A confiança nos bancos e nos jornais

A confiança nos Bancos e nos Jornais

Já os antigos diziam, e eu lembro-me bem de minha avó o dizer: o pior não é mexer no dinheiro; o pior é mexer no dinheiro que está no bolso dos outros. Os dias «loucos» das notícias sobre o BES (penso que, agora, já se pode dizer abertamente o BES, sem utilizar os «paninhos quentes» que isso nada tem a ver com o GES) estão a provocar uma enorme e justificada impertinência e não só de quem lá tem dinheiro. Mas do público em geral que gosta de ser ou estar informado sem esses perniciosos filtros que têm sido utilizados tão parcimoniosamente para não lesar a confiança no sistema bancário. Pois é, lembram-nos muito agora que os bancos vivem mais do depósito da confiança das pessoas do que do dinheiro que lá está ou deveria estar. Mas não nos lembram tanto como é tão fácil desestabilizar ou lesar gravemente a confiança na informação.
Desculpe lá, – diz-me um leitor – «a minha “impertinência” de hoje». Talvez não devesse ser-lhe endereçada. Mas, por outro lado, quem senão o senhor tem por obrigação ligar a estas coisas?»…
Em concreto, o leitor insurge-se contra o modo «eufemístico e adocicado» com que o PÚBLICO na secção «Caras da Semana», do dia 13.07.2014, tratou a figura que mais tem estado no centro deste terramoto, Ricardo Salgado (RS) com «o cognome de inábil! «Inábil? Deixemo-nos de eufemismos “adocicados” e, acima de tudo, deixe-se disso o jornal. (…) «O jornalismo deve, no mínimo, deixar de ser suave para com quem dilapida tudo, até os seus próprios concidadãos como, temo, se vai verificar» (…)
Provavelmente, não será por acaso, que hoje, madrugada dentro, recebo no meu correio electrónico, a citação de um texto de um anterior provedor do PÚBLICO: «A função de um provedor é de recuperar ou de manter o respeito dos leitores pelo seu jornal». E citando Charles W. Bailey, director do Minneapolis Tribune, ao empossar o primeiro provedor do seu jornal (1997), lembra: «O respeito é o único sentimento que levará o público a ler, a acreditar, a apoiar e a comprar um jornal.»
Claro que não vou também tornar-me impertinente e concorrer para que o PÚBLICO ou os seus jornalistas deixem de cumprir os princípios e normas de conduta profissional a que estão sujeitos e que, por isso, têm de respeitar no «direito ao bom-nome e a presunção da inocência até à condenação em tribunal» daqueles que são arguidos. E são esses mesmos princípios que estabelecem: «A função do PÚBLICO não é julgar. Mas um jornal não pode limitar-se a relatar os factos nus e crus, demitindo-se das sua responsabilidades de aprofundar a informação, de interpretar os dados, de estabelecer relações de causa e efeito, de procurar (e ajudar a) compreender a complexidade do real».
Este caso do BES/GES (uso apenas as siglas pois não concebo que nesta altura algum leitor ainda não as decifre) para além de um caso financeiro de tremenda repercussão nacional e internacional está a constituir-se, sob o ponto de vista, do mundo da informação, ou da comunicação social, de como funcionam os seus mecanismos, processos e poderes, um verdadeiro «caso de estudo». E francamente, não é preciso ter em atenção os deveres deontológicos e éticos sobre os direitos das pessoas acusadas. É preciso e é dever do jornalismo debruçar-se sobre os factos. E os factos reluzem. Basta olhá-los como vêm descritos no relatório dos resultados do primeiro semestre deste ano do dito BES.
Evidentemente que não é agora por ser acossado por vários leitores acusando a comunicação social de estar a ser complacente com esta situação do BES/GES que vou desdizer o que dizia na última crónica de me render ao mérito de rigor profissional evidenciado pelo PÚBLICO e seus jornalistas no tratamento deste assunto. Mas também como dizia nesse mesmo texto tinha a sensação que sobre o caso BES estávamos todos a contar mentiras uns aos outros. A gravidade do assunto jamais merece contemplações. Continuem os comentaristas «encartados» com zelos já descabidos pelo alarmismo social e os responsáveis políticos ou nos bastidores do mundo da finança a proclamar que a BES está blindado face aos desastres do GES, que não vai ser preciso o Estado intervir, que os dinheiros dos portugueses não serão «tocados». Efectivamente, o assunto é sério. Parece que só chamaram os bombeiros quando a casa já ameaçava ruína. Mas não consintam os jornalistas, e aqui o meu apelo muito especial aos do PÚBLICO, que este «incêndio» passe as labaredas para a confiança, credibilidade e fiabilidade que o jornal e o jornalismo devem garantir ao público. E estes sentimentos por parte das pessoas já estão muito combalidos.

 

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