A ilha de Tavira

Levantei-me bem cedo. Desempoeirei uma velha mochila do tempo da guerra do Iraque, um saco-cama do Afeganistão e uma cadeira desdobrável que se destinava a um casebre em ruínas que um dia arrendei no Alentejo. Comprei uma tenda de 35 euros, meti tudo no carro e conduzi para sul.
Sozinho, atravessei o Tejo, cruzei as planícies de milho, flores roxas e feno de veludo cor de âmbar. Vi o céu crescer à minha frente como uma escarpa a rachar para o abismo. Entrei no Algarve, rumei a leste, pela Via do Infante. Passei Faro, Olhão, a Fuzeta, cheguei a Tavira, segui as setas que indicavam a ilha. Estacionei o carro, meti a tralha às costas e apanhei o barco.
Caminhei até ao parque de campismo, registei-me, montei a tenda, dirigi-me à praia nudista. Despi-me, entrei na água tépida e verde, nadei duas horas. Estendi-me na areia, caminhei à beira-mar até ao fim da ilha e voltei, regressei ao parque para tomar duche. Jantei peixe grelhado num restaurante da praia. Observei as crianças brincando nos pufs vermelhos dispersos nas dunas. As barbichas dos pescadores, a pele esturricada dos banheiros. E as mãos das mulheres sozinhas. O modo ágil e intenso como tocam nos telemóveis, como enviam mensagens. Os casais felizes trocando gestos cúmplices e tácitos, supérfluos. Bebi uma caipirinha no bar do parque de campismo.
Perto da meia-noite fui outra vez à praia. Havia um luar intenso reflectido no mar como uma mancha de mercúrio. Um rapaz trouxe a namorada para fazer experiências fotográficas com a luz. Sentou-a um pouco curvada na areia cálida de forma a que o rosto dela ficasse totalmente iluminado pela chama lunar, depois de refractada pela água. O seu rosto pueril e grave, vibrando com o cosmos.

À noite, na tenda, esperei pelo silêncio. Quando todos tinham já recolhido aos seus sacos-cama, às suas esteiras, aos seus colchões insufláveis, o burburinho da intimidade ocupou o espaço comum. Ouvia-se tudo. As conversas, os risos, os movimentos, os restolhar das roupas, os gemidos do sexo. A tosse e até a respiração. Quem estava acompanhado talvez não notasse, mas para um campista sozinho, a presença das pessoas tornava-se contígua e tangível. Confrangedora de início. Depois natural. Na escuridão, era como se não existissem paredes e lonas e estivéssemos todos juntos num mesmo sussurro, num transe tranquilo. Adormeci.
Acordei em sobressalto. A tenda estremecia violentamente, e parecia estar prestes a ser arrancada do chão. O espaço entre o interior e o tecto duplo enchia-se como um balão, os panos drapejavam, o chão elevava-se nas extremidades, dobrava-se, enrolava-se sobre o meu corpo.
Segurei-me e tentei adormecer de novo, mas a ventania estava cada vez mais forte. Ouvia-se o seu sibilar estridente nos pinheiros. O perigo era real. As espias saltaram, as lonas enfunavam-se como velas. Rebolei até à entrada. Pensei sair, para voltar a enterrar as estacas das espias. Mas o facto era que não havia estacas suficientes. A merda da barraca era mal feita. Porque comprara eu uma tenda de 35 euros?
Além disso eu não podia sair, porque era o meu peso no interior da tenda que a mantinha no lugar. Mais nada a segurava. Não era contra a tenda que o vento lutava, mas contra mim. Contra o lastro da minha presença. Por isso não tive outro remédio senão resistir. Agarrar-me ao chão, concentrar-me na própria força da gravidade, na minha capacidade de a absorver. Se eu abandonasse o meu lugar, num ápice tudo desapareceria.

(PÚBLICO)

2 comentários a A ilha de Tavira

  1. O vento tem sido tão forte que se calhar até foi bom não ter gasto muito dinheiro na tenda, desconfio que se ela fosse das mais caras o resultado não teria sido muito diferente!

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