Jazz sem palavras

Nunca pensei que o concerto fosse tão bom.  A Orquestra de Jazz de Matosinhos a tocar temas de Thad Jones, com direcção musical de Pedro Guedes e Carlos Azevedo, no Teatro Municipal de Almada. Excepcional, uma homenagem aos sentidos e à inteligência, do princípio ao fim.  Perdão: inexplicavelmente, houve momentos de embaraçosa mediocridade. Eram uma espécie de quebra, uma fífia despropositada, quase surrealista. Nos intervalos entre os temas, um dos músicos vinha ao microfone dizer os respectivos títulos.
“Kids are pretty people”. As crianças são gente bonita? Como era possível que um homem de tão grande talento como Thad Jones tivesse inventado um título tão estúpido? E o pior é que a música correspondente era genial, sem qualquer relação com aquela frase óbvia e aparvalhada. Depois veio o fantástico tema “Cherry juice” (Sumo de cereja), o belíssimo “A Child is Born” (Uma criança nasceu), o complexo “ABC Blues”.
Dir-se-á que esta questão é irrelevante. Que interessam os nomes dos temas, desde que a música seja boa? É verdade. Mas naquele concerto, não sei porquê, talvez pelo tom enfático e orgulhoso com que o músico nomeava os temas, aquilo tornou-se incomodativo. O contraste entre a qualidade da música e do respectivo título era chocante. Mas não invulgar. 
Nunca tinha pensado neste fenómeno, mas ele existe: os títulos dos temas de jazz são quase sempre refinadamente idiotas. Mesmo quando, ou sobretudo quando, a música é de excepcional qualidade. 
Mal cheguei a casa, peguei logo numa pilha de Cds. O primeiro que veio à mão foi de Charles Mingus: “Stormy Weather” (Mau Tempo), “Body and Soul” (Corpo e Alma)… Confirmava-se. Os monstros do jazz não sabem fazer títulos. Vejamos Jan Garbarek, um vanguardista da geração ECM: “Remember me my Dear”. Pego num disco do clássico Oscar Peterson: “Sometimes I’m Happy”. Tentemos Bill Frisell, esse visionário: “Tell You Ma Tell You Pa”. Michel Portal, francês, enfim: “The Talking Bag”. Dave Holland, um artista complexo: “Cosmosis”, Herbaceous”. Miles, um dos grandes génios da Humanidade: “Tutu”, “Full Nelson”. Última esperança, Keith Jarret, expoente da sensibilidade e bom gosto: “I Got it Bad and That ain’t no Good”.
Era o desespero. Procurei entre pilhas de discos, mas só ia piorando. Que teria levado todos aqueles artistas eruditos, virtuosos, prodigiosos, geniais, a escolher títulos patetas para os seus trabalhos? Muitas vezes, títulos verdadeiramente infantis.  E sem imaginação: quase sempre são variações toscas sobre comboios (“Blue Train”, “Trailways Express”, “Last Train Home), acidentes geográficos ou clichés românticos.
Só por curiosidade, espreitei alguns clássicos do Rock. Os Stones, que dificilmente imaginamos sentados numa biblioteca: “Sympathy for the Devil”, “Jumpin Jack Flash”, “Honky Tonk Woman”. É outra coisa. David Bowie: “John I’m Only Dancing”. Marylin Manson: “Count to Six and Die”. Nick Cave: “No Pussy Blues”. Nirvana: “Come as you are”. Paul Simon: “Still Crazy After all this years”. Lou Reed: “Take a Walk on the Wild Side”. 
São títulos inesquecíveis. Inseparáveis da canção que designam. Música em si mesmos. Os do jazz são etiquetas burocráticas. Não deviam existir. O jazz fala outra língua, sem palavras.

2 comentários a Jazz sem palavras

  1. Paulo tens de falar com o meu pai sobre Jazz, e, nessa altura ficas mesmo sem palavras!Quando puderes passar pela "Veneza Portuguesa", avisa…bj

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