Da “guerra” dos números a uma Europa de “arame farpado”

Da “guerra” dos números
a uma Europa de “arame farpado”
1.Mark Twain (1835-1910) dizia que “havia três tipos de mentiras: mentiras, malditas mentiras, e estatísticas”. Obviamente, como sociólogo, não posso alinhar, de modo tão deliberado, num desdenhar das estatísticas. Sobretudo, numa sociedade em que, hipocritamente, os números vão valendo mais do que as pessoas. Para analisarmos e nos confrontarmos com as realidades que marcam as problemáticas sociais que nos afligem, é sempre útil utilizar as estatísticas como instrumento de estudo e procura de soluções. Um velho professor da Universidade de Pádua que tive dizia: a estatística, em regra, mostra-nos o que podemos ver, mas esconde-nos o que desejaríamos conhecer. Não será, por certo, distante do aviso que nos fazia Santo Isidoro de Sevilha, (no século VIII, imaginem!), “tire-se o número às coisas e todas desaparecerão”.
Não é nova, especialmente, em tempos eleitoralistas, a «guerra» dos números que temos assistido neste últimos dias a propósito das estatísticas do desemprego. Noutras eleições, lembro-me bem, recorria-se aos números do aumento ou diminuição de criminalidade ou da mortandade nas estradas. Agora, com aqueles, felizmente, mais estabilizados, e por via do drama maior que a crise nos trouxe, o des(emprego), joga-se mais com os valores estatísticos deste problema social. E joga-se com tão grande incúria e precipitação que leva o PS a cometer o desbragado “tiro no pé” (agora, talvez, na cabeça) dos cartazes com falsos desempregados e com o acinte bem desfavorável (vá lá saber-se a intenção escondida)“desde o tempo de Sócrates”.
Todavia, na qualidade de provedor dos leitores, também não devo alinhar, de modo fácil, no ataque que o leitor Nuno Casimiro desfere contra o jornalista Sérgio Aníbal a propósito da análise que este fez no PÚBLICO de 06.08.2015. O leitor pode ter razão quanto às consequências que a simples leitura de títulos por leitores mais desprevenidos podem interpretar, mas para além de dar notícia sobre a evolução, sob o título, Desemprego está mais baixo do que há quatro anos mas o emprego também é menor, Sérgio Aníbal faz um balanço dos últimos quatro anos no mercado de trabalho.
Uma análise séria, sem pôr em dúvida as metodologias seguidas pelo INE (Instituto Nacional de Estatística) que servem para as notícias boas e más, como, na realidade, dizia o primeiro-ministro Passos Coelho, não pode esquecer todas as outras variáveis explicativas deste fenómeno. O “troféu” que o actual governo exibe de ter os números do desemprego mais baixos do que em 2011 é real, mas não pode dispensar a consideração dos factores que concorrem para isso, tais como, a iniludível não correspondência em aumento de empregos, a diminuição em população activa e até em população global, pois para além da emigração, entre mortos e nascidos também estamos, gravemente, em défice. Por outro lado, é fundamental saber ler resultados definitivos e números de previsão. Assim, talvez seja bem avisado, o INE deixar de dar previsões e publicar apenas os resultados apurados. O que poderá estar em causa não é “a maturidade desta sociedade para ter informação provisória”, na expressão da responsável destes dados pelo INE, Sónia Torres, mas a tendência de determinados actores, em campanha eleitoral, para a especulação de tudo e nada. Para ler estatísticas nunca qualquer sociedade estará globalmente matura. O perigo vem dos especuladores.

2. Do leitor Eduardo de Freitas recebi este comentário: «Dirijo-lhe este mail, na sequência de ter enviado hoje uma carta à directora, denominada “A Eterna (e Exclusiva) Culpa da Europa”, a qual, naturalmente, não sei se terá direitos de publicação. Permito-me chamar-lhe a atenção para, em matéria de tamanha gravidade – a análise das políticas da Europa no respeitante às vagas de migração clandestina – o Público se permitir, em editorial, colocar todo o ónus da situação no campo dos países e governos europeus, actuais e passados, descartando todos os factores que, no campo de onde esses migrantes são oriundos, são geradores desta debandada massiva de muitos milhares de cidadãos.
Se alguma crítica pode e deve ser formulada aos procedimentos que têm sido operacionalizados pelas autoridades europeias relativamente ao caso, é inaceitável que, em jornal de referência, tamanho enviesamento analítico surja em editorial que afinal responsabiliza quem o escreveu e caracteriza ideologicamente o próprio veículo de informação.»
Não gosto, nem devo, furtar-me a dar eco das críticas sobre o jornal que os leitores me enviam. Se é verdade que prezo não me imiscuir nos conteúdos do espaço de opinião, compromisso que tomei desde o início desta missão, entendo que, em relação à linha editorial do PÚBLICO, só devo interferir quando julgue que não estão a ser respeitados os compromissos editoriais que o PÚBLICO tem com os seus leitores. Ora, relendo o editorial em causa, «As responsabilidades da Europa. Em vez de políticas cegas, os líderes europeus devem parar para pensar», não me parece ser o caso. Devo confessar que até tenho uma opinião muito similar. É óbvio que se trata de chamar à atenção para as responsabilidades da Europa e até das sequências indesejadas das intervenções do Ocidente no Médio Oriente, especialmente na Síria, no Afeganistão e no Iraque. Efectivamente, falta a outra parte: a responsabilidade dos governos dos países que, provavelmente, vêem, neste desumano infame êxodo, solução para terríveis problemas. Mas, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para a Europa ainda, esta semana, advertia a Europa não pode reagir a esta “catástrofe” como está a fazer.
Fustigar uma Europa, por si mesma, em crise, com este amontoado de migrantes desesperados é complicar a situação. Mas não terá sido a própria Europa, noutros tempos e noutros ideais, a criar o mito de que era “a terra prometida” para os desiludidos do progresso? A mim, choca-me uma Europa, cada vez mais com fronteiras de “arame farpado”.

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