E o futebol paga a factura

E o futebol paga a factura

O último fim-de-semana que, desportivamente, deveria tão-só ter sido para sinalizar o desfecho do campeonato nacional de futebol, com o Benfica a celebrar a merecida vitória, foi marcado por actos que trouxeram mais uma vez a primeiro plano o fenómeno da violência. E, mais uma vez, com aquela facilidade simplista que muita gente o vê, ou o liga, ao futebol. E sinceramente, é preciso andarmos muito distraídos com os actos de enorme violência que têm sido registados nestes últimos tempos no «nosso» doméstico contexto social para invectivarmos sobre o futebol tamanha culpabilidade. Recordo só estes dois actos: o bárbaro assassinato do adolescente Filipe, de 14 anos, em Salvaterra de Magos, e o menor de 16 anos, regado com álcool etílico, ao que parece por familiares próximos e depois incendiado com um isqueiro, numa residência na Póvoa de Santa Iria, em Vila Franca de Xira. A atrocidade destes crimes basta para relevar sintomas de alarmante situação de um «escondido» clima de degradação e consequente tensão social que também mora neste país. Como escreve, Vicente Jorge Silva, no semanário SOL de 22.05.2015, “os riscos de explosão social tenderão a agravar-se enquanto recusamos abrir os olhos para a realidade”
Devo declarar que não possuirei as condições de isento analista social dos acontecimentos de violência perpetrados e envoltos na raia do futebol por duas razões: gosto muito do futebol e defendo, em seu benefício, a existência de claques. Mas vamos aos actos em questão. E a partir de queixas de alguns leitores.
Recebi queixas de dois teores: primeiro, relativamente ao exagerado volume de informação a propósito do futebol; segundo, pela pouca relevância e consequente tratamento, reduzido ou omisso, que o PÚBLICO deu aos actos violentos acontecidos em Guimarães e em Lisboa.
1. O excessivo espaço dedicado ao campeonato
Em relação ao excessivo espaço (oito páginas da edição do PÚBLICO de 18.05.2015) pergunta o leitor Augusto Küttner: O futebol terá de “encher” tantas páginas? E, de algum modo, responde: o PÚBLICO, reconhecido jornal de referência, deveria “fazer-se notar pela diferença qualitativa”. Por sua vez, o leitor José Mesquita Alves, que já em Março de 2014, discordava dos critérios editoriais do PÚBLICO, que esquecem outras modalidades, tais como a ausência de notícias sobre o voleibol, sem destacar, por exemplo, os jogos entre os “dois melhores clubes de Voleibol, a Associação de Jovens da Fonte Bastardo, da Terceira, Açores, a par do S. L. Benfica”. E refere ainda: «No passado fim de semana, a Selecção Nacional de Voleibol disputou no Centro de Desportos e Congressos de Matosinhos 2 jogos oficiais contra a Holanda, a contar para o Campeonato do Mundo da modalidade ( FIVB Volleyball World League 2015 ). Sobre estes eventos o Público noticiou ZERO (no dia 18 de Maio, e para além das 10 páginas dedicadas ao título de campeão nacional de futebol conquistado pelo Benfica, a secção de Desporto noticiou Motociclismo, Ténis, Ciclismo – Volta a Itália (?!), Râguebi, Basquetebol, Andebol, e mais futebol, caseiro e internacional). (…) Durante esta mesma semana, na secção de Desporto, o Público noticiou mais do mesmo, a que acresce, se não estou em erro, uma ou duas notícia sobre a NBA, e, naturalmente, notícias sobre o Rally de Portugal.» (…)

2. O futebol e a violência

Quanto aos actos de violência importa recordar que tiveram três episódios diferentes: o incompreensível e repugnante espancamento do cidadão José Magalhães, um empresário de Matosinhos que envergava uma camisola do Benfica e se fazia acompanhar do filho, menor, e do seu pai; a invasão, com marcas de vandalismo a armazém e instalações pertencentes ao Vitória de Guimarães, por alegados adeptos do Benfica; e os graves desacatos cometidos em plena praça do Marquês, onde o Benfica celebrava a conquista do 34 º título de campeão nacional de futebol.
Sobre o tratamento dado a estes lamentáveis actos de violência, e referente não directamente ao PÚBLICO, mas aos meios de comunicação em geral, José Valle de Figueiredo remete para o meu correio uma crítica bastante contundente: «Sinceramente, gostava que se tivesse falado mais dos actos de quase guerrilha urbana no Marquês em Lisboa, e no assalto ao armazém de equipamento desportivo em Guimarães, do que na acção do graduado policial à saída do estádio do Vitória.
Mas com o “jornalixo”que temos, não seria de esperar outra coisa. Poderia aqui discutir a insensatez da hierarquia policial em mobilizar o escalão do Corpo de Intervenção para a segurança do jogo, pois é dos livros que tal medida cria, logo à partida, situações incontroláveis. No Estado Arbitrário em que vivemos, já se sabe o que poderá vir daí. Mas o problema mais grave é a desproporção absoluta no tratamento dado aos “actores” dos desacatos, em que os muitos meliantes envolvidos quase passaram e passam incólumes pelos pingos da “chuva”… Entretanto, o problema é que vamos olhando para tudo isto com a capacidade de indignação cada vez mais reduzida. É a informação teleguiada a que temos “direito”…»
3. O meu comentário
Compreendo as justificáveis posições dos leitores em relação ao reclamado “excessivo espaço” e ao esquecimento de outras modalidades. Ainda por cima, os lamentáveis acontecimentos do final da noite marcaram uma desproporção com o dossier preparado antecipadamente e referente ao campeão Benfica. É habitual o PÚBLICO dedicar dossiers especiais a acontecimentos relevantes no campo cultural e social. E conquistar um título de campeão em futebol, um facto efectivamente social e cultural, justifica um tratamento especial.
Quanto ao esquecimento de outras modalidades, a justificação já dada a este leitor, no PÚBLICO de 23.03.2014, repete-se. Como então reconhecia o editor de Desporto, Jorge Miguel Matias, o número de jornalistas nesta secção é reduzido e não obstante a solícita cooperação de colaboradores externos, é indesmentível a insuficiente cobertura de outras modalidades.
Relativamente aos lamentáveis actos de violência. Efectivamente, o espancamento sobre o cidadão José Magalhães centrou uma maior atenção jornalística, como foi o caso do próprio PÚBLICO. Possivelmente, pela agressão desproporcionada de um polícia que parecia de cabeça perdida e pelo envolvimento de uma criança que, com certeza, jamais esquecerá este reprovável acto, de consequências, porventura, de difícil recuperação. Este caso ainda ontem foi objecto de um lúcido artigo da jornalista São José de Almeida, no seu comentário A Semana Política. Aliás, já na edição de 19.05.2015, merecera um texto assinado pelos jornalistas Pedro Sales Dias e Ana Henriques.
No que diz respeito aos actos de vandalismo praticados em Guimarães e no Marquês nota-se, de facto, uma relativa e muito criticável desvalorização dos acontecimentos. Admito que, no PÚBLICO de segunda-feira, 18 de Março, fosse difícil comentar o sucedido, pois a edição fechou antes do pandemónio que se desencadeou no Marquês. E, sinceramente, a pequena referência aos casos no Editorial de 20.05.2015, sob o título Algo correu muito mal no Marquês, é insuficiente. Em minha opinião, o PÚBLICO deveria dedicar também um completo dossier a este fenómeno de como é que formas de vandalismo se acobertam nas manifestações desportivas e nas claques sem as quais (aí está a minha defesa) o espectáculo desportivo seria sempre menos alegre. E já agora aos disfarçados instigadores dessa violência que pululam por aí.

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