Nasceu o novo Exército russo da Crimeia

novo exercito 1 novo exercito 2 2014-03-08 at 14-13-07O primeiro-ministro da auto-proclamada Crimeia russa, Sergei Aksionov, apresentou o Exército do novo país, declarando que se trata, a partir de agora,  da única força militar legítima no território, com capacidade para garantir a estabilidade e a segurança de todos os cidadãos.

A cerimónia decorreu, com as possíveis pompa e circunstância, no parque Gagarin, em Simferopol. Quem chegou primeiro foi a milícia pró-russa, uns vinte homens armados de paus e escudos, que atravessaram a cidade gritando “Rússia! Rússia!”, passando sem reacção por várias manifestações contra a anexação da Crimeia pela Rússia.

Uma vez no parque, dispuseram-se em filas, circunscrevendo o espaço onde a cerimónia iria decorrer. Seria uma espécie de passagem de testemunho, das milícias populares e espontâneas de auto-defesa para as forças armadas oficiais da república.

Com uma escolta de rufias de calças sujas e casacos de cabedal gastos, entrou o primeiro-ministro. “Crimeia é Rússia!”, gritaram todos. Alguém preparou os microfones e uma mesa com vários documentos, coberta por uma toalha vermelha.

Por fim chegou o Exército. Cerca de 30 homens com fardas de camuflado verde, metralhadoras a um novo emblema bordado no braço, dizendo “República da Crimeia”. Via-se que as fardas eram novas em folha, impecavelmente limpas, embora se tenham esquecido de as passar a ferro.

O comandante deu um passo em frente e começou a empossar o novo corpo militar. “Esta é a primeira cerimónia do Exército da Crimeia”, diz ele. Este é o novo uniforme”. Uma banda de cinco músicos começou a tocar uma marcha. A seguir falou o novo chefe das Forças Armadas. “Olá defensores da Crimeia!”, começou. “Parabéns! Hoje é um grande dia, um dia histórico. Porque temos finalmente uma força de defesa da Crimeia”. Fez continência, marchou de um lado para o outro, deu algumas ordens aos militares, que mudaram de posição, com notória falta de treino. “Hoje é o dia internacional da mulher”, disse ainda o comandante, polindo desde já o carisma com um toque humanista e cultural. “E nós vamos defender as nossas mulheres e as nossas famílias”.

Gritou uma ordem com adequada virilidade castrense, e os novos soldados, na sua maioria com mais de 50 anos de idade, alguns de barba por fazer, outros de grandes barrigas, deram voltas e meias-voltas, bateram pala, marcharam de um lado para o outro, desalinhados, empurrando-se, quase tropeçando nas botas.

A seguir o comandante chamou pelo nome cada um dos soldados, que se aproximava, assinava um documento e fazia o juramento, prometendo defender e proteger a “República Autónoma da Crimeia”, numa indicação de que o novo país terá o mesmo nome, embora integrado na Rússia. Quando todos tomaram posse, falou o primeiro-ministro.

“Tavaritch!” (camaradas), iniciou ele o discurso. “Vocês são os heróis da Crimeia. Graças a vocês, a Crimeia será uma terra segura e pacífica, livre dos provocadores. Há três meses que andamos a preparar isto. Agora posso garantir a todos que a Crimeia está segura e em paz”. Aplausos. A banda tocou o novo hino da Crimeia.

Interrogado sobre o destino dos militares ucranianos ainda sitiados nas bases da Crimeia, Aksionov disse ao PÚBLICO: “Os militares que estão nas bases têm agora duas opções: ou se tornam soldados do Exército russo da Crimeia, ou podem ir embora. As portas estarão abertas, podem sair e ir para a Ucrânia. Ninguém os vai impedir. Não queremos agredir ninguém nem lutar”. E à pergunta “Os soldados russos irão sair da península, agora que a Crimeia tem um novo Exército?, o primeiro-ministro respondeu: “Os soldados russos sempre estiveram aqui, e vão continuar a estar”.

Dando mostras de magnanimidade, numa atitude de estadista, Aksionov disse que todos os grupos étnicos ou ideológicos têm lugar na nova Crimeia. “Todos os que queiram viver na Crimeia e defendê-la serão recebidos de braços abertos”. Explicou que todo o estado está organizado, embora os organismos só tomem posse formalmente depois do referendo, para o qual “serão convidados observadores, a imprensa, etc”.

Sobre o problema da legitimidade do seu próprio governo, Aksionov não pertanejou: “Sou sensível a todas as questões de legalidade. Mas quem fecha os olhos às ilegalidades ocorridas em Kiev, não venha para aqui fazer críticas hipócritas. Nem as quero ouvir”.

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