Crónica de Ano Novo

A polícia fez preparativos especiais para aquela noite, porque ia haver um concerto. Há muitos anos que não havia nenhum na cidade. Os espectáculos estavam proibidos pelo Governo fundamentalista islâmico. A música era vista como subversiva e imoral, os ajuntamentos um perigo para a ordem pública. Mas naquela noite, numa atitude de louvável abertura, fora permitido um concerto.
Os habitantes de Cartum andaram muito excitados todo o dia. Ia realizar-se um concerto, com artistas internacionais, no estádio de futebol. O que a polícia fez foi o seguinte: entre o palco e a assistência reservou um enorme espaço vazio, correspondente a quase todo o relvado. Essa zona de segurança, guardada por muitos agentes armados de bastões, serviria, na concepção das autoridades, para que o público não atacasse os artistas, nem estes atacassem o público. Serviria também para que as vedetas ficassem lá longe, pequeninas e difusas, impedidas assim de exercerem o seu demoníaco poder de alienação.
A polícia socorreu-se ainda de outra manigância genial: os holofotes não estavam apontados para o palco, mas para a audiência. Isto garantia, por um lado, que os encadeados espectadores não vissem praticamente nada, por outro, que os polícias os enxergassem bem a eles.
Milhares de homens afluíram ao estádio. Os polícias empurravam-nos por um corredor que dava acesso ao recinto. Era difícil manter a ordem. Nem os polícias nem a assistência sabiam como se comportar. Há muitos anos que não se realizava um concerto no Sudão.
As pessoas eram demasiadas para o espaço que lhes fora reservado. Apertavam-se num sufoco, sem poderem sair dali, apesar do imensa área vazia à sua frente. Eram 10 da noite, mas a temperatura rondava os 50 graus.
A primeira banda a actuar foi um grupo de música tradicional síria. O problema é que incluía um corpo de bailarinas, de saias compridas, mas cabelos destapados. Começou a música e a multidão ficou louca. Todos tentavam dançar, mexer-se no meio do aperto. Gritavam, levantavam os braços, aplaudiam.
As bailarinas começaram a dançar, agitando as cabeleiras, o que fez furor, numa sociedade onde as mulheres, por norma, usam véu. E foi então que um homem perdeu as estribeiras. Soltou-se da multidão, correu para o meio do relvado vazio e começou a dançar. Os polícias precipitaram-se imediatamente sobre ele e desataram à bastonada.
O homem acabou por regressar ao seu lugar, com a cara cheia de sangue e de alegria. Mas logo outro saltou para a zona proibida. A seguir foram dois. Os polícias não tinham mãos a medir. Desancavam à bastonada todos os recalcitrantes, mas isso não os demovia. Fugiam e voltavam, entre a chuva de pancadaria.
As bailarinas decidiram também avançar para o relvado. Colocaram-se entre os holofotes e a multidão, o que provocou este curioso efeito: as saias ficaram transparentes e viam-se-lhes as pernas e as cuecas. Atrás, os polícias não perceberam logo a reacção desvairada da assistência, mas redobraram a violência das cacetadas.
Alguém deu o alerta, e as bailarinas foram expulsas. A corrente eléctrica foi cortada e o som calou-se de repente. Entrou o músico seguinte, o sudanês Mahmud Abdelaziz. Num género mais romântico, provocou a mesma gritaria, impulsos de dançar no relvado e correspondentes bastonadas.
Foi um grande concerto. As condições eram difíceis, mas os mais ousados não deixaram de dançar.
(PÚBLICO)

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