A Primavera que veio do frio

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“Esperámos tanto pela Primavera russa da Crimeia” 

O palco foi montado em frente à estátua de Lenine, e no meio, enchendo a praça, entre música e discursos inflamados, mais de 5 mil pessoas vieram manifestar o desejo de regressar aos braços da mãe-pátria Rússia.
“É a Primavera, finalmente!”, grita um deputado, no palco. “É a Primavera da Crimeia! Esperámos tanto tempo por isto! A Primavera russa da Crimeia!. Palmas, gritaria, a multidão em delírio extático, agitando bandeiras russas, recentes e antigas, e cartazes com frases claras e francas: “Crimeia para a Rússia”. “Eu escolho a Rússia”. “Quando estivermos unidos, ninguém nos poderá fazer mal”.

Foi o primeiro grande comício a favor da integração da Crimeia na Rússia, desde que começou a crise desencadeada pela revolução de Maidan. Até aqui, as manifestações raramente reuniam mais de uma centena de activistas, ou caciques dos partidos pró-russos. Agora, é como se milhares tivessem finalmente vencido o medo, ou finalmente tivessem sido vencidos por ele. Parece simultaneamente uma rendição e uma vitória.

“Rússia! Rússia!”, gritam todos, ao som de antigas canções soviéticas. Velhos tisnados, de longos bigodes e barretes cossacos, mulheres de casacos de peles, rugas e baton, óculos escuros, chapéus extravagantes e beleza indestrutível, homens de bonés militares e dentes de ouro, rapazes de camuflado, raparigas de pele clara, cabelo de seda branca e brincos enormes gritam “Rússia! Rússia!”, e “Vamos para casa! Vamos para casa!”

Um deputado, Vladimir, que é apresentado no palco sem apelido e sem partido, diz: “Dentro de uma semana juntamo-nos à nossa pátria, a grande Rússia. Venceremos. Finalmente encontraremos o nosso destino”. Depois conta que esteve na Praça vermelha, em Moscovo, onde dezenas de milhares de pessoas deram as boas-vindas à Crimeia. “Moscovo é o nosso futuro, não Kiev ou Bruxelas”.

Entra no palco a banda da Frota do Mar Negro. “A terra russa é a mais bela do mundo… Rússia… Rússia…” cantam eles, em másculos vibratos de marinheiro. Vem outro deputado. “Quando nos juntarmos à Rússia, ninguém mais nos vai ameaçar. Nem Kiev, nem Bruxelas, nem a NATO…”

Mais música. Mais um deputado: “Finalmente decidimos fazer um referendo, que vai resolver um problema histórico. Todas as nossas dificuldades económicas serão resolvidas. Integrados na Rússia, entraremos numa era de prosperidade. Só é pena o referendo ter duas opções. Devia ter só uma: integração imediata na Rússia”.

Nem uma palavra sobre liberdade de escolha no referendo. Nada sobre a hipótese de a maioria não querer a integração na Rússia. Nenhuma referência ao partido dos deputados que vão falando, porque já não há partidos. Aparentemente, todos pertencem ao mesmo grupo, o Rússia Unida, que obteve 3 por cento dos votos nas últimas eleições.

“Estão contentes com a decisão do novo parlamento?”, pergunta Vladimir Konstantinov, presidente do parlamento e um conhecido oligarca ligado à indústria da construção e a vários processos-crime por fraude e corrupção. “Sim!”, responde a multidão. “Ontem estive na Duma de Moscovo”, continua Konstantinov, “e perguntei-lhes se estavam contentes por receber a Crimeia na Rússia. Disseram que sim, e que tratariam de todas as nossas necessidades. Ficaram felizes por terem de volta este território eslavo”.

O ministro da Informação, Dmitri Kabalov, grita: “Não daremos a Crimeia a ninguém! Não precisamos dos fascistas, dos Sector Direito e dos Banderas. Há uma Primavera nas ruas e nos nossos corações!”. A cantora lírica Angelica Sakarova, gorjeia: “A terra mais liiiinda…” Um grupo de dança dos Urais rodopia, a Filarmónica do Tartaristão rufa tambores, as raparigas da dança-jazz de Sebastopol oferecem piruetas. A deputada Olga Geredina grita e pôe todos a gritar: “Queremos voltar à nossa terra, a Rússia! Vamos para casa!”. Pergunta: “Querem as leis de Kiev, que nos proíbem de falar a nossa língua?”

“Não!” respondem em uníssono.

Ina, Vassili e Maria são de etnia russa e eram há muito a favor da integração da Crimeia na Rússia. Mas não pensavam muito no assunto. “É verdade que a situação económica estava a ficar cada vez pior”, diz Ina Nicolaina, 40 anos. “Mas havia paz, e não pensávamos que fosse urgente passarmos a ser administrados pela Rússia. Mas depois fizeram aquela lei em Kiev”.

“Foi isso, a lei abolindo o direito de falar russo na Crimeia, que nos fez todos mudar de posição”, explica  Vassili Sergeiev, 58 anos, condutor de autocarro. Maria, 40 anos, acrescenta: “Se os fascistas não viessem aí, estaria tudo bem connosco. Até havia muito gente que simpatizava com Maidan. Eu, por exemplo. Mas desde que aprovaram a lei da língua, ninguém tem dúvidas: queremos a Rússia”.

Confrontados com a hipótese de uma Crimeia independente, os três amigos rebolam a rir. “Isso é impossível. Haveria de ser lindo! Quem nos defenderia?”

A esmagadora maioria dos manifestantes tem mais de 50 anos, ou até de 60. Paira no ar um bolor de medos antigos, de desconfiança atávica, de nostalgia soviética. Mas há quem quem venha trazido opor um racionalismo inatacável.

Igor Anatski é construtor civil. Veio com a mulher, Alona, médica. Têm ambos 40 anos, etnia russa, três filhos.  “Antes desta crise, considerava-me ucraniano”, diz Igor. “Depois do que fizeram em Kiev, levanto a mão: voto pela adesão à Rússia. As pessoas têm de ser avaliadas pelas suas acções. E a aprovação da lei contra a língua russa não deixa dúvidas sobre as intenções das novas autoridades de Kiev. É contra eles que estou, não contra a Ucrânia”.

Igor e Alona não morrem de amores por Putin. “Concordo que não é um regime perfeito. Não há total liberdade, é um governo corrupto. Mas não tanto como os da Ucrânia. Incluindo os dos políticos que agora vão assumir o poder, como Iulia Timoshenko”.

A União Europeia não encanta Igor. “É bom estar lá se se for a Alemanha ou a França. Países como a Espanha, a Grécia ou Portugal estariam melhor fora. Tal como eles, a Ucrânia ainda não está preparada, em termos de economia e de mentalidade. Entrar na UE seria a sua destruição”.

Quanto à Crimeia, a oportunidade de entrar na Rússia é a melhor opção, considera Igor, a pensar acima de tudo nos seus negócios. “Na Ucrânia, a minha empresa não tinha grandes hipóteses de expansão. Com um governo russo, haverá muito investimento público em escolas, infra-estruturas, etc. Além disso, terei oportunidades de negócio na Rússia inteira”, diz ele, já de braços no ar, entoando o hino que todos acabaram de inventar “Vamos para casa! Vamos para casa!

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