Homens-estátua

Todos os dias há mais um, na rua Augusta. Multiplicam-se como esculturas no armazém de um coleccionador compulsivo. São obras de arte. Objectos concebidos e esculpidos por um artista. E são o artista. Há quem faça da sua vida uma obra de arte. Estes fazem da obra de arte a sua vida. Estão ali, imóveis, para serem apreciados. Na própria imobilidade, que é, em si, a sua arte.
Um deles tem à frente um cartão que informa estar registado no Guiness como o homem que ficou mais horas sem mexer um músculo: 15 horas, 2 minutos, 55 segundos. Trata-se de António Gomes dos Santos, ou Hã toino De lírio, o mais famoso e o mais antigo homem-estátua. Foi ele aliás que inventou a arte, quando um dia nas Ramblas de Barcelona viu actores fazendo de robôs. “E se faltassem as pilhas ao robô?”, pensou ele, e nesse momento nasceu a ideia do homem-estátua. Foi há 25 anos.
Pouco depois deu entrevistas explicando que o seu objectivo era observar as pessoas. Que tomava notas das reacções, para depois escrever um livro. A grande obra de observação e análise ainda não foi publicada. Na versão actual de si próprio, para atrair mais a atenção, Hã toino não se limita a estar de pé. Graças a uma incompreensível geringonça que tem a ver com a bengala, levita.
Foi portanto um português que inventou a profissão de homem-estátua, e isso não se deveu à loucura irredutível de um homem, porque outros o imitaram. Hoje, não desfazendo no mérito da carreira, é quase moda ser homem-estátua. A rua Augusta assemelha-se a uma galeria do Louvre, apenas com um critério algo caótico de selecção e obras. Misturam-se estilos e épocas. Há um arlequim com uma coroa de esferas no ar, uma dama da Renascença, um soldado do futuro, um Mozart a sair da tumba, com uma pomba na cabeça.
Uns estão todos os dias, outros vêm de vez em quando, mas cada um tem o seu local próprio, como convém a uma estátua. Passam horas imóveis e esperam ser reconhecidos por isso. Quando um transeunte deixa uma moeda, o homem-estátua oferece uma performance. Move-se um pouco, não muito – uma vénia, uma mudança de posição, um piscar de olhos.
Por vezes, vêem-se outros performers na rua Augusta: músicos, bailarinos. Mas a especialidade são os homens-estátua. É a arte de rua nacional, por excelência. Hã toino De lírio fez escola, há até quem tente superá-lo, se não em horas de imobilidade, pelo menos em originalidade e sofisticação na composição da figura. É uma arte que se aprende, com treino e paciência. Há cada vez mais portugueses a abraçarem esta profissão. E são surpreendentemente bons.
De um modo geral, as pessoas respeitam os homens-estátua. Não é frequente, por exemplo, ver alguém a insultá-los, ou a tocá-los. Seria fácil, uma vez que eles, por dever do ofício, não reagem.
Uma vez, vi uma criança a fazer cócegas ao Mozart. Não era ostensivo. Uma cosquinha no nariz, outra na orelha, só para ver se ele se descompunha. A criança não era nenhuma santa. Mas pior era a mãe, que estava a perceber perfeitamente o que se passava, e, sonsa, não fazia nada.
O Mozart aguentou, olímpico. Era demasiado profissional. Limitava-se a rolar os olhos e a levantar do túmulo a mãozinha de bronze, fazendo com os dedos um discreto, mas furioso, sinal para que se fossem embora. Mãe e filho ficaram ainda mais divertidos, é claro. Ignoraram completamente o desespero do músico. Sabiam que estava vivo, mas não deixava de ser uma estátua.
(PÚBLICO)

7 comentários a Homens-estátua

  1. uma estátua é uma obra de arte , homem estátua é uma arte .Não concordo que a Camara de Lisboa cobre por um trabalho que é uma arte e dá vida a uma cidade .Eu pinto e faço de estátua sei pelo que passamos .Um obrigado a quem aprecia a nossa arte

    Responder
  2. curioso como este artigo surge após eu ter lido"Jardins Sem Limites" da Lídia Jorge, a nossa escritora portuguesa, á qual estou grata por através da leitura desse livro ter percebido e compreendido a arte do Homem Estátua.Talvez o António gomes dos Santos seja a inspiração do livro, pois também aquele personagem bateu o record da imobilidade como homem estátua.este artigo do Paulo Moura vai de encontro ao que li e aprendi no livro sobre esta arte.recomendo a leitura do livro para entenderem que não é de animo leve que se faz arte através da imobilidade do corpo.Um bem haja para quem de certa maneira valoriza a arte destes artistas e lhes dá o reconhecimento.

    Responder
  3. Talvez por eu não aguentar estar quieta e até no autocarro ter que ler ou fazer crochet, faz-me muita confusão ver essas estátuas que são homens! Há poucos meses, nas Ramblas da cidade de Gaudi, tive oportunidade de passar por muitos e vi que têm aperfeiçoado a sua arte de uma maneira incrível e com pormenores fenomenais. Mas fazem-me pena,porque parece-me que tanto tempo de imobilidade deve ser atroz!

    Responder

Responder a papoila Cancelar resposta

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>