J. G. Ballard: “Numa sociedade saudável, a loucura é a única liberdade possível”


J. G Ballard morreu a semana passada. Há quatro anos, visitei-o na sua casa, em Londres. Uma entrevista inesquecível.

Ao ver o escritor, de olhos brilhantes e cabelo comprido, com um ar um pouco desorientado, na sua sala cheia de pó, com sapatos, caixotes, livros e revistas sobre a carpete desbotada, junto à sua secretária com uma antiquada máquina de escrever eléctrica coberta com um plástico… é impossível não o imaginar como uma das suas próprias personagens. Talvez David Markham, o curioso e lúcido psicólogo de “Gente do Milénio”, que se deixou fascinar pela causa de uma revolução absurda.
Ballard vive sozinho num velho casarão em Shepperton, um bairro pacato e incaracterístico não longe do aeroporto de Heathrow, nos arredores de Londres. Autor de muitos romances e contos de ficção científica, considerado por muitos um áugure do futuro, não gosta de computadores e escreve à mão em folhas minúsculas.
Ao vê-lo ao lado do seu Ford Granada de 1970, oferecendo-se para me levar ao hotel, é impossível não pensar em “Crash”, adaptado ao cinema por David Cronenberg, em que um grupo de amigos provocava acidentes rodoviários para daí extrair prazer erótico.
Ao vê-lo, aos 74 anos, enorme no meio do caos da sua sala, é impossível não pensar no menino inteligente e assustado de “O Império do Sol”, o seu romance autobiográfico, que Steven Spielberg filmou. Perdido dos pais, prisioneiro num campo de guerra japonês em Xangai, Jim, então com oito anos, nunca perdeu a vontade de brincar. No campo de concentração, as pessoas, pelo menos, estavam juntas, diz ele.

P. “Gente do Milénio” fala de pessoas da classe média que sentem uma necessidade inexplicável de violência nas suas vidas. Porquê?
R. Os seres humanos têm um grande apetite por violência. Estão muito interessados na dor e na morte. Talvez por muito boas razões biológicas. O “Homo sapiens” emergiu há uns ce

m mil anos; a linguagem há 50 mil; a primeira cidade, no Iraque, foi construída há dez mil anos. E nos últimos 50 anos vivemos numa sociedade completamente nova, altamente organizada e consumista, que pôs os nossos cérebros a apodrecer.
P. Ainda não nos habituámos à civilização?
R. De modo nenhum. A maioria dos animais selvagens que hoje associamos a África andavam à solta na Europa ocidental há 20 mil anos. Os nossos antepassados caçavam estes animais, lutavam com eles. Nós não somos os seres racionais que pensamos ser. Somos selvagens. Os nossos sistemas nervosos centrais, os nossos cérebros, os nossos instintos, os nossos reflexos estão adaptados à vida de caçador solitário. Ou de grupos de dez ou 12 caçadores, não mais. Os seres humanos são perigosos e têm imaginações poderosas. De repente meteram-nos neste mundo, em que a individualidade é reprimida, em que não podemos fazer praticamente nada…
P. É precisamente por isso que a sociedade existe, para nos proteger de nós próprios.
R. É verdade. E temos de aceitar as regras, porque é do nosso interesse, como as regras do código da estrada. Mas é contra a nossa natureza.
P. Cada vez que paramos num semáforo vermelho estamos a contrariar a nossa natureza?
R. Imagine que alguém pega em 200 reclusos de uma grande prisão americana e l
hes diz: “Ok, estão livres, venham daí. A partir de agora, podem viver neste bairro ‘chique’, usar estes fatos elegantes. Podem comer esparguete à bolonhesa ou o que quiserem em belos restaurantes. Terão um carro, podem ver televisão e comprar tudo o que quiserem no supermercado. Se casarem e tiverem filhos, terão educação gratuita para eles…” Acha que eles aceitariam? Claro que não. Arrasariam o bairro, destruiriam tudo!
P. Esses reclusos estão portanto mais próximos da natureza humana.
R. Somos violentos, fomos criados para a sobrevivência. Essa ideia iluminista de que os seres humanos se conduzem por altos motivos, tomam decisões racionais, é simplesmente mentira. Somos irracionais. Somos como um grupo de rapazes no recreio, a lutar todo o tempo. Somos criaturas perigosas. Veja a Segunda Guerra Mundial. Veja a guerra na Jugoslávia. Não conseguimos viver sem violência.
P. Devíamos aceitar mais violência na nossa sociedade, para evitar as guerras?
R. Sim, e é isso que está a acontecer. Os desportos são cada vez mais violentos. O boxe, o futebol americano, o râguebi, as corridas de carros desempenham um papel social, são uma válvula de escape. O nosso futebol também é violento mas não o suficiente. Por isso nasceu o hooliganismo, que é uma espécie de desporto paralelo. O futebol americano não tem “hooligans”, porque a violência acontece dentro do estádio.
P. O futebol devia ser mais violento?
R. Sim. Deviam alterar um pouco as regras, para permitir que o jogo se torne mais violento.
P. No seu livro, a classe média iniciou uma revolução? De que se queixa a classe média?
R. As pessoas não podem estacionar o carro à porta de casa, as rendas estão cada vez mais altas… a classe média está sempre a queixar-se.
P. Mas daí a lançar uma revolução…
R. Lançaram uma revolução mas no fim foram todos para casa. Foi um pequeno movimento político sem sentido.
P. Uma das personagens diz que nenhuma revolução digna desse nome deveria ter êxito.
R. Exactamente. O que eu quis dizer é que, no futuro, vamos ter revoluções violentas sem nenhum objectivo. E é bom que assim seja. É bom que não tenham nenhum verdadeiro plano, nenhum sentido. Os Lenines, os Hitleres, os Pol Pots do futuro não terão ideologia, não terão justificação.
P. A história do livro foi inspirada em algum acontecimento real?
R. Houve um caso, há cinco anos, que me fez pensar. Uma jornalista de televisão foi assassinada. Chamava-se Jill Dando, tinha 30 anos, era bonita, vivia sozinha num distrito perto de Hammersmith. Um dia, ia para casa, alguém a seguiu e a matou, com um tiro. A Scotland Yard lançou uma verdadeira caça ao homem, com centenas de agentes. Nunca descobriram quem a matou nem por que razão. Acabaram por prender um vizinho, mas ninguém duvida de que ele está inocente. Foi e continua a ser um grande mistério, sobre o qual se escreveram muitos livros, se fizeram muitos debates. Então ocorreu-me que talvez tivesse sido um crime sem sentido nenhum. Seria esse o objectivo. Crimes sem sentido têm um sentido muito próprio.
P. Por que cometeria alguém um crime sem sentido?
R. Imagine que eu tenho uma terrível discussão com o meu vizinho. Saio de casa e quebro o pára-brisas do carro dele. É compreensível. É errado, mas faz sentido. Serei multado, e o assunto está encerrado. Mas imagine que vou na rua e paro subitamente junto a um carro qualquer e desato a partir-lhe os vidros. Ninguém vai compreender. Vão perguntar: “Porquê este carro?” O polícia vai dizer: “Não vejo qual é o móbil do crime.” O juiz vai perguntar: “Porque fez isto, senhor Ballard? Conhecia o dono do carro? Não? Já tinha visto este carro antes? Não? Então porquê?” Toda a gente vai pensar no assunto, e voltar a pensar.
P. Talvez pensem que se tratou do acto de um doente mental.
R. Talvez, talvez… Mas é um fenómeno muito generalizado e específico do Ocidente, desde a Segunda Guerra. Crimes sem sentido. Pessoas entram em supermercados e matam indiscriminadamente, com metralhadoras, ou bombas. Um homem na Escócia entrou numa escola e matou 15 crianças dos três aos cinco anos. Outro, aqui perto, acordou uma manhã, pegou numa Kalashnikov” e matou a mãe. Depois passeou-se pela rua e assassinou mais umas dezenas de pessoas. Por fim suicidou-se. Outro…
P. Vê um significado nesses crimes?
R. Não. Mas são cada vez mais frequentes, à medida que as nossas sociedades se tornam mais civilizadas, mais enfadonhas.
P. As pessoas matam por enfado?
R. Estão desesperadas. É como um grito de socorro. Numa sociedade totalmente saudável, a loucura é a única liberdade possível. À medida que as sociedades ocidentais se tornam mais prósperas, mais civilizadas, mais governadas por leis razoáveis, deixamos de poder tomar decisões morais.
P. Não é bom ter leis razoáveis?
R. É precisamente esse o problema. As sociedades ocidentais são muito conformistas. Estão cheias de convenções. A vida na América, na Inglaterra, Itália ou Portugal é muito idêntica. A legislação é muito boa, muito esclarecida. Todos temos de mandar os nossos filhos para a escola, dar-lhes vacinas… tratar bem as nossas esposas, conduzir a 60 km/hora, parar no semáforo vermelho…
P. São convenções que aceitamos livremente, como disse.
R. É verdade. Mas semiconscientemente vamos descobrindo que não temos liberdade. E inconscientemente precisamos de protestar. Porque já não temos oportunidade de tomar decisões morais. O bem e o mal foram roubados aos seres humanos pela primeira vez.
P. Até aqui éramos donos do bem e do mal porque vivíamos em sociedades injustas?
R. Injustas, não democráticas, repressivas. Agora temos sociedades governadas pelos princípios mais simpáticos. E estamos sufocados, não podemos respirar. Não nos é permitido fazer julgamentos morais sobre nada. A sociedade fá-los por nós. A violência sem sentido surge como a única forma de assegurarmos a nossa liberdade. Há uma necessidade desesperada, no nosso mundo, de fazermos alguma coisa que tenha alguma espécie de sentido. E as únicas coisas que parecem ter algum sentido são os actos sem sentido.
P. Faz um certo sentido…
R. Se eu achar, por exemplo, que Tony Blair levou o nosso país para uma guerra estúpida, no Iraque, e por isso decidir matá-lo – o que não seria difícil, na realidade, se estiver preparado para ser apanhado. Se o fizer, o que terei conseguido? Nada. Mas se eu for na rua e matar a primeira pessoa que me aparecer, num acto completamente sem sentido mas ao mesmo tempo misterioso… isso deixará as pessoas a pensar.
P. Assassinar Blair seria lógico e portanto sem consequências…
R. O círculo fica completo, as pessoas partem para outra coisa, não pensam mais no assunto.
P. Um acto de violência aparentemente sem sentido como os atentados de 11 de Setembro também deixam as pessoas a pensar…
R. Sim, Mohamed Atta e os outros terroristas também não conheciam as suas vítimas. Também parece não terem qualquer justificação para o que fizeram. Eram indivíduos obsessivos mas altamente cultos. Frequentavam restaurantes e centros comerciais em Hamburgo ou em Londres e no entanto sentiram necessidade de provar alguma coisa, de provar que estavam vivos. Usaram o islão como justificação.
P. A religião não tem nada a ver com os motivos dos terroristas islâmicos?
R. A maioria dos muçulmanos não é violenta.
P. Mas há esse movimento do islão radical…
R. Isso já faz parte da insatisfação de que falo. Trata-se de pessoas oriundas de países, como a Arábia Saudita, altamente ocidentalizados. Viram-se para a violência, que não é inspirada na sua fé religiosa. Houve religiões violentas, é claro, mas o islão nunca o foi particularmente. Pelo menos não tanto como o cristianismo.
P. A violência sem sentido é importante para esses jovens muçulmanos ocidentalizados.
R. E a violência deles é importante para nós. Faz disparar o gatilho da nossa raiva, como aconteceu em Nova Iorque ou em Madrid.
P. Dá-nos justificações para o ódio.
R. Por exemplo, quando os americanos avançavam para o Oeste, nos séculos XVIII e XIX, perpetrando um genocídio contra os nativos, era bom que estes reagissem de vez em quando, matando alguns colonos brancos. Se tivessem dito logo – rendemo-nos, queremos a paz, dêem-nos uma reserva – teria sido muito mais difícil. Não, não, era melhor não se renderem já…
P. As reacções permitiam o ódio, sem culpa.
R. Normalmente dizem-nos que o ódio, a violência são maus. Mas depois do 11 de Setembro essas emoções são agora moralmente aceitáveis. Uma crescente hostilidade do Ocidente contra o islão é uma espécie de escape para as emoções reprimidas. Emoções que de outra forma voltaríamos contra nós próprios. Ter um inimigo externo é bom para nós.
P. Nesse caso, os terroristas islâmicos estão a fazer-nos um favor.
R. Exactamente. Ainda que não se apercebam.
P. Ou talvez se apercebam.
R. Talvez Bin Laden esteja a fazer tudo isso para o nosso bem. Talvez seja uma espécie de salvador, numa maquinação de pesadelo…
P. Isso leva a pensar que podemos estar a dar intencionalmente razões aos terroristas para cometerem actos terroristas…
R. É muito possível que estejamos a provocar inconscientemente os actos terroristas, porque os queremos, porque precisamos deles.
P. Significaria que fazemos terrorismo contra nós próprios e que Bin Laden é apenas um instrumento.
R. É um paradoxo, mas é possível que os ataques terroristas nos sejam úteis.
P. Ainda que constituam um pretexto para que as nossas sociedades se tornem ainda mais controladas.
R. Pior. A eliminação da dimensão moral das nossas vidas abre o caminho à lógica dos psicopatas. É isso que eu temo. Estamos a mover-nos rumo a uma guerra entre um gigantesco sistema psicopatológico contra outro gigantesco sistema psicopatológico. É assim que eu vejo o futuro. Uma espécie de luta darwiniana entre dois gigantes psicopatas rivais. O dos atacantes do 11 de Setembro contra o do complexo político-militar americano.
P. Bush compete em psicopatologia com Bin Laden?
R. O discurso dos neoconservadores americanos, Rumsfeld, Wolfowitz, sobre “fazer do mundo um lugar melhor” através da guerra está nas fronteiras da psicopatologia. Os ideólogos nazis, quando falavam da Rússia Soviética e dos judeus, mostravam o mesmo tipo de raciocínio psicopático. Mas a psicopatia é muito atraente. Dá todas as respostas de que precisamos.
P. A psicopatia, como a violência sem sentido, é um caminho para a liberdade?
R. Exactamente. Uma vez engolida a loucura básica, pode fazer-se qualquer coisa. Nos jornais ingleses já se está a criar o terreno para um ataque ao Irão. Só se fala do seu programa nuclear. Exactamente o mesmo caminho que seguiram com Saddam e as armas de destruição maciça.
P. As pessoas acreditam em tudo porque querem acreditar? Mesmo que não seja racional?
R. Sim. É até melhor que não seja racional.
P. Mas a sociedade perfeita e aborrecida de que fala é também ela uma mentira. A maioria dos seres humanos no mundo tem de lutar pela sobrevivência.
R. É verdade. Mas eu falo da sociedade ocidental.
P. Então por que não se dedicam os enfadados ocidentais, saudosos de decisões morais, a mudar o mundo?
R. Receio bem que não estejam interessados. Não temos interesse em nenhuma zona para além da nossa esquina do mundo. Estamos armadilhados na nossa história social. Olhe, eu nem sou capaz de lhe dizer o nome do primeiro-ministro português! E sou supostamente um homem culto. Vimos, na televisão, imagens de pessoas a morrerem à fome no Sudão. Que fazemos? Nada. As nossas atitudes são completamente provincianas. As nossas vidas são controladas. Se sou dentista, ou professor, não vou desistir da minha carreira para ir para África. Somos prisioneiros, embora não o saibamos.
P. Precisamos de aventura, mas ela não está ao nosso alcance.
R. O que está ao nosso alcance é a irracionalidade. A própria indústria do entretenimento está repleta desse apelo ao irracional.
P. É como se estivesse a preparar as pessoas para a tal violência sem sentido…
R. Exactamente. Parte do impacto do 11 de Setembro vem daí: já o tínhamos visto em filmes.
P. Havia uma espécie de premonição.
R. O que é muito assustador. Já estávamos a fazer o trabalho dos terroristas, ao nível da imaginação. A superfície da vida normal está a derreter, como gelo. O inconsciente humano está a começar a irromper. Meu Deus! As nossas estruturas políticas não conseguem lidar com isso.
P. Que podem fazer os políticos?
R. Não podem fazer nada. Estão presos ao conceito tradicional de política. Veja a Administração americana. Ainda está agarrada aos conceitos do século XX. Pensam sempre em termos de navios de guerra, tanques, ataques aéreos. É a América de 1945 com muito mais tecnologia, mas a mesma filosofia: se alguma coisa corre mal, bombardeia-se os gajos. Ora isto não se compadece com o mundo que temos. E depois os políticos ainda pensam que o seu papel é organizar a sociedade de forma mais justa e razoável. Também tem de ser isso, mas não só. Vocês já se viram livres da realeza, não é verdade?
P. Sim, em 1910.
R. Boa jogada. A monarquia está desacreditada. Mas a república também. Bem como a Igreja. Bom, nos EUA, 60 por cento das pessoas voltam-se para a Igreja, numa busca desenfreada do irracional. Eles têm uma indústria de entretenimento desde 1930. Uma prosperidade enorme e ainda a crença de que se trabalharem podem ter uma vida melhor. Mas o que será essa vida melhor? A Disneylândia? Mais consumo?
P. Não é isso que as pessoas continuam a procurar?
R. Tem de haver algo mais na vida do que apenas consumir coisas. Isso foi um bom ideal até certa altura, mas agora é um projecto que está esgotado.
P. A civilização ocidental vai então acabar?
R. A filosofia das Luzes, nascida com a Revolução Industrial, com a sua promessa de riqueza, prosperidade, já deu o que tinha a dar. O Iluminismo é um projecto acabado. Está nas suas últimas fases e as pessoas estão a voltar-se para o irracional. Para a religião, como nos EUA ou na Arábia Saudita, ou para o irracionalismo político, como os grandes projectos utópicos do século XX, o comunismo e o fascismo, que originaram dois gigantescos pesadelos…
P. Estará para nascer mais algum grande projecto utópico?
R. Eu vejo a possibilidade de o consumismo, para sobreviver, sofrer uma mutação. Transformar-se numa espécie de versão “soft” de fascismo. Há muitas similitudes. Os princípios psicológicos que lhe subjazem são os mesmos.
P. O consumismo não pressupõe a liberdade individual?
R. Não. É um tipo de autoritarismo, porque é um sistema de promessas. Compre isto e terá a felicidade. É uma promessa ideológica. A publicidade é um meio de dominar as nossas mentes, de forma autoritária, prepotente, sem argumentos racionais. As pessoas sabem isso e aceitam, porque gostam de obedecer.
P. Não se pode dizer que seja um optimista quanto à natureza e futuro da humanidade. Até que ponto a sua infância na China, durante a guerra, num campo de concentração, influenciou a sua visão do mundo?
R. Vivi em Xangai durante a ocupação japonesa, até aos 16 anos. Tive de crescer muito depressa. Aprende-se muita coisa, com essa experiência de viver, durante uma guerra, sob controlo inimigo. Ser civil e estar completamente à mercê deles. Ser uma criança e ver os pais também à mercê, inseguros. Sem terem comida para nos dar, cheios de medo. É absolutamente assustador. Ensina-nos para sempre que não podemos tomar nada por garantido. E que o mundo em que vivemos é muito mais perigoso do que parece.
P. É, de certa forma, um mundo fictício.
R. É um cenário. É assim que eu o vejo. Como um cenário de um filme, que pode ser derrubado em dez minutos, para ser substituído por outro.
P. A maioria das pessoas não tem esse pressentimento, pois não?
R. Quando cheguei a Inglaterra, depois da guerra, fiquei muito surpreendido. Então ninguém está a ver o que se passa? Senti-me um estranho aqui. E ainda hoje sinto, 60 anos depois. Parece que me apercebo de coisas que mais ninguém nota. Apetece-me dizer: “Ei, tenham cuidado!”
P. Os seus livros são isso? Avisos?
R. Acho que sim. Todos eles. É como colocar um sinal na rua a dizer: “Cuidado! Curvas perigosas mais à frente! Abrande!”
(PÚBLICO, 2004)

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