Hoje,pois claro,tenho de falar do Mundial

HOJE, POIS CLARO,

TENHO DE FALAR DO MUNDIAL

Não obstante a desfigurada vitória sobre o Gana, os estilhaços provocados pelo «desastre» que constituiu a participação da selecção de futebol de Portugal no Mundial 2014 atingiram tal dimensão que, obviamente, não deixaram ilesos os próprios jornalistas. Nalguns casos, os simples comentadores de ocasião. Face a esta enorme frustração potenciada pela desajustada expectativa criada, agora, ninguém escapa: jogadores, treinadores, médicos, responsáveis federativos. E como tal, também os jornalistas e os comentadores. Estes elementos dizem respeito ao núcleo interno do nosso seleccionado. Depois, vêm os factores externos: a organização da FIFA, os árbitros, as condições climáticas.

Por um lado, emerge mais uma vez a força catalisadora do futebol que goza de uma inigualável popularidade reunindo multidões multinacionais desde os estádios onde esse futebol se joga às praças públicas diante de gigantescos ecrãs ou defronte dos televisores que fazem de cada  bar ou lar doméstico um miradouro com a mais extensiva visão universal.

Mas juntam-se igualmente os ingredientes de substrato subjectivista que envolvem o feiticismo dessa força catalisadora: pugna, paixão, acaso, patriotismo, revanchismo, elixir da vitória, decepção da derrota.

Por outro lado, na contemporaneidade, e mercê desta vertente fortemente amplificadora dos fenómenos desportivos, há, aqui, o elo firmado pela celebração deste «casamento com comunhão de bens» entre o desporto e media, bem estreitado, e de modo decisivo, entre futebol e televisão. Não fossem os media de alta potência electrónica e o futebol não seria hoje aquela proveitosa indústria, autêntico maná na sua dimensão económica.

E assim sendo, não admira que jornalistas e comentadores sejam considerados coniventes comparsas neste enredo que se constrói à roda de um evento global como é um Mundial de futebol. Pelo que dizem, pelo que não dizem, pelo que disfarçam ou escondem, pelo que revelam. Não admira que no êxito sejam esquecidos. No insucesso, na derrota, com a busca intermitente de «bodes expiatórios», não é de estranhar que sejam também visados como «culpados». E se esta versão não é completamente justa, não é de todo inquestionável. O total falhanço da representação da «nossa» selecção neste Mundial tem diferentes culpados. É que não foi a derrota. Perder e ganhar faz parte do desporto. E na ética desportiva é tão importante saber perder como saber ganhar. Foi o descalabro de uma selecção que não tendo igual valor significante com o 4.º posto mundial que lhe conferia, antes desta Copa, o ranking da FIFA (mais uma vez os números a nos enganarem) tinha bastas condições e bons requisitos para exibir outro comportamento. Nas condições teremos de englobar o enorme investimento financeiro (em contra corrente à crise financeira do país) que é feito nesta selecção. Nas condições da qualidade de jogadores que não tendo, porventura, o nível global da chamada «geração de ouro», têm uma valia muito acima da demonstrada.

Deixemos os «experts» da matéria escalpelizar as lógicas ou ilógicas das escolhas de Paulo Bento e dos responsáveis federativos, da preparação física e mental dos atletas, da opção do estágio norte-americano (porventura, mais uma vez provando que o barato, por vezes, sai caro), da inexplicável junção de tanto jogador potencialmente «aleijado».

Mas, interessa que, no campo da comunicação social, já que os jornalistas em geral são tidos também como responsáveis neste malogro desportivo, com forte repercussão no estado motivacional e no orgulho identificador da própria identidade de um povo, em que entra a componente desportiva, estes profissionais dediquem particular atenção à «desmontagem do circo», introduzindo análises e ajuizamentos que ajudem a situar este «psicodrama nacional», no seu devido plano. Interessa que não protejam acobertados ou bem protegidos corporativismos dos intérpretes deste mundo futebolístico.

Em primeiro lugar, os jornalistas e comentadores terão de desmitificar a tese defendida por aqueles que formam o núcleo duro da «tribo do futebol»: Isto é uma coisa que só quem está cá dentro, nos estágios, nos balneários, dentro do terreno de jogo, é que sabe. É uma autêntica falácia. No espectáculo público, seja do desporto, seja da política, seja do cerimonial religioso, as coisas percebem-se como aparecem. E como tal são entendíveis no conluio da sua própria génese. Não se consinta fazer do espectáculo desportivo, de um jogo de futebol, um mistério. A resultante de um processo labiríntico que só os seus iluminados agentes internos dizem saber. O futebol tem de facto um elevado grau de contingência (que faz aliás aumentar o seu sortilégio), mas daí a reservá-lo qual inexpugnável búnquer é falsear a questão. O futebol é o jogo mais simples dos desportos, o que justifica grande parte da adesão popular que tem. Obviamente, à escala da sua prática profissional, é construído com componentes científicas, desde a fisiologia e psicologia humanas às técnicas de sistemas e de estratégias e tácticas a serem praticadas no terreno, mas uma vez sobre o relvado é o que está lá.

Os media fazem parte deste alto negócio que é um Mundial. É ver como eles cegamente se entregam a este megaevento. Mas, eticamente, não podem deixar de combater e pôr a nu esta desumanidade imposta pela FIFA de sujeitar os atletas a jogar à uma da tarde com elevadas temperatura e humidade. E não é pelo desporto. É pelo negócio globalizado.

Um jornalismo sério e responsável não pode contribuir para alimentar estados de euforia que não justificados acrescentam aos povos as desolações que eles já sofrem por tantas outras situações, mais reais e graves. E o Mundial de futebol se não é para entreter, divertir e alegrar o povo, é melhor não existir.

Esclareço que não recebi queixas concretas sobre a cobertura que tem vindo a ser feita pelos jornalistas e comentadores do PÚBLICO a este Mundial. Aliás, recebi elogios à sua contenção. Mas recebi avisos generalizados a pedir que os jornalistas não abdiquem do papel crítico que lhes compete por compromisso social da profissão. E por isso, em especial aos profissionais do PÚBLICO, deixo aqui este apelo.

 

 

Um comentário a Hoje,pois claro,tenho de falar do Mundial

  1. Já agora

    Em época de mundial de futebol, tem-se ouvido falar, por parte de uma grande maioria de comentaristas desportivos, que as equipes europeias têm sido eliminadas devido as temperaturas elevadas que se fazem sentir no Brasil.
    No jogo México x Holanda, a equipa sul-americana esteve a vencer até aos 10 minutos finais da partida, altura esta em que os comentários televisivos, aumentavam de tom em relação ao factor clima: uma equipe europeia nunca venceu na América do Sul; jogadores queixaram-se de alucinações; as contusões são muitas devido as altas temperaturas; o preparo físico está abalado devido aos finais de época dos jogos europeus, etc, etc, etc.
    Mas falávamos do jogo entre as equipas do México e da Holanda e eis que, em menos de 5 minutos, os europeus viraram o resultado e venceram a partida. Isto é que foi um tremendo de um golpe, um balde de água fria que caiu na cabeça dos mexicanos, já agora, também dos comentaristas que já não podiam imputar a derrota de uns aos malefícios climatéricos do outro continente.
    Penso que a questão aqui não está no clima em si, mas sim – creio – no orgulho ferido dos europeus, sobretudo daqueles que durante muitos anos e séculos foram orgulhosamente os descobridores e construtores destas nações do Sul, capazes de enfrentar qualquer adversidade climatérica com a força e capacidades que aqueles não possuíam.
    Então, e agora? Temos visto um revés ditado pelos comentaristas do mundial de futebol de toda aquela força e capacidades ainda hoje orgulhosamente lembrados.
    Mas os homens não são os mesmos? Claro que sim, senão vejamos: na conquista de continentes foram homens armados, com muita vontade de enriquecer e orgulhar uma nação; também na conquista de uma copa do mundo se considerarmos que estes homens que jogam o futebol vão armados de técnica, preparação física, treino – muito treino –, vontade de enriquecer e, já agora, de orgulhar uma nação.
    Vendo bem as coisas, tanto sul-americanos como europeus ambicionam o mesmo e sofrem da mesma adversidade de temperaturas nos jogos, não sendo esta uma razão de pertinência para os comentaristas de futebol.
    Esquecem-se, porém, que nesta mesma época na Europa também é Verão, muitas vezes com temperaturas muito elevadas para a prática de futebol; esquecem-se que um jogador Holandês, Seedorff, foi estrela do campeonato do Rio de Janeiro no ano passado (debaixo de altas temperaturas); esquecem-se que os campeonatos dos países sul-americanos são duríssimos e que durante o período da copa ainda estão a ser disputados; que muitos daqueles jogadores sul-amaericanos fazem a delícia de clubes europeus; que o Brasil foi o único campeão sul-amaericano na Europa … que a Holanda ganhou o jogo, já agora, em horário imposto pela FIFA.
    Se faz favor, mudem este discurso de mal perdedores.

    Responder

Deixar um comentário

O seu email nunca será publicado ou partilhado.Os campos obrigatórios estão assinalados *

Podes usar estas tags e atributos de HTML:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>