As presidenciais e o PÚBLICO

As presidenciais e o PÚBLICO

1 – O modelo de “transcrição” da entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa à SIC trouxe-me alguns reparos de leitores. Vinham também mencionados: Marisa Matias, com relevo para declarações feitas pela candidata do BE, na sua participação na conferência A União Europeia e os Refugiados, realizada na Universidade do Porto, Edgar Silva, candidato do PCP, no acto de entrega no Palácio Ratton das 15 mil assinaturas que subscrevem a sua candidatura a Belém, e o candidato Cândido Ferreira, reportando  queixas formuladas pela modo como estão planeadas as intervenções dos candidatos nos debates televisivos. Encima a página uma frase solta da candidata Maria de Belém.

Percebe-se que a intenção do PÚBLICO é relevar os eventos dos diferentes candidatos no desenvolvimento das suas campanhas. Os comentários críticos que recebi incidem, sobretudo, na reportagem da entrevista do candidato Marcelo Rebelo de Sousa. Pelos títulos, quer o de chamada da 1.ª página «Marcelo diz que fará “o possível” para que o Governo “dê certo”», quer pelo do artigo principal, assinado pela editora Leonete Botelho, «Marcelo: “Farei o possível para que esta solução governativa dê certo”», não há o devido respeito pelas normas estabelecidas pelo Livro de Estilo do PÚBLICO quanto aos títulos, entrada e lead. Efectivamente, o Livro de Estilo diz que «o lead determina sempre a construção do texto e o título da peça». E acrescenta: «Seja qual for o ângulo que o jornalista privilegie no arranque de um texto, é a partir daí que o leitor deve captar o sentido global da narrativa». Ora, neste texto, só no sexto parágrafo se tem a informação de que o PÚBLICO está a dar conta da entrevista de MRS à SIC, o que, em minha opinião deveria ter ficado explícito logo no princípio. Jornais, rádios e televisões caem várias vezes na utilização das informações expressas sem atribuir a fonte original e primária da notícia. Ora o PÚBLICO terá de fugir a este mau procedimento. É verdade que a comunicação social ao reproduzir as declarações de MRS confere-lhe um valor mediático “fatal”. Quase não interessa onde, quando, como, porquê, a quem. MRS disse, falou, “o quê”, o que é «material» disponibilizado e utilizado para o universo mediatizado. Evidentemente que a imagem e o estatuto de MRS, grande actor e autor do nosso palco mediático, concorrem para isso. Mas, num contexto eleitoral de tratamento igual para todos os candidatos, esta condição de MRS não pode ser factor de privilégio dado pelos media em favor do candidato. Para o apagamento dos outros já basta o que basta. A “carga” mediática e de mediatização que Marcelo Rebelo de Sousa transporta em desfavor dos outros candidatos é óbvia. E, por isso, percebe-se as características da sua campanha, muito específica, sem cartazes, sem bugigangas para oferecer em passeios de ruas.

Poder-se-á dizer que o texto assinado pela jornalista Margarida Gomes sobre Marisa Matias sofre de idênticas falhas. Mas, sinceramente, não me parece atingir proporções semelhantes. Em momento algum, se tem o equívoco que se trata de uma entrevista da candidata dada, nesta circunstância, ao PÚBLICO. O que, em primeira leitura, acontece em relação a MRS.

Leonete Botelho, editora de política do PÚBLICO, é uma jornalista competente e experiente.  Antes de publicar este comentário pedi-lhe uma réplica.  Numa fase destas, em que a campanha eleitoral vai “aquecer”, em especial, quando entrarem em força as “máquinas” partidárias, talvez seja oportuno deixar esclarecidas normas para o tratamento por igual dos diferentes candidatos.

 

 

  1. Responde a jornalista Leonete Botelho: «No dia 8 de Dezembro, o PÚBLICO dedicou duas páginas à cobertura de acções de candidatos presidenciais, a exemplo do que vem fazendo desde que os primeiros candidatos se posicionaram, algures na Primavera.

Desde então, o PÚBLICO efectuou entrevistas a todos os candidatos consistentes que se foram posicionando, tendo já entrevistado Sampaio da Nóvoa, Henrique Neto, Maria de Belém (numa altura em que ainda não tinha anunciado a candidatura mas já era provável que o fizesse), Paulo Morais, Cândido Ferreira, Marisa Matias e Edgar Silva.

Da mesma forma, temos coberto sempre que possível todos os anúncios formais de candidaturas, a entrega das assinaturas no Tribunal Constitucional e acções de campanha relevantes, sempre que os meios editoriais o permitiam.

Não negligenciámos a cobertura da pré-campanha para as presidenciais, como qualquer leitor do PÚBLICO pode confirmar com uma simples pesquisa no site do jornal.

No dia 7 de Dezembro, Marcelo Rebelo de Sousa deu à SIC a sua primeira entrevista enquanto candidato presidencial. Como tal, era obrigatório dar conta do que diria o candidato mais bem posicionado em todas as sondagens, em especial sobre o que diria em relação à solução governativa de esquerda e qual a relação que se poderia esperar de um provável futuro Presidente da República, tanto com essa solução como com os partidos que viriam – e já se adivinhava – apoiá-lo: PSD e CDS.

O incontornável interesse jornalístico da entrevista justificaria – como justificou – que se desse destaque a esse seu posicionamento. Houve ainda a preocupação de não ser o único candidato com relevo no jornal nesse dia, pelo que todos os candidatos que tiveram acções de pré-campanha nesse dia mereceram, nessas duas páginas dedicadas às presidenciais, um apontamento jornalístico. A dimensão de cada peça teve em conta os meios editoriais disponíveis: cobertura própria ou da Lusa.

Mas referimo-nos apenas a esse dia. Com facilidade poderemos encontrar, a contrario, inúmeras edições em que qualquer um destes candidatos teve o protagonismo, assim como muitos outros dias em que os candidatos mais bem posicionados nas intenções de votos não foram, simplesmente, objecto de notícia no PÚBLICO.

O critério que o PÚBLICO tem sempre como orientador da linha editorial é o interesse jornalístico: a importância e acutilância das intervenções e acções, aquelas em que há pensamento político e não meras acções, por exemplo, de angariação de assinaturas ou apoios.

Não compreendo as críticas que são feitas à falta de cumprimento do Livro de Estilo no que diz respeito ao título, entrada e lead. De facto, quando o ângulo do artigo está patente em todos estes elementos da notícia: A frase do candidato é claríssima sobre o seu posicionamento sobre o actual Governo e a forma como interagirá com ele se for Presidente, ou seja, como lidará com eventuais crises políticas.

Nunca o Livro de Estilo diz que se deve dizer no lead a que órgão falou a fonte em primeiro lugar. E de facto a notícia não era pelo facto de ser uma entrevista à SIC, mas pelo facto de ser a primeiríssima entrevista deste candidato. Por outro lado, nunca se omite a quem foi dada a entrevista, nomeando-se mesmo os nomes dos jornalistas que a realizaram. E noutro trecho da notícia é referido explicitamente que foi dada à SIC, pelo que refuto a acusação de não atribuir “a fonte original e primária da notícia”.

Neste sentido, defendemos a linha editorial do PÚBLICO na cobertura da pré-campanha das eleições presidenciais, tanto no que diz respeito ao pluralismo, como no que diz respeito à indicação das fontes originais e primárias das notícias.

 

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