Discordâncias e contestação a certos anúncios

DISCORDÂNCIAS E CONTESTAÇÃO

A CERTOS ANÚNCIOS

Um dos primeiros textos que inseri nesta página do provedor dos leitores do PÚBLICO tratava exactamente deste tema: as críticas que certos leitores teciam a determinadas formas de publicidade adoptadas por este jornal, aludindo às responsabilidades trazidas pela qualidade editorialmente reclamada de «jornal de referência». Essas críticas discordavam, sobretudo, de edições com as chamadas «capas falsas» que, indirectamente embora, misturam o título identitário do jornal com a informação publicitária divulgada, e a escassa distinção entre conteúdos de informação publicitária com a informação geral, principalmente, aquando da inclusão de encartes ou dossiers da responsabilidade de marcas, de outras instituições ou empresas. As queixas a que, hoje, vou reportar incidem, muito especialmente, na discordância ou contestação a conteúdos de alguns anúncios.

1.«VEM AÍ A TROYKA!». A primeira reclamação refere-se ao anúncio publicado na página 16 da edição de 10 de Junho de 2014. Trata-se do anúncio de um jogo de cartas que, no sábado, dia 21 de Junho, o próprio PÚBLICO disponibilizará por 14.95€ àquelas pessoas que adquiram o jornal desse dia. Diz o Leitor: «”Jogo de estratégia” chama-lhe o pequeno texto de suporte num tom eufemístico, designado como “Vem aí a Troyka”. (…) Não sei se hei-de rir ou chorar! O país chama-se PORTUGALÂNDIA, fala de paraísos fiscais, teias de influência para ganhar eleições e acumular dinheiro, etc. Que perversidade é esta? A inteligência é um dom, mas exercitá-la num jogo em que é usada num “exercício diabólico” que só é superado pela realidade vivida no país dos jogadores e se chama Portugal! Lá por marcar o nosso presente (sic), ou por isso mesmo, tenho pena que o «meu» jornal esteja associado a um lançamento destes».

Provavelmente o meu comentário, por ora, pode ficar simplesmente pela simples inserção que resolvi fazer da missiva electrónica enviada pelo Leitor.

2.«NASCIDO PARA SER ATIVO». Este é o título do outro anúncio que merece alguns comentários, eu diria, mordazes, mas também bastante sérios e que vêm obviamente de uma Leitora. Trata-se de um anúncio, de página inteira, com a imagem de uma linda menina, publicado na edição do 2 do PÚBLICO de 1 de Junho, «Dia da criança», e que é uma mensagem da Fundação Portuguesa de Cardiologia, aliás, um anúncio patrocinado (provavelmente pago) por seis entidades comerciais e oficiais. E a Leitora observa criticamente: «Quando por cima de uma menina de 4 ou 5 anos se coloca a frase “nascido para ser ativo”, escrita em letra de aspecto amigável e claramente mencionando a menina, está a ser dado mais do que um pontapé na gramática. Está a dizer-se que o lema, aplicável a qualquer indivíduo, também se aplica à menina. Mas não está a dizer-se que a menina nasceu para ser activa. Leia-se  a frase no feminino e sinta-se a diferença, uma preciosa      curiosidade!»

E continua a Leitora: «A frase “nascido para ser ativo” colocada por cima de uma criança que é claramente apresentada como exemplar do género feminino (pelo cabelo, pelo laço, pela coqueteria das meias) corresponde a declarar que se entende que não há maneira de transmitir a mensagem senão anulando esse facto, o género feminino. Há mais que um pontapé na gramática na aplicação de uma frase no masculino a uma criatura do género feminino numa situação como aquela a que nos referimos. Há um pontapé que é dado (também pelo Público) no próprio género feminino, isto é, em cada uma das pessoas que partilham com a menina a espúria e idiossincrática condição que precisa de ser removida para que a mensagem passe e que ficam a saber-se «nascido para ser ativo». Há aqui mais do que um pontapé na gramática, há uma autorização implícita para muitos pontapés em quem se vir portadora da mesma anódina individualidade. A campanha que o Público acriticamente acolheu contem inteira a semente da violência de género. É lamentável! O facto de a campanha ser apoiada por entidades respeitáveis só torna mais evidente a sua boçalidade e não fornece ao Público justificação para a multiplicação da ofensa a todas as pessoas que tropeçaram com a página 39 do DOIS de hoje. Quero acreditar que o Público se distancia da mensagem (e que só a publicou pela receita que obteve, mais concentrada que a que lhe chegou de umas tantas “leitoras”, para “as” quais apesar de tudo existe? Ou por péssimo respeitinho pela campanha?  Com campanhas assim, a morbilidade de género não vai melhorar, por mais “ativo” que uma mulher seja…»
Transcrito quase na íntegra o texto da Leitora, sou levado a repetir o que disse em relação ao anúncio anterior: resta-me aceitar a crítica da Leitora. É evidente que nem à Fundação Portuguesa de Cardiologia, nem às entidades financiadoras, nem ao próprio PÚBLICO difusor da mensagem que passa neste anúncio, poderemos assacar a intenção de colaborar directamente em campanhas contribuidoras para «a morbilidade de género» ou tão-pouco corroborar em ideias ofensivas ou desvalorizadoras para o género feminino. A leitura aqui interpretada por esta Leitora escapa, porventura, aos próprios criativos do anúncio. Pode até acontecer que os leitores em geral julguem uma descodificação por demais filosófica ou de um rigorismo rígido para com a distorção que afecta o discurso sobre o género, o género feminino. Talvez uma concepção que se possa atribuir como correcta à junção da imagem da menina com a condição de «activo», pode ser, digo eu, a enunciação genérica de que, como seres humanos (meninos ou meninas), todos nascemos para sermos «activos». Contudo, não posso deixar de registar a subtil leitura desta Leitora.

As mensagens, às vezes, implicitamente, comportam conteúdos que não são, de imediato, visíveis, legíveis. Mas, nem por isso, a informação responsável deve deixar passar estes «segundos sentidos» inconscientes. Descobertos e acusados é, sobretudo, honesto reconhecê-los.

 

 

 

Um comentário a Discordâncias e contestação a certos anúncios

  1. No propalado dia da Mulher, venho alertar este jornal, conceituado, para o facto de que não pode manifestar-se pela mulher e pelo seu imprescindível contributo para a sociedade, permitindo-se ganhar dinheiro com publicidade que enche páginas, no seu interior, com mulheres em posições degradantes para oferta de serviços.
    Espero deste jornal a sua colaboração esclarecida para a eliminação da publicitação da mulher como artigo de possível utilização por partes e descartável.
    Obrigada!

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