De Portugal ao Brasil, sozinho num barco a remos

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José Tavares não treinou o sufi­ciente.  Não é pos­sível praticar o sufi­ciente para a prova que vai ini­ciar. É ver­dade que já via­jou de caiaque, soz­inho, de Lis­boa ao Algarve, em sete dias. Foi um bom treino, mas sem qual­quer semel­hança com o que o espera agora. Deu a volta à ilha da Madeira em caiaque, remou 114 quilómet­ros no Tejo, mas não é a mesma coisa. Atrav­es­sou os Andes a pé, de caiaque e de bici­cleta. Cru­zou a Flo­resta Negra e o Alto Atlas, escalou o Kil­i­man­jaro e os picos mais altos dos Pir­inéus, Andes, Cáu­caso e Alaska. Subiu a vul­cões, deu a volta ao mundo num navio. Nos Himala­ias, chegou a estar fechado numa tenda, soz­inho, durante vários dias, par­al­isado pelo frio. Tam­bém isso foi um treino útil. “Há cer­tas semel­hanças entre a mon­tanha e o que vou fazer agora”, explica ele. “A comida é a mesma”. Con­tin­uar a ler

Sonhos” de Bombaim


Acordei tarde, deixei pas­sar a hora do pequeno almoço. Esfomeado, saí do hotel, mer­gul­hei na massa de calor e mul­ti­dão. Seria fácil com­prar alguma coisa para comer, entre os mil­hares de vende­dores que apre­goam nas ruas de Bom­baim, pen­sei. E lá estava um. Tinha, atre­lada à bici­cleta, uma car­reta onde fritava uns pastéis redon­dos, rec­hea­dos com vários mol­hos. Como uma fila de clientes de olhar ávido esperasse a sua vez, tive a certeza de que aque­les “son­hos” sal­ga­dos e luzidios seriam deli­ciosos. Imaginei-me a saboreá-los enquanto vagueava pelo trep­i­dante meio-dia de uma das maiores e mais fasci­nantes cidades do mundo, e isso deu-me ainda mais gula por aque­les bolin­hos estaladiços.

Chegou a minha vez. O homem fez algu­mas per­gun­tas que não entendi, mas respondi a tudo que sim. Pus-me a obser­var aquela mar­avilha da culinária de rua. E então começou o horror.

O coz­in­heiro começou a tirar, de um saco de plás­tico, pedaços de massa com que fazia bolin­has, com as pal­mas das mãos muito sujas. A massa era amarela no iní­cio mas quando caía no óleo nau­se­abundo já ia cas­tanha. Uma vez frito, o “sonho” era escor­rido numa folha de jor­nal. O homem fazia-lhe então um buraco, com a com­prida e imunda unha do pole­gar, e intro­duzia os molhos.

Eu fiquei à beira do vómito. Paguei, sorri e, segu­rando no pacote gor­duroso com as pon­tas dos dedos, corri dali para fora, em direcção ao caixote do lixo mais próximo.

Mas não havia nen­hum. Pro­curei algum recanto, algum beco sem ninguém, onde pudesse deitar fora aquela mixór­dia repug­nante. Nada. Em Bom­baim, não há um cen­tímetro quadrado que esteja vazio. A cidade tem quase vinte mil­hões de habi­tantes, metade dos quais vive na rua, em extrema pobreza. Por mais voltas que se dê, não é pos­sível estar soz­inho, nem deitar comida fora em frente de pes­soas que pas­sam fome.

É claro que pode­ria dar os meus “son­hos” a alguém, mas com que desculpa?

Durante horas, per­corri as ruas de Mum­bai, com os “son­hos” na mão. Ten­tei pousá-los dis­farçada­mente, mas havia sem­pre alguém a olhar. Pen­sei fin­gir que os deix­ava cair, mas decerto alguém cor­re­ria atrás de mim para mos entre­gar. Passou-me pela cabeça voltar ao hotel, mas que pen­saria a empre­gada de quarto quando lá encon­trasse comida estragada?

Con­tin­uei a cor­rer a cidade, deses­per­ado. Havia esque­cido com­ple­ta­mente a fome e tudo o que tinha para fazer. Como desembaraçar-me daque­les “son­hos” era a minha obsessão.

Fazia por pas­sar des­perce­bido, enchia-me de alhea­mento, à espera de um min­uto de pri­vaci­dade, para poder come­ter o meu pequeno crime, o meu pequeno gesto de insolên­cia necessária.

Uma menina de uns 12 anos aproximou-se. Deve ter pressen­tido a minha vul­ner­a­bil­i­dade e disse, com uma voz las­civa: “Sen­hor, pre­cisa de alguma coisa?” E per­cor­reu o próprio corpo com a mão de unhas pin­tadas. “Precisa?”

Voltei-lhe as costas e desatei a cor­rer. Fugi daquela rua, daquele bairro, mas cada vez havia mais gente à minha volta, e acabei por deter-me, exten­u­ado, no meio de uma praça. Sentei-me no chão. Olhei o embrulho, já amar­ro­tado pelo deses­pero. Abri-o. Lá estavam os “son­hos”. Peguei num e meti-o na boca. Tinha um sabor esquisito, mas não desagradável. Comi outro. E não me lev­an­tei enquanto não engoli, lenta­mente, um a um, todos os “son­hos” que lev­ava na mão.

Os príncipes e o povo

O actual sis­tema político na China asse­gura um con­junto de priv­ilé­gios fab­u­losos a uma elite. As refor­mas que muitos exigem — maior liber­dade e transparên­cia, medi­das de pro­tecção do ambi­ente, mais dire­itos para os cam­pone­ses e os novos tra­bal­hadores indus­tri­ais e os migrantes, margem de manobra ao empre­sari­ado pri­vado — são vis­tas como ameaças. Os príncipes têm pânico do que acon­te­ceu na União Soviética. Se o povo está agi­tado, fecham-se nos palácios.

Desastre ambiental e atracção turística

À saída do barco esperavam-nos já cinco auto­car­ros ultra­mod­er­nos, com as letras Three Gorges Project gravadas na car­roçaria. Tivé­mos de entrar para um deles, e ouvir o dis­curso da guia durante a meia hora de viagem, bem como durante a visita.

A sen­sação é de con­trolo abso­luto. O barco per­tence ao Estado, e à saída somos obri­ga­dos a entrar num auto­carro que per­tence à empresa China Three Gorges Project Corporation.

Quando chegá­mos, havia mul­ti­dões por todo o lado. A visita incluía três pon­tos de par­agem: lugares de onde se avis­tava a bar­ragem, o museu, as lojas e zonas de venda de recor­dações. Tudo está min­u­ciosa­mente orga­ni­zado para rece­ber os vis­i­tantes, como se uma das funções do empreendi­mento fosse a própria divul­gação das suas razões e objectivos.

Há enormes lanços de escadas rolantes para levar os vis­i­tantes aos pon­tos mais altos, de onde se avista o rio, o reser­vatório e as colos­sais bar­reiras de betão, há par­ques onde estão expos­tos os guin­dastes, os bul­dozzers, os camiões que par­tic­i­param na con­strução, há maque­tas, mod­e­los de turbinas, fotografias e mapas.

À saída do museu da zona da bar­ragem,  pas­sando pela loja onde há de tudo, desde livros de engen­haria civil até estat­ue­tas de Mao, chega-se à zona de feira. São ruas e ruas com vende­dores de ambos os lados. As ban­cas têm comida típica das várias regiões abrangi­das pelo pro­jecto, veg­e­tais, peixe frito, bolos, mas tam­bém roupas, sap­atos, bonecos, brin­que­dos, can­deeiros, vas­souras, reló­gios, telemóveis. São mil­hares de vende­dores, que gri­tam deses­per­a­dos agi­tando os pro­du­tos, clara­mente não con­seguindo vender o sufi­ciente, entre a desmesurada concorrência.

Todas estas pes­soas são deslo­ca­dos das zonas inun­dadas, que encon­traram tra­balho aqui”, diz a guia.

Cidades submersas

Para não perder muito tempo, decidi via­jar de auto­carro de Chongqing para Wanzhou, a cerca de 300 quilómet­ros, e aí apan­har o barco para Yitchang e a as Três Gar­gan­tas. Mas na China nada acon­tece como pre­visto, e quando cheguei já o barco tinha par­tido. Foi pre­ciso procu­rar um hotel em Wanzhou.

É uma cidade de dois mil­hões, con­sti­tuída por sequên­cias inter­mináveis de edifí­cios de habitação todos iguais, cinzen­tos, com muitos andares. As urban­iza­ções estão con­struí­das em promon­tórios à volta do rio, de que pare­cem fugir.

Hoje em dia, Wanzhou não é exac­ta­mente uma cidade. Em 1997 mudou de nome (chamava-se Wanx­ian) e foi integrada no municí­pio de Chongqing. Cerca de 50 por cento da cidade desa­pare­ceu. Com a subida das águas resul­tante do enchi­mento do reser­vatório da bar­ragem, toda a zona mais baixa da cidade ficou submersa.

Eu morava ali”, aponta Gong Zong para um ponto no meio do rio. “Agora esta­mos numa linda cidade do outro lado do monte”. Gong tem 25 anos e é téc­nico de infor­mática. Tem de aju­dar os pais, que, acaba ele por dizer, nunca mais tra­bal­haram desde a mudança. “Eles tin­ham uma pequena terra. Agora não sabem o que fazer, no meio dos prédios.”

A zona de Wanzhou, por ter vas­tas áreas ele­vadas, é onde se con­cen­tra grande parte das novas cidades, con­struí­das para realo­jar os que viviam em zonas que ficaram inun­dadas. São urban­iza­ções incar­ac­terís­ti­cas, sem infra-estruturas, con­tou Gong. A maior parte não tem esgo­tos. Mas o pior é que não têm vida. “As pes­soas não sabem o que fazer. Não há empre­gos”. São cen­te­nas de quilómet­ros de pré­dios par­da­cen­tos, que ninguém sabe a que cidade per­tencem, e onde vivem mil­hares de descon­heci­dos. Os habi­tantes de várias aldeias dis­per­sas foram alo­ja­dos num mesmo bairro, aleato­ri­a­mente.

No Yangtse, a caminho das Three Gorges

Antes de aman­hecer, fui acor­dado por uma gri­taria ensur­de­ce­dora, vinda do lado do rio. Era uma espé­cie de lengalenga berrada numa voz fan­hosa e estri­dente a plenos pul­mões. Avan­cei no escuro até à porta de esti­bordo. Ao lado do barco, nave­gando à mesma veloci­dade, colava-se uma canoa com­prida, uma espé­cie de gôn­dola onde duas mul­heres em pé apre­goavam doses de massa com carne, que reti­ravam com uma con­cha de um pan­elão a fumegar. Depois afastavam-se, dando lugar a outra canoa, numa azáfama con­tínua e barul­henta. Do lado bom­bordo, era a mesma con­fusão e gritaria.

Isto passou-se às cinco da manhã, e pouco depois o sol nascia por trás de mon­tan­has escarpadas e negras, for­mando mural­has, arcos e colos­sos em ambas as mar­gens. Eram as Gar­gan­tas, final­mente, envoltas em bru­mas e clarões de fogo. O rio estre­itou e ziguezagueava entre as bar­reiras de Qutang, às primeiras horas da manhã. As pes­soas saíam das cab­i­nas, ou dos can­tos onde dormiam, para afluir ao con­vés, munidas de máquinas fotográ­fi­cas, de binócu­los, deslum­bradas com aquele mundo de estran­heza e mistério.

Chongking capital da corrupção

Em Chongqing nunca se vê nada. Um nevoeiro pardo e enchar­cado envolve os arranha-céus, as mon­tan­has, o Yangtse, o maior rio da Ásia. A cidade seria assom­brosa, se a con­seguísse­mos ver. É assim todo o ano, dizem. As aber­tas são rarís­si­mas. O capacete não sai. Deve-se à extrema humi­dade trop­i­cal, lat­i­tude, inte­ri­or­i­dade, o rio e as mon­tan­has. Ou à poluição. Já ninguém sabe. É provável que seja tudo junto. É certo que chove, mas tam­bém está provado que a chuva é ácida. São as gotas mais con­t­a­m­i­nadas do plan­eta. O ar é opaco, ensopado, o que tanto pode ser do vapor como do fumo. Ninguém sabe onde a bruma acaba e a som­bra começa. A atmos­fera é turva e pega­josa, como um pân­tano suspenso.

A con­se­quên­cia é uma sen­sação de asfixia, agravada sem­pre que se tenta comer qual­quer coisa. A comida de Chongqing é con­sid­er­ada a mais picante do mundo. As pes­soas estão habit­u­adas, dir-se-á. Mas, nos restau­rantes, vê-se como elas suam a cada porção lev­ada à boca. Suam e ficam encar­nadas, como se estivessem numa espé­cie de com­bustão silenciosa.

Song imagina a China livre

Todas as ditaduras pro­duzem este efeito: quando se vive nelas, é difí­cil imag­i­nar que pudesse ser de outra forma. Como o poder se encar­rega de estran­gu­lar todas as alter­na­ti­vas à nascença, parece que a ordem vigente é a única pos­sível. A mudança surge como demasi­ado perigosa e irrealista.

Na China,com a sua dimen­são e com­plex­i­dade, esta sen­sação é ainda mais lancinante.

Não obstante a con­fusão aparente, na China, mel­hor ou pior, tudo fun­ciona. Os salários podem ser muito baixos, mas não há desem­prego; pode ter de se esperar horas numa fila para com­prar bil­hete, mas há lig­ações de com­boio e auto­carro de cada canto remoto do país para cada outro canto remoto do país; nas ruas das cidades, há casas de banho públi­cas a espaços reg­u­lares; a cada esquina se ven­dem pacotes de comida instan­tânea, a que basta jun­tar água quente, e em cada esquina há torneiras de água quente para preparar a comida e o chá.

Ape­sar da cor­rupção, da falta de liber­dade, do medo, vê-se que tudo está pen­sado para as pes­soas. A China pode ter-se tor­nado no maior por­tento cap­i­tal­ista, mas não deixou de ser social­ista. E o social­ismo pode ser o maior erro da História humana, mas funciona.

Muitas vezes, nas min­has via­gens pelas aldeias e cidades da China, pen­sei: ninguém con­seguiria gov­ernar este país. Nen­hum par­tido, nen­hum líder pode­ria pôr ordem nisto usando os méto­dos con­ven­cionais. Nen­huma autori­dade sobre­vive­ria 24 horas neste caos colos­sal… excepto o Par­tido Comu­nista da China. Com a sua genial com­bi­nação de bru­tal­i­dade e sub­tileza, a sua com­petên­cia sobre­hu­mana, o seu con­trolo men­tal, a sua endurance histórica, as suas raízes enter­radas em cada aldeia, em cada família, o Par­tido é a única possibilidade.

É muito difí­cil imag­i­nar a China livre. Mas há chi­ne­ses que con­seguem. Ela, por exemplo.

Chongqing shock

Cheguei à noite a Chongqing, a gigan­tesca cidade do inte­rior da China. A estação é enorme, escura e velha, e tem o chão ala­gado de água, a dar pelos tornoze­los. À saída do com­boio há uma grade de ferro por trás da qual se amon­toavam cen­te­nas de pes­soas, agi­tando car­tazes e cartões escritos, à espera dos que chegavam, não por serem famil­iares ou ami­gos, mas para lhes vender alguma coisa. Des­ig­nada­mente trans­porte, eu logo enten­de­ria porquê.

Trans­postas as grades, desatou tudo a cor­rer. Não percebi logo para onde iam porque ninguém me disse nada e todos os sinais são escritos em chinês. Depois vi: dirigiam-se para a fila dos táxis. Ten­tar con­tar. Eram mais de duas mil pes­soas na fila, o que é uma forma de dizer — na China não há filas. Há mul­ti­dões que se empurram para con­seguir os objec­tivos. Era isso que acon­te­cia até uma zona cir­cun­scrita por grades onde polí­cias obri­gavam, a par­tir dali, a respeitar a ordem de chegada. Até lá chegar, era pre­ciso aguen­tar os empurrões, os mur­ros, os pon­tapés, a gri­taria. Nada mau, depois de 32 horas de viagem. Esper­aria mais duas até chegar a minha vez. Quanto mais à frente na fila, maior era o aperto. A certa altura, quando já ia quase no ar, trans­portado pela horda, senti sob os pés uma massa mole e com­pacta, que pare­cia mover-se e chiar como um rato. Era um mendigo, sem braços, de tronco nu, que decidiu meter-se ali como única forma de chamar a atenção. Quase gritei, mas mais ninguém pare­ceu sur­preen­dido. Só eu não estava famil­iar­izado com a aguer­rida com­petição entre os ped­intes chi­ne­ses, e a sua per­ma­nente procura dos lugares onde pos­sam ser espezinhados.

Ao longo da fila, mul­heres cor­rendo de um lado para o outro, agi­tando na mão a chave de um carro, ten­tavam vender, aos gri­tos, o serviço de um táxi espe­cial, a preços exor­bi­tantes. Pediam 600 yuhan (70 euros) a quem estava no fim da fila, e iam baixando à medida que avançá­va­mos. No fim já pediam 200. O táxi que final­mente apan­hei para o hotel cus­taria 30.