O palácio subterrâneo de Moscovo

No metro de Moscovo, uma boa parte dos dez milhões de passageiros diários vai a ler. Não livros, nem jornais, mas tablets. Raramente ipads. Quase sempre modelos mais baratos, kindle, ou outros. Há quem diga que estes gadgets são o símbolo da nossa classe média russa.

O Metro de Moscovo é um prodígio de funcionalidade, apesar do ar barroco. É um organismo vivo, apesar de pré-histórico. As suas doze linhas com mais de 300 quilómetros abarcam a cidade inteira, uma das maiores do mundo. À superfície, é impossível apanhar um táxi. Mas no “palácio subterrâneo”, como o metro é conhecido, tudo desliza com incrível rapidez e facilidade.  As estações bem podem ser decoradas a mármores antigos, lustres e estátuas: não há tempos de espera e nada atrapalha o tráfego. Os comboios de azul baço chegam pontualmente com intervalos de 90 segundos. As multidões avançam em rebanhos disciplinados pelos corredores e pelas intermináveis escadas rolantes. Tudo está perfeitamente organizado e indicado.

À excepção da circular que cruza todas as linhas, as outras seguem de forma radial e quase rectilínea do centro para a periferia. Dentro das carruagens, uma voz anuncia cada estação e a seguinte. Mas para que nenhum passageiro tome o comboio no sentido errado, é uma voz de homem que se ouve nos altifalantes das composições que circulam no sentido do centro, e uma voz de mulher nos que se dirigem para a periferia da cidade. A voz masculina representa o trabalho, a feminina o lar, inspirando os passageiros que viajam para o emprego, ou para casa.

A Rússia vai hoje escolher como e por quem quer ser governada. Há cinco candidatos à Presidência, mas o favorito é Vladimir Putin. O seu partido, Rússia Unida, sofreu uma quebra nas eleições legislativas de 4 de Dezembro, mas tudo indica que o líder continua a ter o apoio da grande maioria dos russos. Mesmo entre os que castigaram o seu partido nas urnas, e até entre os que saíram para as ruas protestando contra a falta de justiça e transparência das eleições e do sistema político que as organizou.

Putin consegue ser um símbolo do que há de pior no país, e também do melhor. Para a oposição política, e para o movimento contestatário, Putin representa a corrupção, a falta de democracia e a estagnação económica. Para os outros representa a estabilidade, a unidade do país, o progresso económico e a moralidade possível num país dominado por oligarcas, milionários em promiscuidade com os políticos, e estruturas de autoridade corruptas.

Mas vamos aos factos. A Rússia nunca foi tão próspera como é hoje. Vários factores contribuíram para isso, entre eles o aumento dos preços do petróleo e a estabilidade política e social garantida pelos 12 anos de consulado de Putin.

A economia do país cresceu, ainda que os analistas sejam unânimes em reconhecer que ela se baseia muito na exploração de matérias-primas, e pouco na diversificação industrial. Alguns sectores, como o bancário, desenvolveram-se vertiginosamente, o que deu emprego a muitas pessoas. Hoje, um jovem que termina os seus estudos universitários não tem dificuldade em encontrar trabalho. Nasceu uma classe média.

Slava Voronin, de 30 anos, é um exemplo dessa classe de pessoas que aufere um salário razoável (o equivalente a mil ou 1500 euros por mês), pode ter um carro, um empréstimo para um apartamento, uma família, hobbies de fim-de-semana e férias. Se bem que prefiram muitas vezes não as gozar, para receberem um bónus de salário. “Eu adoro o meu trabalho. Todos os dias venho fazê-lo com prazer”, disse Slava que, desde que terminou o curso, já teve cinco empregos. Agora trabalha num banco, 12 a 14 horas por dia, como é normal na nova classe média. Vive longe do centro da cidade, demora uma hora a chegar ao trabalho, de metro. Restam-lhe portanto 8 horas de descanso, “que mal dão para comer e dormir”.

Se continuar a progredir, o que implica mudar muitas vezes de empresa, em breve poderá ter uma posição como a do seu colega Ilia Laputin, de 33 anos, que é Gestor de Produto no mesmo banco (depois de passar alguns anos a saltar de empresa a empresa) trabalha as mesmas 12 ou 14 horas, mas ganha 10 mil dólares por mês.

Entre um caso e outro situa-se a classe média, que representa entre 20 por cento a 35 por cento da população da Rússia, e tem aumentado a um ritmo de 5 a 6 por cento ao ano.

Segundo Natalia Tikhonova, directora do Departamento de Ciências Sociais e Económicas da Academia das Ciências da Rússia, esta nova classe média é portadora de uma nova mentalidade. “A meritocracia é o sistema que lhes convém. Querem que haja igualdade perante a lei”, disse Natalia. A corrupção não interessa a esta nova classe de profissionais que quer vencer pelo talento e trabalho.

É por isso que muitos deles estão presentes nas manifestações pela justiça e transparência, e que esse movimento de contestação não vai desaparecer.

A Rússia mantém um sistema educativo de elevado nível, herdado do regime comunista, embora tenda hoje a tornar-se cada vez mais elitista. Os russos que lêem Tolstoi nos seus tablets Kindle têm também por hábito ir ao teatro, a espectáculos de música e de dança. Em Moscovo, há centenas de peças de teatro em exibição por dia, e as salas estão todas cheias. É verdade que o bilhete para um bailado no Bolchoi pode custar mil euros. Mas num pequeno teatro de bairro, onde a qualidade é alta, custa 5 ou 10 euros.

A nova classe média tem hábitos culturais, mas também neste capítulo a sociedade ainda não responde às suas necessidades. Qualquer pessoa cita correntemente Pushkin ou Tchekov, mas se perguntarmos por um autor contemporâneo, quase ninguém é capaz de nomear um.

É como se estas cerca de 50 milhões de pessoas que dominam a nova sociedade russa estivessem ávidas de um mundo que as preencha. Não que vivam deprimidas. A euforia é evidente. Ao contrário do que sucede na Europa Ocidental, na Rússia não se fala de crise.

“Os trabalhadores russos são altamente motivados”, disse Vladimir Medinski, ex-deputado da Duma pelo partido Rússia Unida e professor de História na Universidade de Relações Internacionais de Moscovo. “Em que país da Europa se encontram pessoas dispostas a trabalhar 12 horas por dia? Na China, por exemplo, as pessoas só trabalham a chicote, quando têm um superior imediato que as obriga. Na Rússia, trabalham porque têm vontade”.

Não se trata apenas de vontade de trabalhar. Nasceu também, na Rússia, um equivalente do “american dream”, ainda mais forte do que o original. Os elementos mais bem-sucedidos da nova classe média têm um bom conhecimento do mundo financeiro, e investem o seu dinheiro. Alguns em negócios próprios. O facto é que todos conhecem alguém que enriqueceu em pouco tempo. Há a sensação de que, para ganhar biliões, é necessário ter altas ligações com as autoridades políticas. Mas fazer um milhão está ao alcance de qualquer um. Ou pelo menos estaria se a corrupção não fosse tão generalizada.

A Rússia está em acelerado crescimento económico, e pacificada, depois de Putin ter resolvido à sua maneira o problema da Tchechénia: “Em vez de lutar contra os tchetchenos, pô-los a lutar uns contra os outros”, explicou Vladimir Medinski.

É um sistema periclitante, porque depende muito das boas relações políticas (e financeiras) com o actual presidente regional em Grozni, Ramzan Kadirov (ex-rebelde). Mas funciona, pelo menos enquanto Putin estiver no poder.

A crescente imigração de populações provenientes do Cáucaso e várias ex-repúblicas soviéticas da Ásia central é percebida como um problema por grande parte da população russa, muito devido à questão demográfica. Os casais russos raramente têm mais de um filho ou dois, enquanto a taxa de natalidade entre os imigrantes, muitos deles muçulmanos, é elevada. Essa é uma das razões para o crescente nacionalismo russo, que se tornou ideologia dominante tanto entre os sectores políticos conservadores como na própria oposição mais radical.

No entanto, o que os russos identificam como o principal problema do país é a corrupção. Admite-o Medinski, que é insuspeito, porque foi, durante oito anos, deputado pelo partido de Putin.

Ela existe em todos os níveis da sociedade, mas onde é mais greve é na Polícia e nos tribunais, além das empresas do Estado. Segundo Medinski, 80 por cento dos polícias são corruptos. No caso da polícia das actividades económicas, a percentagem é ainda maior. Aceitam subornos de todos, o que origina o chamado sistema katcheli (de balancé). Ou seja, se uma parte dá dinheiro, a outra tem de dar mais, e assim sucessivamente, como num leilão.

Com os tribunais é o mesmo. “Se uma parte dá ao juiz um milhão, a outra tem de oferecer dois milhões. Se o juiz for honesto, o melhor que faz é devolver o milhão à parte que vai perder”.

Todo este sistema se faz através dos advogados, cujos escritórios mais bem sucedidos e bem pagos são os que “se especializaram não em encontrar buracos na lei, como seria normal, mas buracos no tribunal, por onde entrem os subornos”.

Uma vez, quando era deputado, Medinski perguntou a um ex-general da polícia o que faria ele se Putin lhe pedisse para acabar com a corrupção na instituição. Ele respondeu: “Eu obedeceria, e teria êxito, com quatro condições: que o Presidente me assinasse, em branco, cem ordens de despedimento de altos funcionários; a garantia de eu não ser despedido; um esconderijo para toda a minha família no estrangeiro; um esconderijo para eu viver isolado, rodeado de segurança militar 24 horas por dia”.

Ou seja, só alguém com uma autoridade imensa poderia combater a corrupção, e esse alguém, acredita a maioria dos russos, é Putin.

“Quero ter um líder que sei que toma decisões”, disse Andrei Sidorov, doutor pela London School of Economics e professor de História da Rússia. “Há vários tipos de liderança. Obama tem pouco poder nos EUA, não toma decisões sozinho. Ieltsin não tomava decisões sozinho. Putin toma decisões sozinho”. A Rússia precisa de um líder assim. “Sempre que não o teve, entrou em decadência e desagregação”.

Depois do longo período soviético, a Rússia precisa de reencontrar uma identidade nacional, explicou Sidorov. “E isso só será conseguido com um líder forte e através da cultura e da religião. A Rússia sempre foi um império. A sua identidade reconhece-se aí. Terá de voltar a ser um império. Ao contrário da Europa Ocidental, que vive um período liberal e pós-cristão, a Rússia terá de voltar-se para os seus valores espirituais, para renascer. Daí o interesse que as pessoas estão a mostrar pela História, pelo estudo do passado”, disse o professor, com lágrimas nos olhos.

E não é pelo facto de estar nos antípodas deste pensamento que artista plástica Marika Maiorova deixa de concordar que o liberalismo económico será o desastre da Rússia. Organizou uma exposição, intitulada No Comment Art, que monta nos locais onde há manifestações anti-Putin. Fez o mesmo em Nova Iorque, há meses, no meio dos manifestantes do Occupy Wall Street.

“Os artistas russos têm-se ocupado a trabalhar sobre a realidade circundante. É impossível ignorá-la”, disse Marika. “E a realidade é que as pessoas vivem mal, não têm acesso a nada, o sistema está em colapso, como em todo o lado”.

Na perspectiva dos artistas contemporâneos, a classe média, que os desconhece, não passa de um mito, e o discurso eufórico sobre a nova Rússia é pura mentira.

No metro, os bancos são longitudinais, dispostos frente-a-frente, e as pessoas olham-se nos olhos. As letras cirílias acesas no ecrã podem ter sido escritas por Tolstoi, Dostoievski ou Gogol, as mulheres usam mini-saias e saltos altos apesar de, na rua, a temperatura ser negativa e o piso gelado e escorregadio, a decoração dos sumptuosos átrios e galerias é quase sempre alusiva à ditadura do proletariado, as multidões correm, atropelam-se, raramente falam, apesar de não trazerem crispação nos rostos nem qualquer agressividade nos gestos, como se fossem personagens de um baile sonâmbulo. É esse ar quente do “palácio subterrâneo”, impregnado de sedução, muito leve, que sustenta, para lá das abóbodas, o corpo esmagador, poderoso e enigmático da Rússia. (PÚBLICO)

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