Jimmy Wales: "As pessoas têm uma vontade natural de saber"

Jimmy Wales nasceu no Alabama, em cuja Universidade se doutorou em Finanças. Foi professor, mas decidiu ir para Chicago trabalhar na Bolsa e enriquecer. O suficiente para lançar (e financiar) o projecto da sua vida: uma enciclopédia livre na internet. É adepto do capitalismo e da filosofia objectivista de Ayn Rand, colecciona armas de fogo, não tem uma colecção de Ferraris nem um jacto particular e acredita que está a cumprir uma missão.
P. Soube desde o início que queria criar uma enciclopédia livre?
R. Eu tinha a ideia, pelo menos desde 1989, de criar uma enciclopédia livre de licenças. A primeira tentativa foi um projecto chamado Nupedia.
P. Que significa isso?
R. Tinha um duplo sentido. Significada “new” (novo) mas também GNU, que era a designação do movimento do free software.
P. Esse movimento foi precursor da Wikipédia?
R. Eu estava atento ao desenvolvimento do Free Software Movement, às suas possibilidades. O Apache, por exemplo, que é um software de web server. Quando se envia um pedido em Apache o sistema devolve a página. A Microsoft tem um sotware idêntico, mas continua, nos últimos anos, a perder share no mercado, enquanto a Apache continua a ganhar. Por ser gerido por voluntários e ser livre.
P. Mas o que permite esse software?
R. Se eu precisar de fazer mudanças num programa, posso pagar a um programador, mas depois posso distribuir a aplicação de graça. E todos podem contribuir para melhorar o produto, sem receio de estar a fazer algo ilegal, a roubar a propriedade de alguém. Eu via programadores a fazer coisas realmente complicadas, pessoas que nem se conheciam, mas trabalhavam juntas. Então pensei: faz sentido que este tipo de colaboração tenha começado com os programadores porque, se dois deles querem trabalhar juntos, a primeira coisa que têm a fazer é criar os instrumentos para isso ser possível. Desenvolveram um programa chamado CBS com o qual uma pessoa pode trabalhar num projecto, outra pessoa continuá-lo, outra corrigi-lo, e resolverem os conflitos que surgirem. Mas agora imagine que você e eu, que não somos programadores, queremos trabalhar em conjunto num projecto… Os instrumentos existem e podem ser aplicados a campos muito diversos. Foi aí que pensei: vamos dar às pessoas a possibilidade de fazerem juntas uma enciclopédia. E nasceu a Nupedia.
P. Foi um êxito?
R. Não.
P. Porquê?
R. O sistema funcionava de cima para baixo. Tínhamos académicos que verificavam todos os artigos…
R. À maneira de uma enciclopédia convencional, embora na internet.
R. Sim. Havia um processo de revisão em sete passos. Os usuários escreviam os artigos, que depois eram revistos por peritos. Primeiro quanto ao conteúdo, depois o rigor dos dados… sete passos. Era muito complicado, muito lento e muito aborrecido. Éramos um grupo grande de pessoas a tentar por de pé o projecto. Depois de dois anos de trabalho, de 1998 a 2000, tínhamos 24 artigos. Pensei: isto não é muito divertido.  As pessoas desistiam. Percebi que só funcionaria se o trabalho fosse divertido. Foi então que me mostraram o wiki. Nunca tinha visto.
P. Wiki?
R. É uma ideia inventada em 1995 por Ward Cunningham, que agora trabalha para a Microsoft. Ele e alguns amigos começaram a usar muito o wiki, mas não diziam a ninguém, com medo que lhe destruíssem o brinquedo.
P. O que é um wiki?
R. É um website que qualquer um pode editar. Clica-se em “editar”, faz-se mudanças, grava-se e as mudanças ficam lá. É muito rápido e fácil. Foi esse software que aplicámos à nossa enciclopédia. E então sim. A Wikipedia começou a funcionar. Pode-se acrescentar páginas, mudar páginas…
P. Deixou de haver revisão dos peritos?
R. Deixou. As pessoas podiam fazer tudo o que lhes apetecesse. E ver imediatamente os resultados. Passou a ser possível realmente colaborar. Já não se tratava de fazer um artigo sozinho, enviar para outra pessoa que o revia sozinha e devolvia. Passou a haver uma verdadeira interacção. No wiki, as pessoas mandam as coisas de um lado para o outro, trabalham juntas, conversam na página de discussão. É uma actividade social. É muito divertido.
P. Pode ser divertido. Mas é sério? Quem é que garante a qualidade dos artigos?
R. À primeira vista, quando se descreve a ideia, parece realmente que esta enciclopédia só pode ser uma porcaria. Mas a verdade é que não é. Porquê? Isso é uma questão muito interessante.
P. Qual a explicação para a Wikipédia não ser uma porcaria?
R. O sistema tem mecanismos que o garantem. Todas as alterações aos textos surgem assinaladas como “alterações recentes”. Por isso as mudanças podem ser seguidas pelos seus autores, bem como por especialistas.
P . Se o autor não concordar com as mudanças volta a pôr o artigo como estava.
R. Exactamente. O artigo vai evoluindo, cada vez fica melhor, mais completo. Mas mantemos todas as versões que foram criadas.
P. Isso é muito complicado. E pressupõe uma grande modéstia dos colaboradores, ao reconhecerem que as alterações introduzidas por outros melhoram o artigo.
R. Funciona. Há uma certa moral no site. Nós desencorajamos que alguém pense em termos de “o meu artigo”. Os textos não são assinados. É socialmente condenado, no interior da nossa comunidade, falar de “o meu texto”. Para nós, o ideal é ter informação neutra, não as opiniões de pessoas.
P. Dantes as enciclopédias tinham entradas assinadas por especialistas nos assuntos, o que lhes garantia a credibilidade.
R. Sim, isso é fantástico. Eu tenho artigos e livros escritos por especialistas. É maravilhoso ter uma investigação completa de Psicologia escrita por exemplo por B.F. Skinner. Ou por Freud. Mas isso são visões de génios, não são artigos de enciclopédia.
P. Os artigos de enciclopédia devem ser escritos, não por especialistas, mas pelo povo?
R. Devem ter grande qualidade mas não reflectir o ponto de vista de alguém. Devem ser equilibrados, neutros. Não queremos que a enciclopédia seja escrita por Skinner.
P. Não será isso apenas  possível se se escrever um artigo muito superficial sobre um assunto?
R. Não acho. Deixe-me dar exemplos de tópicos onde há controvérsia. O aborto. A minha visão é completamente diferente da da igreja católica. Mas posso sentar-me com um padre muito conservador e…
P. Podem conversar.
R. Mais do que isso. Podemos escrever um artigo juntos. É como se estivéssemos a discutir o tema e entrasse uma pessoa, que não sabe nada sobre o aborto. Eu e o padre podemos combinar: vamos escrever um artigo para que ele compreenda o que estamos a discutir. Não precisamos de dar respostas nem de nos entendermos.
P. Talvez se possa fazer isso com um padre católico, mas com um fundamentalista islâmico…
R. Se é alguém verdadeiramente extremista talvez não aceite alguns dos princípios básicos necessários para se poder cooperar.
P. Que princípios são esses?
R. Aceitar a razão, o pensamento argumentativo, a persuasão. Temos também de partir do princípio de que todas as pessoas são razoáveis e inteligentes, que não são desonestas nem têm como objectivo destruir as outras.
P. Esqueçamos o fundamentalista. Vamos a um exemplo mais normal: a história das Cruzadas. Os imigrantes muçulmanos no Ocidente não aceitam a versão que vem nos livros escolares. A que se ensina  nos seus países é totalmente diferente. Isto é um problema real. Como é que a Wikipédia consegue ter um artigo único sobre as Cruzadas?
R. Dizendo: a maioria dos historiadores ocidentais conta a história desta maneira, a maioria dos historiadores muçulmanos conta desta. E apresentar algumas das provas que ambos os lados usam para justificar a sua visão.
P. Se fosse tão fácil já se tinha acabado com todos os conflitos que isso tem gerado.
R. Nem sempre é fácil mas, na Wikipédia, é possível. Uma vez, alguém, na Wikipédia em inglês, escreveu que o avião tinha sido inventado pelos irmãos Wright. Um artigo na versão em francês diz que foi Clément Ader. Agora, na versão em inglês já temos um longo artigo sobre a controvérsia de quem é o inventor do avião. Tudo depende de se considerar que um planador (como o de Ader) é ou não é um avião. Lendo o artigo, percebe-se que ambos os lados têm razão. Nenhum deles está a mentir.
P. Um exemplo mais actual: como se faz um artigo consensual sobre o conflito israelo-palestiniano? Nem a linguagem é neutra. Jenin foi um “massacre” ou uma batalha? Arafat era um “terrorista” ou um “combatente da liberdade”, um “Presidente”?
R. Israel construiu um “muro” ou uma “cerca de segurança”? Ambas as palavras têm uma carga muito forte. “Muro” lembra logo o muro de Berlim, “cerca de segurança” lembra-nos a necessidade de proteger civis inocentes contra bombistas suicidas.
P. Que termo usaram, no artigo da Wikipédia?
R. Foi uma das melhores discussões que tivemos. Levou meses. O artigo estava constantemente a ser mudado e editado. Um israelita escrevia, um palestiniano emendava tudo, outro israelita corrigia… na página de discussão estavam constantemente a digladiar-se…
P. Chegou-se a um artigo final?
R. Sim. Discutiram muito mas chegaram a um acordo. Sobre os factos e sobre a terminologia. Discutiram as razões que levam uns a dizer “muro” e outros a dizer “cerca”, discutiram as causas e as razões históricas que movem um lado e o outro. E escreveram um artigo com isso tudo.
P. Dir-se-ia que é impossível.
R. Sim, porque geralmente pensa-se na Wikipédia como uma multidão de milhões de pessoas desconhecidas a escreverem ao mesmo tempo… Na realidade não é assim. Criou-se uma comunidade. Os nossos colaboradores falam uns com os outros, passaram a conhecer-se. E é preciso ser alguém muito difícil, muito retorcido, para vir todos os dias alterar um artigo, para que prevaleça a sua versão. É mais plausível que conclua que dá menos trabalho discutir com os opositores e chegar a um acordo.
P. Há sempre alguém que desiste por cansaço.
R. Há um pequeno truque nisto. Se no artigo houver uma citação de Arafat, alguém que o ache um criminoso de guerra dirá: vêem? Isto prova que ele é um criminoso de guerra. Uma pessoa que o admire lerá a mesma frase e observará: isto mostra que ele mereceu o Nobel.
P. Quer dizer que até os fanáticos podem chegar a um acordo…
R. Quer dizer que as pessoas mais convictas das suas ideias são as que menos temem que os seus opositores tenham uma voz.
P. Bom, teoricamente, se é sempre possível chegar a um artigo consensual sobre um conflito, também será possível resolver o conflito.
R. Talvez. Eu estou muito interessado em explorar as possibilidades deste software e destas práticas nas discussões politicas. Mas isso é outro projecto.
P. Uma espécie de Wikipédia para resolver conflitos?
R. Sim, muitas pessoas têm insistido nisso, e temos feito experiências interessantes. Um professor de Direito famoso, Charlie Niessen, trabalha com uma prisão jamaicana desde há 20 anos. Há um ano houve um motim na prisão, em que morreram um guarda e quatro presos. Está em curso um inquérito sobre os incidentes, mas criou-se um clima de grande animosidade. Então Niessen pediu-me para montar um sistema wiki, em que presos e guardas podem sentar-se ao computador e introduzir elementos, emendar e editar, até se chegar a um relatório dos acontecimentos em que todos se revejam.
P. Isso poder-se-ia aplicar a conflitos sociais?
R. Podia começar-se por coisas simples, como pôr os cidadãos a discutir, por exemplo, o projecto controverso de construir uma nova estrada na sua região. Os activistas de um lado dirão que destruirá o ambiente, os do outro lado argumentarão que trará prosperidade. Num sistema wiki será possível ponderar os prós e contras e chegar a um consenso.
P. Mas tanta consensualidade não terá os seus perigos? Não conduzirá a uma visão única, totalitária do conhecimento?
R. Não vejo esse perigo, porque um artigo na Wikipédia nunca é definitivo. Se alguém não concorda, pode sempre modificá-lo. E depois a internet não é só a Wikipédia. Há milhares de sites com informação especializada, com argumentos a defender causas, uma explosão de pessoas a escreverem blogues, a expressarem opiniões. Mas quando alguém pretende apenas informação básica e neutra sobre um assunto, vai à Wikipédia.
P. A Wikipédia nunca tem opinião?
R. Não. É uma das regras. É difícil fazer textos de opinião desta forma colaborativa. Na maioria dos casos, é impossível saber quais são as posições políticas ou outras dos wikipedistas.
P. É proibido escrever opinião. Que mais é proibido?
R. É proibido escrever sobre coisas que não sejam verificáveis. Por exemplo: a sua mãe é famosa? Se não é, não pode escrever um artigo sobre ela na enciclopédia. Porque nenhum de nós tem alguma possibilidade de confirmar se é verdade ou não. Sem esta regra, as pessoas inventariam artigos sobre as suas mães famosas, ou algo parecido.
P. Mais proibições?
R. É proibido ter investigação original.
P. Porquê?
R. Primeiro porque uma enciclopédia não é uma revista de investigação. Podemos falar de investigações que estão em curso, mas não a fazemos nós, porque não somos qualificados nem para a fazer nem para a avaliar. Esta regra surgiu quando sentimos a necessidade de nos livrarmos dos maníacos da Física…
P. Foram invadidos por maníacos da Física?
R. Há muitos lunáticos na internet que pensam ter descoberto uma nova teoria do magnetismo ou outra coisa do género, e começaram a colocar artigos na Wikipédia. Se lhe dissermos: tu és um lunático, por favor desaparece!, ele vai ficar zangado e, provavelmente, retaliar. É mais fácil dizer: obrigado pela sua contribuição, mas nós não podemos avaliar as suas descobertas, porque não somos peritos. É uma das nossas regras. Por favor, submeta isso ao jornal de Física da Universidade.
P. Ele responderá: já o fiz. Disseram-me que eu era um lunático.
R. Na nossa comunidade não o tratamos mal. É a nossa cultura.
P. A Wikipédia é vulnerável para quem quiser retaliar?
R. Sim e não. Qualquer um pode fazer estragos, se quiser. Há algum vandalismo, mas não muito. O mais comum é alguém apagar uma página inteira e escrever “Olá mãe”, ou “Vão-se f.”.
P. Isso prejudica muito o sistema?
R. Não. Resolve-se num minuto. O problema é se houver um ataque em grande escala. Aconteceu uma vez, com um programa chamado “Willy on Weels”, com que alguém começou a destruir centenas de páginas. Mas já o bloqueámos. Temos sempre sistemas de defesa de emergência, como desligar completamente o sistema de edição anónimo. Já tivemos de fazer isso algumas vezes, mas só por períodos de uns cinco minutos. Nunca tivemos um ataque verdadeiramente grave.
P. Porquê?
R. Porque é difícil alguém odiar a Wikipédia. Somos uma organização não lucrativa, somos neutrais, nem de direita nem de esquerda, somos abertos a toda a gente. Se a Microsoft quisesse criar um sistema wiki com a Encarta não conseguiria. Demasiadas pessoas odeiam a Microsoft. Seriam atacados constantemente.
P. E dentro da própria comunidade Wikipédia, não há contestação às regras?
R. Muita. Há grandes debates sobre as regras, muito mais acesos e difíceis do que as discussões sobre o conflito israelo-árabe. Há uma grande cisão, por exemplo, entre apagadistas e completadistas. Eu sou um completadista.
P. Que reivindicam essas fracções?
R. É a questão de saber o que é relevante para constar da enciclopédia. Devemos apagar tudo o que não é importante de um determinado tema, ou devemos manter tudo e encorajar que se acrescente sempre mais? Por exemplo o Pokemon. Na nossa enciclopédia em inglês há um artigo geral e artigos sobre cada uma das personagens, que são centenas. Na enciclopédia em alemão acham isso ridículo. Só tem um artigo.
P. Se tiver tudo torna mais difícil para o leitor encontrar o que quer, ou saber o que é importante?
R. Não acho. Eu sou complecionista. Um dos argumentos contra é que é uma grande perda de tempo escrever todos esses artigos. Eu respondo que é a perda de tempo de outra pessoa qualquer, não minha. E essa pessoa não parece achar que é perda de tempo. Por outro lado, se dissermos a essas pessoas que não podem escrever os artigos, nada nos garante que elas desistam de escrever para a Wikipédia. Podem pôr-se a escrever sobre Shakespeare ou Biologia.
P. É melhor escreverem sobre o Pokemon.
R. Sim, deixem-nos escrever sobre aquilo que sabem. Mas há quem ache que isto pode ser motivo para troçarem de nós.
P. Põe o problema da credibilidade. Que acha a comunidade científica de tudo isto?
R. Ao principio chamavam-me louco. Mas depois, começaram a reagir de forma diferente, ao constatarem que o resultado é muito bom. Fui convidado para Fellow da faculdade de Direito de Harvard, já fiz cursos em Oxford e Cambridge.
P. Não houve uma hostilidade geral, numa reacção de proteger os círculos tradicionais do conhecimento?
R. Um pouco. Mas também há muita frustração entre os académicos, por causa do carácter fechado das universidades. Também faz parte da sua psicologia a abertura, a colaboração, a troca de ideias. Muitos deles estão mesmo dispostos a trabalhar na Wikipédia, anonimamente, e sem ganhar nada
P. Ninguém ganha dinheiro na Wikipédia?
R. Não. Toda a gente trabalha de graça, incluindo os gestores de servers, os administradores. Todos são  voluntários.
P. Como é financiada a Wikipédia?
R. Por donativos. Somos uma organização sem fins lucrativos, isenta de impostos…
P. É verdade que gastou 500 mil dólares do seu bolso, para montar o projecto?
R. Sim. Não contando com os anos que trabalhei a tempo inteiro, sem salário.
P. Não há limites para o dinheiro que pode gastar com este “hobby”?
R. Os jornais dizem sempre que eu sou rico, mas não é verdade.
P. Tem uma colecção de Ferraris?
R. Tenho um Ferrari, que comprei usado por 25 mil dólares. O meu carro do dia a dia é um Hyundai. E não tenho um avião particular, como já disseram. Vivo numa casa normal nos subúrbios. Mas tenho dinheiro suficiente para viver, e para perder algum.
P. Ganhou o dinheiro com actividades anteriores?
R. Sim. Depois de me formar em Economia, trabalhei como corretor de opções e futuros. Ganhei dinheiro para viver o resto da vida.
P. A Wikipédia não é lucrativa, mas pode ser uma plataforma para lançar projectos lucrativos no futuro.
R. Sim. Estou a começar uma empresa, a Wikicities, que tem fins lucrativos. Mas não estou muito preocupado com isso. Eu não vejo esta actividade como uma carreira. Nem estou preocupado com o facto de não estar a fazer dinheiro. Sei que se precisar de emprego, arranjo um facilmente. Afinal, sou hoje em dia uma pessoa famosa, na área da internet.
P. A Wikipédia é para si uma missão?
R. Sim. Nós estamos nos primeiros dias da internet. No futuro as pessoas vão olhar para a Wikipédia e dizer: isto foi uma das coisas marcantes que surgiram naquela época. Porque a internet representa uma grande esperança. Pensa-se sempre: isto é fantástico. Finalmente pessoas de todo o mundo podem comunicar, partilhar conhecimentos. Pode-se combater a ignorância, divulgar as culturas… mas depois, o que há realmente na internet é venda de produtos, pornografia. A Wikipédia é a realização da ideia mais pura e simples do que é a internet: as pessoas juntarem-se e partilharem os seus conhecimentos. Eu sempre sonhei com isso.
P. A ideia de criar a enciclopédia livre já vem então de antes de 1989.
R. Em criança, tive uma educação pouco comum. A minha mãe e a minha avó fundaram uma pequena escola muito especial, a que chamavam casa-escola, no Alabama, onde morávamos. Éramos quatro miúdos em cada classe, e as classes estavam todas juntas na mesma sala. Tínhamos uma grande liberdade. Havia professores mas a maior parte das coisas aprendíamos sozinhos, lendo livros, ou com os alunos mais velhos. Não era nenhuma escola-piloto, nem um colégio chique. Era apenas uma escola muito pobre.  Partilhávamos conhecimentos e cada um estudava aquilo que lhe interessava mais. Lembro-me de a minha mãe estar sempre a dizer que as escolas desperdiçavam tanto dinheiro, quando o que era preciso era apenas um quadro, lápis e cadernos e alguma paixão. Acho que vem daí a minha crença de que é possível pôr conhecimento disponível a custos muitos reduzidos. E quando isso existe as pessoas procuram-no porque, quando ninguém lhes tenta impor nada, têm uma vontade natural de saber.
 (PÚBLICO, 2005)

Um comentário a Jimmy Wales: "As pessoas têm uma vontade natural de saber"

  1. Grande artigo. Surpreendeu-me sobremaneira que o autor se identifique com as doutrinas da Ayn Rand. Lembrei-me de Setembro passado ter lido Nuno Crato responder, quando interrogado sobre qual o idealismo político lhe restava, acreditar no altruísmo manifestado pelos autores da Wikipedia. Terá o Objectivismo chegado ao Terreiro do Paço?

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