Otelo — o Revolucionário

 

UM HOMEM ORGANIZADO

Otelo demora, todos os dias, cerca de duas horas na casa de banho, a tratar da higiene pes­soal. É uma longa e apri­morada série de cuida­dos que difi­cil­mente se poderá atribuir à vaidade, já que não pro­duz resul­ta­dos exte­ri­ores visíveis. Assemelha-se mais ao con­junto de ritos e abluções de um culto indi­vid­ual e iniciático.

Primeiro mer­gulha no duche, demor­ado e metic­u­loso. Depois limpa-se, com igual minú­cia, e dá iní­cio ao trata­mento capi­lar inte­gral. Com um curto anc­inho de plás­tico, uma pequena carda ade­quada, remove as pilosi­dades cor­po­rais que vão caindo. A seguir escova os abun­dantes pêlos do peito, costas, per­nas, etc. Usa uma vas­sour­inha própria, arredondada, semel­hante a uma escova de cabelo de mul­her, mas sem cabo. Após esta oper­ação, cer­tas zonas da pele podem estar a pre­cisar de uma limpeza adi­cional. Otelo pro­cede então à lavagem local­izada, servindo-se de várias águas.

Depois, nu, em frente ao espelho, com a porta aberta, faz a barba. Como é espessa, exige várias pas­sagens da lâmina, o que torna fre­quentes os fer­i­men­tos. Quando isso acon­tece, entra em acção o kit de cura, que inclui pequenos algo­dões embe­bidos em álcool.

O pen­tear tam­bém leva o seu tempo, com os respec­tivos truques e rig­ores geométri­cos. Completa-se com uma apli­cação de gel, leve, mas uni­forme. Tal como a pul­ver­iza­ção com per­fume, que geral­mente fica para o fim. Tudo isto ao som do rádio transístor.

Con­cluí­dos os tra­bal­hos, é pre­ciso arru­mar. Instru­men­tos, recip­i­entes e pro­du­tos são guarda­dos nos seus sítios, no armário. Tudo fica impecável.

Otelo é apaixon­ado pela sime­tria, o rigor e a rec­tidão. Não suporta ver um quadro torto na parede. Corre logo a endireitá-lo. À mesa, gosta de ter os tal­heres alin­hados, na posição cor­recta. O mesmo com os copos e os guardanapos.

É um homem caseiro. Capaz de pas­sar dias inteiros sem sair, desde que tudo esteja a seu gosto. Apre­cia a limpeza e a arru­mação, não tol­era um objecto fora do lugar. Nisto, a filha, Ana Mar­garida, que não é sua filha, sai a ele.

Dá valor à dis­ci­plina, mas, em todos os regimes em que viveu, foi o mais perigoso dos rebeldes.

Otelo é um homem pací­fico. Não faz mal a uma mosca, andou na guerra sem­pre com a arma descar­regada. Não obstante, der­ro­tou a total­i­dade das forças do país, fazendo cair o Gov­erno e todas as estru­turas do poder. Nunca dis­parou con­tra ninguém, nunca agrediu ninguém, nunca insul­tou ninguém. Mas foi con­de­nado por ter­ror­ismo e assas­sínio. Mais tarde amnis­ti­ado e absolvido.

É um tipo bem dis­posto. Rara­mente se lhe ouviu uma palavra amarga, mesmo quando foi preso, ou traído pelos ami­gos todos. Tem muitos ami­gos e não tem nen­hum. Aque­les que mais o admi­ram viraram armas con­tra ele, mandaram-no pren­der. Os que o odeiam só ouvem de Otelo palavras de respeito e afecto.

Não cul­tiva os ami­gos. Não lhes tele­fona, não sai com eles, não os con­vida para jan­tar. Esquece-se deles durante anos. Mas se algum lhe pede ajuda, nunca se esquiva. Tam­bém não tem prob­le­mas em pedir favores a quem quer que seja. Graças a isso fez um golpe de Estado. Pediu auxílio a alguns inimi­gos, e eles não tiveram cor­agem de recusar.

Otelo é um ser social. Tem per­fil de líder. Numa reunião ou numa festa, é o cen­tro das atenções. Fala muito, conta histórias, faz pal­haçadas. As pes­soas sen­tem que tudo o que existe no seu coração é autên­tico, gen­eroso, ele­vado e nobre, e apaixonam-se por ele. Seguem-no, se for caso disso.

Mas ninguém o con­hece ver­dadeira­mente. Otelo não se abre, não faz con­fidên­cias. É um homem solitário.

No entanto, sente-se bem em família. Tanto, que tem duas. Casou cedo, com uma colega de liceu. Mais tarde, na prisão, teve outro amor. Não foi capaz de aban­donar a primeira mul­her, nem a segunda.

Um dos seus mel­hores ami­gos, Mouta Liz, que foi com­pan­heiro no Pro­jecto Global (que o tri­bunal de Mon­santo con­siderou sinón­imo de FP-25) e nos negó­cios em Angola, con­sid­era a bigamia de Otelo como um dos seus maiores actos de cor­agem. Enquanto muitos homens tem uma ou várias amantes clan­des­ti­nas, Otelo assume as suas duas mul­heres. Aparece em público com elas, não mente a nen­huma, trata-as por igual.

Tam­bém nisso é orga­ni­zado. De segunda a sexta vive numa casa, sexta, sábado e domingo passa-os na outra.

É o género de homem que não vira a cara às difi­cul­dades, que age naque­les momen­tos em que todos ficam par­al­isa­dos. Ele é o que fica de pé quando todos se dobram. O que se chega à frente quando os out­ros se encol­hem. Está sem­pre pronto para o sac­ri­fí­cio. No sen­tido clás­sico, é um herói.

Quando o país mor­ria numa guerra injusta e per­dida, e defin­hava esma­gado por uma ditadura de meio século, ele pla­neou e executou uma rev­olução. Muitos cla­ma­ram pelo fim do regime, muitos lutaram. Mas no momento de agir, foi ele, homem orga­ni­zado, que fez o que tinha de ser feito.

Foi grad­u­ado várias vezes em gen­eral, con­vi­dado para Chefe de Estado-Maior das Forças Armadas, para primeiro min­istro, para Pres­i­dente da República. Nunca aceitou nen­hum desses car­gos. Teve o povo todo con­sigo, mas quando se can­dida­tou às eleições, perdeu.

Sente-se bem no palco, mas não ama o poder. Ainda que o tenha tido, abso­luto. Eis a história de um homem a quem não deixaram ser actor, e se tornou militar.

(…)

BILHETES PARAÓPERA

No dia 23 de Abril, antes de sair de casa, Otelo disse a Dina: “A hora H é só depois de amanhã, pelas 3 da madru­gada, mas eu vou agora, e já não volto”. Tinha deci­dido não dormir em casa nessa noite.  O plano podia ter sido descoberto, através de uma denún­cia, e  não podia cor­rer o risco de ser preso.

Às qua­tro horas deve ir para o ar, através do Rádio Clube, o nosso primeiro comu­ni­cado”, disse à mul­her. “Sin­toniza o tran­sís­tor. Se ele for lido, é bom sinal. Sig­nifica que temos o emis­sor na mão e que tudo está a andar bem”.

E se não for?”, per­gun­tou Dina. Ela não igno­rava que um golpe para der­rubar o regime estava a ser preparado, mas não sabia quando, nem o pro­tag­o­nismo que o marido nele assumiria. Otelo contou-lhe tudo, naquele momento.

Vais aguardando os noti­ciários seguintes”, expli­cou. “Se em vez dos nos­sos comu­ni­ca­dos, pas­sares a ouvir outro tipo de notí­cias, a favor do Regime, e falando de novo golpe abor­tado, isso sig­nifi­cará que perdemos o combate”.

E então?” Dina fazia um esforço por se mostrar calma.

Então, não sei ainda o que me poderá acon­te­cer. Pre­sumo que serei demi­tido, entregue à PIDE, pas­sado a civil, e vá abob­o­rar por uns anos lar­gos em Cax­ias, ou, quem sabe, faça uma viagem só com um bil­hete de ida para o Tar­rafal. Mas não te apo­quentes com nada disso. Porque eu tenho a certeza de que, em pou­cas horas, gan­hare­mos esta guerra. Dom­i­namos quase todas as unidades do país, a malta está com uma gana formidável, temos a nosso favor o efeito surpresa”.

Era uma con­versa nor­mal. Tão desmesurada, que só podia ser uma con­versa normal.

Dina disse: “Então já não vamos amanhã à ópera”. Tin­ham com­prado bil­hetes para La Travi­ata, de Verdi, no Col­iseu dos Recreios, na noite de 24. Não que­riam perder a inter­pre­tação de Joan Suther­land, a soprano aus­traliana con­hecida como La stupenda.

Otelo ainda respon­deu que levaria os bil­hetes, para os tro­car.  Mas achou que isso pode­ria lev­an­tar sus­peitas, depois do que se tin­ham esforçado para con­seguir aque­les ingres­sos com desconto, na Secção de Activi­dades Cul­tur­ais e Recre­ati­vas da Acad­e­mia Mil­i­tar. Não os devolveu. Dina escreve­ria no enve­lope, que nunca deitou fora: “Faltá­mos por motivo imprevisto”.

Otelo meteu num saco o uni­forme número 2, com o respec­tivo blusão de couro verde. Foi dar um beijo a Sér­gio, que dormia, e despediu-se de Dina: “Sexta-feira estarei cá para almoçar con­tigo. Até lá meu amor”. Saiu, mas ao fundo das escadas notou que se esque­cera da pis­tola FN. Voltou a casa e encon­trou a mul­her, sen­tada na cama, a chorar.

(…)

Quarta-feira de manhã, nos Cor­reios da rua D. Este­fâ­nia, depois de ter dormido no Reg­i­mento de Engen­haria 1, Otelo enviou a Melo Antunes, nos Açores, um telegrama que dizia “A tia Aurora par­tiu para os Esta­dos Unidos”, a senha com­bi­nada para infor­mar que a oper­ação se tinha ini­ci­ado. Fez os últi­mos con­tac­tos, regres­sou ao RE1 às 10 da noite. Fardou-se, vestiu o blusão de cabe­dal e desceu. Na escada encon­trou Sanches Osório, que lhe entre­gou os qua­tro comu­ni­ca­dos do MFA redigi­dos por Vitor Alves.

Dirigiu-se para o Posto de Comando, na Pon­tinha. Era um bar­racão pré-fabricado com uns 50 met­ros quadra­dos e as janelas tapadas com cober­tores. Havia pou­cas cadeiras, mas várias mesas, onde Gar­cia dos San­tos, que já tinha chegado, insta­lara tele­fones e rádios. Lopes Pires tam­bém já lá estava, fumando o seu cachimbo. Out­ros mil­itares faziam ronda ao recinto. Otelo entrou, abriu a pasta e tirou a Carta Opera­cional, que não era mais do que um exem­plar do Mapa de Estradas do ACP, de 1973, todo rabis­cado com os itin­erários das várias col­u­nas em movimento.

O rádio Philips de Lopes Pires foi sin­tonizado nos Emis­sores Asso­ci­a­dos de Lis­boa. Às 22h55, ouviu-se a voz de João Paulo Dinis: “Fal­tam cinco min­u­tos para as 23 horas. Con­vosco, Paulo de Car­valho, com o Euro­fes­ti­val 74, E Depois do Adeus”. A música começou. “Quis saber quem sou, o que faço aqui…”

Nesse momento, na Escola Prática de Artil­haria de Ven­das Novas, o tenente Sales Grade sai do seu quarto, acom­pan­hado pelos tenentes Andrade da Silva e António Pedro, e dirige-se, de pis­tola em punho, ao gabi­nete do Coman­dante, Coro­nel Mário Belo de Car­valho. Como com­bi­nado, out­ros qua­tro jovens ofi­ci­ais já ali se encon­travam, a pre­texto de uma reunião com o coro­nel. Por uns segun­dos, ficam todos em silên­cio. Apercebendo-se de que alguma coisa não corre bem, Belo de Car­valho tenta aproximar-se da sua secretária. É Andrade da Silva quem grita, por fim: “Porra! Haja alguém que diga ao nosso Coman­dante que ele está preso!”

(…)

A AMIZADE E A GUERRA CIVIL

A ten­são entre os dois ami­gos [Otelo e o capitão Vasco Lourenço] vinha aumen­tando, à medida que se aperce­biam de que estavam em lados opos­tos da bar­ri­cada. Sem­pre houve tam­bém, entre si, alguma rival­i­dade quanto ao pro­tag­o­nismo em todo o processo rev­olu­cionário. Vasco Lourenço achava que, se não tivesse sido dester­rado para os Açores, seria ele o líder da rev­olução. Mas ao mesmo tempo não igno­rava que o carisma de Otelo era de outro cal­i­bre. Se ele, Vasco, era sem dúvida admi­rado e respeitado no seio do MFA, Otelo tinha o poder de encan­tar as mas­sas. Era o homem das grandes ocasiões, das grandes causas e ideais. Mas a essa propen­são para a grandeza não era alheia, por outro lado, a sua fac­eta de actor. E isso Vasco deplorava.

Muitos dos actos do chefe do Cop­con só eram explicáveis pela sua neces­si­dade de agradar às plateias, pen­sava Vasco Lourenço. Isso levava-o, muitas vezes, a não com­preen­der o que estava em causa, e a come­ter erros estúpidos.

(…)

Vasco Lourenço via-se por vezes como o ponto do teatro, lem­brando as falas ao actor prin­ci­pal. Geral­mente sem êxito, o que o exasperava.

Em vários momentos-chave do processo rev­olu­cionário, os dois ami­gos estiveram no cen­tro das decisões. Em vários momen­tos, pare­cia que ninguém mais exis­tia, para além deles. Per­son­ifi­cavam a rev­olução, nas suas duas faces opostas e com­ple­mentares — onde Otelo era rad­i­cal, Vasco era mod­er­ado. Onde Otelo se mostrava volúvel e influ­en­ciável, Vasco provava ser lúcido e teimoso, sólido como um rochedo. Mas tam­bém iná­bil e supér­fluo, desajeitado e rabu­jento, enquanto que a Otelo bas­tava uma palavra para virar o país do avesso.

Se, na vida política, Spínola foi para Otelo uma figura pater­nal, Vasco Lourenço era sem dúvida o irmão. Um irmão mais velho, ape­sar de ser mais jovem.

Eram ambos per­son­agens quixotescas. Pare­ciam estar no cen­tro de tudo, mas, obser­va­dos numa per­spec­tiva história de longa duração, é óbvio que a real­i­dade sem­pre lhes escapou.

Nen­hum foi Pres­i­dente nem primeiro-ministro, e todos os que pare­ciam per­son­agens secundárias os vieram a ultra­pas­sar, quando o pó assen­tava. Esgrim­iam no vento, e as suas vitórias e con­quis­tas nunca se mate­ri­alizaram em nada.

Da sua ini­cia­tiva, cor­agem e abne­gação não reti­raram nen­hum bene­fí­cio pes­soal, e a História não os reg­is­tou como pro­tag­o­nistas, excepto numa dimen­são para­lela, sub­lim­i­nar e invisível. Foram fig­uras à medida do período histórico que os pro­duziu, tam­bém ele onírico e irreal.

E talvez por isso seja difí­cil perce­ber até que ponto dom­i­naram os acon­tec­i­men­tos. E através de que meios, que mis­te­riosos instru­men­tos. Na cabeça deles, tudo se pas­sou como se não hou­vesse mais ninguém. Como se o país lhes estivesse entregue, total­mente vul­nerável. Viam a real­i­dade con­tin­gente e as pos­si­bil­i­dades infini­tas. O seu mundo era fan­tas­magórico, um sonho tor­nado verdade.

A influên­cia histórica que tiveram talvez venha a ser incom­preen­sível para os futuros his­to­ri­adores. São fac­tores indefiníveis, absur­da­mente sim­ples, como por exem­plo a amizade. A cama­radagem mil­i­tar for­jada na guerra, que não era uma guerra qual­quer: era injusta e estava per­dida. E como nen­hum homem sobre­vive soz­inho numa guerra injusta e per­dida, a dívida que con­trai com os seus com­pan­heiros é maior do que a própria vida.

Gar­cia dos San­tos, que fez o Plano de Comu­ni­cações do 25 de Abril, diria mais tarde: “Tenho a certeza de que em nen­huma cir­cun­stân­cia o Vasco Lourenço e o Otelo chegariam a um ponto em que, frente a frente, um dis­parasse um tiro nos cornos do outro”.

Durante todo o PREC, os Capitães de Abril insultaram-se, prenderam-se uns aos out­ros, con­spir­aram, fiz­eram golpes e contra-golpes, levaram o país ao caos. Mas nen­hum foi capaz de dar um tiro nos cornos de um amigo.

Naquele período, entre Abril de 1974 e Novem­bro de 1975, em que todas as ide­olo­gias disponíveis no plan­eta se diglad­i­aram aqui, nas suas for­mas mais rad­i­cais, em que os líderes das várias facções antagóni­cas eram mil­itares arma­dos até aos dentes, e não exis­tia nen­hum poder supe­rior para os con­tro­lar, em que, entre mil­hões de pes­soas, o ressen­ti­mento de décadas de opressão se mis­tu­rava, como nitroglice­rina, com o despo­ja­mento sel­vagem dos que nada têm a perder, não houve violência.

Mas agora chegara o momento da rup­tura. O ódio crescera até aos lim­ites. O país estava divi­dido e a rec­on­cil­i­ação já não era pos­sível. A brin­cadeira chegara ao fim. Agora, seria a sério. Os fac­tos falavam por si, a História seguiria o seu curso inapelável, e até esse sím­bolo que era a amizade entre Otelo e Vasco Lourenço tinha de se lhe sub­me­ter, dissolvendo-se no ar.

Um dia de Novem­bro, na sede do Cop­con, os dois homens tiveram uma dis­cussão vio­lenta, pela noite den­tro. O tom de voz aumen­tava, à medida que perce­biam, com deses­pero, que as suas posições eram irrec­on­cil­iáveis e os colo­cariam em lados opos­tos da guerra que se aprox­i­mava. No auge da raiva, quando os com­pan­heiros temeram ver um deles sacar da pis­tola e dar um tiro nos cornos do outro, os dois duros calaram-se subita­mente e desa­taram a chorar.

Paulo Moura

Otelo – O revolucionário

O palácio subterrâneo de Moscovo

No metro de Moscovo, uma boa parte dos dez mil­hões de pas­sageiros diários vai a ler. Não livros, nem jor­nais, mas tablets. Rara­mente ipads. Quase sem­pre mod­e­los mais baratos, kin­dle, ou out­ros. Há quem diga que estes gad­gets são o sím­bolo da nossa classe média russa.

O Metro de Moscovo é um prodí­gio de fun­cional­i­dade, ape­sar do ar bar­roco. É um organ­ismo vivo, ape­sar de pré-histórico. As suas doze lin­has com mais de 300 quilómet­ros abar­cam a cidade inteira, uma das maiores do mundo. À super­fí­cie, é impos­sível apan­har um táxi. Mas no “palá­cio sub­ter­râ­neo”, como o metro é con­hecido, tudo desliza com incrível rapi­dez e facil­i­dade.  As estações bem podem ser dec­o­radas a már­mores anti­gos, lus­tres e está­tuas: não há tem­pos de espera e nada atra­palha o tráfego. Os com­boios de azul baço chegam pon­tual­mente com inter­va­los de 90 segun­dos. As mul­ti­dões avançam em reban­hos dis­ci­plina­dos pelos corre­dores e pelas inter­mináveis escadas rolantes. Tudo está per­feita­mente orga­ni­zado e indicado.

À excepção da cir­cu­lar que cruza todas as lin­has, as out­ras seguem de forma radial e quase rec­tilínea do cen­tro para a per­ife­ria. Den­tro das car­ru­a­gens, uma voz anun­cia cada estação e a seguinte. Mas para que nen­hum pas­sageiro tome o com­boio no sen­tido errado, é uma voz de homem que se ouve nos alti­falantes das com­posições que cir­cu­lam no sen­tido do cen­tro, e uma voz de mul­her nos que se dirigem para a per­ife­ria da cidade. A voz mas­culina rep­re­senta o tra­balho, a fem­i­nina o lar, inspi­rando os pas­sageiros que via­jam para o emprego, ou para casa.

A Rús­sia vai hoje escol­her como e por quem quer ser gov­er­nada. Há cinco can­didatos à Presidên­cia, mas o favorito é Vladimir Putin. O seu par­tido, Rús­sia Unida, sofreu uma que­bra nas eleições leg­isla­ti­vas de 4 de Dezem­bro, mas tudo indica que o líder con­tinua a ter o apoio da grande maio­ria dos rus­sos. Mesmo entre os que cas­ti­garam o seu par­tido nas urnas, e até entre os que saíram para as ruas prote­s­tando con­tra a falta de justiça e transparên­cia das eleições e do sis­tema político que as organizou.

Putin con­segue ser um sím­bolo do que há de pior no país, e tam­bém do mel­hor. Para a oposição política, e para o movi­mento con­tes­tatário, Putin rep­re­senta a cor­rupção, a falta de democ­ra­cia e a estag­nação económica. Para os out­ros rep­re­senta a esta­bil­i­dade, a unidade do país, o pro­gresso económico e a moral­i­dade pos­sível num país dom­i­nado por oli­gar­cas, mil­ionários em promis­cuidade com os políti­cos, e estru­turas de autori­dade corruptas.

Mas vamos aos fac­tos. A Rús­sia nunca foi tão próspera como é hoje. Vários fac­tores con­tribuíram para isso, entre eles o aumento dos preços do petróleo e a esta­bil­i­dade política e social garan­tida pelos 12 anos de con­sulado de Putin.

A econo­mia do país cresceu, ainda que os anal­is­tas sejam unân­imes em recon­hecer que ela se baseia muito na explo­ração de matérias-primas, e pouco na diver­si­fi­cação indus­trial. Alguns sec­tores, como o bancário, desenvolveram-se ver­tig­i­nosa­mente, o que deu emprego a muitas pes­soas. Hoje, um jovem que ter­mina os seus estu­dos uni­ver­sitários não tem difi­cul­dade em encon­trar tra­balho. Nasceu uma classe média.

Slava Voronin, de 30 anos, é um exem­plo dessa classe de pes­soas que aufere um salário razoável (o equiv­a­lente a mil ou 1500 euros por mês), pode ter um carro, um emprés­timo para um aparta­mento, uma família, hob­bies de fim-de-semana e férias. Se bem que pre­fi­ram muitas vezes não as gozar, para rece­berem um bónus de salário. “Eu adoro o meu tra­balho. Todos os dias venho fazê-lo com prazer”, disse Slava que, desde que ter­mi­nou o curso, já teve cinco empre­gos. Agora tra­balha num banco, 12 a 14 horas por dia, como é nor­mal na nova classe média. Vive longe do cen­tro da cidade, demora uma hora a chegar ao tra­balho, de metro. Restam-lhe por­tanto 8 horas de des­canso, “que mal dão para comer e dormir”.

Se con­tin­uar a pro­gredir, o que implica mudar muitas vezes de empresa, em breve poderá ter uma posição como a do seu colega Ilia Laputin, de 33 anos, que é Gestor de Pro­duto no mesmo banco (depois de pas­sar alguns anos a saltar de empresa a empresa) tra­balha as mes­mas 12 ou 14 horas, mas ganha 10 mil dólares por mês.

Entre um caso e outro situa-se a classe média, que rep­re­senta entre 20 por cento a 35 por cento da pop­u­lação da Rús­sia, e tem aumen­tado a um ritmo de 5 a 6 por cento ao ano.

Segundo Natalia Tikhonova, direc­tora do Depar­ta­mento de Ciên­cias Soci­ais e Económi­cas da Acad­e­mia das Ciên­cias da Rús­sia, esta nova classe média é por­ta­dora de uma nova men­tal­i­dade. “A mer­i­toc­ra­cia é o sis­tema que lhes con­vém. Querem que haja igual­dade per­ante a lei”, disse Natalia. A cor­rupção não inter­essa a esta nova classe de profis­sion­ais que quer vencer pelo tal­ento e trabalho.

É por isso que muitos deles estão pre­sentes nas man­i­fes­tações pela justiça e transparên­cia, e que esse movi­mento de con­tes­tação não vai desaparecer.

A Rús­sia man­tém um sis­tema educa­tivo de ele­vado nível, her­dado do regime comu­nista, emb­ora tenda hoje a tornar-se cada vez mais elit­ista. Os rus­sos que lêem Tol­stoi nos seus tablets Kin­dle têm tam­bém por hábito ir ao teatro, a espec­tácu­los de música e de dança. Em Moscovo, há cen­te­nas de peças de teatro em exibição por dia, e as salas estão todas cheias. É ver­dade que o bil­hete para um bailado no Bol­choi pode cus­tar mil euros. Mas num pequeno teatro de bairro, onde a qual­i­dade é alta, custa 5 ou 10 euros.

A nova classe média tem hábitos cul­tur­ais, mas tam­bém neste capí­tulo a sociedade ainda não responde às suas neces­si­dades. Qual­quer pes­soa cita cor­rente­mente Pushkin ou Tchekov, mas se per­gun­tar­mos por um autor con­tem­porâ­neo, quase ninguém é capaz de nomear um.

É como se estas cerca de 50 mil­hões de pes­soas que dom­i­nam a nova sociedade russa estivessem ávidas de um mundo que as preen­cha. Não que vivam deprim­i­das. A eufo­ria é evi­dente. Ao con­trário do que sucede na Europa Oci­den­tal, na Rús­sia não se fala de crise.

Os tra­bal­hadores rus­sos são alta­mente moti­va­dos”, disse Vladimir Medin­ski, ex-deputado da Duma pelo par­tido Rús­sia Unida e pro­fes­sor de História na Uni­ver­si­dade de Relações Inter­na­cionais de Moscovo. “Em que país da Europa se encon­tram pes­soas dis­postas a tra­bal­har 12 horas por dia? Na China, por exem­plo, as pes­soas só tra­bal­ham a chicote, quando têm um supe­rior ime­di­ato que as obriga. Na Rús­sia, tra­bal­ham porque têm vontade”.

Não se trata ape­nas de von­tade de tra­bal­har. Nasceu tam­bém, na Rús­sia, um equiv­a­lente do “amer­i­can dream”, ainda mais forte do que o orig­i­nal. Os ele­men­tos mais bem-sucedidos da nova classe média têm um bom con­hec­i­mento do mundo finan­ceiro, e investem o seu din­heiro. Alguns em negó­cios próprios. O facto é que todos con­hecem alguém que enrique­ceu em pouco tempo. Há a sen­sação de que, para gan­har bil­iões, é necessário ter altas lig­ações com as autori­dades políti­cas. Mas fazer um mil­hão está ao alcance de qual­quer um. Ou pelo menos estaria se a cor­rupção não fosse tão generalizada.

A Rús­sia está em acel­er­ado cresci­mento económico, e paci­fi­cada, depois de Putin ter resolvido à sua maneira o prob­lema da Tcheché­nia: “Em vez de lutar con­tra os tch­etchenos, pô-los a lutar uns con­tra os out­ros”, expli­cou Vladimir Medinski.

É um sis­tema per­i­cli­tante, porque depende muito das boas relações políti­cas (e finan­ceiras) com o actual pres­i­dente regional em Grozni, Ramzan Kadirov (ex-rebelde). Mas fun­ciona, pelo menos enquanto Putin estiver no poder.

A cres­cente imi­gração de pop­u­lações prove­nientes do Cáu­caso e várias ex-repúblicas soviéti­cas da Ásia cen­tral é perce­bida como um prob­lema por grande parte da pop­u­lação russa, muito dev­ido à questão demográ­fica. Os casais rus­sos rara­mente têm mais de um filho ou dois, enquanto a taxa de natal­i­dade entre os imi­grantes, muitos deles muçul­manos, é ele­vada. Essa é uma das razões para o cres­cente nacional­ismo russo, que se tornou ide­olo­gia dom­i­nante tanto entre os sec­tores políti­cos con­ser­vadores como na própria oposição mais radical.

No entanto, o que os rus­sos iden­ti­fi­cam como o prin­ci­pal prob­lema do país é a cor­rupção. Admite-o Medin­ski, que é insus­peito, porque foi, durante oito anos, dep­utado pelo par­tido de Putin.

Ela existe em todos os níveis da sociedade, mas onde é mais greve é na Polí­cia e nos tri­bunais, além das empre­sas do Estado. Segundo Medin­ski, 80 por cento dos polí­cias são cor­rup­tos. No caso da polí­cia das activi­dades económi­cas, a per­cent­agem é ainda maior. Aceitam sub­or­nos de todos, o que orig­ina o chamado sis­tema katcheli (de bal­ancé). Ou seja, se uma parte dá din­heiro, a outra tem de dar mais, e assim suces­si­va­mente, como num leilão.

Com os tri­bunais é o mesmo. “Se uma parte dá ao juiz um mil­hão, a outra tem de ofer­e­cer dois mil­hões. Se o juiz for hon­esto, o mel­hor que faz é devolver o mil­hão à parte que vai perder”.

Todo este sis­tema se faz através dos advo­ga­dos, cujos escritórios mais bem suce­di­dos e bem pagos são os que “se espe­cializaram não em encon­trar bura­cos na lei, como seria nor­mal, mas bura­cos no tri­bunal, por onde entrem os subornos”.

Uma vez, quando era dep­utado, Medin­ski per­gun­tou a um ex-general da polí­cia o que faria ele se Putin lhe pedisse para acabar com a cor­rupção na insti­tu­ição. Ele respon­deu: “Eu obe­de­ce­ria, e teria êxito, com qua­tro condições: que o Pres­i­dente me assi­nasse, em branco, cem ordens de des­ped­i­mento de altos fun­cionários; a garan­tia de eu não ser des­pe­dido; um escon­der­ijo para toda a minha família no estrangeiro; um escon­der­ijo para eu viver iso­lado, rodeado de segu­rança mil­i­tar 24 horas por dia”.

Ou seja, só alguém com uma autori­dade imensa pode­ria com­bater a cor­rupção, e esse alguém, acred­ita a maio­ria dos rus­sos, é Putin.

Quero ter um líder que sei que toma decisões”, disse Andrei Sidorov, doutor pela Lon­don School of Eco­nom­ics e pro­fes­sor de História da Rús­sia. “Há vários tipos de lid­er­ança. Obama tem pouco poder nos EUA, não toma decisões soz­inho. Ieltsin não tomava decisões soz­inho. Putin toma decisões soz­inho”. A Rús­sia pre­cisa de um líder assim. “Sem­pre que não o teve, entrou em decadên­cia e desagregação”.

Depois do longo período soviético, a Rús­sia pre­cisa de reen­con­trar uma iden­ti­dade nacional, expli­cou Sidorov. “E isso só será con­seguido com um líder forte e através da cul­tura e da religião. A Rús­sia sem­pre foi um império. A sua iden­ti­dade reconhece-se aí. Terá de voltar a ser um império. Ao con­trário da Europa Oci­den­tal, que vive um período lib­eral e pós-cristão, a Rús­sia terá de voltar-se para os seus val­ores espir­i­tu­ais, para renascer. Daí o inter­esse que as pes­soas estão a mostrar pela História, pelo estudo do pas­sado”, disse o pro­fes­sor, com lágri­mas nos olhos.

E não é pelo facto de estar nos antípo­das deste pen­sa­mento que artista plás­tica Marika Maiorova deixa de con­cor­dar que o lib­er­al­ismo económico será o desas­tre da Rús­sia. Orga­ni­zou uma exposição, inti­t­u­lada No Com­ment Art, que monta nos locais onde há man­i­fes­tações anti-Putin. Fez o mesmo em Nova Iorque, há meses, no meio dos man­i­fes­tantes do Occupy Wall Street.

Os artis­tas rus­sos têm-se ocu­pado a tra­bal­har sobre a real­i­dade cir­cun­dante. É impos­sível ignorá-la”, disse Marika. “E a real­i­dade é que as pes­soas vivem mal, não têm acesso a nada, o sis­tema está em colapso, como em todo o lado”.

Na per­spec­tiva dos artis­tas con­tem­porâ­neos, a classe média, que os descon­hece, não passa de um mito, e o dis­curso eufórico sobre a nova Rús­sia é pura mentira.

No metro, os ban­cos são lon­gi­tu­di­nais, dis­pos­tos frente-a-frente, e as pes­soas olham-se nos olhos. As letras cirílias ace­sas no ecrã podem ter sido escritas por Tol­stoi, Dos­toievski ou Gogol, as mul­heres usam mini-saias e saltos altos ape­sar de, na rua, a tem­per­atura ser neg­a­tiva e o piso gelado e escor­re­ga­dio, a dec­o­ração dos sump­tu­osos átrios e gale­rias é quase sem­pre alu­siva à ditadura do pro­le­tari­ado, as mul­ti­dões cor­rem, atropelam-se, rara­mente falam, ape­sar de não traz­erem crispação nos ros­tos nem qual­quer agres­sivi­dade nos gestos, como se fos­sem per­son­agens de um baile sonâm­bulo. É esse ar quente do “palá­cio sub­ter­râ­neo”, impreg­nado de sedução, muito leve, que sus­tenta, para lá das abó­bo­das, o corpo esma­gador, poderoso e enig­mático da Rús­sia. (PÚBLICO)

Kanaval em Port-au-Prince

Foto de Leah Gordon

Os prob­le­mas do Haiti pare­cem estar muito para além de qual­quer solução. Dois anos depois do ter­ramoto, pouco foi recon­struído.  O único dado novo é o bal­anço dos mor­tos, que segundo o Gov­erno subiu de 250 mil para 316 mil. Entre os escom­bros trans­for­ma­dos em pais­agem quo­tid­i­ana, estendem-se os imen­sos cam­pos de desa­lo­ja­dos. Mais de 630 mil pes­soas vivem em ten­das mon­tadas há dois anos. Entre as casas ape­nas par­cial­mente destruí­das, 80 mil foram reocu­padas. Famílias vivem ali, em per­ma­nente risco de desmoron­a­mento, sem condições san­itárias, sem pare­des ou sem tecto.

Ape­sar da imensa tarefa de recon­strução que todos vêem à sua frente, 70 por cento da pop­u­lação activa está no desemprego.

Depois do ter­ramoto, vários furacões vieram agravar a situ­ação, prin­ci­pal­mente nos cam­pos de desa­lo­ja­dos. Mas o pior foi a cólera. A doença alastrou-se, de forma epidémica, incon­tro­lada­mente. Já matou 7 mil pes­soas, e ainda não parou. Provou-se que foi trazida pelos sol­da­dos da ONU orig­inários do Nepal, ainda que a própria ONU não o recon­heça, nem tenha pedido desculpa.

A força multi­na­cional de manutenção de paz da ONU, num país que não está em guerra e ape­nas tenta sobre­viver, custa oito vezes mais din­heiro do que o total de fun­dos angari­a­dos para com­bater a epi­demia de cólera. Segundo as con­tas de uma jor­nal­ista britânica em Port-au-Prince, as despe­sas de 18 dias da força da ONU chegariam para pagar uma cam­panha de vaci­nação para toda a pop­u­lação do país.

Essa cam­panha não existe, ape­sar dos 5 mil mil­hões de dólares em dona­tivos que vieram de todo o mundo. Ou mel­hor, que não vieram, porque as autori­dades haitianas, con­sti­tuí­das pelo Gov­erno, as estru­turas da ONU e as inúmeras ONG no ter­reno, não se con­seguiram orga­ni­zar para afec­tar os fun­dos a projectos.

Neste momento, na cidade dev­as­tada, num país onde o ter­re­moto foi ape­nas uma catástrofe a somar a tan­tas out­ras, as pop­u­lações preparam o Car­naval. O Kanaval, como se diz no Haiti, é uma tradição antiga, uma das suas fes­tas mais impor­tantes. Mis­tura música, teatro, religião, crítica social e política. Homens, mul­heres, vel­hos e cri­anças pin­tam os cor­pos semi­nus, usam más­caras e chifres, inter­pre­tam os deuses vudu, com­bi­na­dos com fig­uras da sociedade e política actu­ais. O sexo e a morte são omnipresentes, o hor­rível e o cómico des­filam lado a lado. Ban­das de música cruzam as ruas, feiti­ceiros e sac­er­dotes dançam com cobras na boca, em artifí­cios de fogo e sangue. Dia­bos de cornos e chicotes agi­tam bonecas desmem­bradas, ao lado de trav­es­tis, zom­bies, car­i­cat­uras de san­tos cristãos e de deuses africanos, estereóti­pos europeus e amer­i­canos, de polí­cias, ban­queiros, judeus, reis, aris­to­cratas, escravos, saltim­ban­cos e mulheres-fatais. Épocas e civ­i­liza­ções mis­tu­radas. Grandes gru­pos reúnem-se à volta de con­ta­dores de histórias, out­ros sentam-se no chão a dis­cu­tir temas actu­ais, reli­giosos ou históricos.

O crítico amer­i­cano Myron M. Beasley chamou a isto o “teatro fan­tas­mático da imag­i­nação histórica”. Escreveu-o num ensaio inti­t­u­lado A Per­for­mance da Pos­si­bil­i­dade, a propósito de fotografias da britânica Leah Gor­don sobre o Kanaval do Haiti.

Numa sociedade onde os prob­le­mas são esma­gadores, as pes­soas não abdicam dos seus instru­men­tos cul­tur­ais. São, tal como os son­hos, exer­cí­cios preparatórios da acção. Ou talvez sucedâ­neos. E quanto mais deses­per­ada é a real­i­dade, mais agi­ta­dos são os son­hos. Que seria do Haiti sem o Kanaval?

Os sexólogos

 

Os sexól­o­gos gostam de fazer afir­mações categóri­cas e nor­ma­ti­vas, o que é, em si mesmo, uma prova da sua irrelevân­cia. Afir­mações categóri­cas e nor­ma­ti­vas asfix­iam qual­quer pos­si­bil­i­dade de ero­tismo e levariam por­tanto, se fos­sem lev­adas a sério, os sexól­o­gos ao desemprego.

Ero­tismo, acho eu, implica drama­ti­za­ção, ilusão, incursões no descon­hecido. Quando nos dizem o que o sexo deve ser, já deixou de dever ser assim, porque já não nos apetece fazê-lo, e por­tanto já não é sexo.

Quando um sexól­ogo deter­mina o que é saudável e o que não é saudável está ape­nas a definir as fron­teiras das novas pre­ver­sões. Está a dar-nos ideias. Praticar sexo segundo os con­sel­hos de um sexól­ogo é como com­por um poema segundo o man­ual de escrita cria­tiva. Ou como pôr o Vasco da Gama a desco­brir a Índia com um fol­heto da agên­cia Abreu. Sem aven­tura não há arte, nem amor, nem erotismo.

Neste sen­tido, é bom que os sexól­o­gos este­jam cal­a­dos, para se poder man­ter alguma nor­mal­i­dade na activi­dade sexual.

Uma das afir­mações categóri­cas e nor­ma­ti­vas que os sexól­o­gos ado­ram fazer é a de que o ciúme é um sen­ti­mento doen­tio. Tem origem na inse­gu­rança, dizem eles. Na falta de auto-estima. O ciu­mento imag­ina coisas, acred­ita em hipóte­ses improváveis. E, de tanto acred­i­tar, essas coisas que imag­ina acon­te­cem mesmo, vatic­i­nam ainda os sexólogos.

Um amante saudável nunca tem ciúmes. Se há indí­cios de que o par­ceiro ou par­ceira o traiu ou vai trair, deve ignorá-los. São decerto fruto da sua imag­i­nação doen­tia. Há com toda a certeza uma expli­cação razoável para esses indí­cios, por mais gri­tantes que lhe pareçam. É pre­ciso haver con­fi­ança. Se a tiver­mos em doses ade­quadas, acred­i­ta­mos sem­pre no com­pan­heiro ou com­pan­heira, mesmo que ele ou ela saia de casa à meia-noite com uma carteira de preser­v­a­tivos nos dentes. Sem dúvida que haverá uma expli­cação para esse com­por­ta­mento, não vale a pena pen­sar muito nisso. O que é pre­ciso é ter con­fi­ança. Como se a con­fi­ança devesse sem­pre ser dada, e não pre­cisasse de ser con­quis­tada. Como se não fosse um bem escasso. Os france­ses são mais pru­dentes, ao usarem o verbo “fazer” — faire con­fi­ance — em vez de “ter”. “Fazer” soa mais como um con­trato, implica um com­por­ta­mento mais activo e respon­sável. Faz-se con­fi­ança, como se faz uma aposta. Ganha-se ou perde-se e a culpa não é de mais ninguém senão nossa.

O amor pode ser, na ver­dade, uma roleta russa e por­tanto o ciúme é um sen­ti­mento tão nat­ural como a sua sede de amor. Há quem o tenha por doença, como tam­bém há quem sinta febre sem que isso cor­re­sponda a nen­huma infecção. Mas é raro. Na esma­gadora maio­ria dos casos, quem tem ciúmes tem boas razões para os ter. De outra forma não se expli­caria este mecan­ismo do ser humano, numa per­spec­tiva evolu­cionista. Se acred­i­tar­mos que a nossa origem está em Adão e Eva, podemos con­sid­erar o ciúme um erro da Natureza, ou uma invenção do demónio, uma vez que não havia, à época da nossa cri­ação, ninguém de quem o ter.

Mas se quis­er­mos ser cien­tí­fi­cos temos de olhar o ciúme com respeito. Quem ama teme perder o objecto do seu amor e tem ciúmes se pressen­tir que isso vai acon­te­cer. E isso real­mente acon­tece todos os dias. Basta ver a per­cent­agem de casa­men­tos que acaba em divór­cio. Não, é mel­hor não ver. As estatís­ti­cas tam­bém matam o amor.

Sir John

Tem sorte, porque estou aqui com uma escrava”, disse Sir John quando lhe tele­fonei. Isto passou-se há uns anos, mas Sir John era um homem à frente do seu tempo, porque se espe­cializara em con­ce­ber planos de rigor e austeridade, para víti­mas que os aceitavam sem qual­quer con­tes­tação. Muito pelo contrário.

Quando come­cei a fazer aquele tra­balho sobre sado-masoquismo, cedo percebi que teria de entre­vis­tar o Sir John. Naquele meio, ele era um mito. Sim­ples­mente, o dom­i­nador mais famoso dos Esta­dos Unidos, autor de um livro que se tornara uma Bíblia para prat­i­cantes da modal­i­dade: The Q Let­ters.

Sir John deu-me a morada, junto ao Hud­son River, no Lower West Side de Man­hat­tan, e eu apan­hei um táxi para lá. Ele não tinha men­tido: estava com a sua escrava, Denise. Entrei para a sala. Sir John era um homen­z­inho com menos de um metro e sessenta e mais de 60 anos. Magrinho, de bigode e grandes olhos azuis.

Sentei-me no sofá e pas­sei rap­i­da­mente os olhos pelas ima­gens de mul­heres amar­radas e amor­daçadas que enchiam as pare­des, e pelas cor­rentes de ferro que pen­diam do tecto, com pul­seiras de couro nas pon­tas. Por fim, olhei para a mul­her que estava no chão, descalça, de joel­hos, com uma cor­rente e um cadeado ao pescoço. “Denise, a minha escrava”, apresentou o Sir John.

Denise era uma mul­her atraente, com 40 anos e um emprego de man­ager numa empresa de inves­ti­men­tos em Wall Street. “Muito prazer”, disse ela, apertando-me a mão, sem se lev­an­tar. Sir John esti­cou três dedos, e Denise pôs-se ime­di­ata­mente de gatas, baixando a cabeça até aos joelhos.

É a posição n.º 3”, expli­cou Sir John. E con­tin­uou a dar-lhe ordens: “Despe-te, para o sr. jor­nal­ista ver!” Num ápice, Denise estava nua à minha frente, exibindo as mar­cas pro­fun­das e ver­mel­has que tinha no corpo todo, cau­sadas pelo chicote. Foi o treino de ontem à noite, disse ele. E ela con­tou: “Nunca tinha sen­tido nada assim. Foi como ter alguém a guiar-me pelo descon­hecido. A ver­tigem abso­luta. A noite pas­sada tive dez orgasmos.”

Sir John era um sádico muito procurado. Mulheres de todo o país escreviam-lhe oferecendo-se para escravas. Foi o caso de Denise. Ouvira falar dele, leu o livro e tomou a decisão. Elegeu-o. É uma das pre­rrog­a­ti­vas de Sir John: ele não obriga ninguém, é eleito. Outra car­ac­terís­tica é a exclusividade. Apesar da procura, só tem uma escrava de cada vez. “Elas requerem muita atenção”,explicou. “Só me inter­es­sam mul­heres de per­son­al­i­dade forte, que eu possa respeitar, e que pre­cisem de mim.” Sir John vê a sua activi­dade, não como um priv­ilé­gio, mas como um serviço.

Mas por que razão tan­tas mul­heres o querem ter como amo? “Porque ele é bom”, explicou Denise. “É o mel­hor.” Qual­quer um pode dar pal­madas e chico­tadas, pon­tapés ou choques eléc­tri­cos. O tal­ento de Sir John não está aí, mas sim em con­hecer os lim­ites de cada um. Ele é que sabe, e não a vítima, quando deve parar.

Alguns dom­i­nadores fazem uma espé­cie de con­trato ini­cial com os escravos, com condições e excepções. “Parece um acordo sindi­cal”, escarneceu Sir John. “Comigo não pega. Eu é que faço as regras. O escravo limita-se a obe­de­cer.” Out­ros inter­rompem os cas­ti­gos quando os escravos gri­tam e implo­ram. “No meu caso, eu é que sei, não o escravo, onde estão os seus lim­ites. Bem podem berrar para eu parar. Se sei que aguen­tam mais, levam mais. No fim, ficam-me recon­heci­dos. Ou não voltariam sempre.”

O coreto de Matamoros

Nas ruas de Mata­moros, a cidade mex­i­cana fron­teir­iça com o Texas, há mon­tras com budas de bar­riga trans­par­ente, den­tro da qual se vêem cristos cru­ci­fi­ca­dos, anjos e madonas de Guadalupe. São bonecos para a idol­a­tria dos pobres e das mul­heres, explicam-me.

Há bares com avi­sos à porta a dizer: “Proibida a entrada a menores, bêba­dos e mul­heres”. E há out­ros sem aviso nen­hum, mas onde as mul­heres tam­bém não entram, porque sabem que não devem entrar. Nas ruas feias e sujas de Mata­moros as rapari­gas seguem de pescoço esti­cado, imper­tur­báveis, mesmo quando gru­pos de rapazes as seguem durante min­u­tos em grandes car­ros amer­i­canos, lançando-lhes obscenidades em tom de conversa.

Aos domin­gos, todos os habi­tantes de Mata­moros vestem as suas mel­hores roupas e afluem ao Zocalo, a praça prin­ci­pal, onde está a igreja, a câmara munic­i­pal e o coreto. Depois da missa, as famílias vêm passear para a praça, e os pais mais abas­ta­dos com­pram às cri­anças algodão-doce e o brin­quedo que os artesãos locais lançaram na moda este ano: um cabo de vas­soura lig­ado a uma roda de madeira com pedais lig­a­dos a um pequeno boneco articulado.

Os meni­nos ricos empurram os brin­que­dos pelo empe­drado cinzento do Zocalo e os pobres ficam a olhar com um grande pasmo nos ros­tos morenos, mas sem chorar nem inco­modar os pais com exigên­cias utópicas.

Sento-me numa esplanada, a um canto da praça, onde se comem tacos de carne por três pesos. José, o empre­gado, está fasci­nado com toda a movi­men­tação do Zocalo. Veio há duas sem­anas de Chi­a­pas, do extremo sul e da extrema pobreza do Méx­ico. Veio com um amigo, no intu­ito de emi­grar para os Esta­dos Unidos, mas quando chegou a Mata­moros arran­jou o emprego no restau­rante e sen­tiu que já tinha emigrado.

Disseram-lhe que, se fosse para Brownsvile, do lado amer­i­cano, os guardas fron­teir­iços pode­riam querer ficar-lhe com a mochila e o cober­tor de lã e que, de qual­quer forma, não valia a pena, porque Brownsvile não tinha nada que Mata­moros não tivesse.

E é ver­dade. De Hous­ton ou San Anto­nio, no Texas, até à fron­teira, pas­sando por Cor­pus Cristi, não se ouve falar inglês nem se vê nada escrito em inglês. Os preços e a qual­i­dade dos pro­du­tos à venda, bem como os salários, são equiv­a­lentes aos do Norte do Méx­ico. Para quê emi­grar para aqui?

Para quem chega, a América é uma miragem que retro­cede à medida que se avança para ela. Aliás, não há qual­quer difi­cul­dade em atrav­es­sar a fron­teira. A ponte que divide Brownsvile de Mata­moros pode atravessar-se nos dois sen­ti­dos sem que ninguém nos peça qual­quer iden­ti­fi­cação. O prob­lema é que a ponte não leva a lado nen­hum. Há muito que o Texas fugiu de Mata­moros, cen­te­nas de mil­has para norte. Mas, mesmo aí, ou em qual­quer outro lugar dos EUA, um mex­i­cano é sem­pre um mex­i­cano. Em qual­quer cidade dos EUA há um pequeno Méx­ico para ele.

José está con­tente por ter chegado a Mata­moros. Arran­jou emprego e pode ver a ani­mação do Zocalo, muito difer­ente da aldeia de Chi­a­pas de onde veio. Enquanto serve os tacos, pode ver a banda que começa a tocar no coreto. O mae­stro e os músi­cos, vesti­dos a rigor, tocam a primeira peça, fazem um inter­valo de um quarto de hora, tocam a segunda. “É que eles são pagos à hora”, ouviu dizer José. “Têm de fazer ren­der o peixe.”

Os transe­untes da praça detêm-se para ouvir a música. Os mais ricos aproximam-se do coreto, os pobres ficam na per­ife­ria. Não há nen­huma linha de sep­a­ração, nem nen­hum porteiro a selec­cionar o público. Os bem-vestidos sabem que o seu lugar é à frente, os mal-vestidos con­hecem os seus pos­tos na retaguarda.

Livraria Portugal

Saí de casa para ir à Livraria Por­tu­gal, que vai fechar, depois de 70 anos de história. Saboreei cada passo até lá. Entrei e pus-me a fol­hear livros ao acaso, até ficar com o cére­bro em brasa. Gosto de fazer isso, é uma droga como qual­quer outra. Há outro jogo que tam­bém me diverte: abrir livros sem lhes ver a capa. Ler a primeira frase e adi­v­in­har o autor. É raro acer­tar, a menos que já tenha lido o livro. Mas tento. O prémio de con­so­lação é predi­zer se o livro é bom ou mau. Aí acerto sempre.

Por exem­plo, este: “Um estrépito de camiões, abar­ro­ta­dos de esp­in­gar­das, sub­mer­gia Madrid, tensa, na noite de Verão”. Que tal?  Irre­sistível. Autor? Mal­raux. Outro vol­ume. Primeira página: “Estou a viver na Vila Borgh­ese. Não há um grãoz­inho de pó em lado nen­hum, nem uma cadeira fora do lugar. Esta­mos aqui soz­in­hos e esta­mos mor­tos”. É bom? Se é. Henry Miller.

Como será uma cidade sem livrarias? Já con­heci algu­mas, mas não lhes chamaria assim. São aglom­er­a­dos ou dor­mitórios. Por vezes assemelham-se a enormes fábri­cas. Cer­tas povoações têm livrarias más. E não são mel­hores. Começo sem­pre pelas livrarias, quando vis­ito uma cidade. Se gosto delas, é certo que gostarei do resto. Tal como nos livros: se me agrada o princípio…

Outro: “O céu devia estar cheio de rezas e choros, porque nessa tarde con­den­sou a água de repente e choveu tudo duma vez. Fez-se escuro como a pele de um rato e, min­u­tos depois, largou o peso na terra”. Só me sai mate­r­ial bom. Quem é? Rui Car­doso Martins.

Quando era ado­les­cente tra­bal­hei, nas férias, numa empresa que fazia leilões de livros. Apare­ciam colec­cionadores de todo o mundo. Um ital­iano chamou a minha atenção. Tinha uns 40 anos, ves­tia fatos de design­ers, e o que fazia era via­jar pelo mundo, de cidade em cidade, vis­i­tando livrarias. De vez em quando, com­prava um livro, contou-me ele. Um livro que, segundo o seu instinto apu­rado, pode­ria valer muito mais noutra cidade do mundo. A seguir voava para lá. Como tinha os con­tac­tos cer­tos, não lhe cus­tava encon­trar, por exem­plo em Nova Iorque, o colec­cionador que pagaria cinco mil dólares pelo alfar­rábio que lhe cus­tara 100 em Paris. Vivia assim o ital­iano. Via­gens, cidades, livros. Podia fazer isto porque sabia muito de bib­liofilia. Sabia tudo. Durante algum tempo, son­hei ter aquela profissão.

O noivo aproximou-se-lhe da boca, a princí­pio encon­trou os dentes, mas logo ela parou de rir e as lín­guas se tocaram diante do fotó­grafo”. Eis um princí­pio genial. Lídia Jorge. Peguei noutro livro. “Jacques Saunière, o con­ceitu­ado con­ser­vador, atrav­es­sou a cam­balear o arco abobadado da Grande Gale­ria. Esten­deu as mãos para o quadro mais próx­imo, um Car­avag­gio…”. Que mau. Quem? Dan Brown. Outro, rápido, para desen­joar: “Sou Myra Breck­in­ridge, aquela que nen­hum homem pos­suirá jamais”. Isto sim. Gore Vidal.

Ao entrar pelo porto de Nova Iorque no navio já lento, Karl Ross­mann, rapaz de dezas­sete anos que havia sido man­dado para a América pelos pais, gente pobre, porque uma cri­ada o seduzira e dele tivera um filho, viu a está­tua da deusa da Liber­dade, que obser­vava havia já bas­tante tempo, como se a luz do dia subita­mente se tivesse tor­nado mais intensa”. Ora aqui está toda uma história. Exce­lente. Kafka.

Só mais um. “A nossa época é essen­cial­mente trág­ica, e, por isso, recusamo-nos a vivê-la como tragé­dia”. Estou com sorte. D. H. Lawrence. É infalível. Num livro, o princí­pio nunca engana.

O soldado urina, a modelo tropeça

As ima­gens de sol­da­dos amer­i­canos a uri­nar sobre cadáveres de tal­ibãs não nos deviam admi­rar. O ambi­ente num teatro de com­bate no Afe­gan­istão, tal como nos basti­dores de uma passerelle em Paris, é semel­hante ao do recreio de uma escola secundária. A natureza do poder é pueril, emb­ora nãoo queiramos ver.

Quem tem uma arma na mão é sem­pre mais respeitado. Por alguma razão, as pes­soas não têm von­tade de insul­tar um tipo que traz uma metral­hadora ao ombro. Ten­dem a ser sim­páti­cas com ele, a mostrar por vezes um afecto desproposi­tado e ridículo.

Numa guerra impro­visada, como a da Líbia, chegava a ser diver­tido obser­var o fenó­meno, porque o mesmo homem podia ser taxista num dia, ou engen­heiro, e no dia seguinte apare­cer de camu­flado e AK47. A difer­ença de trata­mento era logo evi­dente, mesmo da parte dos que o con­heciam há anos. É o respeit­inho, orig­i­nado pelo medo, que os mais duros dis­farçam de ver­dadeiro amor.

Patético, emb­ora não tão básico como parece. A lóg­ica é esta:  acred­i­ta­mos que quem tem uma arma na mão é nec­es­sari­a­mente deten­tor de uma autori­dade legí­tima. E o instinto diz-nos que não deve­mos questioná-a. Tem de haver alguma justiça no facto de alguém ter colo­cado uma Kalash­nikov nas mãos daquele homem, que por­tanto é supe­rior a mim.

O raciocínio serve bem o nosso propósito de sobre­vivên­cia, e é válido não ape­nas para as Kalashs, mas para qual­quer tipo de arma — política, reli­giosa, económica. Quem as pos­sui, e ao poder que elas con­ferem, deve saber o que está a fazer.

As sociedades mod­er­nas desen­volveram dois padrões para os com­por­ta­men­tos mas­culino e fem­i­nino: os sol­da­dos e as mod­e­los de passerelle, que inter­pre­tam os arquéti­pos do guer­reiro e da vestal.

O sol­dado rep­re­senta a força, a mod­elo a beleza, respec­ti­va­mente a imagem inte­rior que cada género pos­sui do outro, o ani­mus e a anima. E se a beleza se deseja casta, da força espera-se que seja justa.

O sol­dado e a mod­elo são o par­a­digma do ser humano adulto, em cada um dos géneros. São aquilo em que qual­quer ado­les­cente pensa que se vai tornar, emb­ora depois, na prática, nen­hum chegue lá, e ainda bem. O mundo está feito assim, para que não se atinja a plen­i­tude. Quando se estava quase a con­seguir, já se entrou na decadên­cia. “Com que idade perce­beu que fal­hou na vida?”, é a primeira per­gunta do inquérito da PÚBLICA.

Sim­boli­ca­mente, temos o sol­dado e a mod­elo, essa espé­cie de con­cen­trado das qual­i­dades mas­culi­nas e femininas.

Todos os gestos de uma mod­elo são per­feitos e dese­jáveis. Por definição, não tem movi­men­tos em falso. Por isso é tão hilari­ante e grotesco quando uma tropeça na passerelle. É como ver o eterno fem­i­nino a estatelar-se.

Os sol­da­dos tam­bém não fal­ham. Andam pelas guer­ras, esses sítios perigosos, nas fron­teiras do mundo civ­i­lizado, a lutar para que ten­hamos garan­ti­das as nos­sas segu­rança e felicidade.

Tanto um como outro são mitos de grande cat­e­go­ria — acred­i­ta­mos neles como reais. Ou não fos­sem as insti­tu­ições mil­i­tar e da moda os maiores craques em propaganda.

Mas a ver­dade, a estranha ver­dade, é que estes adul­tos per­feitos não são sequer adul­tos, nem podiam ser. As mod­e­los mais bem pagas têm 15 ou 16 anos, a mesma idade dos sol­da­dos na maior parte os con­fli­tos. Os dos países democráti­cos e desen­volvi­dos, como os EUA, têm 18 ou 19. Os deuses da Guerra e do Amor são crianças.

É assim nor­mal que os sol­da­dos urinem em cima dos inimi­gos mor­tos. A guerra é aquilo. Não sabiam?

(PÚBLICO)

O mundo parou?


O escritor e crítico Kurt Ander­sen pub­li­cou na Van­ity Fair de Janeiro um artigo inqui­etante, por ser tão óbvio. A moda parou, diz ele. O estilo já não muda, de há uns 20 anos para cá. A tec­nolo­gia sim, dras­ti­ca­mente. Há 20 anos, não havia inter­net nem telemóveis, os com­puta­dores pes­soais serviam ape­nas para escr­ever texto ou fazer con­tas, não para ouvir música ou ver filmes, para o que ainda se usavam leitores de cas­setes e vídeos VHS. Mas no que respeita à estética na cul­tura pop­u­lar, não há grandes difer­enças entre 1992 e 2012.
Pelo menos se com­para­r­mos com o que dis­tingue a década de 50 e a de 70, por exem­plo. Ou os vin­ténios ante­ri­ores e pos­te­ri­ores. Pense­mos no efeito que pro­duziria, em 1992, um homem vestido à moda de 1972. Como rea­giriam os cool pós-yuppy, grunge aligeirado e com­posto, de camisa axadrezada, ténis e jeans abaixo do umbigo dos anos 90, à imagem de um idiota de calça à boca-de-sino, socas, camisa aos ananáses e bigode, própria e legí­tima dos bons anos 70?
É difí­cil acred­i­tar que de 1992 até hoje pas­saram os mes­mos 20 anos. Se obser­var­mos uma fotografia de então e outra de agora, não é certo que as con­sig­amos dis­tin­guir. As pes­soas, os automóveis, a arqui­tec­tura, são idên­ti­cos. Se alguma das per­son­agens da imagem tiver um telemóvel na mão, então sim, não haverá dúvi­das. De resto, é con­frange­dor. Até os car­ros são iguais.
Com­pare­mos um Audi A4 de 1994 com o mod­elo equiv­a­lente actual. Ou o Golf 3, lançado em 1991, com o Golf 6, de 2009. Entre o Renault Clio de 1990 e o Clio de 4ª ger­ação, a ser lançado já em 2012, as difer­enças não são muitas, excepto no capí­tulo da tec­nolo­gia.
Mas o fenó­meno não está cir­cun­scrito ao design dos objec­tos util­itários. Verifica-se na própria arte. Que exem­p­los de arqui­tec­tura, de 2000 para cá, rev­olu­cionaram a pais­agem dos anos 90? Que casos literários abalaram os cânones, ou troux­eram novas per­spec­ti­vas? E depois há a situ­ação, talvez de todas a mais estranha, da música.
Desde os anos 20 que isto não acon­te­cia. De década para década, o panorama transfigurava-se. Agora estag­nou. Olhe­mos para alguns tops das últi­mas décadas: 1922, Al Jol­son, com Give me my Mommy. 1932, Fred Astaire, Night and Day. Bing Crosby em 1942, Tony Ben­net em 1952. Mas em 1962 Elvis Pres­ley. Roberta Flack em 1972. Agora reparem: 1982, Like a Vir­gin, de Madonna. 1992, Bad Girl, de Madonna. 2002, Die Another Day, de Madonna. Salte­mos para 2012: Lady Gaga, na capa da mesma Van­ity Fair em que Kurt Ander­sen reflecte sobre todo este drama. Lady Gaga fotografada por Annie Lei­bovitz, que tam­bém tinha fotografado Madonna para a mesma revista. O que mudou? Pouco.
E como chegá­mos a isto? Tudo começou com o fim da Guerra Fria. Fran­cis Fukuyama pub­li­cou o seu infame “O Fim da História” pre­cisa­mente em 1992. De então para cá, parece que o mundo parou. Não porque se tivesse atingido a utopia da paz e pros­peri­dade, mas porque o Oci­dente entrou em decadên­cia, e começou a masti­gar as suas vel­has con­quis­tas, em vez de inven­tar o futuro, porque sabe que não tem nen­hum. Ou então deixá­mos o fre­n­esim das coqueluches, porque entrá­mos na idade da razão. Sabe­mos que a Ciên­cia avança real­mente, a Arte e a Filosofia só ilu­so­ri­a­mente, em cír­cu­los. Talvez ten­hamos deix­ado de mudar na aparên­cia, porque esta­mos ocu­pa­dos a mudar na sub­stân­cia, penso eu antes de sair de casa, ao enver­gar o meu já clás­sico blusão de camurça com­prado em Nova Iorque em 1992.

Jimmy Wales: “As pessoas têm uma vontade natural de saber”

Jimmy Wales nasceu no Alabama, em cuja Uni­ver­si­dade se doutorou em Finanças. Foi pro­fes­sor, mas decidiu ir para Chicago tra­bal­har na Bolsa e enrique­cer. O sufi­ciente para lançar (e finan­ciar) o pro­jecto da sua vida: uma enci­clopé­dia livre na inter­net. É adepto do cap­i­tal­ismo e da filosofia objec­tivista de Ayn Rand, colec­ciona armas de fogo, não tem uma colecção de Fer­raris nem um jacto par­tic­u­lar e acred­ita que está a cumprir uma missão.
P. Soube desde o iní­cio que que­ria criar uma enci­clopé­dia livre?
R. Eu tinha a ideia, pelo menos desde 1989, de criar uma enci­clopé­dia livre de licenças. A primeira ten­ta­tiva foi um pro­jecto chamado Nupedia.
P. Que sig­nifica isso?
R. Tinha um duplo sen­tido. Sig­nifi­cada “new” (novo) mas tam­bém GNU, que era a des­ig­nação do movi­mento do free software.
P. Esse movi­mento foi pre­cur­sor da Wikipédia?
R. Eu estava atento ao desen­volvi­mento do Free Soft­ware Move­ment, às suas pos­si­bil­i­dades. O Apache, por exem­plo, que é um soft­ware de web server. Quando se envia um pedido em Apache o sis­tema devolve a página. A Microsoft tem um sot­ware idên­tico, mas con­tinua, nos últi­mos anos, a perder share no mer­cado, enquanto a Apache con­tinua a gan­har. Por ser gerido por vol­un­tários e ser livre.
P. Mas o que per­mite esse software?
R. Se eu pre­cisar de fazer mudanças num pro­grama, posso pagar a um pro­gra­mador, mas depois posso dis­tribuir a apli­cação de graça. E todos podem con­tribuir para mel­ho­rar o pro­duto, sem receio de estar a fazer algo ile­gal, a roubar a pro­priedade de alguém. Eu via pro­gra­madores a fazer coisas real­mente com­pli­cadas, pes­soas que nem se con­heciam, mas tra­bal­havam jun­tas. Então pen­sei: faz sen­tido que este tipo de colab­o­ração tenha começado com os pro­gra­madores porque, se dois deles querem tra­bal­har jun­tos, a primeira coisa que têm a fazer é criar os instru­men­tos para isso ser pos­sível. Desen­volveram um pro­grama chamado CBS com o qual uma pes­soa pode tra­bal­har num pro­jecto, outra pes­soa continuá-lo, outra corrigi-lo, e resolverem os con­fli­tos que sur­girem. Mas agora imag­ine que você e eu, que não somos pro­gra­madores, quer­e­mos tra­bal­har em con­junto num pro­jecto… Os instru­men­tos exis­tem e podem ser apli­ca­dos a cam­pos muito diver­sos. Foi aí que pen­sei: vamos dar às pes­soas a pos­si­bil­i­dade de faz­erem jun­tas uma enci­clopé­dia. E nasceu a Nupedia.
P. Foi um êxito?
R. Não.
P. Porquê?
R. O sis­tema fun­cionava de cima para baixo. Tín­hamos académi­cos que ver­i­fi­cavam todos os artigos…
R. À maneira de uma enci­clopé­dia con­ven­cional, emb­ora na internet.
R. Sim. Havia um processo de revisão em sete pas­sos. Os usuários escreviam os arti­gos, que depois eram revis­tos por per­i­tos. Primeiro quanto ao con­teúdo, depois o rigor dos dados… sete pas­sos. Era muito com­pli­cado, muito lento e muito abor­recido. Éramos um grupo grande de pes­soas a ten­tar por de pé o pro­jecto. Depois de dois anos de tra­balho, de 1998 a 2000, tín­hamos 24 arti­gos. Pen­sei: isto não é muito diver­tido.  As pes­soas desis­tiam. Percebi que só fun­cionaria se o tra­balho fosse diver­tido. Foi então que me mostraram o wiki. Nunca tinha visto.
P. Wiki?
R. É uma ideia inven­tada em 1995 por Ward Cun­ning­ham, que agora tra­balha para a Microsoft. Ele e alguns ami­gos começaram a usar muito o wiki, mas não diziam a ninguém, com medo que lhe destruíssem o brinquedo.
P. O que é um wiki?
R. É um web­site que qual­quer um pode edi­tar. Clica-se em “edi­tar”, faz-se mudanças, grava-se e as mudanças ficam lá. É muito rápido e fácil. Foi esse soft­ware que aplicá­mos à nossa enci­clopé­dia. E então sim. A Wikipedia começou a fun­cionar. Pode-se acres­cen­tar pági­nas, mudar páginas…
P. Deixou de haver revisão dos peritos?
R. Deixou. As pes­soas podiam fazer tudo o que lhes apete­cesse. E ver ime­di­ata­mente os resul­ta­dos. Pas­sou a ser pos­sível real­mente colab­o­rar. Já não se tratava de fazer um artigo soz­inho, enviar para outra pes­soa que o revia soz­inha e devolvia. Pas­sou a haver uma ver­dadeira inter­acção. No wiki, as pes­soas man­dam as coisas de um lado para o outro, tra­bal­ham jun­tas, con­ver­sam na página de dis­cussão. É uma activi­dade social. É muito divertido.
P. Pode ser diver­tido. Mas é sério? Quem é que garante a qual­i­dade dos artigos?
R. À primeira vista, quando se descreve a ideia, parece real­mente que esta enci­clopé­dia só pode ser uma por­caria. Mas a ver­dade é que não é. Porquê? Isso é uma questão muito interessante.
P. Qual a expli­cação para a Wikipé­dia não ser uma porcaria?
R. O sis­tema tem mecan­is­mos que o garan­tem. Todas as alter­ações aos tex­tos surgem assi­nal­adas como “alter­ações recentes”. Por isso as mudanças podem ser seguidas pelos seus autores, bem como por especialistas.
P . Se o autor não con­cor­dar com as mudanças volta a pôr o artigo como estava.
R. Exac­ta­mente. O artigo vai evoluindo, cada vez fica mel­hor, mais com­pleto. Mas man­te­mos todas as ver­sões que foram criadas.
P. Isso é muito com­pli­cado. E pres­supõe uma grande mod­és­tia dos colab­o­radores, ao recon­hecerem que as alter­ações intro­duzi­das por out­ros mel­ho­ram o artigo.
R. Fun­ciona. Há uma certa moral no site. Nós des­en­co­ra­jamos que alguém pense em ter­mos de “o meu artigo”. Os tex­tos não são assi­na­dos. É social­mente con­de­nado, no inte­rior da nossa comu­nidade, falar de “o meu texto”. Para nós, o ideal é ter infor­mação neu­tra, não as opiniões de pessoas.
P. Dantes as enci­clopé­dias tin­ham entradas assi­nadas por espe­cial­is­tas nos assun­tos, o que lhes garan­tia a credibilidade.
R. Sim, isso é fan­tás­tico. Eu tenho arti­gos e livros escritos por espe­cial­is­tas. É mar­avil­hoso ter uma inves­ti­gação com­pleta de Psi­colo­gia escrita por exem­plo por B.F. Skin­ner. Ou por Freud. Mas isso são visões de génios, não são arti­gos de enciclopédia.
P. Os arti­gos de enci­clopé­dia devem ser escritos, não por espe­cial­is­tas, mas pelo povo?
R. Devem ter grande qual­i­dade mas não reflec­tir o ponto de vista de alguém. Devem ser equi­li­bra­dos, neu­tros. Não quer­e­mos que a enci­clopé­dia seja escrita por Skinner.
P. Não será isso ape­nas  pos­sível se se escr­ever um artigo muito super­fi­cial sobre um assunto?
R. Não acho. Deixe-me dar exem­p­los de tópi­cos onde há con­tro­vér­sia. O aborto. A minha visão é com­ple­ta­mente difer­ente da da igreja católica. Mas posso sentar-me com um padre muito con­ser­vador e…
P. Podem conversar.
R. Mais do que isso. Podemos escr­ever um artigo jun­tos. É como se estivésse­mos a dis­cu­tir o tema e entrasse uma pes­soa, que não sabe nada sobre o aborto. Eu e o padre podemos com­bi­nar: vamos escr­ever um artigo para que ele com­preenda o que esta­mos a dis­cu­tir. Não pre­cisamos de dar respostas nem de nos entendermos.
P. Talvez se possa fazer isso com um padre católico, mas com um fun­da­men­tal­ista islâmico…
R. Se é alguém ver­dadeira­mente extrem­ista talvez não aceite alguns dos princí­pios bási­cos necessários para se poder cooperar.
P. Que princí­pios são esses?
R. Aceitar a razão, o pen­sa­mento argu­men­ta­tivo, a per­suasão. Temos tam­bém de par­tir do princí­pio de que todas as pes­soas são razoáveis e inteligentes, que não são des­on­es­tas nem têm como objec­tivo destruir as outras.
P. Esqueçamos o fun­da­men­tal­ista. Vamos a um exem­plo mais nor­mal: a história das Cruzadas. Os imi­grantes muçul­manos no Oci­dente não aceitam a ver­são que vem nos livros esco­lares. A que se ensina  nos seus países é total­mente difer­ente. Isto é um prob­lema real. Como é que a Wikipé­dia con­segue ter um artigo único sobre as Cruzadas?
R. Dizendo: a maio­ria dos his­to­ri­adores oci­den­tais conta a história desta maneira, a maio­ria dos his­to­ri­adores muçul­manos conta desta. E apre­sen­tar algu­mas das provas que ambos os lados usam para jus­ti­ficar a sua visão.
P. Se fosse tão fácil já se tinha acabado com todos os con­fli­tos que isso tem gerado.
R. Nem sem­pre é fácil mas, na Wikipé­dia, é pos­sível. Uma vez, alguém, na Wikipé­dia em inglês, escreveu que o avião tinha sido inven­tado pelos irmãos Wright. Um artigo na ver­são em francês diz que foi Clé­ment Ader. Agora, na ver­são em inglês já temos um longo artigo sobre a con­tro­vér­sia de quem é o inven­tor do avião. Tudo depende de se con­sid­erar que um planador (como o de Ader) é ou não é um avião. Lendo o artigo, percebe-se que ambos os lados têm razão. Nen­hum deles está a mentir.
P. Um exem­plo mais actual: como se faz um artigo con­sen­sual sobre o con­flito israelo-palestiniano? Nem a lin­guagem é neu­tra. Jenin foi um “mas­sacre” ou uma batalha? Arafat era um “ter­ror­ista” ou um “com­bat­ente da liber­dade”, um “Presidente”?
R. Israel con­struiu um “muro” ou uma “cerca de segu­rança”? Ambas as palavras têm uma carga muito forte. “Muro” lem­bra logo o muro de Berlim, “cerca de segu­rança” lembra-nos a neces­si­dade de pro­te­ger civis inocentes con­tra bombis­tas suicidas.
P. Que termo usaram, no artigo da Wikipédia?
R. Foi uma das mel­hores dis­cussões que tive­mos. Levou meses. O artigo estava con­stan­te­mente a ser mudado e edi­tado. Um israelita escrevia, um pales­tini­ano emen­dava tudo, outro israelita cor­ri­gia… na página de dis­cussão estavam con­stan­te­mente a digladiar-se…
P. Chegou-se a um artigo final?
R. Sim. Dis­cu­ti­ram muito mas chegaram a um acordo. Sobre os fac­tos e sobre a ter­mi­nolo­gia. Dis­cu­ti­ram as razões que levam uns a dizer “muro” e out­ros a dizer “cerca”, dis­cu­ti­ram as causas e as razões históri­cas que movem um lado e o outro. E escreveram um artigo com isso tudo.
P. Dir-se-ia que é impossível.
R. Sim, porque geral­mente pensa-se na Wikipé­dia como uma mul­ti­dão de mil­hões de pes­soas descon­heci­das a escreverem ao mesmo tempo… Na real­i­dade não é assim. Criou-se uma comu­nidade. Os nos­sos colab­o­radores falam uns com os out­ros, pas­saram a conhecer-se. E é pre­ciso ser alguém muito difí­cil, muito retor­cido, para vir todos os dias alterar um artigo, para que prevaleça a sua ver­são. É mais plausível que con­clua que dá menos tra­balho dis­cu­tir com os opos­i­tores e chegar a um acordo.
P. Há sem­pre alguém que desiste por cansaço.
R. Há um pequeno truque nisto. Se no artigo hou­ver uma citação de Arafat, alguém que o ache um crim­i­noso de guerra dirá: vêem? Isto prova que ele é um crim­i­noso de guerra. Uma pes­soa que o admire lerá a mesma frase e obser­vará: isto mostra que ele mere­ceu o Nobel.
P. Quer dizer que até os fanáti­cos podem chegar a um acordo…
R. Quer dizer que as pes­soas mais con­vic­tas das suas ideias são as que menos temem que os seus opos­i­tores ten­ham uma voz.
P. Bom, teori­ca­mente, se é sem­pre pos­sível chegar a um artigo con­sen­sual sobre um con­flito, tam­bém será pos­sível resolver o conflito.
R. Talvez. Eu estou muito inter­es­sado em explo­rar as pos­si­bil­i­dades deste soft­ware e destas práti­cas nas dis­cussões polit­i­cas. Mas isso é outro projecto.
P. Uma espé­cie de Wikipé­dia para resolver conflitos?
R. Sim, muitas pes­soas têm insis­tido nisso, e temos feito exper­iên­cias inter­es­santes. Um pro­fes­sor de Dire­ito famoso, Char­lie Niessen, tra­balha com uma prisão jamaicana desde há 20 anos. Há um ano houve um motim na prisão, em que mor­reram um guarda e qua­tro pre­sos. Está em curso um inquérito sobre os inci­dentes, mas criou-se um clima de grande ani­mosi­dade. Então Niessen pediu-me para mon­tar um sis­tema wiki, em que pre­sos e guardas podem sentar-se ao com­puta­dor e intro­duzir ele­men­tos, emen­dar e edi­tar, até se chegar a um relatório dos acon­tec­i­men­tos em que todos se revejam.
P. Isso poder-se-ia aplicar a con­fli­tos sociais?
R. Podia começar-se por coisas sim­ples, como pôr os cidadãos a dis­cu­tir, por exem­plo, o pro­jecto con­tro­verso de con­struir uma nova estrada na sua região. Os activis­tas de um lado dirão que destru­irá o ambi­ente, os do outro lado argu­men­tarão que trará pros­peri­dade. Num sis­tema wiki será pos­sível pon­derar os prós e con­tras e chegar a um consenso.
P. Mas tanta con­sen­su­al­i­dade não terá os seus peri­gos? Não con­duzirá a uma visão única, total­itária do conhecimento?
R. Não vejo esse perigo, porque um artigo na Wikipé­dia nunca é defin­i­tivo. Se alguém não con­corda, pode sem­pre modificá-lo. E depois a inter­net não é só a Wikipé­dia. Há mil­hares de sites com infor­mação espe­cial­izada, com argu­men­tos a defender causas, uma explosão de pes­soas a escreverem blogues, a expres­sarem opiniões. Mas quando alguém pre­tende ape­nas infor­mação básica e neu­tra sobre um assunto, vai à Wikipédia.
P. A Wikipé­dia nunca tem opinião?
R. Não. É uma das regras. É difí­cil fazer tex­tos de opinião desta forma colab­o­ra­tiva. Na maio­ria dos casos, é impos­sível saber quais são as posições políti­cas ou out­ras dos wikipedistas.
P. É proibido escr­ever opinião. Que mais é proibido?
R. É proibido escr­ever sobre coisas que não sejam ver­i­ficáveis. Por exem­plo: a sua mãe é famosa? Se não é, não pode escr­ever um artigo sobre ela na enci­clopé­dia. Porque nen­hum de nós tem alguma pos­si­bil­i­dade de con­fir­mar se é ver­dade ou não. Sem esta regra, as pes­soas inven­tariam arti­gos sobre as suas mães famosas, ou algo parecido.
P. Mais proibições?
R. É proibido ter inves­ti­gação original.
P. Porquê?
R. Primeiro porque uma enci­clopé­dia não é uma revista de inves­ti­gação. Podemos falar de inves­ti­gações que estão em curso, mas não a faze­mos nós, porque não somos qual­i­fi­ca­dos nem para a fazer nem para a avaliar. Esta regra surgiu quando sen­ti­mos a neces­si­dade de nos livrar­mos dos manía­cos da Física…
P. Foram inva­di­dos por manía­cos da Física?
R. Há muitos lunáti­cos na inter­net que pen­sam ter descoberto uma nova teo­ria do mag­net­ismo ou outra coisa do género, e começaram a colo­car arti­gos na Wikipé­dia. Se lhe dis­ser­mos: tu és um lunático, por favor desa­parece!, ele vai ficar zan­gado e, provavel­mente, retal­iar. É mais fácil dizer: obri­gado pela sua con­tribuição, mas nós não podemos avaliar as suas descober­tas, porque não somos per­i­tos. É uma das nos­sas regras. Por favor, sub­meta isso ao jor­nal de Física da Universidade.
P. Ele respon­derá: já o fiz. Disseram-me que eu era um lunático.
R. Na nossa comu­nidade não o trata­mos mal. É a nossa cultura.
P. A Wikipé­dia é vul­nerável para quem quiser retaliar?
R. Sim e não. Qual­quer um pode fazer estra­gos, se quiser. Há algum van­dal­ismo, mas não muito. O mais comum é alguém apa­gar uma página inteira e escr­ever “Olá mãe”, ou “Vão-se f.”.
P. Isso prej­u­dica muito o sistema?
R. Não. Resolve-se num min­uto. O prob­lema é se hou­ver um ataque em grande escala. Acon­te­ceu uma vez, com um pro­grama chamado “Willy on Weels”, com que alguém começou a destruir cen­te­nas de pági­nas. Mas já o blo­queá­mos. Temos sem­pre sis­temas de defesa de emergên­cia, como desli­gar com­ple­ta­mente o sis­tema de edição anón­imo. Já tive­mos de fazer isso algu­mas vezes, mas só por perío­dos de uns cinco min­u­tos. Nunca tive­mos um ataque ver­dadeira­mente grave.
P. Porquê?
R. Porque é difí­cil alguém odiar a Wikipé­dia. Somos uma orga­ni­za­ção não lucra­tiva, somos neu­trais, nem de dire­ita nem de esquerda, somos aber­tos a toda a gente. Se a Microsoft quisesse criar um sis­tema wiki com a Encarta não con­seguiria. Demasi­adas pes­soas odeiam a Microsoft. Seriam ata­ca­dos constantemente.
P. E den­tro da própria comu­nidade Wikipé­dia, não há con­tes­tação às regras?
R. Muita. Há grandes debates sobre as regras, muito mais ace­sos e difí­ceis do que as dis­cussões sobre o con­flito israelo-árabe. Há uma grande cisão, por exem­plo, entre apa­gadis­tas e com­ple­tadis­tas. Eu sou um completadista.
P. Que reivin­dicam essas fracções?
R. É a questão de saber o que é rel­e­vante para con­star da enci­clopé­dia. Deve­mos apa­gar tudo o que não é impor­tante de um deter­mi­nado tema, ou deve­mos man­ter tudo e enco­ra­jar que se acres­cente sem­pre mais? Por exem­plo o Poke­mon. Na nossa enci­clopé­dia em inglês há um artigo geral e arti­gos sobre cada uma das per­son­agens, que são cen­te­nas. Na enci­clopé­dia em alemão acham isso ridículo. Só tem um artigo.
P. Se tiver tudo torna mais difí­cil para o leitor encon­trar o que quer, ou saber o que é importante?
R. Não acho. Eu sou com­ple­cionista. Um dos argu­men­tos con­tra é que é uma grande perda de tempo escr­ever todos esses arti­gos. Eu respondo que é a perda de tempo de outra pes­soa qual­quer, não minha. E essa pes­soa não parece achar que é perda de tempo. Por outro lado, se dis­ser­mos a essas pes­soas que não podem escr­ever os arti­gos, nada nos garante que elas desis­tam de escr­ever para a Wikipé­dia. Podem pôr-se a escr­ever sobre Shake­speare ou Biologia.
P. É mel­hor escreverem sobre o Pokemon.
R. Sim, deixem-nos escr­ever sobre aquilo que sabem. Mas há quem ache que isto pode ser motivo para troçarem de nós.
P. Põe o prob­lema da cred­i­bil­i­dade. Que acha a comu­nidade cien­tí­fica de tudo isto?
R. Ao prin­ci­pio chamavam-me louco. Mas depois, começaram a rea­gir de forma difer­ente, ao con­statarem que o resul­tado é muito bom. Fui con­vi­dado para Fel­low da fac­ul­dade de Dire­ito de Har­vard, já fiz cur­sos em Oxford e Cambridge.
P. Não houve uma hos­til­i­dade geral, numa reacção de pro­te­ger os cír­cu­los tradi­cionais do conhecimento?
R. Um pouco. Mas tam­bém há muita frus­tração entre os académi­cos, por causa do carác­ter fechado das uni­ver­si­dades. Tam­bém faz parte da sua psi­colo­gia a aber­tura, a colab­o­ração, a troca de ideias. Muitos deles estão mesmo dis­pos­tos a tra­bal­har na Wikipé­dia, anon­i­ma­mente, e sem gan­har nada
P. Ninguém ganha din­heiro na Wikipédia?
R. Não. Toda a gente tra­balha de graça, incluindo os gestores de servers, os admin­istradores. Todos são  vol­un­tários.
P. Como é finan­ciada a Wikipédia?
R. Por dona­tivos. Somos uma orga­ni­za­ção sem fins lucra­tivos, isenta de impostos…
P. É ver­dade que gas­tou 500 mil dólares do seu bolso, para mon­tar o projecto?
R. Sim. Não con­tando com os anos que tra­bal­hei a tempo inteiro, sem salário.
P. Não há lim­ites para o din­heiro que pode gas­tar com este “hobby”?
R. Os jor­nais dizem sem­pre que eu sou rico, mas não é verdade.
P. Tem uma colecção de Ferraris?
R. Tenho um Fer­rari, que com­prei usado por 25 mil dólares. O meu carro do dia a dia é um Hyundai. E não tenho um avião par­tic­u­lar, como já dis­seram. Vivo numa casa nor­mal nos sub­úr­bios. Mas tenho din­heiro sufi­ciente para viver, e para perder algum.
P. Gan­hou o din­heiro com activi­dades anteriores?
R. Sim. Depois de me for­mar em Econo­mia, tra­bal­hei como cor­re­tor de opções e futuros. Gan­hei din­heiro para viver o resto da vida.
P. A Wikipé­dia não é lucra­tiva, mas pode ser uma plataforma para lançar pro­jec­tos lucra­tivos no futuro.
R. Sim. Estou a começar uma empresa, a Wikic­i­ties, que tem fins lucra­tivos. Mas não estou muito pre­ocu­pado com isso. Eu não vejo esta activi­dade como uma car­reira. Nem estou pre­ocu­pado com o facto de não estar a fazer din­heiro. Sei que se pre­cisar de emprego, arranjo um facil­mente. Afi­nal, sou hoje em dia uma pes­soa famosa, na área da internet.
P. A Wikipé­dia é para si uma missão?
R. Sim. Nós esta­mos nos primeiros dias da inter­net. No futuro as pes­soas vão olhar para a Wikipé­dia e dizer: isto foi uma das coisas mar­cantes que sur­gi­ram naquela época. Porque a inter­net rep­re­senta uma grande esper­ança. Pensa-se sem­pre: isto é fan­tás­tico. Final­mente pes­soas de todo o mundo podem comu­nicar, par­til­har con­hec­i­men­tos. Pode-se com­bater a ignorân­cia, divul­gar as cul­turas… mas depois, o que há real­mente na inter­net é venda de pro­du­tos, pornografia. A Wikipé­dia é a real­iza­ção da ideia mais pura e sim­ples do que é a inter­net: as pes­soas juntarem-se e par­til­harem os seus con­hec­i­men­tos. Eu sem­pre son­hei com isso.
P. A ideia de criar a enci­clopé­dia livre já vem então de antes de 1989.
R. Em cri­ança, tive uma edu­cação pouco comum. A minha mãe e a minha avó fun­daram uma pequena escola muito espe­cial, a que chamavam casa-escola, no Alabama, onde morá­va­mos. Éramos qua­tro miú­dos em cada classe, e as classes estavam todas jun­tas na mesma sala. Tín­hamos uma grande liber­dade. Havia pro­fes­sores mas a maior parte das coisas aprendíamos soz­in­hos, lendo livros, ou com os alunos mais vel­hos. Não era nen­huma escola-piloto, nem um colé­gio chique. Era ape­nas uma escola muito pobre.  Par­til­há­va­mos con­hec­i­men­tos e cada um estu­dava aquilo que lhe inter­es­sava mais. Lembro-me de a minha mãe estar sem­pre a dizer que as esco­las des­perdiçavam tanto din­heiro, quando o que era pre­ciso era ape­nas um quadro, lápis e cader­nos e alguma paixão. Acho que vem daí a minha crença de que é pos­sível pôr con­hec­i­mento disponível a cus­tos muitos reduzi­dos. E quando isso existe as pes­soas procuram-no porque, quando ninguém lhes tenta impor nada, têm uma von­tade nat­ural de saber.
 (PÚBLICO, 2005)