Crónica escrita pelos leitores

Crónica escrita pelos leitores
1.Os «dias difíceis» para a informação mediática.
Numa crónica, publicada a 21.12.2014, referia que dias difíceis marcam a agenda da informação mediática neste país. Obviamente, estavam presentes os conturbadores acontecimentos que têm emergido nestes últimos tempos, tais como: um José Sócrates, ex-primeiro-ministro, preso na cadeia de Évora, a derrocada de um enorme grupo financeiro na economia de Portugal, o GES/BES, o inconclusivo arquivamento do processo dos submarinos, o ainda pouco explicado apagão do CITIUS, o precipitado clima de campanha num ano de importantes eleições, etc., etc. E, em jeito de conselho de provedor dos leitores, para os jornalistas do PÚBLICO, exortava à premência de não se esquecer o facto de que «nenhum acto de informação é impermeável à nossa ideologia». No fundo, é por outras palavras dar destaque a um dos Princípios e Normas de Conduta Profissional do PÚBLICO que adverte: «O jornalista do PÚBLICO deve elaborar as notícias da forma mais imparcial possível, independentemente das suas convicções pessoais».
Na sequência desse texto diferentes leitores enviaram-me diversas reflexões que, a bem dizer, poderiam constituir outros avisados artigos de opinião. De certo modo, esta página de hoje reflecte, em modos de registo, apreciado e útil, as recomendações que me sugerem os leitores.

2. Uma polémica (?) com interesse.
Um leitor a propósito das posições que tenho assumido de não interferir nos artigos de opinião, sejam eles de jornalistas do próprio PÚBLICO, ou de outros colaboradores, deu-me conhecimento de uma consulta que fizera à Comissão da Carteira Profissional de Jornalistas (CCPJ) e, sobretudo, com referência a eventuais infracções à «presunção de inocência».
E entre outras considerações, diz o leitor: «Não lhe escrevi na altura porque sou a favor da liberdade de expressão e não me imagino a pedir que seja impedida a liberdade de alguém se expressar. No entanto tenho dúvidas sobre se os jornalistas deixam de estar abrangidos pelos deveres profissionais, nomeadamente pelo que está consagrado na alínea c) do nº 2 do art.º 14º do Estatuto do Jornalista que diz que o jornalista se deve abster de “ (…) formular acusações sem provas e respeitar a presunção de inocência”, ou pelo que consta no art.º 7º do Código Deontológico: “O jornalista deve salvaguardar a presunção da inocência dos arguidos até a sentença transitar em julgado”, quando, em vez de reportagens ou notícias, escrevem artigos de análise ou opinião.»
A Comissão da Carteira, (…) no ofício de resposta à minha consulta, respondia assim: «O jornalista (…) no texto em causa, exprime uma opinião. Nesse contexto, não está obrigado ao cumprimento dos deveres impostos aos jornalistas, no exercício das suas funções, ficando, por isso, fora da alçada desta Comissão.»
E acrescenta o leitor que, apesar desta interpretação da CCPJ (…), «confesso que não me sinto preparado para deitar às malvas, perdoem a expressão,» os princípios do Estatuto e do Código dos Jornalistas já atrás citados. «Mas é claro que isso é problema meu».
Comentário do provedor: Mas, olhe caro leitor: esse problema não deixa de ser meu.

3. O PCP E O BES
Escreve-me um outro leitor, desolado com o comportamento do PÚBLICO, que classifica «sem honradez e lisura», a propósito de uma notícia «falsa ou no mínimo enganosa numa tentativa de meter no mesmo saco o PCP em ligações perigosas» ao BES. E diz: A Nota do PCP publicada no Avante «alertou para o despudor com que o PÚBLICO intervém sem consultar o Partido em causa». Temos esperança» – escreve o leitor – «que o PÚBLICO regresse ao jornal que foi e se afirme no futuro (…) como jornal sério, responsável e nos garanta imparcialidade na liberdade de expressão.» (…)
Comentário do provedor: Esta queixa associa-se a várias outras que consideram o PÚBLICO ter bastantes insuficiências informativas em relação às actividades do PCP. No que respeita à notícia em causa, li o texto, publicado a 11.12.2014, sob o título «BES aprovou donativo de 11 mil euros proibido por lei à Festa do Avante», assinado pela jornalista Maria Lopes, e sinceramente não me parece que, neste caso, o leitor tenha totalmente razão. A notícia refere que «o DMI (Departamento de Municípios e Institucionais) do BES aprovou no final de Março deste ano (2014) um donativo no valor de 11 mil euros para a realização da Festa do Avante». O texto afirma «ter questionado o PCP», o qual esclareceu que «a Festa do Avante não solicitou nem teve qualquer apoio financeiro do BES, nem fez qualquer pedido de donativo a esta ou a qualquer outra entidade privada.» (…) «A relação que a Festa do Avante detém com o BES/Novo Banco é estritamente de natureza comercial.» Aceito que a construção da notícia, no seu conjunto de informações, possa ser ambígua. Mas, provavelmente, é o DMI do BES que terá de explicar como escreve no seu relatório a eventual incorrecta expressão de «donativo de 11 mil euros». Mas acerca do BES há ainda muita coisa por explicar.

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