Cartazes de má propaganda

Cartazes de má propaganda
1.A malograda campanha dos cartazes do PS com a utilização de personagens anunciadas como desempregadas desde 2011 e que, afinal, não estavam, funcionou na saga de campanha deste partido no trilho do ditado popular “foi buscar lã e ficou tosquiado”. O efeito venenoso daquilo que parecia um bom “achado” publicitário transformou-se num cartaz de enorme eficácia de contra-propaganda. Mesmo em termos de publicidade e propaganda, e sobretudo neste campo muito susceptível, a lisura nos métodos e meios é essencial. E ainda por cima, obtido de modo gratuito, dificilmente será o de maiores dividendos nesta campanha. Alguém enganou o PS ou o PS desastradamente se enganou. O que é o mesmo. Falhas destas são fatais. Nem se pense que a declaração do secretário-geral, António Costa, pode ser uma esponja apagadora do mal que ficou feito:” O episódio dos cartazes tratou-se de uma sucessão de equívocos, um caso lamentável e, por isso, pedimos desculpa”. Os erros acontecem. Mas há erros mais do que “lamentáveis” de efeitos imperdoáveis. E para ajudar ao festim dos cartazes, embora com processos menos ínvios e de efeitos limitados, também os cartazes da coligação PSD/CDS não escaparam a desvios menos líquidos de transparência ao colocarem cartazes com a utilização de imagens de figurantes de agências, antes da necessária licença dos direitos agenciais. Destas gafes tirou inteligente e frutífero proveito o Bloco de Esquerda que, por ironia, sem os recursos financeiros e profissionais dos maiores partidos, não teve dificuldades para encontrar verdadeiras caras de personagens “vítimas” do desemprego e da crise.
2.Não obstante, a verdade nua e crua que me parece ser a ilação deste episódio revelador de falho profissionalismo que não pode conviver com o melhor voluntarismo, há leitores que discordam do teor das notícias e comentários que os media vêm lançando sobre este caso. Em relação ao PÚBLICO, o leitor e assinante, Armindo Bento, escreve-me revoltado com o modo como, nos últimos dias, tem sido tratado este assunto dos cartazes do PS, “com o objectivo de descredibilizar António Costa”.
Argumenta o leitor: “Logo na primeira página do dia 11.08 2015 pode ler-se: «SOCIALISTAS NÃO REVELAM AUTORIA DOS CARTAZES POLÉMICOS – A Câmara de Lisboa contratou mais de 818 mil euros com o publicitário do Porto Vítor Tito». “O que pretendeu o Público – pergunta o leitor – com esta noticia na primeira pagina? Qual a relação entre os cartazes e Câmara de Lisboa?” O leitor infere que, deste enredo, – “ basta ver hoje as “redes sociais – para verificar que a intenção do Público, com estas inverdades e manipulação, mentira na informação foi atingida: a)” A Câmara de Lisboa é que esta a pagar os cartazes”; b) “E pagou 818 mil euros”; c) ” António Costa pratica esta ilegalidade”. E Armindo Bento acrescenta: “ Mas, o caso ainda é mais grave, ao abrir na página 8, o seguinte título: «Câmara de Lisboa pagou 818 mil euros a publicitário contratado desde 2008. Vítor Tito trabalha com o socialista António Costa na câmara da capital desde 2008 “ “Trabalha”(?)… mas António Costa nem sequer já é o presidente” e “a prestação de serviços acabou em Outubro de 2014.” (…) “Mas, qual é a ilegalidade?” – pergunta o leitor. “O que pretendeu o Público atingir com esta pretensa “notícia”ao dar-lhe um cunho de actualidade?” E conclui:”O jornal Público não pode “tratar desta maneira os seus leitores.”
“E já agora não quer o jornal Publico dizer-nos quem contratou os publicitários brasileiros de Passos Coelho? Quem contratou os artistas franceses e australianos para figurarem nos cartazes de Passos Coelho?”

Confrontei o jornalista Nuno Sá Lourenço, autor do texto em causa, que entre outras explicações, esclarece:
“O objectivo não é descredibilizar Costa, é explicar o que se está a passar com a campanha de um partido que pretende liderar um Governo.” Com esta notícia “o PÚBLICO quis revelar quais as ligações das pessoas que têm colaborado com Costa – neste caso na área da comunicação” E ao estabelecer a relação entre os cartazes e Câmara de Lisboa “quis alertar que “a relação é Vítor Tito, o qual trabalhou com António Costa no passado. E “é a prova da sua ligação no passado e presente com o PS”.(…) “Colaborou na Câmara Municipal, na campanha interna para o PS e agora nesta fase também, a título pessoal. É isso que se pretende demonstrar. O chamado desmentido de Vítor Tito sobre a colaboração com partidos refere apenas a sua empresa. O texto inclui depoimentos de dirigentes do PS, que solicitando o anonimato, o confirmam.” E diz ainda o jornalista Nuno Lourenço: ” O PÚBLICO nunca falou de ilegalidade. O que o PÚBLICO pretendeu esclarecer foi a relação entre Vítor Tito e António Costa.”
E à pergunta do leitor “ não quer o jornal Publico dizer-nos quem contratou (…) os artistas franceses e australianos para figurarem nos cartazes de Passos Coelho”, Nuno Lourenço responde: “Acho que a resposta a esta acusação está dada na edição desta quarta-feira” E no jornal de 14.08.2015: «PSD/CDS não esperaram por licença para colocar cartazes». E por fim esclarece o jornalista Nuno Lourenço: “Esta texto foi escrito depois de contactar a assessoria da direcção do PS, e depois de contactar o próprio Vítor Tito que não respondeu às solicitações que lhe foram feitas, nem contactou o jornal para desmentir o que foi escrito.” (…)
Não obstante estas explicações, o leitor Armindo Bento replica: ” Fica claro que foi intenção do jornalista – ligar os milhares de euros pagos à Câmara Municipal de Lisboa à campanha do PS, o resto são tretas “ (…) “ e o Público não pode, por respeito à quase totalidade dos seus leitores, entrar nesse jogo.”
3. A controvérsia não acaba aqui. Mas parece-me que transcrevi o suficiente para deixar expresso que estamos perante assuntos sempre de potencial divergência. Não é linear interpretar as notícias que envolvem opções partidárias. É tão difícil o leitor aceitar a versão do jornalista, cuja intenção foi de aclaramento de um “lamentável caso” – na expressão do próprio secretário-geral do PS – e a visão de leitura de Armindo Bento que vê no modo como Nuno Lourenço tratou o assunto, apenas uma tentativa de descredibilizar António Costa. O processo mais simples para ultrapassar estes danos é colocar na agenda da discussão política e partidária os verdadeiros problemas que Portugal enfrenta e as soluções que cada força partidária preconiza. Embora os cartazes, aqui, como pedra fora da mão, venham a perdurar com os seus efeitos mordazes, nesta campanha que já tem estragos que cheguem.

Um comentário a Cartazes de má propaganda

  1. Avatar: incorporeo
    Caro Sr Provedor,
    O processo que este jornal on-line utiliza para a moderação de comentários vale o que vale. Todavia, acaba por ser um processo relativamente equilibrado e relativamente justo.
    Mas, como disse, vale o que vale, querendo eu dizer que é susceptível de melhorias.

    Quando um comentador tem um seu comentário censurado pela comunidade, a sua legitimidade pode ser questionável, mas é a que vigora e, sobre isso, considero um assunto menor.

    Contudo, já não considero assunto menor quando, a dada altura, o comentador constata terem-lhe sido censurados comentários e ficar sem saber porquê!

    Quem comenta várias notícias, como eu, não é nem justo nem objectivamente prático estar a averiguar sobre que comentário foi alvo de censura. E há mecanismos tecnológicos para evitar isso, sendo necessário, para tal, alguma vontade em melhorar os procedimentos. Obviamente da vossa parte!
    E um argumento de peso que pode beneficiar o comentador alvo de censura é a dimensão PEDAGÓGICA! Desconhecendo o porquê de ter sido alvo de censura num ou noutro comentário, gera, em primeiro lugar, uma sensação de frustração; em segundo lugar, questiona-se porque foi censurado e em que contexto. Ora não havendo registo dos comentários censurados, não é possível o exercício pessoal da auto – análise. Mantém-se o estado de latente frustração e, muito provavelmente, e inadvertidamente, acaba por ser vítima de idêntico procedimento, sem perceber muito bem porquê!

    A moderação de comentários diz-se que é feita pelos ditos “moderadores”. Reservo-me, no entanto, no direito de não acreditar piamente nesse pressuposto. Pois o próprio Jornal pode e deve ter prerrogativas nessa acção. Será hipocrisia essas prerrogativas existirem e serem negadas. Mas também não pretendo averiguar isso e até compreenderei o exercício dessas prerrogativas.

    Dito isto, proponho que seja posto à consideração os seguintes melhoramentos no HISTÓRICO do comentador:
    – Os comentarios CENSURADOS manterem-se no Histórico, com a referência adequada para comentários não publicados.

    (Tão-somente isto! Se há receios por parte do Jornal em que comentários censurados possam ser usados contra a sua instituição, é uma preocupação legítima, mas basta um pouco de criatividade para acautelar esse receio. Haja criatividade e vontade)

    Sem outro assunto, e com os melhores cumprimentos.
    Paulo Alves
    (incorporeo)

    Situações não

    Responder

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