O PÚBLICO e o “caso Tecnoforma”

O PÚBLICO E O «CASO TECNOFORMA»

 

  1. Creio que vai para dois anos o tempo em que o PÚBLICO, pela primeira vez, colocou algumas perguntas públicas ao actual primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, sobre o «caso Tecnoforma / Centro Português para a Cooperação (CPPC). A ausência de respostas concretas e sem subterfúgios e de explicações pouco consistentes quando, agora, perguntas idênticas chegam ao Parlamento só têm concorrido para que uma cortina de fumo sobre o assunto se adense e não deixe o primeiro -ministro sossegado sem essas insistentes inquirições. Confesso que, pelo meu lado sentimental, às vezes, tenho pena deste fustigante escrutínio a que as figuras públicas estão sujeitas que não recai apenas sobre os actos da sua actuação presente, mas retrocedem ao seu passado, na busca de uma imaculabilidade que não existe em seres humanos. Mas, pelo lado racional, tenho de admitir que essa é uma condição da exigência que, para se constituir em mandante de um povo, os seus súbditos reclamam na forma mais elementar que «à mulher de César não basta ser séria, é preciso também parecê-lo». E se é verdade que a era mediática e a propalada qualidade reclamada à transparência democrática criaram novos padrões a este escrutínio, não se pode dizer que este estado de coisas não seja politicamente mais ecológico. Os ziguezagues de Passos Coelho, tardiamente invocando falta de memória, ou remetendo, primeiro, para a Assembleia da República, ou depois para Procuradoria da República, fizeram os diferentes episódios de uma «novela» que já não vive só dos factos e das notícias sobre estes, mas das possíveis especulações e das «não-notícias» que, em matéria de informação, normalmente o «não-dito» ou o espaço das entrelinhas se encarregam de procriar.
  2. A este propósito, e é por isso que venho ao assunto, escreve um leitor a seguinte reflexão: «Por vezes, a imprensa socorre-se daquilo a que se chamam de “enchidos” para preencher um espaço morto ou vazio até ao momento mais interessante surgir. (…) No caso do “Público”, julgo ser muito pouco recorrente este tipo de edição. No entanto, no jornal de hoje, sexta dia 3 de Outubro, leio uma notícia na página 12, com chamada de capa, em que se dá conta de que eventualmente o primeiro-ministro estaria a ser alvo de interesses poderosos que estariam a castigá-lo por os ter afrontado. Leio a peça e o que leio no seu essencial é uma notícia de um boato ou rumor. Ora, não citando fontes concretas, isto de dar notícias a rumores é coisas que não lembra o jornalismo já que vive de factos, e por isso estranhei, tanto mais que a peça é um quase só relembrar de algumas incidências do caso Tecnoforma-Passos Coelho e a alusão de que Passos Coelho com alguma(s) medida(s) terá ido contra interesses ocultos. Não se especifica quem. Tudo muito vago. Será o “Público” disfarçadamente a fazer o jeito a quem dar a ideia de que Passos é vítima e não réu? Na minha opinião, não seria difícil perceber, já que as políticas são do domínio público, se algum lobbie foi afrontado por políticas de governo e aí apontar pistas. De resto, esta peça quanto a mim peca por se tornar numa não-notícia. Desagrada-me!» O texto a que a leitora se refere tem o seguinte título «Passos tornou-se um alvo ou é apenas teoria da conspiração?»
  3. Face a esta reflexão do leitor que, sinceramente, me parece comportar pertinentes considerações a respeito do papel e das responsabilidades da actuação do jornalismo, solicitei à jornalista Sofia Rodrigues, autora da peça que dá origem a estes comentários e à jornalista Leonete Botelho, editora da secção Política/Nacional do PÚBLICO, uma reacção. Ei-la no essencial:
  4. «A peça jornalística a que se refere o leitor não é uma notícia no sentido estrito da palavra. Trata-se de uma reflexão jornalística que parte de factos – as declarações do próprio primeiro-ministro, primeiro no Parlamento e depois na comissão política do PSD – e que ouve fontes do partido não identificadas, de facto, sem as tornar o centro do artigo. Tanto Passos Coelho como outros dirigentes social-democratas têm feito passar a ideia de que o primeiro-ministro está a ser alvo de uma campanha por ter “mexido com interesses poderosos” que, sendo sugeridos, não são identificados. Nem deveria ser o PÚBLICO a identificá-los sem o provar, pois se o fizesse tratar-se-ia de pura especulação. No entanto, a insistência dessas referências públicas (a começar pelas do próprio Passos Coelho) e a sua consistência – o PÚBLICO tem mais informação do que a que publicou, mas não suficientemente fundamentada para a publicar – levaram a uma reflexão sobre a necessidade de escrever (ou não) o artigo em causa. Escrever apenas sobre essas referências (rumores ou indicações não provadas sobre as referidas ameaças) seria, aí sim, divagar sobre uma tese não provada e colocar o primeiro-ministro num suposto papel de vítima. Ignorá-las seria omitir ao leitor um posicionamento político em que o primeiro-ministro deliberadamente se colocou. Daí que opção editorial tenha sido escrever em forma de pergunta para dar pistas de reflexão ao leitor, dando conta dos argumentos dos dois lados: Passos Coelho tornou–se um alvo ou é apenas teoria da conspiração? É esse o papel do jornalismo de referência: estar atento aos detalhes do discurso político, pois são muitas vezes esclarecedores sobre o posicionamento dos protagonistas, mas ao mesmo tempo dar-lhes contexto, pistas de reflexão e informações que podem não ser óbvias mas são relevantes. Foi o que tentamos com este texto, pensando ser útil para o leitor compreender melhor as palavras de Passos Coelho sobre esse assunto.»

 

  1. Embora, porventura, mais uma vez acusado de, como provedor, na réplica a leitor e jornalistas, não ser suficientemente explícito, acrescento o seguinte: De facto, trata-se de uma reflexão jornalística. O substrato a que lhe dá origem carece de comprovação e, por enquanto, vagueia entre os rumores e as sobreposições utilizadas para lançar suspeições. Daí as próprias dúvidas que acometem as jornalistas não escondidas na resposta e que transparecem na frase «levaram a uma reflexão sobre a necessidade de escrever (ou não) o artigo em causa». Em rigor jornalístico, esta intermitência entre o ser rumor ou ser facto merece ser desvendada no aprofundamento da investigação. Bem sei que os autores dos boatos preferem sempre esconder-se no anonimato ou nas fontes encobertas na penumbra. Quanto à dúvida do leitor, se é propósito de o PÚBLICO dar o jeito a alimentar a perplexidade entre Passos Coelho ser «vitima» ou «réu», não me parece ter sentido. O modo como o PÚBLICO vem seguindo o desenrolar dos factos que enredam este caso, especialmente através da investigação e dos textos conduzidos pelos jornalistas José António Cerejo, Paulo Pena, Sofia Rodrigues, Rita Brandão Guerra, Maria Lopes e outros não suportam qualquer tentativa de branqueamento. Este caso já constitui um  «dossier» compilado das colunas deste jornal. O «caso Tecnoforma/CPPC continua em agenda do PÚBLICO e de outros jornais e televisões. E não sei se o senhor primeiro-ministro não estará arrependido de não ter consentido no tal «striptease» a que o desafiou António José Seguro, na última sessão no Parlamento, de mostrar todas as contas e papéis. No fundo, o povo e a democracia convivem sempre melhor com o desvendar de toda a verdade (ainda porventura com «pecadilhos» pelo meio) do que com o tacticismo político de deixar correr os eufemismos das meias-verdades ou meias-mentiras. No espaço público, as entrelinhas e o «não-dito» falam que se fartam.

 

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