O mundo parou?


O escritor e crítico Kurt Andersen publicou na Vanity Fair de Janeiro um artigo inquietante, por ser tão óbvio. A moda parou, diz ele. O estilo já não muda, de há uns 20 anos para cá. A tecnologia sim, drasticamente. Há 20 anos, não havia internet nem telemóveis, os computadores pessoais serviam apenas para escrever texto ou fazer contas, não para ouvir música ou ver filmes, para o que ainda se usavam leitores de cassetes e vídeos VHS. Mas no que respeita à estética na cultura popular, não há grandes diferenças entre 1992 e 2012.


Pelo menos se compararmos com o que distingue a década de 50 e a de 70, por exemplo. Ou os vinténios anteriores e posteriores. Pensemos no efeito que produziria, em 1992, um homem vestido à moda de 1972. Como reagiriam os cool pós-yuppy, grunge aligeirado e composto, de camisa axadrezada, ténis e jeans abaixo do umbigo dos anos 90, à imagem de um idiota de calça à boca-de-sino, socas, camisa aos ananáses e bigode, própria e legítima dos bons anos 70?
É difícil acreditar que de 1992 até hoje passaram os mesmos 20 anos. Se observarmos uma fotografia de então e outra de agora, não é certo que as consigamos distinguir. As pessoas, os automóveis, a arquitectura, são idênticos. Se alguma das personagens da imagem tiver um telemóvel na mão, então sim, não haverá dúvidas. De resto, é confrangedor. Até os carros são iguais.
Comparemos um Audi A4 de 1994 com o modelo equivalente actual. Ou o Golf 3, lançado em 1991, com o Golf 6, de 2009. Entre o Renault Clio de 1990 e o Clio de 4ª geração, a ser lançado já em 2012, as diferenças não são muitas, excepto no capítulo da tecnologia.
Mas o fenómeno não está circunscrito ao design dos objectos utilitários. Verifica-se na própria arte. Que exemplos de arquitectura, de 2000 para cá, revolucionaram a paisagem dos anos 90? Que casos literários abalaram os cânones, ou trouxeram novas perspectivas? E depois há a situação, talvez de todas a mais estranha, da música.
Desde os anos 20 que isto não acontecia. De década para década, o panorama transfigurava-se. Agora estagnou. Olhemos para alguns tops das últimas décadas: 1922, Al Jolson, com Give me my Mommy. 1932, Fred Astaire, Night and Day. Bing Crosby em 1942, Tony Bennet em 1952. Mas em 1962 Elvis Presley. Roberta Flack em 1972. Agora reparem: 1982, Like a Virgin, de Madonna. 1992, Bad Girl, de Madonna. 2002, Die Another Day, de Madonna. Saltemos para 2012: Lady Gaga, na capa da mesma Vanity Fair em que Kurt Andersen reflecte sobre todo este drama. Lady Gaga fotografada por Annie Leibovitz, que também tinha fotografado Madonna para a mesma revista. O que mudou? Pouco.
E como chegámos a isto? Tudo começou com o fim da Guerra Fria. Francis Fukuyama publicou o seu infame “O Fim da História” precisamente em 1992. De então para cá, parece que o mundo parou. Não porque se tivesse atingido a utopia da paz e prosperidade, mas porque o Ocidente entrou em decadência, e começou a mastigar as suas velhas conquistas, em vez de inventar o futuro, porque sabe que não tem nenhum. Ou então deixámos o frenesim das coqueluches, porque entrámos na idade da razão. Sabemos que a Ciência avança realmente, a Arte e a Filosofia só ilusoriamente, em círculos. Talvez tenhamos deixado de mudar na aparência, porque estamos ocupados a mudar na substância, penso eu antes de sair de casa, ao envergar o meu já clássico blusão de camurça comprado em Nova Iorque em 1992.

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