rebeldes lá chegarem. “Todos os corpos que lá estão pertencem a civis, abatidos pelos soldados de Khadafi. Se alguns são das Forças Especiais dele, ou de mercenários africanos, é porque já lá estavam desde o início dos combates, e foram trazidos de várias regiões do país”.

Ahmed Duebbi é outro médico do hospital de Abu Salim. Na quarta-feira, tentou ir trabalhar, mas quase foi atingido por um sniper. “Cheguei entre o meio dia e a uma, pela auto-estrada, e comecei a ver corpos pelo chão”, conta ele. “Parei, mas alguém me gritou, de um carro: ‘Vai! Vai! Não pares!’ Arranquei, e uma bala atingiu o pequeno muro que divide as duas faixas, mesmo na minha direcção. Se eu não estivesse atrás do muro, teria morrido. Corri para um checkpoint dos rebeldes, em Al Falabij, mas eles disseram que não podiam fazer nada”.

Sexta-feira, os rebeldes asseguraram finalmente o controlo de Abu Salim. Os dois médicos e três enfermeiros que estavam no hospital abandonaram os seus postos, deixando atrás uma multidão de mortos. Neste momento, é impossível saber o que realmente se passou. Quem combateu por Khadafi foram as Forças Especiais e mercenários estrangeiros, ou os habitantes do bairro? Quem disparou das janelas do médico?

As milícias de Khadafi mataram centenas de civis desarmados, ou os rebeldes executaram os prisioneiros? Provavelmente ambos os crimes foram cometidos. Quem poderia contar ou está morto ou carrega uma culpa tão pesada, que jamais admitirá, ou sequer recordará o que fez, ou o que viu.

Dentro do hospital, há uma semi-obscuridade amarelada, uma atmosfera quente e fétida, lixo e sangue por todo o lado. Caminhando pelos corredores vazios e quietos, ouvindo o eco dos próprios passos, sente-se uma tontura crescente, uma náusea incontrolável. Tudo é horror e mistério. Na ala esquerda do edificio, o cheiro intensifica-se. É a zona dos mortos. A morgue, até a electricidade ter faltado, os frigoríficos e o ar condicionado terem deixado de funcionar. Agora é um depósito.

De ambos os lados do corredor há corpos em putrefacção. É impossível respirar. Ou manter os olhos abertos. Impossível perceber se os mortos têm balas na cabeça ou as mãos algemadas. Entrar aqui é um mergulho na loucura. Por momentos, sente-se que não se vai encontrar a saída. Que não há saída.

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