HAVERÁ UM IMPOSTO AMIGO?

HAVERÁ UM IMPOSTO AMIGO?
A notícia da indicação do advogado, especialista em direito fiscal, Rui Morais, para presidir à Comissão para a Reforma do IRS, (publicada a 15 de Fevereiro de 2014, pp.22) incluía no último parágrafo, o seguinte texto: «A possibilidade de os contribuintes casados apresentarem a sua declaração de IRS em separado é uma das medidas a estudar, no âmbito da ideia de tornar o imposto mais «amigo das famílias». Estas, em 2013, pagaram 12.308 milhões de euros de IRS. A questão é saber se o imposto vai descer, e como.»
Não a notícia, mas a referência ao slogan que vem sendo utilizado, «um IRS mais amigo das famílias», provocou por parte de uma Leitora, devidamente identificada, uma reacção, sobretudo, descontente, com a ressonância da expressão glosada pelo jornalista sem um questionamento crítico. Escreve a Leitora: «Naturalmente, o jornalismo deontológico e sério tem o dever de apreciar criticamente o que lhe é transmitido e de se interrogar a seu respeito, de modo a evitar ser instrumentalizados por terceiros.» E mais adiante acrescenta: «Se esta entrega em separado vier a ser obrigatória, as famílias pagarão mais IRS (segundo a Leitora conforme alguns casos que exemplifica), pelo que se tratará de um logro.» E continua: «O F.M.I. bateu-se pela entrega individual (e não familiar) das declarações de IRS, pois o valor assim arrecadado aumentaria significativamente». O PÚBLICO – diz a Leitora – noticiou-o no Verão de 2013. «A função do escrutínio jornalístico não pode ser senão obrigar a clarificações.»
Solicitei ao jornalista Luís Villalobos, autor da notícia, um comentário sobre este ponto de vista. O Luís Villalobos respondeu que, nesta ocasião, o seu propósito era dar a notícia da nomeação e não exprimir uma opinião sobre o assunto. Contudo, «julgo ter sido importante incluir esta mensagem do executivo, precisamente para, quando forem conhecidos dados objectivos, se confrontar o governo com essa mesma mensagem, se tal não corresponder à verdade.»
A Leitora voltou a retorquir por achar pouco consistente a resposta que, em seu entender, não continha «o sentido de escrutínio crítico que se exige a um jornalismo de referência». E aludia a cinco razões que passo a resumir: 1) a notícia é sobre a nomeação, mas não escapa à reprodução repetida pelo Governo «Um IRS mais amigo das famílias»; 2) de concreto, nada se vai saber antes do Verão; 3) o jornalista não pode estar desatento aos objectivos desta repetida expressão por parte do Governo; 4) não pode ignorar que esta medida é convergente com as propostas do FMI; 5) parece impossível que um profissional de um jornal com os pergaminhos do PÚBLICO não decifre o valor pragmático da comunicação política.
Voltei a trocar mensagens com Luís Villalobos que, por ora, nada quis acrescentar, deixando ao provedor a mediação deste assunto. Valorizo-o nesta página por achar que ele é bem exemplificativo das divergências que são naturais existir da parte do jornalista que constrói uma notícia e da parte de quem a lê e interpreta. Sobretudo, quando se trata de uma leitura política. Um dilema ou uma constante no dia-a-dia do jornalismo. Por outro lado, por relevar a exigência que determinados leitores outorgam ao dito jornalismo de referência, posição essa que, mesmo sem sempre ter a razão toda, é de ter em conta.
Efectivamente, neste caso, o jornalista Luís Villalobos não fazia um artigo de opinião. Escrevia uma notícia. E ao repetir o slogan que está criado pela estratégia da comunicação fiscalista do governo, não creio, sinceramente, que fosse sua intenção se deixar instrumentalizar por essa lógica, ou tão-pouco ser veículo de transmissão de um conceito, porventura, de amizades discutíveis. Quando muito, caiu naquele pecadilho que Mauro Wolf advertia aos jornalistas que deveriam evitar, ou seja, o cometimento de «distorções involuntárias». Mas até posso dizer que, no contexto da notícia, Villalobos não quis deixar de passar um certo remoque a propósito do slogan que está subliminarmente a ser inculcado.
As dissonâncias das interpretações de leitura, sobretudo, em matérias de teor político e ideológico (para não falar daquelas de cariz clubista) dão sempre margem a pontos de vista divergentes. E se isso é comum e até natural nos artigos de opinião, como se vê, também sucede em relação à construção das notícias. Este panorama é comum no processo que comporta produtores e receptores de conteúdos informativos. É porém mais visível quando os cidadãos de um país estão altamente sensíveis às políticas públicas que mexem com os seus destinos, interesses e motivações e, em especial, quando estão sob os efeitos massacrantes de uma crise social, económica e política. Portugal está a entrar num período extenso de eleições (europeias, legislativas, presidenciais). As tensões serão maiores e os discursos cruzados nas estratégias de comunicação política vão acentuar-se. Na informação jornalística será necessário um «alerta vermelho». Na discussão publica será necessário um comportamento de cidadania responsável.

Um comentário a HAVERÁ UM IMPOSTO AMIGO?

  1. Posso estar a ser trengo, mas não encontrei mais nenhum sítio para comunicar, pelo que vou por aqui:
    Acho incrível que nem as notícias de declarado interesse, como as sobre a Crimeia, estejam disponíveis. Tentei escrever no Público directamente, mas também não encontrei um sítio. Gostava de dizer que o Público está cada vez pior, e que o meu Público há algum tempo desapareceu.
    Nota ao provedor: O meu relacionamento nunca correu bem porque houve outras ocasiões em que me manifestei e nem resposta tive!

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